terça-feira, 21 de outubro de 2025

O Purgatório


    Como deve ser bastante óbvio, não se pode chegar aos Céus sem uma completa purificação da alma. Foi o que os seguidores da tradição de São Paulo apontaram, ao falar do necessário processo de santificação na Carta aos Hebreus: "Procurai a Paz com todos e ao mesmo tempo a santidade, sem a qual ninguém pode ver o Senhor." Hb 12,14
    Isso já era da cogitação do rei Davi no Livro de Salmos, ainda que se referindo ao Monte Sião, para onde levou a Arca da Aliança: "Quem será digno de subir ao monte do Senhor? Ou de permanecer em Seu santo lugar? Aquele que tem as mãos limpas e o coração puro, cujo espírito não busca as vaidades nem perjura para enganar seu próximo. Este terá a bênção do Senhor, e a recompensa de Deus, Seu Salvador. Tal é a geração daqueles que O procuram, daqueles que buscam a face do Deus de Jacó." Sl 23,3-6
    Por isso, ele só via a verdadeira felicidade na ação da Divina Misericórdia, que em geral se dá mediante o arrependimento: "Feliz aquele cuja iniquidade foi perdoada, cujo pecado foi absolvido." Sl 31,1
    A Segunda Carta de São Pedro também fala de como podemos participar das coisas de Deus, dentre elas certamente os Céus: "... a fim de tornar-vos, por este meio, participantes da natureza divina, subtraindo-vos à corrupção que a concupiscência gerou no mundo." 2 Pd 1,4b
    Pois, a Primeira Carta de São Pedro já havia afirmado que no Reino de Deus não há lugar para impureza alguma, porque em Cristo renascemos "... para uma incorruptível, incontaminável e imarcescível herança, reservada para vós nos Céus..." 1 Pd 1,4
    E essa deve ser nossa condição já aqui na Terra, para bem participarmos das celebrações da Igreja Católica Apostólica Romana, como receber o Santíssimo Sacramento na Santa Missa. Dizem os discípulos de São Paulo: "E dado que temos um Sumo-Sacerdote estabelecido sobre a Casa de Deus, acheguemos-nos a Ele com sincero coração, com plena firmeza da , o mais íntimo da alma isento de toda mácula de pecados, e o corpo lavado com a Purificadora Água do Batismo." Hb 10,21-22
    Para isso veio-nos o Salvador, como o sacerdote São Zacarias, pai de São João Batista, profetizou no Evangelho Segundo São Lucas: "... de conceder-nos que, sem temor, libertados de inimigas mãos, possamos servi-Lo com santidade e justiça em Sua presença, todos dias de nossa vida." Lc 1,73b-75
    Sem dúvida, os cristãos devem preservar e espelhar essa pureza, pois, conforme a Carta de São Paulo ao Efésios, "... Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela, para a santificar, purificando-a pela Água do Batismo com a Palavra, para a Si mesmo a apresentar toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito, mas santa e irrepreensível." Ef 5,25b-27
    Isso significa estar em perfeita Comunhão com tudo que Jesus determinou (cf. Mt 28,20), pois só por Ele chegamos a Deus. Não por acaso, Ele peremptoriamente firmou após a Santa Ceia, como lemos no Evangelho Segundo São João: "Ninguém vem ao Pai senão por Mim." Jo 14,6b
    Embora mencionando apenas o valor da fé, porque ninguém pode revogar os Sacramentos instituídos pelo próprio Jesus, o Apóstolo dos Gentios diz da importância de Seus divinos ensinamentos para termos acesso ao Pai: "Em Cristo, pela fé que n'Ele temos, conseguimos plena liberdade de confiantemente aproximarmo-nos de Deus." Ef 3,12
    Pois, logo após a morte se segue o Juízo Particular, como seus seguidores asseveraram: "Como está determinado que os homens morram uma só vez, e logo em seguida vem o Juízo..." Hb 9,27
    E conforme a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, aqueles que, mesmo tendo conduzido suas vidas segundo a Doutrina de Nosso Senhor, não alcançarem a imediata Redenção, serão purificados por um fogo devorador: "Agora, se alguém edifica sobre este fundamento (Cristo), com ouro, ou com prata, ou com preciosas pedras, com madeira, ou com feno, ou com palha, a obra de cada um aparecerá. O Dia do Juízo demonstrá-lo-á. Será descoberto pelo fogo. O fogo provará o que vale o trabalho de cada um. Se a construção resistir, o construtor receberá a recompensa. Se pegar fogo, arcará com os danos. Ele será salvo, porém de alguma maneira passando através do fogo." 1 Cor 3,12-16
    O Príncipe dos Apóstolos também afirma que nossa boa obra passa por uma prova, e compara-a ao fogo: "É isto que constitui vossa alegria, apesar das passageiras aflições que por diversas provações ainda vos são causadas, para que a prova a que é submetida vossa fé, mais preciosa que o perecível ouro, o qual não deixamos de provar ao fogo, redunde para vosso louvor, vossa honra e vossa Gloria quando Jesus Cristo Se manifestar." 1 Pd 1,6-7
    Ora, ao falar do imorredouro 'verme' do pecado, contra o qual exige radicais mudanças, Jesus mesmo havia dito do processo da Salvação, aqui na Terra ou no Purgatório. Está no Evangelho Segundo São Marcos: "Porque todo homem será salgado pelo fogo." Mc 9,46
    Com efeito, como São João Batista anunciou, Jesus veio para nos batizar com o Espírito Santo e com fogo. Ou seja, haveremos de ser 'salgados', de qualquer maneira passar pelo fogo purificador, vale dizer, pela cruz de todo cristão, mesmo que seja apenas na vida terrena como acontece com os Santos, que aqui alcançam a plena santificação. É leitura do Evangelho Segundo São Mateus: "Eu batizo-vos com água, em sinal de penitência, mas Aquele que virá depois de mim é mais poderoso que eu, e não sou digno sequer de tirá-Lhe as sandálias. Ele batizá-vos-á no Espírito Santo e em fogo." Mt 3,11
