terça-feira, 11 de agosto de 2026

Santa Clara


    Quando a intensificação do comércio começava a enriquecer Europa, Ciara Scifi, nascida a 16 de julho de 1194, na comuna de Assis, província de Perúgia, região de Úmbria, centro de Itália, aos 17 anos de idade conheceu São Francisco, que já tinha 29, e também foi tomada pelo carisma de abraçar a santa pobreza. Seus pais, Conde Favarone di Offreduccio degli Scifi e Ortolana Fiumi, muito devota católica, eram nobres e bem mais ricos que os pais do Santo Seráfico, e como mulher foi muito mais difícil sair de casa contra a vontade do pai. Após completar 18 anos, porém, no Domingo de Ramos de 1212, ela fugiu na calada da noite para um lugar combinado com São Francisco e outros frades.
    Em seguida, foram à Porciúncula, uma pequena igreja fora da comuna de Assis, uma obra de eremitas cristãos do século IV, vindos de Palestina, que foi adotada por São Bento e seus monges no ano de 576, e agora estava sendo assumida pelos franciscanos. Lá, o Poverello ('pobrezinho', apelido de São Francisco) cortou-lhe os belos cabelos e deu-lhe um manto de linho cru, em sinal de consagração a Deus e de Comunhão com os pobres.
    Já desde pequena, a exemplo de sua mãe, era muito caridosa com os mais necessitados, mas também desprezava a boa comida e se vestia mal, aos olhos de sua classe social, preferindo um fino e durável  tecido de lã, chamado stamigna. Realmente muito identificada com as pessoas mais desprovidas, nunca entendeu a separação entre aqueles que tudo têm, como era sua família, e o povo que nada tinha e ainda passava a vida trabalhando para dar mais aos abastados.
    Era recatada, mas independente e destemida. Num tempo em que as peregrinações eram muito popular devoção, preferia a contemplação, inclusive em casa mesmo, onde se dedicava à oração. Um primo seu, Rufino, que havia seguido São Francisco desde sua conversão e se consagrou Frade, foi provavelmente quem contou ao Santo de Assis sobre expressivas obras de caridade de Santa Clara. E também deve ter sido por obra de Rufino que nossa Santa foi apresentada a São Francisco, depois que  lhe falou de sua visão de vida inspirada no Evangelho.
    Seu pai, portanto, bem suspeitou para onde ela havia fugido. Acompanhado de parentes e de seus guardas, foram até à Porciúncula na certeza de que aquela 'pueril menina' tinha sido enfeitiçada pelo 'maluco' de Assis e sua trupe de 'irresponsáveis'.



    Porém não a encontrou aí. Ao saber que São Francisco e seus seguidores se tinham dirigido com tochas acessas ao Mosteiro de São Paulo das Abadessas, na comuna de Bastia Umbra, da Ordem das beneditinas que viviam em clausura, rapidamente se pôs a caminho. Quando lá chegou, disposto a a levar de qualquer forma para casa, valeu-se de adulação, promessas, ameaças de conspiração e até a ímpetos de violência para a fazer desistir 'daquela vida' que queria levar, mas ela não consentia. Resistiu até mesmo quando ele e seus parentes tentaram levá-la à força, agarrando-se à mesa.
    Foi quando ela descobriu a cabeça, de cabelos curtos, revelando seu estado de penitência. Aí eles entenderam que ela não estava mais sob a jurisdição de sua família. De fato, os penitentes, que entre outros votos adotavam o de cortar os cabelos, tinham a proteção da Santa Igreja Católica contra possível oposição de seus familiares. E vendo-a vestida com o hábito, coube a São Francisco, tanto para confortar seu pai como para definitivamente o demover da intenção de a levar de volta, apresentá-la como esposa de Cristo.
    Com essa atitude, Santa Clara não só abria mão de um casamento planejado pela família como também, ao converter-se, abdicava de seu expressivo dote, e assim renegava sua condição nobre. Foi uma séria e difícil decisão, pois sem dote ela não podia mais tornar-se uma Freira de coro, educada e dedicada ao ensino de santa literatura em ofícios litúrgicos. Se seus planos falhassem, como opção haveria de se tornar uma Freira 'serva', designada para manuais e braçais trabalhos. Seria uma vergonha para sua família e amigos.
    Dias mais tarde, ela foi conduzida ao Convento de Panzo, também das beneditinas. Mas sua decisão não teria sido mal pensada. Deve ter sido gestada por algum tempo, no seio da intimidade e da cumplicidade de suas irmãs, pois dezesseis dias depois da fuga de casa, sua mais nova irmã, Inês, que também foi canonizada, iria juntar-se a ela, e consigo já estava quando partiram para Panzo. Assim também faria, passados alguns anos, sua irmã Beatriz, e ainda sua mãe Ortolana, após enviuvar. Significante detalhe: ambas irmãs tiveram seus cabelos cortados por Santa Clara, como num 'rito' para valorizar seu 'batismo' por São Francisco.
    A pedido de Santa Clara, o Poverello criou uma nova Regra para ela e outras seguidoras que pretendiam viver a verdadeira e completa pobreza, exatamente ao modo dos 'frades menores', como ele quis que seus seguidores fossem chamados. Para tanto, levou-as às cercanias de Assis, a uma casa junto à Igreja de São Damião, onde a imagem do Cristo Crucificado havia falado a São Francisco. Enfim, trouxe-lhes a Regra que seria a Ordem das Damas Pobres, mais tarde chamadas de 'Pobres Claras' e depois de 'Clarissas', em homenagens a Santa Clara, ou ainda a Ordem Segunda de São Francisco, como Ordens Segundas são para mulheres.


