domingo, 26 de outubro de 2025

O Amor de Deus


    Por que Deus quer ser amado por nós? Quem somos nós para Lhe corresponder com nosso errante amor? No entanto, no Livro de Deuteronômio, Ele determinou aos israelitas através de Moisés, após o anúncio dos Dez Mandamentos: "Amarás o Senhor, Teu Deus, de todo teu coração, de toda tua alma e de toda tua força." Dt 6,5
    Poderíamos ser obrigados a amar? Como Jesus pode exigir maior amor a Ele que às pessoas que nos são mais próximas? Mas no Evangelho Segundo São Mateus, depois que escolheu os Doze Apóstolos, Ele sentenciou: "Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a Mim, não é digno de Mim. Quem ama seu filho mais que a Mim, não é digno de Mim." Mt 10,37
    A rigidez desse ensinamento, porém, esconde uma didática. Apesar da estranheza que causa em primeira mão, ao amadurecermos no amor, vemos que assim Ele imprime Sua Palavra em nossa memória, para mais tarde ser plenamente compreendida. De fato, não podemos verdadeiramente amar nossos familiares sem conhecermos, com a devida profundidade, o amor que Deus nos tem. A Primeira Carta de São João assim explica a Comunhão com Deus e a fonte do amor: "Nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem para conosco. Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele. Mas amamos porque primeiro Deus nos amou." 1 Jo 4,16.19
    Ele categoricamente afirma: "Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus..." 1 Jo 4,7a 
    E no Livro do Profeta Jeremias, Deus mesmo explicou a Israel a natureza e a dimensão desse amor, bem como zela por Sua predileção: "Eu amei-te com eterno amor, e por isso conservei para ti o amor." Jr 31,3
    Sobre a questão do amor às mais próximas pessoas, o Amado Discípulo partia do inverso: "Se alguém disser: 'Amo a Deus', mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a Quem não vê. Temos de Deus este Mandamento: aquele que amar a Deus, também ame a seu irmão." 1 Jo 4,20-21
    E a despeito dos insondáveis desígnios de Deus, alguma luz nos é dada sobre essa didática quando lemos essa passagem no Livro de Provérbios: "Meu filho, não desprezes a correção do Senhor, nem te espantes de que Ele te repreenda, porque o Senhor castiga aquele a quem ama, e pune o filho a quem muito estima." Pr 3,11-12
    Tudo isso inspira-nos a imagem de um pai cheio de precauções, às vezes agindo de enérgico modo, em função de futuros riscos, e é sensato supor que seja mesmo assim. Na Carta aos Hebreus, os seguidores da tradição de São Paulo argumentam: "Estais sendo provados para vossa correção: é Deus que vos trata como filhos. Ora, qual é o filho a quem seu pai não corrige? Aliás, na Terra temos nossos pais que nos corrigem e, entretanto, olhamo-los com respeito. Com quanto mais razão havemos de submeter-nos ao Pai de nossas almas, o Qual nos dará a Vida? Os primeiros educaram-nos para pouco tempo, segundo sua própria conveniência, ao passo que Este o faz para nosso bem, para nos comunicar Sua santidade. É verdade que toda correção parece, de momento, antes motivo de pesar que de alegria. Mais tarde, porém, granjeia àqueles que por ela se exercitaram o melhor fruto de Justiça e de Paz." Hb 12,7.9-11
    A Carta de São Tiago, que era um dos chamados 'irmãos' de Nosso Senhor (cf. Mt 27,56), dizendo do Espírito Santo, justifica: "Todo aquele que quer ser amigo do mundo, constitui-se inimigo de Deus. Ou imaginais que em vão diz a Escritura: 'Sois amados até o ciúme pelo Espírito que em vós habita ?'" Tg 4,4b-5
    Ora, nas revelações feitas no Livro de Apocalipse de São João, o próprio Jesus vai dizer àqueles que se iludem com alguma forma de poder. Está entre as exortações ditadas às sete dioceses de Ásia de então, nesse caso a da cidade de Sardes: "Eu repreendo e castigo aqueles que amo. Reanima teu zelo, pois, e arrepende-te." Ap 3,19
