domingo, 28 de dezembro de 2025

A Sagrada Família


SÃO JOSÉ E MARIA SANTÍSSIMA

     A Bíblia oferece belíssimas imagens da Sagrada Família. Uma delas é descrita no Evangelho Segundo São Mateus, quando o Anjo da Guarda de São José se encarregou de consolidar o Matrimônio entre ele e Nossa Senhora:

    "Eis como Jesus Cristo nasceu: Maria, Sua mãe, estava desposada com José. Antes de coabitarem, aconteceu que Ela concebeu por virtude do Espírito Santo.
    José, seu esposo, sendo justo e não querendo difamá-la, resolveu rejeitá-la secretamente. Enquanto assim pensava, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse:
    - José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois Aquele que nela foi concebido vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um Filho, a Quem porás o Nome de Jesus, porque Ele salvará Seu povo de seus pecados.
    Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor falou pelo Profeta (Isaías): 'Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que Se chamará Emanuel (Is 7,14), que significa Deus Conosco.'
    Despertando, José fez como o anjo do Senhor lhe havia mandado e em sua casa recebeu sua esposa. E sem que ele a tivesse conhecido, ela deu à luz Seu Filho, que recebeu o Nome de Jesus."
                                               Mt 1,18-25


NATAL DE JESUS

    Outra cena de singular beleza é o Nascimento de Jesus, que o Evangelho Segundo São Lucas assim narrou:

    "Naqueles tempos apareceu um decreto de César Augusto, ordenando o recenseamento de toda Terra. Este recenseamento foi feito antes do governo de Quirino em Síria. Todos iam alistar-se, cada um em sua cidade.
    José também subiu de Galileia, da cidade de Nazaré, a Judeia, à Cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi, para se alistar com sua esposa Maria, que estava grávida.
    Ali estando eles, completaram-se os dias dela. E deu à luz Seu Filho Primogênito, e, envolvendo-O em faixas, reclinou-O num presépio, porque na sala não havia lugar para eles.
    Nos arredores havia uns pastores, que nos campos vigiavam e guardavam seu rebanho durante as vigílias da noite. Um anjo do Senhor apareceu-lhes e a Glória do Senhor refulgiu ao redor deles, e tiveram grande temor. O anjo disse-lhes:
    - Não temais, eis que vos anuncio uma Boa Nova que será alegria para todo povo: hoje vos nasceu, na Cidade de Davi, um Salvador, que é o Cristo Senhor. Isto servi-vos-á de sinal: achareis um Recém-Nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura.
    E ao anjo subitamente juntou-se uma multidão do Celeste Exército, que louvava a Deus e dizia:
    - Glória a Deus no mais alto dos CéusPaz na Terra aos homens por Ele amados.
    Depois que os anjos os deixaram e voltaram para o Céu, os pastores falaram uns aos outros:
    - Vamos a Belém e vejamos o que se realizou, e o que nos manifestou o Senhor.
    Foram com grande pressa e acharam Maria e José, e o Menino deitado na manjedoura. Vendo-O, contaram o que se lhes havia dito a respeito deste Menino.
    Todos que ouviam, admiravam-se das coisas que os pastores contavam.
    Maria conservava todas estas palavras, meditando-as em seu coração.
    Voltaram os pastores, glorificando e louvando a Deus por tudo que tinham ouvido e visto, e que estava de acordo com o que lhes fora dito." 
                                                 Lc 2,1-20


A FUGA DE HERODES

   Na fuga para Egito, a Sagrada Família é vista em delicado momento, sob a ira do rei de Judeia. Mas não deixa de manifestar sua pujante espiritualidade, como São Mateus relata:

    "E eis que a Estrela, que tinham visto no Oriente, foi precedendo os Magos até chegar sobre o lugar onde estava o Menino, e ali parou. A aparição daquela estrela encheu-os de profunda alegria.
    Entrando na casa, acharam o Menino com Maria, Sua mãe. Prostrando-se diante d'Ele, adoraram-nO. Depois, abrindo seus tesouros, como presente Lhe ofereceram ouro, incenso e mirra. Avisados em sonhos para não tornarem a Herodes, voltaram a sua terra por outro caminho.
    Depois de sua partida, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe:
    - Levanta-te, toma o Menino e Sua mãe e foge para Egito. Fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o Menino para O matar.
    José levantou-se durante a noite, tomou o Menino e Sua mãe e partiu para Egito. Ali permaneceu até a morte de Herodes, para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo Profeta (Oseias): 'De Egito, Eu chamei Meu Filho' (Os 11,1).
    Vendo Herodes, então, que tinha sido enganado pelos Magos, ficou muito irado e mandou massacrar em Belém e seus arredores todos meninos de dois anos para baixo, conforme o exato tempo que havia indagado dos Magos. Assim se cumpriu o que foi dito pelo Profeta Jeremias: 'Em Ramá ouviu-se uma voz, choro e grandes lamentos. É Raquel a chorar seus filhos! Não quer consolação, porque já não existem (Jr 31,15)!'
    Com a morte de Herodes, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, em Egito, e disse:
    - Levanta-te, toma o Menino e Sua mãe e retorna à terra de Israel, porque aqueles que atentavam contra a vida do Menino morreram.
    José levantou-se, tomou o Menino e Sua mãe e foi para a terra de Israel.
    Ao ouvir, porém, que Arquelau reinava em Judeia, em lugar de seu pai Herodes, não ousou ir para lá. Divinamente avisado em sonhos, retirou-se para a província de Galileia e veio habitar na cidade de Nazaré, para que se cumprisse o que foi dito pelos Profetas: 'Será chamado Nazareno'." 
                                                  Mt 2,9-23


APRESENTAÇÃO DO MENINO JESUS NO TEMPLO DE JERUSALÉM

    Complementarmente, se São Mateus não registra a passagem da Sagrada Família por Jerusalém para a Apresentação do Senhor no Templo, quando José e Maria, mesmo sob as ameaças de Herodes, fiel e corajosamente vão cumprir suas obrigações religiosas, São Lucas não registra a fuga para Egito após a Apresentação, indicando apenas o retorno a Nazaré. Sem dúvida, outro luminoso momento:

    "Completados que foram os oito dias para ser circuncidado o Menino, foi-Lhe posto o Nome de Jesus, como o anjo Lhe tinha chamado antes de ser concebido no seio materno.
    Concluídos, segundo a Lei de Moisés (Lv 12,4), os dias da purificação de Sua mãe, levaram-nO a Jerusalém para O apresentar ao Senhor, conforme o que está escrito na Lei do Senhor: 'Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor (Êx 13,2)'. E para oferecerem o sacrifício prescrito pela Lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos (Lv 12,8).
    Ora, havia em Jerusalém um homem chamado Simeão. Este homem, justo e piedoso, esperava a Consolação de Israel, e o Espírito Santo estava nele. Fora-lhe revelado pelo Espírito Santo que não morreria sem primeiro ver o Cristo do Senhor. Impelido pelo Espírito Santo, foi ao Templo. E tendo os pais apresentado o Menino Jesus, para a respeito d'Ele cumprirem os preceitos da Lei, tomou-O em seus braços e louvou a Deus nestes termos:
    - Agora, Senhor, deixai ir em Paz Vosso servo, segundo Vossa Palavra. Porque meus olhos viram Vossa Salvação que preparastes diante de todos povos, como Luz para iluminar as nações e para a Glória de Vosso povo de Israel.
    Seu pai e Sua mãe estavam admirados das coisas que d'Ele se diziam. Simeão abençoou-os e disse a Maria, Sua mãe:
    - Eis que este Menino está destinado a ser causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações. E uma espada transpassará tua alma.
    Também havia uma Profetisa chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de avançada idade. Depois de ter vivido sete anos com seu marido desde sua virgindade, ficara viúva, e agora com oitenta e quatro anos não se apartava do Templo, servindo a Deus noite e dia em jejuns e orações. Chegando ela à mesma hora, louvava a Deus e falava de Jesus a todos aqueles que em Jerusalém esperavam a libertação.
    Após terem observado tudo segundo a Lei do Senhor, voltaram para Galileia, a Sua cidade de Nazaré.
    O Menino ia crescendo e fortificava-Se: estava cheio de Sabedoria, e a Graça de Deus n'Ele repousava." 
                                                Lc 2,21-39