    Tal fogo, pois, já está em ação nesse mundo para com aqueles que confessam e buscam a completa purificação de suas faltas. Assim se lê no Livro do Profeta Isaías: "'Ai de mim', gritava eu. 'Estou perdido porque sou um homem de impuros lábios, e habito com um povo também de impuros lábios, entretanto meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos!' Porém, um dos serafins voou em minha direção, na mão trazendo uma brasa viva que com uma tenaz tinha tomado do Altar. Aplicou-a em minha boca e disse: 'Tendo esta brasa tocado teus lábios, teu pecado foi tirado, e tua falta, apagada.'" Is 6,5-7
    E o mesmo dar-se-á com os sobreviventes da Grande Tribulação, como o Senhor disse no Livro do Profeta Zacarias, em profecia sobre a Paixão de Cristo: "'Espada, levanta-te contra Meu Pastor, contra Meu Companheiro, Oráculo do Senhor dos Exércitos. Fere o Pastor, que as ovelhas sejam dispersas. Voltarei Minha mão até mesmo contra os pequenos. Em toda Terra, Oráculo do Senhor, dois terços dos habitantes serão exterminados e um terço subsistirá. Mas este terço farei passar pelo fogo. Purificá-lo-ei como se purifica a prata, prová-lo-ei como se prova o ouro. Então ele invocará Meu Nome, Eu ouvi-lo-ei e direi: 'Este é Meu povo'; e ele responderá: 'O Senhor é Meu Deus.'" Zc 13,7-9
    O Livro do Profeta Malaquias diz da mesma sequência de acontecimentos, quando profetizou a purificação que Jesus faz, através de Sua Palavra, para edificar Seu Reino de Sacerdotes: "Porque Ele é como o fogo do fundidor, como a lixívia dos lavadeiros. Sentar-Se-á para fundir e purificar a prata. Purificará os filhos de Levi e refiná-los-á, como se refinam o ouro e a prata. Então eles serão para o Senhor aqueles que apresentarão as ofertas como convêm." Ml 3,2b-3
    O levita Asaf, enfim, também falou em fogo ao referir-se ao Dia em que Deus Se pronunciará a respeito de nossos pecados: "... Nosso Deus vem vindo e não Se calará. Um abrasador fogo precede-O... Do alto Ele convoca os Céus e a Terra para julgar Seu povo: 'Escutai, ó Meu povo, que Eu vou falar. Israel, vou testemunhar contra ti. Deus, Teu Deus, sou Eu. Por que recitas Meus Mandamentos e tens na boca as palavras de Minha Aliança? Tu que aborreces Meus ensinamentos e rejeitas Minhas palavras?'" Sl 49,3a.4.7.16b-17
    Mas há muito, desde o Livro de Deuteronômio, temos outra sentença de Deus, proferida depois do anúncio do Advento, que indica até onde vai Seu fogo purificador. Eis o Purgatório: "O fogo de Minha ira está a arder, e vai queimar até à mansão dos mortos..." Dt 32,22
    Purificação essa que também se vislumbrava no Livro de Sabedoria: "Mas as almas dos justos estão na mão de Deus, e nenhum tormento os tocará. Aparentemente estão mortos, aos olhos dos insensatos. Seu desenlace é julgado como uma desgraça e sua morte como uma destruição, quando na verdade estão na Paz! Se aos olhos dos homens suportaram uma correção, a esperança deles era portadora de imortalidade, e por terem sofrido um pouco, receberão grandes bens, porque Deus, que os provou, os achou dignos de Si. Ele provou-os como ouro na fornalha, e acolheu-os como holocausto." Sb 3,1-6
    E a Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios fez várias menções ao Purgatório, claramente percebidas nas entrelinhas. Nesta, por exemplo, ele fala da Comunhão dos Santos, que inclui as almas que lá estão em penitência. De fato, quem já está no Céu não mais precisa empenhar-se, e quem foi para o inferno já está condenado: "Por isso, também nos empenhamos em ser agradáveis a Ele, quer estejamos no corpo, quer já tenhamos deixado esta morada." 2 Cor 5,9
    A Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses fez outra menção usando o termo 'sono', ao ainda mais explicitamente falar dessa Comunhão: "Ele morreu por nós, a fim de que nós, quer em estado de vigília, quer de sono, vivamos em união com Ele." 1 Ts 5,10
    Ele dava essa simples porém muito sensata explicação, referindo-se à Confissão e à necessária purificação de nossas almas: "Se nos examinássemos a nós mesmos, não seríamos julgados. Mas, sendo julgados pelo Senhor, Ele castiga-nos para não sermos condenados com o mundo." 1 Cor 11,31-32
    Afirmativamente, havia dois séculos que o Purgatório era uma cogitação teológica recorrente entre o povo judeu, como vemos no Segundo Livro de Macabeus. Diz de Judas Macabeus, o líder judeu que pôs fim a dominação dos gregos em Israel: "Mas se ele acreditava que uma bela recompensa aguarda os que piedosamente morrem, esse era um bom e religioso pensamento. Eis porque ele pediu um expiatório sacrifício: para que os mortos fossem livres de suas faltas." 2 Mc 12,45-46
    Porque, pela mesma razão, o Livro de Eclesiástico rezava pelo fiel: "Que tua generosidade atinja todos viventes, mesmo aos mortos não recuses tua piedade." Eclo 7,33
    E este sagrado autor claramente fala pela Sabedoria, que é o próprio Deus, dizendo daqueles que 'dormem' e do Juízo Final: "Penetrarei em todas profundezas da Terra, visitarei todos aqueles que dormem e alumiarei todos que confiam no Senhor. Continuarei a espalhar Minha Doutrina como uma profecia, deixá-la-ei àqueles que buscam a Sabedoria e não abandonarei seus descendentes até o Santo Século." Eclo 24,45-46