    Também é frequente ver na Bíblia a expressão 'temor a Deus'. E fica a pergunta: afinal, Ele quer ser amado ou temido? A verdade é que, assim como o amadurecer mental, a compreensão da Revelação requer tempo. No estágio de civilização que vivemos, é fácil perceber, ao menos teoricamente, que o amor sempre produz melhor e mais verdadeiro relacionamento que o temor. Mas não há dúvida: visceralmente necessário, e negá-lo é mera puerilidade, o temor foi e ainda é largamente usado. A hierarquia é vital para as organizações humanas! Entretanto, porque não são necessariamente excludentes, também já é antiga a didática do amor, e só por ele se pode chegar à perfeição, como São João afirmou: "Nisto é perfeito em nós o amor: que tenhamos confiança no Dia do Julgamento, pois, como Ele (Deus) é, assim também nós somos neste mundo. No amor não há temor. Antes, o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor envolve castigo, e quem teme não é perfeito no amor." 1 Jo 4,17-18
    Ele reafirmou o caminho para essa perfeição: "Se mutuamente nos amarmos, Deus permanece em nós e Seu amor em nós é perfeito." 1 Jo 4,12b
    De fato, assim é o Mandamento que Jesus, Deus de amor, ditou no Evangelho Segundo São João, e assim Ele revelou a verdadeira identidade de Sua Igreja. Foi logo depois do Lava-Pés, enquanto Se despedia dos Apóstolos: "Dou-vos um Novo Mandamento: Amai-vos uns aos outros. Como Eu vos tenho amado, vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto todos conhecerão que sois Meus discípulos, se vos amardes uns aos outros." Jo 13,34-35
    Ele mesmo demonstrou esse amor, e maternal amor, como o de Nossa Mãe Celeste, quando Se aproximou da Cidade Santa pela última vez, na Páscoa em que seria sacrificado: "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados! Quantas vezes Eu quis reunir teus filhos, como a galinha reúne seus pintinhos debaixo de suas asas... e tu não quiseste!" Mt 23,37
    O Evangelho Segundo São Lucas diz que Ele chorou nesse momento, uma das duas únicas vezes em que foram registrados prantos Seus (cf. Jo 11,35): "Aproximando-Se ainda mais, Jesus contemplou Jerusalém e chorou sobre ela, dizendo: 'Oh! Se tu, ao menos neste dia que te é dado, também conhecesses Aquele que pode trazer-te a Paz! Mas não, isso está oculto a teus olhos.'" Lc 19,41-42
    O Livro do Profeta Isaías, a propósito, já tinha dado conta de nossa verdadeira relação com Deus: de filiação: "E no entanto, Senhor, Vós sois Nosso Pai. Nós somos a argila da qual sois o Oleiro: todos nós fomos modelados por Vossas mãos." Is 64,8
    Por isso, a Ele havia clamado, após meditar sobre a História de Israel: "Olhai do alto do Céu, e vede de Vossa santa e gloriosa morada: Que foi feito de Vosso ciumento amor e de Vosso poder, e da emoção de Vosso coração? Dai livre expansão a Vossa ternura, porque sois Nosso Pai." Is 63,15-16a
    E se somos vez e outra castigados, se bem observarmos os acontecimentos, também é fácil atestar Sua infinita afabilidade. Deus mesmo disse: "Num acesso de cólera, de ti volvi Minha face. Mas em Meu eterno amor, de ti tenho compaixão." Is 54,8
    O Livro de Sabedoria, em especial, vai mais longe ao justificar Seu amor: "Tendes compaixão de todos, porque Vós podeis tudo. E para que se arrependam, fechais os olhos aos pecados dos homens. Porque amais tudo que existe, e não odiais nada do que fizestes, porquanto, se o odiásseis, não o teríeis feito de modo algum. Como poderia subsistir qualquer coisa, se não a tivésseis querido, e conservar a existência, se por Vós não tivesse sido chamada? Mas poupais todos seres, porque todos são Vossos, ó Senhor, que amais a vida." Sb 11,23-26