    Dessa casa, Santa Clara não mais sairá. Vai praticar tão rigorosas penitências que São Francisco vai obrigá-la a comer ao menos um pão por dia, nos três que ficava de jejum toda semana. Vivia para adorar o Santíssimo Sacramento, para a oração e para tratar de enfermos. Totalmente se abstinha de carne, dormia sobre ramos de videira e usava um feixe de lenha como travesseiro (cf. Mt 8,20).
    São Francisco afastava-se cada vez mais delas, por causa da afeição que lhe devotavam. Achava que não a merecia e que as tirava da oração. Depois de muitos apelos, ele aceitou ir lá e fazer-lhes uma pregação. Entrou na Igreja de São Damião, rezou bastante em voz baixa, olhando ora para o altar ora para cima, e depois lhes pediu cinzas. Com elas fez um círculo a sua volta, para não contaminar o ambiente retendo para si suas concupiscências, pôs o resto sobre a cabeça e recitou o Salmo 50, do rei Davi, sobre penitência. Demonstrando assim, emblematicamente, sua luta contra o Mal, apresentava-se como um grande pecador.
    Em 1224, ele traria em si os estigmas de Cristo, que o fariam ainda mais se recolher para evitar a veneração e a curiosidade popular. Em 1225, mesmo ano em que as monjas de Santo Apolinário adotaram a Regra das Clarissas, gravemente doente, mas sem querer renegar o dom da vida, com toda humildade ele vai à casa de Santa Clara e pede para ser tratado como um simples enfermo. Depois de uma ligeira melhora, porém, novamente partiu. Seria o último encontro desses formidáveis filhos de Deus. Em 1226, morre São Francisco.
    Santa Clara trocou intensa correspondência com o Papa Gregório IX, porque não queria aceitar a propriedade que ele tentava doar a ela ou a sua irmã, Santa Inês de Assis, para uso da Congregação que formavam. Também escreveu a definitiva Regra da Ordem das Irmãs Pobres, na verdade uma adaptação da Regra Bulada, acrescentando alguns detalhes a esta grande obra deixada por São Francisco. Estritamente falava, o necessário, para não dar ocasião aos pecados que se manifestam nas palavras. Ao chegar a sua presença, todos sentiam que estavam diante de uma Santa. E com razão, pois ao bastar-se com as pequenas esmolas que lhe doava o povo, elas multiplicavam-se em suas mãos a ponto das demais irmãs não suportarem o peso quando lhes repassava. E tal fartura era quase toda doada aos mais pobres ou usada para alimentar o enfermos. Curava as enfermidades das irmãs simplesmente fazendo o sinal da Cruz sobre elas.