UM 'LUGAR' ESPIRITUAL DE EXPIAÇÃO

    E embora ao tempo de Rute, uma estrangeira que se converteu ao Deus de Israel, ainda não houvesse uma mais evidente noção, a ideia da Misericórdia de Deus também para com os que já estavam mortos não era estranha. Repete-se o argumento: se houvesse apenas Céu e inferno como destinos após a morte, Deus não teria porque Se compadecer dos mortos, pois, depois do Juízo Particular (cf. Hb 9,27), ou eles já estariam prontamente redimidos ou irreversivelmente condenados. Mas está no Livro de Rute: "Noemi disse à nora (Rute): 'Que ele (Booz) seja abençoado por Javé, que não deixa de ter Misericórdia dos vivos e dos mortos.'" Rt 2,20
    O grande Profeta Isaías, mais especificamente, fala de uma temporária prisão: "Nesse Dia, Javé julgará no Céu o Exército do Céu, e na Terra, os reis da Terra. Eles serão reunidos como presos destinados à cova, serão encerrados na prisão, e só depois de muito tempo é que serão chamados às contas." Is 24,21-22
    E São Pedro semelhantemente disse de uma prisão, mas para revelar que Jesus a ela já Se dirigiu antes de Sua Ressurreição: "É neste mesmo Espírito que Ele foi pregar aos espíritos que estavam detidos no cárcere, àqueles que outrora, nos dias de Noé, tinham sido rebeldes, quando com paciência Deus aguardava enquanto se edificava a arca, na qual poucas pessoas, isto é, apenas oito se salvaram através da água." 1 Pd 3,19-20
    Também falando sobre os mortos, e claramente não Se referia às almas dos Santos, pois logo após Sua Ressurreição estariam com Ele no Céu (cf. Ap 20,6), o próprio Jesus afirmou: "Eu sou a Ressurreição e a Vida. Aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá." Jo 11,25
    E igualmente falou de uma prisão que pode suceder o Juízo Particular, que, como visto, se segue logo após a morte carnal, à qual Ele aludiu como a 'primeira morte' (cf. Ap 2,11). Essa prisão não pode ser o inferno, pois não é uma detenção definitiva, do contrário não haveria como sair dela. É o Purgatório, onde se paga tudo que se deve. Nosso Senhor recomendou no Sermão da Montanha, quando, mais que 'não matarás (cf. Êx 20,13)', pedia isenção de toda má palavra contra os irmãos e iniciativa nas reconciliações: "Sem demora, entra em acordo com teu adversário, enquanto com ele estás a caminho, para que não suceda que te entregue ao juiz, e o juiz te entregue a seu ministro e sejas posto em prisão. Em Verdade, digo-te: dali não sairás antes de pagares o último centavo." Mt 5,25-26
    Sem dúvida, um xingamento jamais poderia ser razão para a condenação eterna, mas sim, caso não haja o devido arrependimento, para o Purgatório. Contudo, Ele indicava que o fogo de lá é o mesmo do inferno: "Mas Eu digo-vos: todo aquele que se irar contra seu irmão será castigado pelos juízes. Aquele que disser a seu irmão: 'Idiota', será castigado pelo Grande Conselho. Aquele que lhe disser: 'Louco', será condenado ao fogo da geena." Mt 5,22
    Aliás, ao falar sobre a obrigação que temos de perdoar quem nos ofende, Ele repetiu-Se ao falar sobre a necessidade de quitar 'toda dívida'. É a parábola do insensato devedor: "O Senhor então o chamou e lhe disse: 'Mau servo, eu perdoei-te toda dívida porque Me suplicaste. Não devias tu também te compadecer de teu companheiro de serviço, como Eu tive piedade de ti?' E o Senhor, encolerizado, entregou-o aos algozes, até que pagasse toda sua dívida. Assim vos tratará Meu Pai Celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão, de todo seu coração." Mt 18,34-35
    E igualmente deixa claro que há duas possibilidades de perdão, em diferentes tempos. Ele referia-Se ao Juízo Particular e ao Juízo Final, afirmando que certos pecados, sem o necessário arrependimento, não terão perdão automático pela Divina Misericórdia: "Todo aquele que tiver falado contra o Filho do Homem será perdoado. Se, porém, falar contra o Espírito Santo, não alcançará perdão nem neste nem no vindouro século." Mt 12,32
    Ora, Nosso Salvador claramente apontou que há maiores e menores punições. E por repetida conclusão, estas só podem acontecer no Purgatório, pois no Céu não haverá punição alguma, e, no inferno, a punição será total, sem meio termo. No Purgatório, sim, conforme a gravidade dos pecados haverá as correspondentes e expiatórias punições, ou seja, as intermediárias punições: "Aquele servo que conheceu a vontade de Seu Senhor, mas não se preparou e não agiu conforme Sua vontade, será açoitado muitas vezes. Todavia, aquele que não a conheceu e tiver feito coisas dignas de chicotadas, será açoitado poucas vezes. Àquele a quem muito se deu, muito será pedido, e a quem muito se houver confiado, mais será reclamado." Lc 12,47-48