    E como os sagrados autores dos Provérbios, ele conclui: "É por isso que com brandura castigais aqueles que caem, e os adverti mostrando-lhes em que pecam, a fim de que rejeitem sua malícia e creiam em Vós, Senhor." Sb 12,2
    Não seria, porém, o amor, e tão simplesmente o amor, ainda hoje, a mais difícil lição que Jesus tenta ensinar-nos? Será que nós compreendemos, ao menos um pouco, a dimensão de Seu amor? Concebemos, ao menos episodicamente, que podemos amar como Ele nos ama? Enfatizando, pois já havia falado em Novo Mandamento, como vimos, Ele estabeleceu esse parâmetro, também na noite da Santa Ceia: "Este é Meu Mandamento: amai-vos uns aos outros, como Eu vos amo." Jo 15,12
    Mas a pergunta é: que amor é esse que O levou a morrer por nós? Realmente percebemos o exemplo de tantos Santos e Mártires? Também chegaríamos, por amor, a essas consequências? De toda forma, essa é a meta por Ele estabelecida e demonstrada por Sua Paixão: "Ninguém tem maior amor que aquele que dá sua vida por seus amigos." Jo 15,13
    E como entender esse Sacrifício ao qual Deus Pai submeteu Seu próprio Filho? Não teria sido violento demais? Mas Jesus confirmou-o a Nicodemos, um notável dos fariseus, falando em terceira Pessoa, logo na primeira Páscoa em Jerusalém após iniciada Sua Missão: "Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo que lhe deu Seu Único Filho, para que todo aquele que n'Ele crer não pereça, mas tenha a Vida Eterna." Jo 3,16
    Por certo, a razão de ser dessa didática de Deus é nossa futilidade, nossa desatenção, nossa inconstância, nossa insensibilidade. Pois se Sua própria Morte, brutal como foi, não nos faz despertar para o amor, o que teria acontecido se Ele simplesmente Se tivesse elevado aos Céus? Se toda Jerusalém não tivesse presenciado Sua Paixão e Morte? Por isso, a Primeira Carta de São Paulo a São Timóteo, em seus iniciais versículos, exorta-lhe que afaste o povo de todas fábulas e fúteis conhecimentos, em nome de um verdadeiro amadurecimento espiritual: "Essa recomendação visava promover o amor que nasce de um puro coração, de uma boa consciência e de uma sincera ." 1 Tm 1,5
    Pois, como vemos na Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, só assim ele garante as celestiais benesses, citando o Profeta Isaías: "É como está escrito: 'Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64,4)', tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que O amam." 1 Cor 2,9
    Pois o verdadeiro amor a Deus, para minimamente corresponder àquele que Ele tem por nós, se  manifesta, como demonstram os Santos, por uma atitude de constante reconhecimento de nossos pecados e pela determinação em não tornarmos a errar. É o que o Livro de Eclesiástico ensina: "Aquele que ama a Deus, roga-Lhe pelo perdão de seus pecados e acautela-se para não os cometer no porvir." Eclo 3,4
    É o que o rei Davi faz no Livro de Salmos, ao pedir perdão em nome de Seu amor: "Ó Deus, tende piedade de mim conforme Vossa Misericórdia. Em Vosso grande amor, cancelai meu pecado." Sl 51,3
    Afere-lhe o justo valor: "Porque Vosso amor me é mais precioso que a vida..." Sl 63,4
    Outros sagrados autores reconhecem: "Eu dá-Vos-ei graças, Senhor Meu Deus, de todo coração, e sempre darei Glória a Vosso Nome, porque é grande Vosso amor para comigo..." Sl 86,12-13
    Agradecidos pela Divina Misericórdia, registram: "... Deus de piedade, compassivo, lento para Se irar, mas rico de amor e de fidelidade..." Sl 86,15
    E atestam que Seu amor é eterno: "Louvai o Senhor, porque Ele é bom, porque Seu amor é para sempre." Sl 106,1
    Aliás, tão atemporal como Deus mesmo, mas nessa condição tem destinatários específicos, pois Davi aproveita para assegurar: "O amor do Senhor existe desde sempre, e para sempre existirá por aqueles que O temem." Sl 102,17a


