terça-feira, 30 de abril de 2024

A Inquisição


    Questionamentos e difamações dirigidas à Igreja Católica são simplesmente uma constante através dos séculos, e entre eles a Inquisição tornou-se peça de retórica, através da qual os mais raivosos, mentirosos e absurdos comentários são tagarelados como 'verdades históricas'. Não por acaso, esses ataques sempre partiram e ainda partem de pessoas que, de alguma forma, se sentiram contrariadas, ou mesmo acusadas pelos ensinamentos do Catolicismo. O que há, de fato, são fartos e consistentes registros, associados a meras e racionais deduções, que de modo cabal desmentem essas falácias.
    Para começar, a Igreja, à época, era sim uma poderosa instituição, especificamente sob o aspecto moral, e, em alguns momentos, mentora de campanhas militares, como as Cruzadas. Não por outra razão, porém, senão porque não havia na Europa, nem em nenhum lugar do mundo, uma organização tão vastamente conhecida e respeitada, pois era mesmo a legítima representante de pensamentos, comportamentos e valores de uma imensa maioria de pessoas. E, diga-se de passagem, por mera questão de , pois o povo era católico praticante. Nenhuma religião, ou mesmo ideologia político-social, jamais havia cativado tão grande percentual da população. Como comparação, as igrejas ditas ortodoxas alcançavam cifras meramente residuais, e as diretrizes da fé islâmica nunca foram uniformes, centralizadas ou minimamente coordenadas em unanimidade. Aliás, desde os primeiros anos já se fazia evidente a radical e abrupta divisão entre sunitas e xiitas.


    No fim século XII, diante das ruidosas e turbulentas heresias dos cátaros e valdenses que convulsionavam a França, a Igreja viu-se obrigada a instituir o Tribunal do Santo Ofício, atual correspondente da Congregação para a Doutrina da Fé, como meio de atestar o que realmente se tratava de heresia ou não, e assim oferecer justos julgamentos a supostos sectários, pois até então findavam caindo ou nas mãos do povo, em revolta, ou eram julgados por seculares tribunais de exceção, nos quais não havia nem procedimentos preestabelecidos nem direito de defesa. A Igreja, portanto, tão somente seguia com sua missão de salvar almas, de toda forma tentando convencer os acusados de seus pecados, quando os tinham, e estimulá-los à conversão.
    Vale dizer, a Igreja cuidava de questões internas, que diziam respeito à cristandade, e quase nada interferia em assuntos de outras confissões, como judaísmo e islamismo, embora séculos mais tarde, especificamente na Espanha e em Portugal, viesse a banir estas religiões e inquerir ditos convertidos por continuarem em oculta prática de sua fé de origem, enquanto tentavam perverter pessoas à sua volta, conspirando contra a Igreja e o Estado.
    Ademais, há elementares informações que nunca são veiculadas com o devido amor à verdade, ou sequer divulgadas. Na Itália, como referência, a Inquisição Romana, que durando de 1542 a 1965 foi a mais longeva, só se debruçou sobre assuntos morais, como o incesto e abuso sexual de menores, entre outros que diziam respeito à família. Na Espanha, onde vigorou de 1478 a 1834, iniciou como parte da Reconquista da Península Ibérica, que parcialmente estava nas mãos dos muçulmanos, e majoritariamente tratou de assuntos políticos, refreando líderes que se insurgiam contra o Estado e evitando verdadeiros banhos de sangue como os que se deram em nome da 'Reforma Protestante' na França, na Alemanha, na Inglaterra e em vários outros países da Europa. Aliás, nesses últimos dois países, além de tantos outros que se tornaram avessos ao Catolicismo, também houve a 'Inquisição Protestante', mas desta, por muitos e inconfessos motivos, pouco se fala.
    Tampouco se fala da abjeta Guerra Civil Espanhola, uma retardada onda do mesmo movimento da 'Reforma Protestante', certamente muito mais diabólica, que de 1936 a 1939 só entre religiosos matou 6832, fossem bispos, padres, frades ou freiras, e destruiu cerca de 20.000 igrejas. Movida por ateístas, anarquistas e comunistas, jamais se verificou tamanho ódio à Igreja. Em comparação, a Inquisição Espanhola, considerada a mais cruel e violenta, instalada pelo rei Fernando II e contra a vontade do Papa Sixto IV, condenou à morte pouco mais de 2 mil pessoas em 356 anos. E dos processos inquisitoriais, que eram individuais e detalhadamente registrados, quase 80% dos que terminaram em punição apenas determinavam penitência por vergonha pública, como vestir trapos. Contra os judeus, alegadamente os grandes vitimados, em todo período resultaram em 464 autos-de-fé, dados entre 1481 e 1826, enquanto mais de 13 mil dos chamados 'conversos', judeus e muçulmanos suspeitos de camuflarem-se, foram julgados entre 1480 e 1492. Ou seja, só houve punição em 3,5% dos casos.
    Maliciosamente esquecida, sob estes aspectos, também é a tão celebrada, mas igualmente demoníaca, 'Revolução Francesa', que criou o 'Terrorismo de Estado' e tentou substituir as religiões pela 'religião de Estado', a 'Igreja Constitucional', a 'Igreja laica', onde Deus seria a lei. A Igreja, que sim detinha alguns privilégios, e até extravagâncias, seria a grande culpada pelo caos econômico e social, pois sempre estaria ao lado do rei, ajudando a 'manipular o povo'. Nossos sacerdotes foram forçados a jurar fidelidade às normas estatais e a desobedecer ao seu bispo e ao papa. Pio VI e quase a totalidade dos bispos franceses resistiram, só quatro cederam, mas muitos padres da região central do país aderiram, tornando-se 'comissários políticos'. Resultado: cerca de 40 mil mortos na guilhotina em apenas 1 anos. Era o 'iluminismo' dos 'intelectuais', espécie de reedição do 'humanismo', junto ao 'liberalismo' da alta burguesia, em sanguinária rebelião contra o rei, a nobreza, os clérigos e os fiéis. Só na região da Bretanha, onde se viu a maior resistência por parte dos sacerdotes, 120 mil católicos foram assassinados, ou seja, mais de 15% da população.
    O surgimento da igreja anglicana, pelas mãos de Henrique VIII, também foi um banho de sangue: mais de 70 mil civis foram assassinados como traidores, justamente por rejeitar essa nova religião na qual o rei se dizia o papa. Diferentemente da confusão doutrinária atual sob essa denominação, aí à época nenhum ponto da doutrina católica foi alterado, exceto esse: o papa seria o próprio rei.
    Ainda cabe saber que a dita reforma de Lutero, além de teologicamente insuflada por judeus e islâmicos sob o pretexto de combater a veneração às imagens, contrária a seus credos, só prosperou por interesses da nascente burguesia capitalista, já usurária, e de ambiciosos ex-senhores feudais, governantes, príncipes e reis. Como os países ainda estavam em formação, enquanto povo, território e unidade política, esses grandes proprietários de terra tentavam sobressair-se para conquistar o poder sobre toda nação. Era o surgimento das monarquias nacionais, e o mais fácil modo de atingir esse objetivo era tomando terras, bens e autoridade da Igreja, para aumentar suas posses e influências.
    A Igreja era sim dona de muitas terras, mas não por dominação militar ou política, senão por doações de devotos, muitos deles reis e nobres, aos seus Santos de estima, e por legítimos interesses de divulgação da fé entre o povo, evitando fragmentação social, estagnação cultural e propagação de heresias. A dita 'Reforma Protestante', portanto, nada mais foi que a implementação dos ideais religiosos de 'humanistas', dos quais se apossaram Lutero e outros, e foram adotados como bandeira por burgueses, ex-senhores feudais, nobres, autoridades, príncipes e reis, cujos verdadeiros interesses eram políticos e financeiros, e que só foram alcançados à custa de ferro e fogo, diga-se assassinatos, pois, verdadeiramente católica, a maioria da população valorosamente resistiu a essas 'novidades'.