    Tal dosagem de punição também pode ser observada em Suas sentenças relativas às cidades onde realizou milagres, assim como na definitiva condenação de Cafarnaum, que pouco depois se cumpriu: "Depois Jesus começou a censurar as cidades, onde tinha feito grande número de Seus milagres, por terem recusado a arrepender-se: 'Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque se em Tiro e em Sidônia tivessem sido feitos os milagres que foram feitos em vosso meio, há muito tempo elas ter-se-iam arrependido sob o cilício e a cinza. Por isso, digo-vos: no Dia do Juízo haverá menor rigor para Tiro e para Sidônia que para vós! E tu, Cafarnaum, serás elevada até o Céu? Não! Serás atirada até o inferno! Porque se Sodoma tivesse visto os milagres que foram feitos dentro de teus muros, subsistiria até este dia. Por isso, digo-te: no Dia do Juízo, haverá menor rigor para Sodoma do que para ti!'" Mt 11,20-24
    De fato, Jesus deixou evidente que algumas punições seriam bem maiores, como asseverou em uma das sete maldições contra os falsos religiosos, na versão de São Mateus: "Ai de vós, hipócritas escribas e fariseus! Devorais as casas das viúvas, fingindo fazer longas orações. Por isso, sereis castigados com muito maior rigor." Mt 23,14
    Afirmação que por Ele foi repetida, agora apenas contra os escribas: "Eles receberão mais rigoroso castigo." Lc 20,47b
    A Carta de São Paulo aos Romanos até explicou, mencionando o Antigo Testamento, a condição das nações que não conhecem a vontade de Deus: "Todos aqueles que sem a Lei pecaram, sem aplicação da Lei perecerão. E aqueles que pecaram sob o regime da Lei, pela Lei serão julgados." Rm 2,12
    Não por acaso, a Carta de São Tiago, em espírito de verdadeira piedade e penitência, dava um sério conselho àqueles que se pretendem conhecedores da Palavra, dando exemplo ao fazer uma humilde Confissão: "Meus irmãos, entre vós não haja muitos a arvorar-se em mestres. Sabeis que seremos mais severamente julgados, porque todos nós caímos em muitos pontos." Tg 3,1-2a
    Assim como será com os apóstatas, segundo os seguidores de São Paulo: "Quanto pior castigo julgais que merece quem calcar aos pés o Filho de Deus, profanar o Sangue da Aliança, em que foi santificado, e ultrajar o Espírito Santo, Autor da Graça!" Hb 10,29
    Isso esclarece porque uns entrarão nos Céus antes de outros, a despeito da data de suas mortes. Lembrando aqueles que se arrependeram diante da manifestação de São João Batista, Jesus disse aos chefes dos sacerdotes e anciãos do povo: "Em Verdade, digo-vos: os cobradores de impostos e as prostitutas precedem-vos no Reino de Deus!" Mt 21,31
    Também explica a diferença entre os Santos, que já ressuscitaram e nos Céus estão reinando com Ele (cf. Ap 20,4), ou seja, que participam da Primeira Ressurreição, e aqueles que ainda estão purificando-se. O termo 'mil anos', empregado no Livro de Apocalipse de São João, significa um perfeito, completo período, o tempo para a total purificação da alma: "Os outros mortos não tornaram à vida até que se completassem os mil anos. Esta é a Primeira Ressurreição. Feliz e Santo é aquele que toma parte na Primeira Ressurreição!" Ap 20,5-6a
    Sim, os Santos são os vencedores, já não estão expostos à segunda morte, que dizer, ao inferno. Jesus, recomendando a todos cristãos que não deixem de ouvir suas dioceses, ditou ao Amado Discípulo: "Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: 'O vencedor não sofrerá dano algum da segunda morte.'" Ap 2,11
    E se os Santos já chegaram ao Céu, isto é, suas almas, e as dos condenados no Juízo Particular seguem direto para o inferno, por que Jesus haveria de resgatar alguém da 'região dos mortos' senão após alguma purificação? No entanto, Ele disse: "Pois estive morto, e eis-Me de novo, vivo pelos séculos dos séculos. Tenho as chaves da morte e da região dos mortos." Ap 1,18