JESUS ENSINANDO NO TEMPLO AOS 12 ANOS DE IDADE

    Mais um memorável acontecimento na história da Sagrada Família é quando o Menino Jesus permanece em Jerusalém após o final da semana de Páscoa. Foi narrado por São Lucas:

    Tendo Ele atingido doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa. Acabados os dias da festa, quando voltavam, o Menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que Seus pais o percebessem.
    Pensando que Ele estivesse com Seus companheiros de comitiva, andaram caminho de um dia e buscaram-nO entre os parentes e conhecidos. Mas não O encontrando, voltaram a Jerusalém, à procura d'Ele.
    Três dias depois acharam-nO no Templo, sentado em meio aos doutores, ouvindo-os e interrogando-os. Todos que O ouviam estavam maravilhados com a Sabedoria de Suas respostas.
    Quando eles O viram, ficaram admirados. E Sua mãe disse-Lhe:
    - Meu filho, que nos fizeste?! Eis que Teu pai e eu andávamos a Tua procura, cheios de aflição.
    Respondeu-lhes Ele:
    - Por que Me procuráveis? Não sabíeis que devo estar na Casa de Meu Pai?
    Eles, porém, não compreenderam o que Ele lhes dissera. Em seguida, desceu com eles a Nazaré e era-lhes submisso.
    Sua mãe guardava todas estas coisas em seu coração.
    E Jesus crescia em estatura, em Sabedoria e Graça, diante de Deus e dos homens." 
                                               Lc 2,41-52