JESUS, PROVA MAIOR DO AMOR DE DEUS

    Mas não há dúvida de que Nosso Senhor conhece os corações das pessoas, e de perto acompanha-os. Foi o que se viu desde o início de Sua vida pública, quando, antes de curar o paralítico descido pelo teto da casa de São Pedro, lhe ofereceu o perdão dos pecados. É do Evangelho Segundo São Marcos: "Ora, ali estavam sentados alguns escribas, que refletiam em seus corações: 'Como pode Este Homem falar assim? Ele blasfema. Quem pode perdoar pecados senão Deus?' Mas Jesus, logo penetrando com Seu espírito em seus íntimos pensamentos, disse-lhes: 'Por que pensais isto em vossos corações?'" Mc 2,6-8
    E mesmo em meio à multidão, como em primeira Missão na Cidade Santa: "Enquanto Jesus celebrava em Jerusalém a festa da Páscoa, muitos creram em Seu Nome, à vista dos sinais que fazia. Mas Jesus mesmo não Se fiava neles, porque os conhecia todos. Ele não necessitava que alguém desse testemunho de nenhum homem, pois bem sabia o que havia no homem." Jo 2,23-24
    Por isso, conforme o Amado Médico, dizia que de nada vale o pagamento do dízimo quando se sonega o mais importante. Está entre os 'ai de vós' com que advertia os religiosos judeus: "Ai de vós, fariseus, que pagais o dízimo da hortelã, da arruda e de diversas ervas, mas desprezais a justiça e o amor de Deus." Lc 11,42
    E em debate com os líderes religiosos em Jerusalém na segunda festa em Sua vida pública, Ele foi ainda mais incisivo, pois começou a ser perseguido por curar um aleijado de nascença num sábado: "Não espero Minha Glória dos homens. Mas conheço-vos: sei que não tendes em vós o amor de Deus. Vim em Nome de Meu Pai, por isso não Me recebeis. Se outro vier em seu próprio nome, haveis de recebê-lo." Jo 5,41-43
    Já o Apóstolo dos Gentios diz uma muito simples coisa aos cristãos da cidade de Corinto, mas cheia de Sabedoria: Deus tem com o filho que O ama muito especial relação: "... se alguém ama a Deus, esse é conhecido por Ele." 1 Cor 8,3
    Por isso, ressaltando o valor da perseverança para que vençamos a insensibilidade, a inconstância e a faltosa consciência, Jesus recomendou-nos em ensinamentos finais: "Se guardardes Meus Mandamentos, permanecereis em Meu amor, como Eu também guardei os Mandamentos de Meu Pai e permaneço em Seu amor." Jo 15,10
    Não por acaso, São João Apóstolo testificou Seu amor e perseverança até os últimos momentos: "Antes da festa da Páscoa, Jesus sabia que Sua hora tinha chegado, a hora de passar deste mundo para o Pai. Ele, que tinha amado os Seus que estavam no mundo, até o extremo amou-os." Jo 13,1
    Contudo, ciente de nossas fraquezas, Ele rezou ao Pai para que Seu amor, que é amor de Salvação, em nós permanecesse pela força de Seu Ministério. É a Oração da Unidade, proferida pouco antes de partirem para o Horto das Oliveiras, onde Ele seria preso: "Manifestei-lhes Teu Nome, e ainda hei de manifestá-lhO, para que o amor com que Me amaste neles esteja..." Jo 17,26
    Também Lhe pediu, pela Glória derramada sobre os Apóstolos, enquanto primícias da Santa Igreja Católica, que esta Unidade, tal qual a da Santíssima Trindade, fosse a prova do Advento e de Seu amor pelos fiéis: "Dei-lhes a Glória que Me deste, para que sejam Um como Nós somos Um: Eu neles e Tu em Mim. Para que sejam perfeitos na Unidade, e o mundo reconheça que Me enviaste e os amaste, como amaste a Mim." Jo 17,22-23
    Mas também havia deixado claro que não podemos ser amados por Deus se não amarmos a Ele, Seu Filho: "Pois o próprio Pai vos ama, porque vós Me amastes e crestes que saí de Deus." Jo 16,27
    Pois não se pode honrar a Deus se não se honra Cristo, como Ele disse aos religiosos de Jerusalém que O recriminaram por curar o aleijado num dia de sábado: "Desse modo, todos honrarão o Filho, bem como honram o Pai. Aquele que não honra o Filho, não honra o Pai, que O enviou." Jo 5,23
    E a Carta de São Paulo aos Romanos, invocando o Pentecostes, dia do nascimento da Igreja Católica, atesta Quem é o imprescindível Doador para que verdadeiramente amemos com o mais puro amor: "... o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado." Rm 5,5b
    Bem sabe Quem nos motiva, como está na Carta de São Paulo aos Colossenses, dizendo de seu colaborador, Epafras: "Foi ele que nos informou do amor com que o Espírito vos anima." Cl 1,8
    E na Carta de São Paulo aos Efésios, ele reza: "... que poderosamente sejais robustecidos por Seu Espírito em vista do crescimento de vosso homem interior. Que Cristo habite pela fé em vossos corações, arraigados e consolidados no amor, a fim de que possais, com todos cristãos, compreender qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, isto é, conhecer o amor de Cristo, que desafia todo conhecimento..." Ef 3,16-19
    Dizia-se mesmo diante de um inarredável exemplo, como lemos na Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios: "Pois o amor de Cristo nos constrange..." 2 Cor 5,14a
    Demonstrava, de toda forma, ter alcançado esse amor: "Não vos serei oneroso, porque não busco vossos bens, mas sim a vós mesmos. Com efeito, não são os filhos que devem entesourar para os pais, mas os pais para os filhos. De muito boa vontade darei o que é meu, e dar-me-ei a mim mesmo por vossas almas, ainda que, mais vos amando, menos por vós seja amado." 2 Cor 12,14b-15