    Assim, após Sua passagem entre nós, entre as almas dos 'mortos' há duas condições: os que já foram condenados ao inferno e os que ainda não passaram pela Primeira Ressurreição, pois os 'vivos' já chegaram à Gloria dos Céus. E, desta forma, por que Jesus haveria de ser Senhor dos condenados? Seus 'mortos' são os que estão no Purgatório, como São Paulo diz: "Para isso é que Cristo morreu e retomou a Vida, para ser o Senhor tanto dos mortos como dos vivos." Rm 14,9
    E também fica claro porque, mesmo após a passagem por esse mundo, alguns, para avançar na purificação, embora com a saída já garantida, ainda terão que andar nas 'trevas'. São palavras de Nosso Senhor, que disse em Jerusalém a poucos dias de Sua Paixão: "Ainda por pouco tempo a Luz estará em vosso meio. Andai enquanto tendes a Luz, para que as trevas não vos surpreendam. Quem caminha nas trevas não sabe para onde vai. Enquanto tendes a Luz, crede na Luz, e assim vos tornareis filhos da Luz. Eu vim como Luz ao mundo. Assim, todo aquele que crer em Mim não ficará nas trevas." Jo 12,35-36.46
    Noutra passagem, quando voltou a Betânia para ressuscitar São Lázaro mesmo sob ameaça de morte pelos judeus (cf. Jo 5,18), Ele havia feito menção à oportunidade que representa a vida terrena, ou seja, esse período de Luz de que dispomos, assim como indicou o sofrimento que será andar nas trevas: "Não são doze as horas do dia? Quem caminha de dia não tropeça, porque vê a Luz deste mundo. Mas quem anda de noite tropeça, porque lhe falta a Luz." Jo 11,9-10
    E São Pedro, falando de uma condenação não definitiva, também registrou a descida de Jesus à mansão dos mortos, como vimos, que àquele tempo ainda não se distinguia muito bem entre Purgatório e inferno. Ou seja: dava-se aí uma intermediária punição: "Pois para isto o Evangelho também foi pregado aos mortos. Para que, embora sejam condenados em sua humanidade de carne, vivam segundo Deus quanto ao espírito." 1 Pd 4,6
    Porque o Vinda de Cristo representou a instalação do Perene Julgamento, Sua Palavra já é Seu veredito. Ele afirmou na Cidade Santa após o Domingo de Ramos: "Agora é o Juízo deste mundo! ... a Palavra que anunciei julgá-lo-á no Último Dia." Jo 12,31a.48b
    São João Apóstolo, de fato, registrou a oração dos 24 'Sacerdotes' no Céu (anjos!), que anunciava Seu Nascimento: "Irritaram-se os pagãos, mas eis que sobreveio Tua ira e o tempo de julgar os mortos, de dar a recompensa a Teus servos, aos Profetas, aos Santos, àqueles que temem Teu Nome..." Ap 11,18
    Por isso, é certo que para muitos já se deu a Primeira Ressurreição, e que um dia para todos se dará a Ressuscitarão da Carne, seja para a Vida Eterna, seja para a total punição. Jesus sentenciou ainda em Sua segunda festa em Jerusalém, após iniciar Sua vida pública: "Em Verdade, em Verdade, digo-vos: vem a hora, e já está aí, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus. E aqueles que a ouvirem viverão! Pois como o Pai tem a Vida em Si mesmo, também deu ao Filho ter a Vida em Si mesmo... Não fiqueis admirados com isso, pois vem a hora em que todos que estão nos túmulos ouvirão Sua voz, e sairão." Jo 5,25-26.28
    Contudo, não custa repetir, após a Ressurreição da Carne haverá apenas dois destinos, Céu e inferno, ainda segundo Ele: "... aqueles que praticaram o bem irão para a Ressurreição da Vida, e aqueles que praticaram o mal ressuscitarão para serem condenados." Jo 5,29
    Essa Ressurreição, aliás, já se deu, ainda que como esparsas amostras, como na 'Dormição de Nossa Senhora', e foi atestada por São Mateus ao fim de seu Evangelho: "Os sepulcros abriram-se e os corpos de muitos justos ressuscitaram. Saindo de suas sepulturas, entraram na Cidade Santa depois da Ressurreição de Jesus, e apareceram a muitas pessoas." Mt 27,52-53
    Por fim, sabemos que havia na nascente Igreja a prática de um batismo em favor dos mortos, do qual não se tem mais informação a não ser um rápido registro feito por São Paulo. Entretanto, considerando-se a salvífica natureza do Batismo pela purificação, que outro significado isso poderia ter? Evidentemente era mais uma forma de expiação pelos pecados dos mortos, uma súplica pela Salvação deles. Este Apóstolo argumentava perante os cristãos da cidade de Corinto: "De outra maneira, que intentam aqueles que se batizam em favor dos mortos? Se os mortos realmente não ressuscitam, por que se batizam por eles?" 1 Cor 15,29