    Em 1244, quando Frederico II, Sacro-Imperador Romano-Germânico, invadiu Itália, enviou os muçulmanos para tomar a região de Assis. Eles escolheram começar por São Damião, mas ao tentarem invadir a igreja viram dela sair Santa Clara portando o Ostensório com a Hóstia Consagrada. E ela rezou: "Senhor, não entregueis às feras as almas daquelas que Vos servem, e guardai Vossas servas que resgatastes com Vosso precioso Sangue." Eles foram tomados de grande pânico, os cavalos andavam para trás assustados, e terminaram fugindo da região sem sequer tentar invadir a cidade de Assis.


    Num Natal, quando estava muito enferma, não pôde ir assistir à Missa do Galo na Igreja de São Francisco, mas pediu as irmãs que não se detivessem por sua causa: ficaria muito bem sozinha. Mais tarde, quando as irmã voltaram para lhe contar como a Santa Missa havia sido bela, viram seu rosto alegre e radiante. E ela disse-lhes: "Louvai o Senhor, caríssimas irmãs, porque não quis deixar-me só neste lugar. Enquanto vós rezáveis, eu, por Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo e por intercessão de meu pai São Francisco, estive presente em sua igreja e participei de toda celebração, inclusive recebi a Santíssima Comunhão."
    Por esse milagre de teletransportação, em 1958 o Papa Pio XII fez dela a Padroeira da televisão e das telecomunicações.
    Ela pregou:

    "O silêncio é a linguagem de quem ama. É melhor que a palavra humana renuncie e se exprima com afeto. Somente a alma, em sua silenciosa linguagem, consegue fazer o que sentimos."
    "O amor que não conhece o sofrimento, não é digno desse nome."
    "Não se pode desejar ser liberado da cruz quando se é especialmente escolhido para a cruz."
    "Magnífica de verdade e digna de todo louvor é essa troca: refutar os bens da Terra para ter aqueles do Céu, merecer o celestial em vez do terreno, aceitar o cem por um e possuir a beata vida para a eternidade."
    "Feliz a alma a quem é dado alcançar esta Vida com Cristo, apegar-se de todo coração Àquele cuja beleza todas hostes celestiais contemplam para sempre, cujo amor inflama nosso amor, cuja contemplação é nosso refrigério, cuja graciosidade é nosso deleite, cuja gentileza nos enche até transbordar, cuja lembrança nos faz resplandecer de felicidade, cuja fragrância revive os mortos, cuja gloriosa visão será a felicidade de todos cidadãos da Celestial Jerusalém. Pois Ele é o resplendor da Eterna Glória, o esplendor da Eterna Luz, o espelho sem mancha."
    "Nunca perca de vista teu ponto de partida."
    "Nunca te esqueças de que o Caminho que leva ao Céu é estreito, que a porta que leva à Vida é estreita e baixa, que são poucos os que a encontram e entram por ela, e se há alguns que escolhem e trilham o estreito caminho por algum tempo, são muito poucos aqueles que nele perseveram."
    "Se olhares para Deus, o que tanto te preocupa vai parecer insignificante."
    "Põe tua mente diante do espelho da eternidade! Põe tua alma no brilho da Glória! E transforma todo teu ser na imagem da própria divindade através da contemplação."
    "O que tu seguras, que tu sempre possas segurar. O que tu fazes, que tu sempre faças e nunca desistas. Mas com rápido passo, leve passo e firmes pés, para que nem mesmo teus passos levantem poeira. Que tu possas seguramente, alegremente e rapidamente ir em frente. Vai em frente, o Espírito de Nosso Deus te chamou."