DETALHES

    Mesmo tendo morrido quando Jesus estava no início de Sua juventude, São José não foi esquecido pelo povo de Nazaré. Ao contrário, Jesus, ao iniciar Sua vida pública, ainda era associado a ele. O povo vai perguntar-se em Nazaré: "Não é Este o Filho do carpinteiro?" Mt 13,55a
    São Lucas é assertivo: "Quando Jesus começou Seu Ministério tinha cerca de trinta anos, e era tido por filho de José..." Lc 3,23a
    Tanto que dois Apóstolos, que eram de cidades daquela região, assim vão identificá-Lo no primeiro dia em que O encontraram: "Filipe encontra Natanael e diz-lhe: 'Achamos Aquele de Quem Moisés escreveu na Lei e que os Profetas anunciaram: é Jesus de Nazaré, filho de José." Jo 1,45
    Assim como São José, que era de Belém (cf. Lc 2,4), Nossa Senhora também era da tribo de Davi, como a Carta de São Paulo aos Romanos afirmou: "... acerca de Seu Filho Jesus Cristo, Nosso Senhor, descendente de Davi quanto à Carne..." Rm 1,3
    Ela tinha parentes em Judeia, ainda que já em avançada idade, como era a mãe de São João Batista, nas palavras do Arcanjo São Gabriel: "'Isabel, tua parenta, também concebeu um filho em sua velhice. E já está no sexto mês aquela que é tida por estéril, porque para Deus nenhuma coisa é impossível.' Naqueles dias, Maria levantou-se e foi às pressas às montanhas, a uma cidade de Judá." Lc 1,36-37.39
    Mas foi na casa de familiares de São José que eles se alojaram durante o recenseamento, e aí Jesus nasceu, recebendo as visitas dos pastores e dos Santos Reis: "Entrando na casa, acharam o menino com Maria, Sua mãe." Mt 2,11a
    Na verdade, a casa estava cheia, e eles abrigaram-se no estábulo anexo à casa, que era firmada em uma rocha: "E deu à luz Seu filho Primogênito, e, envolvendo-O em faixas, reclinou-O num presépio, porque na sala não havia lugar para eles." Lc 2,7
    O Amado Médico mais uma vez vai dizê-lo, especificamente falando num cocho, quando os pastores de Belém chegaram para O adorar: "Foram com grande pressa e acharam Maria e José, e o menino deitado na manjedoura." Lc 2,16
    Como o povo de Nazaré e de Galileia, São José, apesar da boa profissão, e Nossa Senhora, apesar da boa filiação, eram pobres, o que se atesta pelo valor das oferendas feitas no dia da Apresentação do Senhor. Quanto aos ricos presentes dados pelos Santos Reis, eram pertences de Jesus, e eles reservaram-nos para os custos da viagem e da permanência de alguns anos em Egito: "Concluídos, segundo a Lei de Moisés (Lv 12,4), os dias da purificação de Sua mãe, levaram-nO a Jerusalém para O apresentar ao Senhor, conforme o que está escrito na Lei do Senhor: 'Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor (Êx 13,2)'. E para oferecerem o sacrifício, como prescrito pela Lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos (Lv 12,8)." Lc 2,22-24
    De fato, o Livro de Levítico prescrevia: "Cumpridos esses dias, por um filho ou por uma filha, apresentará ao sacerdote, à entrada da Tenda de Reunião, um cordeiro de um ano em holocausto, e um pombinho ou uma rola em sacrifícios pelo pecado. Se suas posses não lhe permitirem trazer um cordeiro, tomará duas rolas ou dois pombinhos, uma para o holocausto e outro para o sacrifício pelo pecado. O sacerdote fará por ela a expiação, e será purificada." Lv 12,6.8
    Depois da morte de São José, Jesus assumiu a carpintaria para sustentar Sua mãe, pois por essa profissão Ele foi reconhecido no início de Sua vida pública. Está no Evangelho Segundo São Marcos: "Não é Ele o carpinteiro, o Filho de Maria?" Mc 6,3a
    Ora, é isso que manda o quarto dos Dez Mandamentos, como se lê no Livro de Êxodo, e Jesus, o próprio Verbo de Deus (cf. Jo 1,14), não haveria de desrespeitá-lo: "Honra teu pai e tua mãe, para que teus dias se prolonguem sobre a terra que te dá o Senhor, Teu Deus." Êx 20,12
    Além de Judeia, Nossa Senhora tinha parentes em Nazaré, como vemos no dia em que, aos 12 anos, Jesus permaneceu em Jerusalém depois da Páscoa, e Seus pais voltaram sem Ele: "Pensando que Ele estivesse com Seus companheiros de comitiva, andaram caminho de um dia e buscaram-nO entre os parentes e conhecidos." Lc 2,44
    Aliás, Santa Ana, mãe de Nossa Senhora, escolheu morar em Nazaré exatamente porque aí estava a maior e mais carente parte de sua parentela, pois ela e São Joaquim a tiveram já em avançada idade e ela logo estaria sozinha. E foi aí que São Gabriel Arcanjo lhe fez a Anunciação: "No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade de Galileia, chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de Davi e o Nome da virgem era Maria." Lc 1,26-27