    Muita gente morreu em batalha ou em sacrifício por ser obrigada a aceitar uma 'religião' herética, estranha, sectária e incipiente. Era a mesma gente que, ao contrário do que muitos tentam divulgar, largamente apoiava a Igreja durante a Inquisição e tinha verdadeira aversão às bruxas e ciganos, bem como a segmentos de judeus e muçulmanos que chegavam ou já dominavam a Europa, rapidamente apossando-se de áreas vitais do dia-a-dia urbano, como serviços de banco, comércio, transporte, e produções têxteis, de artesanato, metalurgia, medicina, alimentos etc.
    Claro, essas autoridades foram apoiadas ou mesmo cooptadas pela nascente burguesia, cujos interesses não eram lá muito humanitários, mas apenas afastar a influência da Igreja. Despontava o comércio interurbano, sustentado pelo intercontinental, bem como o mercado financeiro com grandes lucros sobre empréstimo a juros, que a Igreja proibia. Junto ao natural surgimento do capitalismo, para financiar grandes obras sem o trabalho escravo, que na Europa foi abolido pelo Catolicismo, com vigor eclodia sua mais perniciosa vertente: o capitalismo selvagem. E nesses tempos de corrida pela acumulação de moedas, o chamado bulionismo, muitos condenaram a Igreja por usar da prática de indulgências, isto é, concessão de perdão dos pecados, também em contrapartida de ofertas em dinheiro. Na lógica destes, só a Igreja não podia usá-lo.
    Ela arrecadava impostos, é verdade, pois sua estrutura se espalhava por todos países da Europa, entretanto prestava grandes serviços à população carente, à civilidade e à ordem pública. Ela realmente era rica, dado sua dimensão, mas sempre foi uma instituição, nunca uma propriedade particular, em nome de alguma pessoa. E nem todos membros do clero, resta evidente, principalmente naqueles anos de fartura e desenvolvimento social, adotavam uma vida de humildade. A Igreja teve e tem membros que pecaminosamente vivem como abastados. Contudo, em sentido oposto, seus princípios e estrutura sempre serviram aos interesses da fé e da mais necessitada gente, e ainda hoje é a instituição que mais faz caridade em todo mundo.
    As acusações de tortura, que em geral são exclusivamente atribuídas à Igreja, eram práticas disseminadas em muitos feudos e reinos europeus, e por quase todo mundo de então, como forma de manutenção da ordem social e da submissão às autoridades. E o clero, em sua maioria, ao longo dos séculos sempre se opôs a esses procedimentos. As cidades voltavam a atingir proporções de metrópoles, e questões de justiça civil e criminal começavam a ser um complexo problema. Aliás, raríssimas vezes a tortura foi empregada pelo Tribunal do Santo Ofício, o que notadamente se dava por abuso de autoridade, não ratificada pela Igreja, pois as punições, em caso de resistência à conversão e à expulsão do país, não era levada a cabo pelo clero, mas pelo poder secular, em autos-de-fé realizados uma vez por ano. E note-se, na quase totalidade dos países europeu, só nos anos de 1800 a tortura foi definitivamente proibida por lei civil. No Brasil durou até 1900. Mas todo instrumento de tortura que se vê hoje em dia são estúpida e levianamente identificados como exclusivos pertences da Igreja.
    Assim como na atualidade, até parece que os verdadeiros Santos de então, ou, que seja, os arautos da compaixão e da moral, eram os monarcas, a nobreza, a burguesia, os artistas e os intelectuais. A verdade é que os exércitos europeus eram compostos por violentos mercenários para defender os domínios dos poderosos, que em nada eram obrigados, senão pela moral cristã, a oferecer escola, hospital ou segurança a seus dominados.
    A própria escravidão, como dito, havia sido abolida em terras da Europa por força da efetiva prática da Comunhão, união de comuns, cultuada pela Igreja durante a Santa Missa. E na maioria dos casos os interesses destes 'humanistas' eram essencialmente financeiros ou, em melhor hipótese, ideológicos, enquanto a Igreja havia muito já possuía orfanatos, escolas, universidades, hospitais e asilos absolutamente caritativos. A ideia da obrigação do Estado oferecer serviços públicos gratuitos, por sinal, veio exatamente da atividade de Santos católicos e de suas ordens religiosas, que já os punham em prática desde os primeiros séculos e em exclusivo movidos pela caridade e pela fé. Para ilustrar, quase não se diz que a escola que veio a tornar-se a grande Universidade de Sorbonne, entre tantas outras, foi inicialmente uma instituição católica, criada para atender alunos pobres, e mais tarde 'assumida' pelos reis da França.
    Ora, muitos dos gênios da humanidade na idade média estudaram em escolas ou universidades católicas. E suas teorias não teriam sido possíveis sem o conhecimento organizado e sistematizado ao longo dos séculos por estudiosos padres e frades, verdadeiros investigadores de boa parte das matérias que mais tarde foram consideradas suas descobertas. A lista de religiosos católicos que contribuíram para a ciência com suas pesquisas e estudos é imensa. Na verdade, apesar da corriqueira difamação de que combatia o conhecimento científico para alienar as pessoas, a Igreja é, muito longe de qualquer outra, a instituição mundial que mais colaborou para que se alcançasse o estágio científico e tecnológico do início do século passado.