    Devemos, portanto, retribuir o amor de Deus com grandeza de espírito, como a Segunda Carta de São Paulo a São Timóteo, logo no início, diz do Santo Paráclito: "Pois Deus não nos deu um espírito de covardia, mas de força, de amor e de moderação." 2 Tm 1,7
    Porém se errarmos, sabemos que há esperança, porque firmando a promessa da Nova Aliança, Deus disse através de Isaías ao povo de Israel: "'Mesmo que as montanhas oscilassem e as colinas se abalassem, jamais Meu amor te abandonará e jamais Meu pacto de Paz vacilará,' diz o Senhor, que Se compadeceu de ti." Is 54,9-10
    E para nossa Salvação, Jesus deixou a Santa Igreja, que deve ser Nossa Casa, onde somos purificados de nossas faltas, seja pela Santa Missa, dos pecados veniais, seja pelo Sacramento da Confissão, dos demais pecados. Das revelações que recebeu de Jesus, o Amado Discípulo, em seus últimos anos, rende graças "Àquele que nos ama, que nos lavou de nossos pecados em Seu Sangue e que de nós fez um Reino de Sacerdotes para Deus e Seu Pai, Glória e poder pelos séculos dos séculos! Amém." Ap 1,5b-6
    Pois, de fato, Deus é movido por Seu amor, como São Paulo afirma: "... Deus, que é rico em Misericórdia, impulsionado pelo grande amor com que nos amou..." Ef 2,4
    E São João Evangelista, falando pelos cristãos de então, atesta que Seu amor realmente é veraz: "E nós, que cremos, reconhecemos o amor que Deus tem para conosco." 1 Jo 4,16
    Ele explica tal amor, assim como nossa Redenção, com essas palavras: "Assim foi que o amor de Deus se manifestou entre nós: Deus enviou Seu Único Filho ao mundo, para que por meio d'Ele tenhamos a Vida. Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou Seu Filho como oferenda de expiação por nossos pecados. Caríssimos, se Deus assim nos amou, nós também devemos amar-nos uns aos outros." 1 Jo 4,9-11
    São Paulo diz algo muito parecido: "Mas eis aqui uma brilhante prova de amor de Deus por nós: quando ainda éramos pecadores, Cristo morreu por nós. Se, quando ainda éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de Seu Filho, com muito mais razão, estando já reconciliados, seremos salvos por Sua Vida." Rm 5,8-10
    E cheio de fé, citando três ordens de anjos, arremata: "Pois estou persuadido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem as alturas, nem os abismos, nem qualquer outra criatura poderá apartar-nos do amor que Deus nos testemunha em Cristo Jesus, Nosso Senhor." Rm 8,38-39
    Expunha-se, de verdade, a todos obstáculos, mesmo os mais perigosos, fazendo lembrar um Salmo: "Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada? Realmente, está escrito: 'Por amor a Ti somos entregues à morte o dia inteiro, somos tratados como gado destinado ao matadouro (Sl 43,23).' Mas, em todas essas coisas, somos mais que vencedores pela virtude d'Aquele que nos amou." Rm 8,35-37
    Por isso, na Segunda Carta de São Paulo aos Tessalonicenses, ele deseja-nos as maiores bençãos: "Que o Senhor dirija vossos corações para Seu amor e para paciência de Cristo." 2 Ts 3,5
    E a Carta de São Judas, de olhos na eternidade, recomenda que perseveremos neste que é o maior dos divinos dons: "Conservai-vos no amor de Deus, aguardando a Misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo, para a Vida Eterna." Jd 21
    Mas cabe a pergunta: como poderíamos perseverar no amor de Deus? São João Apóstolo dá-nos uma breve, simples, mas preciosa sugestão: "Não ameis o mundo nem as coisas do mundo. Se alguém ama o mundo, nele não está o amor do Pai." 1 Jo 2,15
    Também diz: "Quem possuir bens deste mundo e vir seu irmão sofrer necessidade, mas fechar-lhe seu coração, como pode estar nele o amor de Deus?" 1 Jo 3,17
    Ora, como Jesus invocaria (cf. Mc 12,31), o Pai, em nome de Seu amor, desde o Livro de Levítico já nos havia recomendado: "Amarás teu próximo como a ti mesmo." Lv 19,18
    Portanto, há muito temos da parte de Deus essa determinação. E é pela obediência a todos Seus Mandamentos (cf. Mt 28,20) que perceberemos as benesses de Seu amor em nossas vidas, como São João diz: "Aquele, porém, que guarda Sua Palavra, n'Ele o amor de Deus é verdadeiramente perfeito." 1 Jo 2,5
    Por fim, numa síntese ainda mais concisa, ele registra: "Eis o amor a Deus: que guardemos Seus Mandamentos." 1 Jo 5,3
    E enternecido pela Adoção que recebemos do Espírito Santo (cf. Rm 8,15), exclama: "Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: sermos chamados filhos de Deus! E, de fato, nós somos! Por isso, o mundo não nos conhece, porque não O conheceu." 1 Jo 3,1
    É pela beleza e profundidade de frases como essas que uma exortação de São Paulo se tornou a saudação de acolhida na Santa Missa: "A Graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a Comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós!" 2 Cor 13,13
    E, por isso, o Eclesiástico recomenda com pertinência: "... ama a Deus durante toda tua vida, e invoca-O para tua Salvação." Eclo 13,18