    "Jesus é a Ponte entre Aquele que tudo pode e as criaturas que de tudo precisam. Também sê tu uma ponte que liga aqueles que tem de sobra, com aqueles que de tanta coisa sentem falta."
    "Ama a Deus, serve a Deus. Tudo está nisso."
    "Nosso corpo não é feito de ferro, nossa força não é a da pedra. Vive e espera no Senhor, e permite que teu serviço seja de acordo com a razão."
    "Amai-vos umas às outras com a caridade de Cristo, e manifestai, em obras, o amor que tendes em vossos corações, para que, movidas por tal exemplo, as irmãs também cresçam no amor de Deus e na caridade umas para com as outras."
    "Amai totalmente Aquele que Se entregou totalmente por vosso amor."
    "Nós tornamo-nos o que amamos, e quem amamos molda o que nos tornamos. Se amamos as coisas, tornamo-nos uma coisa. Se nada amamos, tornamo-nos nada."
    "A imitação não é uma literal imitação de Cristo, mas significa tornar-se a imagem do Amado, uma imagem revelada através da transformação. Isso significa que devemos tornar-nos vasos do compassivo amor de Deus pelos outros."
    "Olhai para Ele, considerai-O, contemplai-O, como desejais imitá-Lo."
    "A nação não precisa apenas do que temos. Ela precisa do que somos."
    "Nosso trabalho aqui é breve, mas a recompensa é eterna. Não seja perturbado pelo clamor do mundo, que passa como uma sombra. Não deixes falsas delícias de um enganoso mundo te iludir."
    "Pois estou certa de que vós sabeis que o Reino dos Céus somente é prometido e dado pelo Senhor aos pobres, porque enquanto algo temporal for objeto de amor, o fruto da caridade estará perdido."
    "O Filho de Deus tornou-Se nossa via. E esta, com a palavra e o exemplo, foi-nos indicada e ensinada pelo beato pai nosso Francisco."
    "Beata pobreza! Àqueles que te amam e te abraçam, dás eternas riquezas."
    "Por amor a Cristo, não há dor que me faça sofrer."
    "Eu abençoo-vos agora enquanto viva e depois de minha morte, tanto quanto posso e mais que posso, com todas bênçãos que o Pai das Misericórdias concedeu e continua a conceder a Seus filhos e filhas espirituais, tanto no Céu como na Terra. Tenham sempre amor por mim, por suas próprias almas e por todas suas irmãs. Tenham sempre o cuidado de cumprir o que prometeram ao Senhor. O Senhor esteja sempre convosco, e que vós estejais com Ele sempre e em todo lugar."
    "Eu venho, ó Senhor, a Vosso santuário para ver a Vida e a Comida de minha alma. Como espero em Vós, ó Senhor, inspirai-me com esta confiança que me leva a Vosso santo monte. Permiti-me, Divino Jesus, aproximar-me de Vós, para que toda minha alma possa homenagear a grandeza de Vossa majestade; que meu coração, com suas mais ternas afeições, possa reconhecer Vosso infinito amor; que minha memória possa residir nos admiráveis mistérios aqui renovados a cada dia, e que o sacrifício de todo meu ser possa acompanhar o Vosso."
    "Vai sem medo, alma cristã, pois tens um Bom Guia para tua jornada. Vai sem medo, pois Aquele que te criou te santificou. Ele sempre te protegeu como uma mãe protege seu filho, e te amou com ternura. Bendito sejais Vós, Meu Senhor, que me criastes."