A PROTEÇÃO DA SANTÍSSIMA MÃE DE DEUS E DA IGREJA CATÓLICA

    É da consciência dessa realidade espiritual, portanto, que vem a importância do Privilégio Sabatino, oferecido por Nossa Senhora do Carmo àqueles que usam o Escapulário, e da Comunhão Reparadora dos Primeiros Sábados, também prometida pela Santíssima Virgem, nas revelações da Aparição de Fátima. Caso sejamos condenados ao fogo purificador, o que é muito provável dado o mar de pecados em que se vive, Nossa Mãe Celestial garante pela primeira promessa resgatar-nos do Purgatório logo no primeiro sábado após nossa morte. E pela segunda, ela garante assistir-nos com todas salvíficas Graças já 'na hora de nossa morte', como rezamos na Ave Maria.
    E o próprio Jesus fez esta promessa a Nossa Mãe do Céu, num rogo que ela Lhe fez, onde vemos três fases do Purgatório. Consta no luminoso livro 'As profecias e revelações de Santa Brígida': "... a partir deste momento, aqueles que se encontram no maior dos castigos do Purgatório, passarão para a fase intermediaria, e aqueles que estejam na fase intermediaria, avançarão para a punição mais leve. Aqueles que estejam na punição mais leve, cruzarão para o descanso." (Livro I, Capítulo L)
    Também vemos aí a importância dos Sacramentos, notadamente a Santa Eucaristia, a Confissão e a Unção dos Enfermos, que, tomados em perfeita obediência aos ensinamentos de Cristo, plenamente nos reconciliam com Deus e asseguram imediato acesso à eternidade, à Primeira Ressurreição. Jesus mesmo assegurou diante dos judeus de Jerusalém, quando eles já procuravam matá-Lo: "Em Verdade, em Verdade, digo-vos: quem ouve Minha Palavra e crê n'Aquele que Me enviou, tem a Vida Eterna e não incorre na condenação, mas passou da morte para a Vida." Jo 5,24
    Disse-o outra vez, agora na margem do Mar de Galileia, aos judeus que O ouviam após a multiplicação dos pães e peixes, ao prometer o Pão do Céu: "Em Verdade, em Verdade, digo-vos: quem crê em Mim tem a Vida Eterna." Jo 6,47
    Dessa plena reconciliação que nos livra do Purgatório, e consequentemente do Juízo Final e do inferno, deixando-nos apenas à espera da Ressurreição da Carne, São João Evangelista escreveu, como acima visto em parte: "Feliz e Santo é aquele que toma parte na Primeira Ressurreição! Sobre eles, a segunda morte não tem poder, mas serão Sacerdotes de Deus e de Cristo: com Ele reinarão durante os mil anos." Ap 20,6