    O tão comentado julgamento de Galileu, como exemplo, não se deu apenas por causa de sua Teoria do Heliocentrismo, na qual defendia o sol com centro do Universo e não a Terra, como se pensava à época e a Igreja também acreditava. Galileu tinha mais de trinta teses, a maioria delas versando sobre assuntos estritamente religiosos e de privativa disposição do clero. Eram teses que tratavam senão de Teologia, para as quais não lhe era dado o direito de especular ou divulgar, posto que simplesmente não tinha conhecimento de causa. Católico praticante, Galileu pretendia fazer uma imensa 'reforma' na Igreja, em vários pontos muito parecida com a grande confusão, e de rasteiras teses, propalada por Lutero.
    Mais um importante detalhe: os processos inquisitórios, hoje ditos judiciais, conduzidos pela Igreja eram incomparavelmente os mais justos que se faziam à época, a todos garantindo direito de defesa ou mesmo de absolvição em caso de admissão de culpa e conversão. Sim, fora a Igreja não havia nenhuma forma de poder a não ser senhores feudais, príncipes, reis e imperadores, os quais não usavam nem de constituição nem de processos legais previamente estabelecidos em seus 'tribunais', isto é, até havia lei, mas não claros procedimentos, leia-se isenção, para aplicá-la.
    Com isso, os julgamentos levados a termo pela Igreja eram de longe mais humanos que qualquer outro. Por fim, e apesar do estardalhaço que se faz do tema, menos de 2% de seus processos resultavam em punição. E, vale repetir, a execução da pena, como a fogueira, estritamente usada em caso de resistência de 'cristãos' em renegar os pecados ou à devida conversão, não era levada a cabo pela Igreja, mas pelos poderes seculares.
    É certo dizer, portanto, que o atual Direito 'caiu do Céu', pois todos ordenamentos jurídicos dos países modernos tem a maior e mais importante parte de suas leis baseada no Direito Canônico. Sem dúvida, a Igreja adotou um extenso material que foi produzido na Roma Imperial, mas seu trabalho de rebuscar, compilar, complementar, ampliar e aperfeiçoar esses institutos é vastamente reconhecido em todo mundo inteligente. Quer dizer, os hoje mal-falados julgamentos da Inquisição são a base, a estrutura e até a semelhança de muitos processos que acontecem nas nações mais justas da atualidade, onde os direitos realmente são respeitados.