    Em 1253, já bem enfraquecida, frequentemente era visitada pelo alto clero. Todos queriam conhecer a Santa irmã de São Francisco de Assis e pedir-lhe conselhos. Ela aproveitou para pedir e receber do Papa Inocêncio IV, em duas ocasiões, o Sacramento da Confissão. Ele, que ia visitá-la para se inspirar em sua santidade, comentou: "Quisera Deus que eu necessitasse de tão pouco perdão."
    O lugar onde ficava a casa que Santa Clara nasceu e passou a primeira juventude, ao lado da Catedral de São Rufino em Assis, é conhecido e preservado.


    Viveu os últimos 17 dias sem tomar nenhum alimento, pois sua e devoção só cresciam enquanto chegava a hora de se encontrar com Deus. O manuscrito original da Regra de Santa Clara, seu cordão e seus cabelos, que foram cortados por São Francisco, junto aos hábitos do Poverello depois de sua conversão e um sapato por ele usado depois de receber os estigmas, podem ser vistos na Basílica em Assis que leva o nome de nossa Santa, onde havia sido a Igreja de São Jorge. Segundo consideráveis relatos, seu corpo esteve perfeitamente conservado até o início do século XIX, e hoje está retocado com cera.


    Santa Clara, rogai por nós!

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

São Lourenço


    Lorenzo era natural da cidade de Huesca, nordeste de Espanha, chamada pelos romanos de Hispânia Tarraconense, nascido a 6 de dezembro do ano de 225, filho de Santo Orêncio e Santa Paciência, e foi levado a Roma pelo Papa Sisto II, também Santo. Eram tempos de violenta perseguição à Igreja Católica Apostólica Romana, mas ambos seguiam trabalhando com a virtude da fortaleza. O angelical, bem humorado e forte jovem recebeu o Sacramento da Ordenação como Diácono, um dos sete primeiros da igreja de Roma. Era o responsável pela administração dos bens da comunidade, e distribuía esmolas.
    Irritado com o avassalador crescimento da Santa Madre Igreja por todo Império Romano, pois tirava o povo do paganismo, sua religião, o imperador Valeriano emitiu em 257 um edito de proibição do culto católico e das reuniões em cemitério, bem como de perseguição aos cristãos que resistissem. Assim, muitos Padres e Bispos, como São Cipriano, Bispo de Cartago, foram sentenciados à morte, inclusive o Papa Estevão I, decapitado no trono de São Pedro, enquanto cristãos pertencentes à nobreza e ao senado foram privados de suas propriedades e enviados ao exílio.
    No ano seguinte, São Sisto II foi preso e também decapitado. São Lourenço, que o acompanhou durante os quatro dias de sua prisão, queria morrer com ele. Momentos antes do martírio, com doçura e invocando a Santa Eucaristia, pediu-lhe: "Meu pai, para onde vais sem vosso filho? Para onde vai o Santo Padre sem vosso diácono? Jamais oferecestes o Sacrifício sem que eu vos acolitasse? Em que vos desagradei? Encontrastes em mim alguma infidelidade?"
    Mas o Papa queria que ele distribuísse os bens da igreja local entre os pobres, pois bem sabia o que estava para acontecer e que em breve ele também seria sacrificado: "Não te abandono, meu filho! Deus reservou-te maior provação e mais brilhante vitória, pois és jovem e forte. A velhice e a fraqueza fazem com que os carrascos tenham pena de mim. Mas, daqui a três dias, tu segui-me-ás."
    São Lourenço cumpriu com diligência as ordens que recebeu: vendeu ouro, prata e os mais valiosos bens. Em seguida, convocou os pobres, viúvas e órfãos, e distribuiu entre eles todo dinheiro que havia arrecadado, assim como os bens que não conseguiu vender.
    O prefeito da cidade, Cornelius Sacerdos, ao ouvir que o administrador da igreja tinha tomado tal atitude, a princípio não acreditou. Deu ordem para que viesse até si e exigiu que tudo entregasse para o luxo do imperador. Mas era tarde. São Lourenço havia agido com rapidez, pois ansiosamente esperava pela hora de também seguir para o martírio, que é siginifado da palavra testemunho. Teve, entretanto, a ideia de dar uma bela lição ao prefeito. Pediu-lhe o prazo de um dia para juntar todos valiosos bens de propriedade da Igreja fundada por Jesus na capital do império.
    No dia seguinte, mandou convidar o prefeito, também conhecido como Cornelius Secularis, para vir às portas da igreja receber o tesouro. Lá estava uma multidão de mendigos, enfermos, viúvas, órfãos, surdos, cegos, leprosos, aleijados e paralíticos. Disse-lhe São Lourenço: "Eis os tesouros da igreja: os míseros que levam com resignação a cruz de cada dia, carregam o ouro da virtude. São as prediletas almas do Senhor, que valem muito mais que preciosas pedras."
    Cornelius, tomado de ira, jurou-lhe: "Tu ousas zombar de Roma e do Imperador, por isso perecerás. Mas não penses que morrerás instantaneamente. Tu morrerás lentamente e suportando a maior dor de tua vida." Assim, primeiro mandou acoitá-lo com toda crueldade, depois o colocou sobre um mármore de assar carne, perto do Campo de Verão em Roma. Mas nosso Santo, em impressionante Paz, não se deixou tomar pelo medo e parecia não sentir dor alguma. Bem humorado, chegou a brincar com seu carrasco: "Se quiseres, já podes virar-me, pois este lado já está bem assado."


    No século IV, Santo Ambrósio, Arcebispo de Mediolano, modernamente Milão, no norte de Itália, relatou que seu rosto brilhava mais que o fogo, e de seu corpo saia um perfume que enebriava a todos presentes. No século V, o Papa São Leão Magno assim contou seus últimos momentos numa homilia: "As chamas não puderam vencer a caridade de Cristo, e o fogo que queimava por fora era mais fraco que aquele que lhe ardia por dentro."
    E no século V, Santo Agostinho, insigne filósofo da Patrística e Doutor da Igreja, dedicou-lhe um de seus sermões, nomeadamente o 'Sermo 302, de Sancto Laurentio'.