    "Lembrai-Vos, ó Pai, de Vossos filhos!"

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Santa Madalena de Nagasaki

 

    Três décadas depois do holocausto sofrido por São Paulo Miki e seus companheiros mártires, vendo que quase todo seu povo começava a abandonar a  por medo de morrer nas perseguições perpetradas pelo imperador japonês, Santa Madalena de Nagasaki, então aos 23 anos, apresentou-se diante dos juízes e confessou que era cristã.
    Ela nasceu numa vila perto da cidade de Nagasaki, no sudoeste de Japão, no ano de 1610, época em que sucessivos imperadores empreendiam violentas campanhas para exterminar o Catolicismo no país. A crueldade era recorrente, principalmente após o Édito de Expulsão dos Cristãos, do imperador Tokugawa Ieyasu, em 1614.
    Ele decretou que mesmo estrangeiros estavam proibidos de celebrar os Sacramentos, devendo imediatamente deixar o país, e que os japoneses que se renegassem a abandonar o Evangelho deveriam ou sair do país ou ser mortos.
    Esse decreto foi seguido a ferro e fogo por dois de seus sucessores, Hidetada e Yemitsu, que, de fato, quase extinguiram o Catolicismo no arquipélago.


    Santa Madalena de Nagasaki, portanto, foi testemunha ocular da morte de muitos cristãos. Ainda adolescente, viu seus próprios pais e irmãos serem arrastados para a tortura e o martírio. Ela serviu com tradutora para os Beatos mártires Frei Francisco de Jesus e Frei Vicente de Santo Antônio Simões, que em 1632, após evangelizar na clandestinidade, foram cruelmente queimados em fogo brando.
    Esses monges agostinianos haviam chegado a Nagasaki em 1624, e aí fundaram uma casa da Ordem Terceira de Santo Agostinho, ou seja, de leigos, para coordenar os projetos de catequização. Santa Madalena de Nagasaki logo se candidatou, mas também se deixou instruir pelo dominicano Beato Giordano de Santo Estevão Ansalone, inspirado missionário que falava muito bem japonês, e assim em pouco tempo ela se tornou modelo para os missionários.
    Andava pelas ruas mendigando em nome dos pobres, dos idosos e dos enfermos. Esforçava-se para os servir, confortar e oportunamente anunciar Jesus. Com autêntica fé e verdadeiro amor, levou ainda mais longe a Sã Doutrina, os ensinamentos da Santa Igreja Católica, e conseguiu converter muitas almas para Cristo.



    Mas em 1628, com a intensificação das perseguições em Nagasaki, Santa Madalena e todos cristãos da cidade tiveram que se refugiar em montanhas e cavernas, onde viviam e recebiam a consolação dos Beatos frades, Francisco e Vicente. Eram todos virtuosos, que renegavam a mundana vida e tinham fervoroso amor a Deus.
    Em 1632, porém, foram descobertos. Muitos terminaram decapitados, enquanto os dois frades eram mortos na fogueira com Frei Bartolomeu Guterres, Frei Gabriel, Jeronimo da Cruz e Antonio Ixida. Dois outros frades agostinianos, Frei Melchior de Santo Agostinho e Frei Martinho de São Nicolau, que haviam chegado a Japão no dia seguinte ao martírio de seus confrades, também foram presos e mortos pouco mais de dois meses depois, e da mesma maneira.
    O jesuíta São Francisco de Xavier, primeiro missionário a chegar ao arquipélago japonês, havia enfrentado grandes dificuldades para anunciar a Salvação nestas terras um século antes, pois não lograva obter permissão das autoridades e sofria forte oposição dos líderes religiosos locais. Conseguiu, contudo, plantar a boa semente em algumas almas.
    E assim, depois de São Paulo Miki e seus companheiros, agora eram Santa Madalena de Nagasaki e sua geração que resistiam à crueldade dos imperadores. Flagrada entre cristãos, mas dispensada pelos perseguidores, pois lhes pareceu absolutamente inofensiva, continuou vivendo nas montanhas ainda por mais dois anos, batizando crianças e convertidos, enquanto tentava consolar e animar seus compatriotas a persistirem junto a Jesus.