    Reza a segunda parte do Credo: "Creio no Espírito Santo, na Santa Igreja Católica, na Comunhão dos Santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne, na Vida Eterna. Amém."

segunda-feira, 29 de abril de 2024

Santa Catarina de Sena


    Filha de religioso tintureiro da Toscana, de vinte e quatro filhos a caçula, aos 7 anos consagrou sua virgindade a Cristo e aos 15 entrou para a ordem terceira dos dominicanos. Ainda aos 6, teve sua primeira visão, que jamais esqueceria: no ar, pairando sobre a igreja de São Domingos, Jesus apareceu-lhe com as vestes do Papa, sentado num luminoso trono e ladeado por São Pedro, São Paulo e São João Evangelista.
    E desde muito nova começou a fazer penitências, entre elas frequentes votos de silêncio. O salmista cantou essa espiritualidade: "Confia ao Senhor tua sorte, n'Ele espera e Ele agirá. Em silêncio, abandona-te ao Senhor, n'Ele põe tua esperança." Sl 36,5.7a
    De 1362 a 1374, isto é, entre 15 e 27 anos, praticou rigoroso jejum de pão e água e viveu em clausura, período em que se manteve em perfeita "Comunhão com Deus", segundo suas próprias palavras. Foi contemplada com indizíveis Graças como o 'casamento místico' com Jesus, a 'morte mística', quando conheceu o inferno, o Purgatório e o Céu, e a 'troca mística de Coração' com Jesus, para experimentar Seu amor pela humanidade.
    No início, seus pais acharam um exagero sua postura e não lhe deixavam tempo nem lugar para suas orações e meditações. Jesus, porém, inspirou-lhe a erigir um oratório em seu coração, onde pudesse refugiar-se em espírito. Ela assim fez e pôde suportar as ocupações e contrariedades do mundo, pois ao encerrar-se neste 'aposento interior' se consolava com Seu Celeste Esposo. Manteve essa prática por vida e recomendava-a a muitos.
    Só deixou a clausura quando a Europa foi assolada pela peste negra, também chamada bubônica, para desveladamente ajudar centenas de enfermos. De modo miraculoso curou muitos deles, mas principalmente tratava de salvar-lhes as almas, convertendo-os através de penitências que ela mesma cumpria, convidando-os às orações e até exorcizando-os.


    Ainda em 1374, ao comungar, recebeu os estigmas de Cristo: suas mãos, seus pés e o lado direito foram perfurados por raios que saíam do crucifixo do altar da igreja de Santa Cristina, em Pisa. Jesus escolheu-a para trabalhar pela Igreja e pela Paz, e mostraria que "uma fraca mulher pode envergonhar o orgulho dos fortes." As dores eram tão intensas, porém, que muitas vezes ela não conseguia nem comer e nem falar, recebendo apenas a Comunhão Eucarística. E em preces, não pedia a Jesus que lhe tirasse os estigmas, mas que eles não fossem visíveis, para não causar mais intrigas com os religiosos que, por ignorância ou mesmo pecaminosidade, faziam-lhe forte oposição.
    Em várias ocasiões, enquanto rezava, foi vista levitando. E um dia, ao preparar-se para comungar, o padre viu a Hóstia Consagrada transformar-se em Carne, agitar-Se em sua mão e saltar de seus dedos para a boca de Santa Catarina.
    Desde de 1309, o Papa estava vivendo no sul da França, na cidade de Avignon, por questões de segurança, dadas as guerras entre cidades italianas, que também se insurgiam contra seu poder. Aí ele contava com a proteção da armada do rei francês. Mas em 1376 houve um novo levante contra a autoridade da Igreja nas cidades italianas de Perúgia, Florença, Pisa e na região da Toscana, e Santa Catarina ditou várias cartas ao Sumo Pontífice, exortando-o a voltar a Roma para pessoalmente tratar do assunto e pacificar o rebanho de Cristo, como em 1367 Santa Brígida da Suécia conseguiu convencer seu antecessor, Santo Urbano V, ainda que aí ele só tenha podido permanecer por menos de três anos.
    Vendo infrutífero esse esforço, nossa Santa pôs-se a caminho de Avignon e poucos dias após chegar, inteirando-se de tudo que ali passava, tratou de denunciar a impenitência de cardeais e bispos, assim como vícios burgueses que adquiriram e as interferências políticas do rei e dos nobres locais nos assuntos da Igreja. Tanto impressionou a todos por sua lucidez, coragem e conhecimento da vontade de Deus, que foi convidada pelo próprio Papa para pronunciar-se no Consistório dos Cardeais.
    Conseguiu, enfim, convencer o Papa a voltar a Roma. Mesmo contra a vontade do rei e de alguns dos membros da Cúria, em 1377 Gregório XI iniciou a viagem de volta. Chegou a hesitar durante o trajeto, mas acabou completando-a sob as exortações de Santa Catarina, que o acompanhava.
    Aí, porém, o Pontífice não teve fáceis dias. A república de Florença rebelou-se outra vez contra sua presença, chegando a obter apoio de muitas cidades italianas e até organizar uma milícia para combatê-lo. Ele, contudo, após resistir como pôde através de vários interditos, acolheu os apelos de Santa Catarina, que pedia paciência para com seus "rebeldes filhos". Mesmo sabendo da grande rejeição que enfrentaria, ela assumiu a frente das negociações e visitou várias dessas cidades, habilmente dialogando com as autoridades. Em Florença, quase foi martirizada.