    Bastante carbonizado, suas relíquias inicialmente foram sepultadas nas catacumbas de Ciríaca, na Via Tiburtina, em Roma.
    Em revelação do século XIV, Nossa Senhora mesma disse à Santa Brígida que São Lourenço, de verdadeira humildade, costumava refletir: "Meu Deus é Meu Senhor, eu sou Seu servo. O Senhor Jesus Cristo foi despido e zombado. Como isso pode ser justo para mim, Seu servo, que esteja vestido com finura? Ele foi flagelado e pregado na madeira. Então, não é certo que eu, Seu servo, se eu realmente for Seu servo, não tenha nenhuma dor ou tribulação." (Livro II, Capítulo XXVI)
    Disse mais: "Quando ele foi estendido sobre as brasas, e gordura líquida escorreu para o fogo e seu corpo todo pegou fogo, ele levantou os olhos para os céus e disse: 'Bendito sois Vós, Jesus Cristo, Meu Deus e Criador! Eu sei que não vivi bem meus dias. Sei que fiz pouco por Vossa Glória. É por isso que, vendo que Vossa Misericórdia é grande, eu Vos peço que me trateis com Vossa Misericórdia.' E nesta palavra sua alma foi separada de seu corpo. Viste, minha filha? Ele tanto amou Meu Filho, e suportou tanto sofrimento para Sua Glória, que ainda disse que não era digno de alcançar o Céu." (Idem)
    E o próprio São Lourenço, em aparição a esta mesma Santa, disse-lhe: "Quando estive no mundo, tinha três coisas: continência comigo mesmo, Misericórdia com meu próximo e caridade com Deus. Por isso, zelosamente preguei a Palavra de Deus, com prudência distribuí os bens da igreja, e com alegria suportei açoites, fogo e morte." (Livro I, Capítulo XXIII)
    A conversão de Constantino, imperador romano, algumas décadas depois do grande testemunho de nosso Santo, bem como a permissão para a prática do Catolicismo em todo Império Romano, são atribuídas ao grande impacto dos relatos de seu martírio, que rapidamente se divulgou por toda parte, e a sua intercessão, combinada com os sacrifícios, também dados em Roma, de São Pedro e São Paulo, aos quais nosso Santo tanto venerava, além, claro, das orações da própria Santa Helena, mãe deste imperador.
    No local onde ele foi executado, Constantino mandou construir um pequeno oratório, sobre o qual no século VI foi erigida a Igreja de São Lourenço Extramuros, a quinta Basílica Patriarcal de Roma, sede do Patriarcado Latino de Jerusalém, hoje uma Basílica Papal. Em seu túmulo, abaixo do altar, também foram depositadas as relíquias de Santo Estevão, o primeiro mártir da Igreja de Deus Vivo, que como São Lourenço tinha sido Diácono. A pedra de mármore de seu martírio foi devotamente preservada.


    Ele é, portanto, junto a Santo Estevão, Padroeiro dos Diáconos, além de ter sido um dos primeiros arquivistas e tesoureiros da Igreja Una, por isso o Santo Padroeiro dos bibliotecários. Seu irmão gêmeo também foi canonizado: Santo Orêncio de Auch, capital da então região de Gasconha, sudoeste de França, onde foi Padre, Bispo e em seguida, por um grande trabalho de evangelização em toda área, venerado como o Apóstolo dos Bascos.
    São Lourenço é igualmente venerado como Santo pelas igrejas 'ortodoxa', luterana e anglicana.
    Seu fêmur, com certificação papal, é venerado numa abadia beneditina erguida em sua homenagem em Ampleforth, no município de North Yorkshire, em Inglaterra.


    E na comuna italiana de Amaseno, na província de Frosinone, região de Lácio, há um frasco contendo seu sangue, pedaços de pele e resíduos de cinzas e terra, que são guardados na Igreja de Santa Maria Assunta. Foram colhidos logo após sua morte por valorosos cristãos, que presenciaram seu martírio e que se viram profundamente tocados por sua . Tal qual o sangue de São Januário, porém, invariavelmente todos anos desde 1600, o de São Lourenço sai do estado de coagulação, começando de sutil modo no início de agosto, até se apresentar como sangue recém-derramado no dia 10.


    São Lourenço, rogai por nós!