    Sem alarde, mas corajosamente, sempre ia à cidade ao encontro daqueles que, sob tortura, haviam renegado a fé. Afável, fez com que alguns deles se arrependessem e reconduziu-os à piedosa vida, mesmo que por meio de ocultas práticas de reunião para as orações. Mas com o tempo ela deu-se conta de que, pouco a pouco, muitos fiéis começavam a desistir antes mesmo de serem torturados.
    Ademais, em 4 de agosto de 1934, o missionário italiano Beato Giordano Ansalone foi preso e torturado por sete dias, quando testemunhou a decapitação de seu companheiro, Tomás de São Jacinto, e outros sessenta e nove cristãos. E em 18 de novembro ele mesmo seria executado em Nagasaki, pendurado de cabeça para baixo numa prancha. Antes disso, porém, em setembro de 1634 nossa Santa decidiu que havia chegado o momento de viver a plena dimensão de sua fé, dando o maior de todos testemunhos, e assim ajudar seus irmãos, de então e da posteridade, na Salvação de suas almas: usando um hábito agostiniano e conduzindo uma Bíblia, ela apresentou-se como cristã perante os juízes da cidade.


    A princípio, eles ficaram admirados com sua beleza, fidalguia e Sabedoria. E pela repercussão que se deu, não foram poucos os altos funcionários que vieram lhe conhecer e fazer proposta de casamento. Mas Santa Madalena queria mesmo unir-se a Cristo em Sua Paixão, e por não arredar pé do tribunal, fato que acabou chegando aos ouvidos das autoridades, foi presa e torturada na colina de Nishisaka, mesmo lugar onde São Paulo Miki e companheiros haviam sido martirizados em 1597. Amarrada pelos pés e pendurada de cabeça para baixo, eles afundaram-na num buraco para que renegasse Nosso Senhor. Contudo, apesar de sangrar pelos olhos, boca, nariz e ouvidos, mesmo depois de 13 dias, ela seguia cantando e louvando a Deus.
    Desenganados de sua aparente fragilidade, pois até então achavam que ela iria desistir, receberam ordem para a matar, e abruptamente jogaram-na de cabeça para baixo no fundo do buraco. E demostrando impressionante vigor físico, ainda assim ela não morreu. Contudo, naquela noite choveu muito, e nossa Santa afogou-se. Era 15 de outubro. Não satisfeitos, para que o povo não fizesse de seu túmulo um lugar de veneração, queimaram seu corpo e jogaram suas cinzas ao mar.
    Mas o teólogo e apologista Tertuliano, que viveu nos séculos II e III, havia percebido: "O sangue dos mártires é a semente dos cristãos." E foi exatamente o que se viu em Nagasaki, mesmo que na clandestinidade, e de ainda mais marcante modo nas manifestações após a explosão da bomba atômica sobre a cidade, que determinou o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945. Sinal desta resistência, pois, era a própria Catedral de Santa Maria, também conhecida como Catedral de Urakami, onde a principal imagem de Nossa Senhora, feita em madeira, miraculosamente não foi destruída com a explosão e o fogo que tudo devassou em seu interior. A igreja, como se vê abaixo, ficou em ruínas, mas os sobreviventes não a abandonaram. Sua reconstrução foi concluída ainda em 1959, mantendo o estilo francês. E mesmo com toda apostasia vista no mundo no século passado (cf. 2 Ts 2,3), a cidade ainda tem quase 70 mil perseverantes católicos!
    Ora, a Aparição de Nossa Senhora de Akita, no norte de Japão ao fim do século passado, certamente foi-lhes uma expressiva confirmação.
    Santa Madalena Nagasaki foi feita a Padroeira da Ordem Terceira dos Agostinianos Recoletos.


    Santa Madalena de Nagasaki, rogai por nós!