    No seguinte ano, debilitado e envelhecido, Gregório XI veio a falecer. Eleito Urbano VI, desde o início teve a oposição de três intransigentes cardeais, que terminaram retornando a Avignon e aí elegeram dentre si um anti-papa. Era o Grande Cisma do Ocidente. Santa Catarina ativamente engajou-se em defesa do Papa, por toda parte viajando e exortando em favor da Unidade da Igreja e da obediência ao Sumo Pontífice. Sobre esse e vários outros assuntos, religiosos e sociais, acabou sendo adotada como conselheira por nobres, príncipes, rainhas e reis, além de muitos bispos e do próprio Papa.
    Duramente falou à rainha de Nápoles e ao tirano de Milão. Perante o rei da França, recriminou-o pela guerra contra irmãos cristãos, enquanto tentava estimulá-lo às cruzadas, que era um antigo anseio, mesmo um popular clamor, além de sonho de muitos jovens da época, religiosos ou não, em todos países cristãos. Essa sim seria uma justa guerra, para o bem da cristandade, dos monumentos, dos lugares e da sagrada memória. Também denunciava os reis que contratavam brutais mercenários, e em matanças conflagravam a Europa com seus exércitos.
    Dadas as modestas condições de sua família, e tão severas foram suas práticas espirituais desde o início da idade adulta, não foi alfabetizada e assim se manteve até os 30 anos, quando por milagre aprendeu sozinha a ler em italiano e latim e a escrever. Numa de suas cartas de próprio punho, relata ter recebido lições sobre os assuntos da Igreja diretamente de São João Evangelista e São Tomás de Aquino.


    Em algumas ocasiões, enquanto entrava em êxtase, pedia que anotassem suas palavras. Elas tornaram-se o livro 'Diálogo sobre a Divina Providência', obra que é considerada uma das maiores do misticismo cristão, onde se lê as revelações que recebia, as concepções teológicas e os argumentos sobre sua espiritualidade.
    Foi uma pacificadora da Igreja e da Itália em difíceis tempos, exatamente no início do decaimento da cristandade na Europa, solapado pelo 'humanismo' irresponsavelmente acalentado por supostos católicos e que se revelaria mera porta de perdição, levando ao protestantismo e, pouco mais tarde, ao próprio ateísmo e sua mais diabólica invenção: o comunismo.
    É a única leiga das quatro mulheres que receberam o título de Doutora da Igreja.


    Sua inspiração é evidente. Perfeitamente mistura-se com as locuções internas que tinha:

    "É obrigação de todos edificar os demais com uma boa, santa e honesta vida."
    "Não obrigues outras pessoas a viver como tu vives."
    "Ninguém deve desejar satisfações e visões espirituais, aspire somente a virtude."
    "Oh, quão doce e gloriosa é esta virtude da obediência! Nela estão todas outras virtudes, porque é concebida e gerada pela caridade. Nela está fundada a pedra da santíssima fé. É rainha tal que quem a desposa nenhum mal padece, mas tem Paz e tranquilidade. As ondas do tempestuoso mar não podem prejudicá-la e não a ofende tempestade alguma."
    "O caminho para atingir o verdadeiro conhecimento e a experiência de Deus é este: nunca abandonar o auto-conhecimento."
    "A humildade brota do auto-conhecimento."
    "Conhecendo-te, tu humilhar-te-ás ao perceber que, por ti mesma, nada és."
    "O orgulho é a raiz de todos vícios."
    "Querendo progredir, é preciso que tenhais sede."
    "A Divina Providência jamais falta ao homem, sob a condição de que ele a aceite."
    "Nesta vida ninguém vive sem Cruz."
    "Os males desta existência não são punições, mas correção a filho que ofende."
    "Devemos tudo suportar, porque o sofrimento é pequeno e a recompensa é grande."
    "A pessoa que sofre, mais compartilha as dores dos outros que aqueles que nada padecem."
    "Nada mais desejo que vossa santificação."
    "Tudo quanto Eu quero ou permito tem uma finalidade: que atinjas a meta para a qual vos criei."
    "Eu recompenso quem trabalha por Minha Glória. Sou alegre e faço feliz quem cumpre Minha vontade."
    "Ao querer dar um grande tesouro a um homem, associo-lhe o peso de muitas dificuldades."
    "Eu quero que sejais Santos. Tudo que vos acontece tem essa finalidade."
    "O Demônio é fraco e nada pode além daquilo que Eu lhe permita."
    "É na adversidade que se prova ter paciência e amor."
    "Por amor Deus vos criou, sem amor não podeis viver."
    "Só Tu és o Amor, somente digno de ser amado!"
    "O amor por Mim e pelo próximo são uma só coisa."
    "Toda virtude realiza-se em relação ao próximo, bem como todo pecado."
    "Eu considero feito a Mim o que fazeis aos homens."
    "Ao optar por Meu amor, o homem também faz opção de sofrer por Minha causa, qualquer que seja a modalidade da dor."
    "Pelo amor, o homem torna-se outro Cristo. É pelo amor que o homem se une a Deus."
    "Todo mal é ausência de amor."
    "Deus não deu todas qualidades nem deixou ninguém sem qualidade alguma. Por isso, precisamos um dos outros."
    "Jovens, se fores aquilo que Deus quer, colocareis fogo no mundo."
    "A amizade cuja fonte é Deus, nunca se esgota."
    "Foi no depositório da eclesiástica hierarquia que Eu guardei o Corpo e o Sangue de Meu Filho."
    "Foi no seio da Igreja Hierárquica que o Senhor depositou Seu mais precioso tesouro."
    "A Eucaristia é o mais apto meio para a união do homem com Deus e maior conhecimento da Verdade."
    "Tenham a certeza de que quando eu morrer, a única causa de minha morte será meu amor pela Igreja."
    "Oh meu padre, se o senhor tivesse visto a beleza de uma só alma em estado de Graça, estaria pronto a morrer mil mortes por uma só!"
    "Oh Maria, Templo da Santíssima Trindade! Oh Maria, portadora do fogo e da Misericórdia… Oh Maria, co-redentora do gênero humano porque, tendo vós fornecido vossa carne ao Verbo, foi resgatado o mundo. Resgatou-o Cristo com Sua Paixão, e vós, com vossa dor de corpo e de alma, com vossa compaixão."
    "Pai Eterno, que motivo Vos fez constituir o homem em tão grande dignidade? Foi o inefável amor pelo qual enxergastes em Vós mesmo Vossa criatura, e apaixonaste-Vos por ela! Pois foi por amor que a criastes, foi por amor que lhe destes o ser capaz de degustar Vosso Sumo e Eterno Bem."
    "Somos Vossa imagem e Vós, a Nossa, pela união que realizastes no homem, velando a divindade com a miserável nuvem e massa corrompida de Adão. Quem foi a causa? O amor. Vós, ó Deus, fizestes-Vos homem e o homem tornou-se Deus."
    "Vós, Eterna Trindade, sois Meu Criador e eu, Vossa criatura. De novo criaste-Me, no Sangue de Vosso Filho. Nesta nova criação, conheci que Vos enamorastes da beleza de Vossa criatura."
    "Oh Eterna Trindade, foco e abismo de caridade, dissolvei já a nuvem deste meu corpo! O conhecimento que me destes de Vós, em Vossa Verdade, impele-me ao desejo de livrar-me do peso deste meu corpo e dar a vida pela Glória e louvor de Vosso Nome! Pois saboreei e vi, com a luz do intelecto, em Vossa Luz, Vosso abismo, Eterna Trindade, e a beleza de Vossa criatura."
    "Ó abismo, ó Eterna Divindade, ó profundo mar! E que mais poderíeis dar-me que Vos dar a mim? Sois fogo que sempre arde e não consome. Sois fogo que consome todo amor-próprio da alma. Sois fogo que destrói toda frieza."
    "Oh Eterno e Infinito Bem, oh louco de amor! Será que necessitais de Vossa criatura? Parece-me que sim, pois agis como se sem ela não pudésseis viver, embora sejais Vós a Vida, pois todos seres recebem a vida de Vós, e sem Vós ninguém vive… Vós enamoraste-Vos de Vossa criatura, nela pusestes Vossa complacência, como ébrio de sua Salvação! Foge de Vós, e andais à sua procura! De Vós afasta-se, e dela aproximai-Vos!"
    "Disse-me o Senhor: ‘Assim que uma alma entra no Céu, todos eleitos participam de sua glória e assim também ela participa da felicidade de todos. Meus eleitos viverão na alegria, é a felicidade proporcionada pela visão de Minha Divindade e a companhia de Jesus, Cordeiro Imolado. É uma Paz, uma perfeita alegria, uma Luz sem sombras, uma soberana, infinita, ilimitada felicidade."

    Nossa Santa morreu em 1380, no dia 29 de abril, aos 33 anos, mas em 1430, ao ser exumado, seu corpo ainda estava incorrupto. Além do livro citado, deixou 381 cartas e 26 orações da mais pura inspiração.
    É co-Padroeira do continente europeu junto à Santa Edith Stein e Santa Brígida da Suécia, além de co-Padroeira da Itália, junto a São Francisco de Assis, e padroeira dos consultores.
    Suas relíquias encontram-se sob o altar principal da Basílica de Santa Maria sopra Minerva, no centro de Roma, uma construção do século XIV, a única igreja em estilo gótico da Cidade Eterna. Seu rosto, exposto numa capela em sua homenagem, ainda não se decompôs por completo.