    "Por amor, enviaste-nos Vosso Filho!"

sábado, 25 de outubro de 2025

Santo Antônio Galvão


    A primeira pessoa nascida no Brasil a ser canonizada era de rica família, e aos 13 anos, por suas evidentes inclinações religiosas, foi mandado para o Colégio de Belém, um seminário jesuíta em Cachoeira, no Recôncavo Bahiano, onde já estudava seu irmão José, e cuja igreja foi concluída em 1686. Aí nosso Santo já era exemplo de religiosidade e obediência.


    Nascido a 10 de maio de 1739, em Guaratinguetá, no vale do rio Paraíba do Sul, estado de São Paulo, seu pai, Antônio Galvão, português, era comerciante e capitão-mor da localidade, e sua mãe, Isabel Leite de Barros, de família de ricos bandeirantes, ambos muito religiosos.
    Antônio Galvão de França queria ser Sacerdote jesuíta, mas com a perseguição à Companhia de Jesus, por ser contrária à escravidão, o que culminaria em sua extinção no Brasil no ano de 1759, deixou o Colégio antes de seu completo fechamento em 1760, a conselho de seu pai, que era um generoso membro da Ordem Terceira de São Francisco, e voltou para casa. Por sua inteligência e prestígio da família, poderia ter seguido com sucesso qualquer carreira. Sua alma, porém, já tinha uma forte convicção: em 1760, aos 21 anos, entrou para a Ordem dos Frades Menores no Convento de São Boaventura de Macacu, em Itaboraí, estado de Rio de Janeiro, hoje em ruínas, onde adotou o nome de Antônio de Sant'Anna Galvão, em homenagem à Santa mãe de Nossa Senhora, que tinha a grande devoção de sua família.


    Professou votos em 1761, e no seguinte ano foi ordenado Sacerdote na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, no Convento de Santo Antonio do Largo da Carioca, de onde seguiu para o Convento de São Francisco, ao Pateo do Collegio, no centro da cidade de São Paulo, estudar Filosofia. Na viagem passou por Guaratinguetá, onde celebrou sua primeira Santa Missa, para grande alegria de sua família e de toda comunidade.
    Com o próprio sangue, assinou sua consagração como 'servo e escravo' da Santíssima Virgem, especificamente para ser um 'imaculista', defensor da Imaculada Conceição de Maria, como muitos franciscanos faziam à época. Em 1768 foi escolhido como pregador, confessor e 'porteiro', espécie de reitor, e logo o Senado da cidade de São Paulo, hoje equivalente à Câmara de Vereadores, o declarou 'novo esplendor do Convento', e em 1798 unanimemente homenageou-o como 'homem de Paz e caridade'. Ainda em 1770, foi convidado a fazer parte da Academia Paulista de Letras, em reconhecimento de seus dons para a poesia, que exclusivamente empregava para assuntos de , muitas delas em louvor à Senhora Sant'Anna. Escrevia-as em latim, e também compunha hinos e odes.
    Desde 1769 era o confessor das religiosas do Recolhimento de Santa Teresa, carmelitanas descalças, onde conheceu a irmã Helena Maria do Espírito Santo, uma piedosa freira que tinha visões e recebia mensagens de Jesus. Prudente, Frei Galvão estudou as mensagens com a ajuda de outros religiosos e, reconhecendo a autenticidade, ajudou a freira a fundar outro Recolhimento, como Nosso Salvador pedia, ao qual foi dado o nome de Convento de Nossa Senhora da Concepção da Luz.