    Como São Marcos (cf. Mc 6,3), São Mateus vai nomear os primos de Jesus, que chamava de irmãos conforme o costume judaico, pois não havia a palavra 'primo' em seu idioma: "Não são Seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? E Suas irmãs não vivem todas entre nós?" Mt 13,55b-56a
    Pois Nossa Senhora tinha em Nazaré ao menos uma prima, também chamada de 'irmã' no Evangelho Segundo São João, quando narra a cena da Crucificação: "Junto à Cruz de Jesus estavam de pé Sua mãe, a irmã de Sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena." Jo 19,25
    São Marcos, narrando a mesma cena, aponta essa prima como mãe de dois destes primos de Jesus: "Ali também se achavam umas mulheres, observando de longe, entre as quais Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José..." Mc 15,40
    São Mateus faz o mesmo registro: "Entre elas achavam-se Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu." Mt 24,56
    Dois destes primos vão tornar-se Apóstolos de Jesus, e São Marcos diz que o nome do pai de São Tiago Menor é Alfeu, a forma em aramaico do grego Cléofas, como registrado por São João Evangelista (cf. Jo 19,25): "Escolheu estes Doze: Simão, a quem pôs o nome de Pedro, Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, aos quais pôs o nome de Boanerges, que quer dizer Filhos do Trovão. Ele também escolheu André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o Zelota, e Judas Iscariotes, que O entregou." Mc 3,16-19
    E São Lucas, dando a mesma informação, aponta São Judas Tadeu, o segundo primo e Apóstolo, que era o quarto dos 'irmãos' de Jesus na narrativa de São Mateus, como irmão de São Tiago Menor: "Simão, a quem deu o sobrenome de Pedro, André, seu irmão, Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Simão, chamado Zelota, Judas, irmão de Tiago, e Judas Iscariotes, aquele que foi o traidor." Lc 6,14-16
    Aliás, na Carta de São Judas, ele próprio apresenta-se como irmão de São Tiago Menor e servo de Nosso Senhor, ou seja, nenhuma intimidade de sanguínea irmandade com Jesus: " Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago... " Jd 1a
    Estes, aliás, começaram a seguir Jesus desde os primeiros dias, logo após a transformação da água em vinho, como São João Apóstolo narrou: "Depois disso, desceu para Cafarnaum, com Sua mãe, Seus irmãos e Seus discípulos. E ali só demoraram poucos dias." Jo 2,12
    Os demais, São José de Cléofas e São Simão de Jerusalém, também O seguiam de perto: "Jesus falava ainda à multidão, quando veio Sua mãe e Seus irmãos e esperavam do lado de fora a ocasião para Lhe falar." Mt 12,46
    Mas nem todos Seus primos O acolheram. Pelo contrário, mesmo sabendo que Ele estava jurado de morte em Judeia, d'Ele debochavam: "Aproximava-se a festa dos judeus, chamada dos Tabernáculos. Seus irmãos disseram-Lhe: 'Parte daqui e vai a Judeia, a fim de que Teus discípulos também vejam as obras que fazes. Pois quem deseja ser conhecido em público não faz coisa alguma ocultamente. Já que fazes essas obras, revela-Te ao mundo.' Com efeito, nem mesmo Seus irmãos acreditavam n'Ele." Jo 7,2-5
    No primeiro retorno a Nazaré após iniciar Seu Ministério, Ele mesmo iria reclamar de Sua parentela: "Mas Jesus disse-lhes: 'Um Profeta só é desprezado em sua pátria, entre seus parentes e em sua própria casa.'" Mc 6,4
    Porque isso afetava Sua Missão: "Ali não pôde fazer milagre algum. Apenas curou alguns poucos enfermos, impondo-lhes as mãos. E admirou-Se da incredulidade deles." Mc 6,5-6a
    Com efeito, eles tinham-nO em conta de um louco, depois que iniciou Sua Missão: "Dirigiram-se, em seguida, a uma casa. Aí, de novo afluiu tanta gente que nem podiam tomar alimento. Quando os seus o souberam, saíram para O reter, pois diziam: 'Ele enlouqueceu.'" Mc 3,20-21
    O episódio da Páscoa aos 12 anos, enfim, já mostrava que a Sagrada Família era composta apenas de Jesus, Maria e José, como vimos: "E Sua mãe disse-Lhe: 'Meu Filho, que nos fizeste?! Eis que Teu pai e eu andávamos a Tua procura, cheios de aflição" Lc 2,48
    Assim também a cena da crucificação, pois se Nossa Senhora tivesse outro filho além de Jesus não iria morar com São João Evangelista: "Junto à Cruz de Jesus estavam de pé Sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu Sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse a Sua mãe: 'Mulher, eis aí teu filho.' Depois disse ao discípulo: 'Eis aí tua mãe.' E dessa hora em diante, o discípulo levou-a para sua casa." Jo 19,25-27
    Por fim, invocamos um antigo, respeitoso e doce costume em Nordeste de Brasil, onde o senhor e a senhora de quem não se sabe os nomes são carinhosamente chamados de 'Seu José' e 'Dona Maria', ao que prontamente atendem.