    Santa Catarina de Sena, rogai por nós!

domingo, 28 de abril de 2024

São Luís-Maria de Montfort


    No fim do século XVII, quando em todo mundo abertamente se pregava a abolição da escravatura, um Sacerdote francês convidava todos à escravidão à Nossa Senhora, através de uma das maiores obras de Mariologia da atualidade, da qual é um dos precursores: 'O Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria'.
    Nasceu no ano de 1673, em Montfort-sur-Meu, na Bretanha francesa. Sua mãe era fervorosa católica e enviou-o, aos 12 anos, ao Colégio Jesuíta São Thomas Becket, em Rennes, mais próxima cidade. Desde então nosso Santo já sentia o chamado à vida sacerdotal, e aí mesmo começou a estudar Teologia e Filosofia. Conheceu o padre local, que vivia como missionário itinerante, e percebeu que seu coração haveria de ser entregue a serviço dos mais pobres. E ao ouvir sobre o trabalho dos missionários da Companhia dos Padres de São Sulpício, que evangelizavam no Canadá, logo se candidatou.
    Com esse intuito, em 1693 foi enviado a Paris, para o Seminário de São Sulpício, uma escola de referência para a espiritualidade francesa. Mas o dinheiro dado por seu benfeitor não era suficiente, e por dois anos ele contentou-se em viver entre os mais pobres e mendigos da cidade, enquanto frequentava as palestras de Teologia na Universidade de Sorbonne.
    Sem os devidos cuidados, gravemente adoeceu, mas foi internado e, apesar de algumas sequelas, convalesceu. Alguém do Seminário de São Sulpício soube de sua história e deu-lhe um emprego de bibliotecário, de modo a poder custear seus estudos, e durante as horas de trabalho ele dedicou-se a conhecer em profundidade as principais obras do Catolicismo, dando especial atenção aos assuntos referentes à Virgem Mãe do Céu.
    Em 1700 foi ordenado e enviado a Nantes, porém queira mesmo era pregar aos pobres, dos quais, desde a chegada a Paris, não mais se havia afastado. E para maior contrariedade, deu-se conta que toda comunidade sacerdotal local era adepta do jansenismo, heresia de um bispo holandês para quem, na prática, o ser humano é um mero objeto: já nasce predestinado ou ao inferno ou à Salvação. Essa visão tropeçava e caía, portanto, diante de um elementar ensinamento de Jesus, que disse: "Os sãos não precisam de médico, mas os enfermos. Não vim chamar os justos, mas os pecadores." Mc 2,17b
    E ainda esse: "Digo-vos que assim haverá maior júbilo no Céu por um só pecador que fizer penitência que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento." Lc 15,7
    Seus seguidores, pois, recusavam-se a absolver os pecados de quem confessasse reincidência, e, com tamanha exigência de contrição, a 'comunhão espiritual' seria para eles mais importante que a própria Comunhão Eucarística.
    A perfeita instrução doutrinária de nosso Santo, claro, não sucumbiu a esses absurdos. E frontalmente opondo-se a esses desvios, vai ser perseguido por toda vida. Como uma das consequências, foi enviado a Poitiers, na condição de capelão do hospital, e, para servir aos mais pobres entre os enfermos, começou a trabalhar com a Beata Marie Louise Trichet, de apenas 17 anos, com quem em 1715 fundaria a Congregação das Filhas da Sabedoria.


    Contudo, não desistiu de pregar e tanto quanto pôde viveu em missão por toda região da Bretanha, entre cidades e aldeias, levando a mais modesta gente o mais puro Catecismo Católico. Seu amor por Nossa Senhora era encantador, tocava o coração de todo povo. Aí começou a ser conhecido como o 'bom padre de Montfort'. Em Pontchateau, chegou a reunir milhares de pessoas para construir uma grande Via Sacra para as práticas de , mas terminou sendo expulso pelo bispo não só do hospital como também da diocese de Nantes.
    Tristemente compungido, vai a pé até Roma, aconselhar-se com o Papa, pedir-lhe para ser enviado ao Canadá, como era seu antigo sonho. Porém será mandado pelo Santo Padre de volta a França, justamente para fazer frente ao jansenismo, e agora com o título de Missionário Apostólico. Continuará, entretanto, sendo violentamente combatido em paróquias e dioceses. Tentaram matá-lo por envenenamento, o que ainda mais agravou seus problemas de saúde.
    Mas ele não retrocedia. Vai escrever o 'Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria', no qual inspiradamente justificou: "A mais perfeita devoção é aquela pela qual nos conformamos, unimos e consagramos mais perfeitamente a Jesus Cristo, pois toda nossa perfeição consiste em sermos conformados, unidos e consagrados a Ele. Ora, pois que Maria é, de todas criaturas a mais conforme a Jesus Cristo, segue daí que, de todas devoções, a que mais consagra e conforma uma alma a Nosso Senhor é a devoção à Santíssima Virgem, Sua Santa Mãe, e que, quanto mais uma alma se consagrar a Maria, mais consagrada estará a Jesus Cristo."
    Também escreveu 'O Segredo de Maria' e 'O Segredo do Rosário', assim como as regras para a Companhia de Maria, que fundaria em 1712, e para a Congregação das Filhas da Sabedoria.