    Esse mosteiro, iniciado em 1774, foi erguido a partir de uma capela quinhentista e tornou-se a primeira grande obra da vida de Santo Antônio Galvão, pois a irmã Helena morreu havia apenas um ano do início da construção. Era o abrigo para um novo carisma, a Ordem da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria, também chamada de Ordem das Irmãs Concepcionistas, cujo estatuto foi escrito por ele mesmo.
    Aí nosso Santo também se revelou excelente arquiteto, concebendo e executando todo projeto, e sempre que podia igualmente assumia os trabalhos de pedreiro e pintor.
    No seguinte ano, o governo da província retirou a autorização para a nova casa, o que Frei Galvão obedientemente acatou. Mas as freiras resistiram e, com o apoio da população, as obras foram novamente autorizadas.


    Em 1176, nosso Santo foi designado pelo Prelado Provincial como Comissário Visitador, isto é, dirigente máximo para assuntos eclesiásticos da Ordem Terceira Franciscana, feita de leigos e leigas. Aí lhe cabia ministrar sermões, práticas regulares, exercícios espirituais e presidir profissões de fé de irmãos e irmãs. Em 1779 foi reconduzido, agora pelo voto provincial e de religiosos.
    Em 1781, foi nomeado Mestre dos Noviços do Convento de Macacu, mas os apelos das irmãs, do bispo e das autoridades de São Paulo logo o trouxeram de volta. O Senado de São Paulo registrou este apelo: "... os moradores desta cidade não poderão suportar por um único momento a ausência do dito religioso que, por seus costumes e exemplaríssima vida serve de honra e consolação a seus irmãos e a todo o povo da Capitania."
    Pouco mais tarde, por duas vezes vai ser eleito pelo Governo Provincial como Guardião do Convento de São Francisco, do centro de São Paulo, e em seguida recebe o 'privilégio de Definidor', ou seja, é feito Conselheiro Provincial com a permissão para não precisar ausentar-se de São Paulo, pois o Governo Provincial ficava na capital de Rio de Janeiro.
    Em 1807, foi nomeado Visitador Geral e Presidente do Capítulo Provincial da Ordem Franciscana, mas humildemente pediu renuncia de ambos encargos alegando circunstanciais motivos de saúde.
    Em missionária viagem no ano de 1808, pois foi eleito Visitador dos Conventos do Sul, ele iniciou a devoção a Nossa Senhora das Barracas, depois chamada das Brotas, na cidade de Piraí do Sul, estado de Paraná, ao doar a uma moradora uma imagem da Santíssima Virgem, que mais tarde se revelou milagrosa e mereceu, pela devoção popular, a construção de um santuário.


    Em 1811, fundou o Convento de Santa Clara, em Sorocaba, interior de São Paulo, onde intensamente e de todas as formas trabalhou na construção por onze meses, sua segunda grande obra.


    Em seguida retornou à capital, e ficava mais no Mosteiro da Luz que no Convento de Santo Antonio, onde os frades moravam.
    Como desde sempre era muito procurado pelos aflitos, pois todos facilmente percebiam sua santidade, numa ocasião, sem poder atender a um distante chamado, pediu que entregassem ao enfermo um pedaço de papel com uma frase do Ofício de Nossa Senhora: "Após o parto, permaneceste virgem: 'Ó Mãe de Deus, intercedei por nós.'" Recomendou que o pedaço de papel fosse engolido com água, como remédio. Era um jovem com fortes cólicas, mas as dores foram imediatamente aliviadas e ele expeliu uma grande quantidade de cálculos renais. Detalhe: os comprimidos medicinais ainda não existiam.
    Em outro caso, um senhor pediu-lhe, desesperado, que fosse em socorro de sua esposa, pois passava por um difícil parto. Também sem poder ir ao local, mais uma vez Frei Galvão recorreu à 'pilula' e, logo que ingerida, a mãe e a criança foram salvas. Como era muito conhecido, e dele já se esperava milagres, toda gente adotou essa devoção e Frei Galvão teve que atribuir às freiras a confecção das 'pílulas' para atender à grande procura.
    Além do dom de curar, que em vida já lhe era amplamente reconhecido, a ele ainda são atribuídos outros místicos fenômenos como discernimento de espírito, profecia, levitação e bilocação. Mas o que chamava mais atenção era que todos, absolutamente todos experimentavam uma indizível Paz a sua volta.
    Eram seus pensamentos:

    "Não temas que a vida tenha fim, teme que ela nunca tenha começado."
    "Fiel à Divina Graça, que alimentemos viva consciência de nosso nada e nos deixemos atrair pelo tudo da Cruz."
    "Nenhuma dor é maior que o consolo oferecido por Deus."
    "Mesmo nas mais escuras noites, a Luz de Deus brilha através de nós."
    "Nos momentos de desespero, lembra-te de que Deus está sempre a teu lado."
    "Quando Deus nos chama a servir, Ele dá-nos a força para perseverar."
    "completa entrega a Deus é o segredo da verdadeira felicidade."
    "Deus diariamente convida-nos a sermos mensageiros de Paz e esperança."
    "Deus está presente nas pequenas coisas e nos pequenos gestos."
    "Sabei que, ao observar a virtude da obediência, ninguém erra em obedecer, pois ainda que os superiores e confessores errem no que ordenam, o súdito sempre acerta em obedecer."
    "A caridade é mansa e benigna. Quem tem essa virtude não se afasta facilmente, não julga mal, nem se perturba por qualquer causa, e é muito capaz de sossegar e compor os ânimos e gênios mais descontrolados."
    "Em cada ato de caridade, encontramos a presença de Deus."
    "A caridade é o mais belo caminho para a Graça de Deus."
    "A caridade é a linguagem que o coração de Deus entende."
    "Cada ato de bondade é uma semente plantada no jardim do Céu."
    "O serviço desinteressado é o verdadeiro amor em ação."
    "O verdadeiro amor não espera nada em troca."
    "O verdadeiro amor ao próximo é a maior forma de gratidão a Deus."
    "Cada ato de amor ao próximo é um passo em direção ao coração de Deus."
    "O amor é o maior remédio para qualquer dor."
    "O caminho da santidade é pavimentado com pequenos gestos de amor."
    "compaixão é o reflexo da alma que ama a Deus."
    "A verdadeira riqueza está no coração, não no bolso."
    "A simplicidade é o caminho para o coração de Deus."
    "Onde há esperança, há um milagre à espera de acontecer."
    "O mais bonito milagre é aquele que acontece no coração."
    "A fé move montanhas e cura corações."
    "O silêncio é uma prece que só o coração entende."
    "A virtude do silêncio tem muito valor, porque pela boca se peca e difícil é falar sem errar. É pela língua que mais se peca, e muitas vezes com uma só palavra se pode cometer grave culpa. Facilmente poderá entrar a murmuração e coisas que desagradam a Nosso Senhor.”
    "Quanto mais silêncio se guardar, menos perigo de pecar teremos. Haverá mais sossego e recolhimento na alma e mais gosto pela oração."
    "Deus ouve até mesmo as mais silenciosas orações."
    "A oração é o alimento da alma."
    "A oração é a chave que abre as portas da divina Misericórdia."
    "Deixa que tua vida seja um testemunho do amor e da Misericórdia de Deus."
    "A humildade aproxima-nos do Céu."
    "Viver com humildade é aceitar que somos apenas instrumentos da divina bondade."
    "O serviço aos pobres é um serviço a Deus."
    "Em cada sorriso dos necessitados, vemos o rosto de Cristo."
    "Que a Paz de Deus preencha nossos corações e mentes."
    "Que nossa fé seja o farol que nos guia através das tempestades."
    "Que nossa fé sempre seja maior que nossos desafios."
    "Peço-Vos pela Paixão, Morte e Chagas de Vosso Filho, por Vossa pureza e Conceição Imaculada."
    "Tirai-me antes a vida que ofender Vosso Bendito Filho, Meu Senhor."

    Morreu em 1822 com socorro dos Sacramentos e assistido pelo Guardião do Convento de São Francisco, e seu velório foi acompanhado por uma grande multidão. Como muitas pessoas queriam um pedaço de seu hábito como relíquia, de tanto cortarem, logo a veste só lhe chegava à altura dos joelhos. Os frades quiseram reparar-lhe a 'desfeita'. No entanto, como não tinha outro hábito, tão humilde que Frei Galvão era, vestiram-lhe o hábito de um confrade. Por ser muito alto, porém, o outro hábito também só lhe cobriu até os joelhos. Assim o carinho do povo de fé acabou mesmo determinando o tamanho de sua última veste.
    Algo parecido aconteceria com a primeira lápide de seu túmulo, que os peregrinos quebravam para colocar os pedaços em água, que bebiam como remédio para tudo.


    O Papa Bento XVI, em homenagem à maior nação católica, canonizou-o em Brasil durante viagem apostólica, sua única canonização fora do Vaticano. É o Padroeiro das grávidas, dos pedreiros, pintores, arquitetos, engenheiros civis e da construção civil em Brasil.
    O Mosteiro da Luz, em cuja capela o sepultaram, foi tombado como Patrimônio Cultural da Humanidade, e na ala esquerda do térreo, antiga casa do capelão, funciona o Museu de Arte Sacra de São Paulo.


    Santo Antônio Galvão, rogai por nós!