    Em Espanha, na cidade de Barcelona, uma monumental catedral é dedicada à Sagrada Família, um projeto do católico arquiteto Antoni Gaudi.


    E mais um dos grandes sinais de Deus, bem como do valor por Ele dado à Sagrada Família, está na preservação da Santa Casa de Nazaré, miraculosamente transladada por anjos pelos céus até Loreto, em Itália, ao fim do século XIII.


    Sagrada Família, rogai por nós!

Santos Inocentes


    Como reação do mundo imerso em pecado, o Nascimento de Jesus provocou grandes manifestações de ira desde os primeiros momentos. No Livro de Apocalipse de São João, vemos que foi concedido a este Apóstolo, por visões, constatar este delicado momento, obra do próprio Demônio contra Nossa Senhora e o Menino Jesus: "Depois apareceu outro sinal no Céu: um grande e vermelho Dragão, com sete cabeças e dez chifres, e nas cabeças sete coroas. Com sua cauda varria uma terça parte das estrelas do céu, e atirou-as à Terra. Esse Dragão deteve-se diante da Mulher que estava para dar à luz, a fim de que, quando ela desse à luz, lhe devorasse o Filho." Ap 12,3-4
    Sem dúvida, o Advento revelou o que há nos corações como Simeão tinha previsto, o religioso de Jerusalém que esperava a Consolação de Israel. Ele disse a Maria Santíssima no dia da Apresentação do Menino Jesus no Templo, na leitura do Evangelho Segundo São Lucas: "Eis que este Menino está destinado a ser causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações." Lc 2,34-35
    Jesus mesmo disse ao cego de nascença a quem havia curado, depois de apresentar-Se a ele como o Filho do Homem, título que dizia de Sua natureza humana. É do Evangelho Segundo São João: "Vim a este mundo para um discernimento: aqueles que não vêem, vejam, e aqueles que vêem, tornem-se cegos." Jo 9,39b
    E declarou quando foi julgado por Pilatos: "É para dar testemunho da Verdade que nasci e vim ao mundo. Todo aquele que é da Verdade ouve Minha voz." Jo 18,37b
    A Primeira Carta de São João, de fato, vai fazer uma radical diferenciação: "... todo espírito que não proclama Jesus, não é de Deus, mas é o espírito do Anticristo, de cuja vinda tendes ouvido e agora já está no mundo." 1 Jo 4,3
    Porque Nosso Senhor afirmou, depois que ensinou o Pai Nosso aos Apóstolos: "Quem não está Comigo, está contra Mim. E quem Comigo não recolhe, espalha." Lc 11,23
    Ele realmente apresentou-Se como essencial a qualquer ser humano, ou seja, como Deus, pois lhes disse na noite em que ia ser entregue: "Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanecer em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto. Porque sem Mim nada podeis fazer." Jo 15,5
    E claramente disse da situação do inimigo: "... o príncipe deste mundo já está julgado e condenado." Jo 16,11b
    Ora, o massacre dos Santos Inocentes de Belém, primeiríssimos mártires da Santa Igreja Católica, ainda que por nascer (cf. At 2,3), mostra aonde pode chegar a crueldade das más inclinações humanas que se recusam a acolher Cristo, como Ele mesmo denunciou em Jerusalém perante Nicodemos, um notável fariseu que reconheceu Sua Missão desde o início: "... a Luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas que a Luz, pois suas obras eram más." Jo 3,19
    Mais tarde, com efeito, Ele declarar-Se-ia também em Jerusalém, antes de iniciar a cura do cego nascença: "... Eu sou a Luz do mundo." Jo 9,5
    E Herodes, o Grande, foi descrito por um historiador com essas palavras: "... um louco que assassinou sua própria família..." Refere-se ao fato d'ele ter mandado assassinar, por pura paranoia, dois filhos, um tio, a esposa, a sogra e dois sogros, atitudes que demonstram a plena plausibilidade do Massacre dos Inocentes que se deu na cidade de Belém, como veremos.
    Mas a própria Paixão de Nosso Senhor e o significado da Santa Cruz não acenam de outra forma para os cristãos. A realidade que vivem os membros da Igreja Católica é exatamente aquela narrada por São João Apóstolo, quando o Dragão percebeu que não poderia vencer Nossa Santíssima Mãe: "Este, então, irritou-se contra a Mulher e foi fazer guerra ao resto de sua descendência, àqueles que guardam os Mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus." Ap 12,17
    E essa tristíssima página da História do Catolicismo, a História dos Santos Inocentes, foi narrada no Evangelho Segundo São Mateus, citando passagens do Livro do Profeta Miqueias, do Livro do Profeta Oseias e do Livro do Profeta Jeremias. Aí ficou evidente que os Santos Reis tratavam Jesus como Deus, pois O adoraram:

    "Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que Magos vieram do Oriente a Jerusalém. Perguntaram eles:
    - Onde está o Rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos Sua Estrela no Oriente e viemos adorá-Lo.
    A esta notícia, o rei Herodes ficou perturbado e com ele toda Jerusalém. Convocou os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo, e indagou-lhes onde havia de nascer o Cristo. Disseram-lhe:
    - Em Belém de Judeia, porque assim foi escrito pelo Profeta: 'E tu, Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor entre as cidades de Judá, porque de ti sairá o Líder que governará Israel, Meu povo (Mq 5,2).'
    Herodes, então, secretamente chamou os Magos e perguntou-lhes sobre a exata época em que o Astro lhes tinha aparecido. E enviando-os a Belém, disse-lhes:
    - Ide e informai-vos bem a respeito do Menino. Quando O tiverdes encontrado, comunicai-me, para que eu também vá adorá-Lo.
    Tendo eles ouvido as palavras do rei, partiram.
    E eis que a Estrela, que tinham visto no Oriente, lhes foi precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o Menino e ali parou. A aparição daquela Estrela encheu-os de profunda alegria.
    Entrando na casa, acharam o Menino com Maria, Sua mãe. Prostrando-se diante d'Ele, adoraram-nO. Depois, abrindo seus tesouros, como presentes Lhe ofereceram ouro, incenso e mirra.
    Avisados em sonhos para não tornarem a Herodes, voltaram a sua terra por outro caminho. Depois de sua partida, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe:
    - Levanta-te, toma o Menino e Sua mãe e foge para Egito. Fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o Menino para O matar.
    José levantou-se durante a noite, tomou o Menino e Sua mãe e partiu para Egito. Ali permaneceu até a morte de Herodes, para que se cumprisse o que dissera o Senhor pelo Profeta: 'De Egito, Eu chamei Meu filho (Os 11,1).'
    Então vendo Herodes que tinha sido enganado pelos Magos, ficou muito irado, e em Belém e em seus arredores mandou massacrar todos meninos de dois anos para baixo, conforme o exato tempo que havia indagado dos Magos. Cumpriu-se, então, o que foi dito pelo Profeta Jeremias: "Em Ramá ouviu-se uma voz, choro e grandes lamentos. É Raquel a chorar seus filhos! Não quer consolação, porque já não existem (Jr 31,15)!" 
                                     Mt 2,1-18


    Conforme a Sagrada Tradição, a celebração em memória dos Santos Inocentes acontece desde o século IV, e foi oficializada no século XVI por São Pio V.

Nossa Senhora dos Inocentes

    Em Belém, próximo à Basílica da Natividade, sob a Igreja de Santa Catarina de Alexandria existe uma capela escavada em pedra que é dedicada aos Santos Inocentes. Ela antecede em muito ao tempo em que aí viveu São Jerônimo, quer dizer, já era usada para essa devoção bem antes do século IV.



    Santos Inocentes, rogai por nós!