    Nas proximidades de Montfort, na gruta Mervent, em São Lázaro, ele vai recolher-se por várias vezes, por muitos meses, quatro anos ao todo durante sua vida, revigorando sua vida espiritual e contemplativa.
    A Marie Louse Trichet, ele escreveu de Paris: "Sou-vos infinitamente grato. Estou sentindo o efeito de vossas orações, já que, hoje mais que nunca, me vejo empobrecido, crucificado, humilhado. Homens e demônios desta grande cidade de Paris movem-me uma guerra que me é amável e suave. Que me caluniem, que me ridicularizem, que destruam minha reputação, que cheguem até a prender-me. Que preciosos dons! Que deliciosos manjares! Que encantadoras grandezas! São os indispensáveis séquito e companhia que a divina Sabedoria envia à casa daqueles onde deseja habitar. Quando me será dado possuir essa amável e desconhecida Sabedoria?"
    Foi muito criticado por sua 'falta de prudência', porém uma vez respondeu em carta a um amigo: "Dais-me como exemplo pessoas muito prudentes e de grande virtude, a quem ninguém pensa em censurar. Mas há duas espécies de prudência: a própria dos cristãos que vivem em sociedade, e outra que vai melhor aos missionários e homens apostólicos. Os primeiros, para prudentemente procederem, só têm que observar as regras e costumes de uma santa casa; os outros frequentemente veem-se obrigados a desprezar a própria glória para buscar a de Deus, e, para isso, têm que se lançar em mais de uma empresa que choca e até escandaliza. Não é de estranhar que se deixe em paz aos primeiros e se ataque os segundos. Quando os homens de ação são bem acolhidos pelo mundo, é sinal de que o inferno não os teme. Se a prudência simplesmente consistisse em não dar que falar, os Apóstolos não precisariam ter saído de Jerusalém, nem São Paulo teria sido obrigado a fazer tantas viagens, nem São Pedro porque fincar a cruz no Capitólio. Com uma prudência assim, não se teria sobressaltado a sinagoga, mas também não se teria conquistado o mundo."
    Para ele, como São Paulo afirmou, a Sabedoria está na loucura da Cruz: "Se fizermos qualquer coisa para não correr riscos por Deus, nunca iremos fazer algo de grande por Ele."
    O Último Apóstolo, de fato, ensinava: "Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o Evangelho, e isso sem recorrer à habilidade da arte oratória, para que não se desvirtue a Cruz de Cristo. A linguagem da Cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que foram salvos, para nós, é uma divina força. Já que o mundo, com sua sabedoria, não reconheceu a Deus na Divina Sabedoria, aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura de Sua mensagem. Os judeus pedem milagres, os gregos reclamam sabedoria. Nós, porém, pregamos Cristo Crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos. Mas, para os eleitos, quer judeus quer gregos, força de Deus e Sabedoria de Deus." 1 Cor 1,17-18.21-24
    E completou: "Ninguém se engane a si mesmo. Se alguém dentre vós se julga sábio à maneira deste mundo, faça-se louco para tornar-se sábio, porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus..." 1 Cor 3,18-19a
    Ora, os escritos de São Luís-Maria Grignion de Montfort sobre Mariologia vieram a influenciar fortemente a devoção de quatro Papas, em especial, que a eles fizeram várias menções em suas encíclicas. São eles: Papa Leão XIII, Papa São Pio X, Papa Pio XII e o Papa São João Paulo II.


    Devoção à Nossa Senhora, ele explica por dois princípios:
    1 - Deus quis servir-Se de Maria para a Encarnação do Cristo; e,
    2 - Deus quer servir-Se de Maria para a santificação das almas.
    Essa devoção tem cinco características:
    1 - é interior, ou seja, vem do espírito e do coração, fundamentando-se na correta visão do fulgurante papel representado por Maria no plano da Redenção, e num amor coerente a essa visão;
    2 - é terna, gerando na alma uma grande confiança, que faz recorrer a Maria em todas suas necessidades, como uma criança recorre a sua mãe;
    3 - é santa, isto é, faz com que se evite todo pecado e imitem-se as virtudes da Santíssima Virgem;
    4 - é constante, consolidando a alma no bem e fazendo com que não abandone facilmente o caminho iniciado; e,
    5 - é desinteressada, inspirando a alma a mais buscar a Glória de Deus que suas próprias vantagens.

    São luzes de sua inspiração:

    "Digo que devemos pertencer a Jesus Cristo e servi-Lo, não como mercenários servos, mas como amorosos escravos, que por efeito de um grande amor se dedicam a servi-Lo como escravos, pela exclusiva honra de pertencer-Lhe."
    "Jesus Cristo, Nosso Salvador, Verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem, deve ser o fim último de todas nossas devoções."
    "Os pobres e as crianças seguiam-nO por toda parte, considerando-O um entre elas. Viam nesse Querido Salvador tanta simplicidade, benignidade, condescendência e caridade que se acotovelavam à Sua volta para d’Ele aproximarem-se."

    "Deem preferência às aldeias mais que às cidades, aos pobres mais que aos ricos."
    "Jamais a Cruz sem Jesus, nem Jesus sem a Cruz!"
    "Toma tua cruz! E não deverás arrastá-la, sacudi-la, reduzi-la ou escondê-la. Pelo contrário, leve-a bem erguida em tuas mãos, sem impaciência, nem azedume, nem murmurações... Enfim, sem qualquer vergonha ou respeito humano..."
    "O Senhor não considera tanto o sofrimento em si mesmo, mas sim a maneira como se sofre."
    "O conhecimento da eterna Sabedoria não é apenas o mais nobre e o mais doce, mas ainda o mais útil e o mais necessário, já que a Vida Eterna consiste em conhecer a Deus e Seu Filho Jesus Cristo."
    "Só Deus é minha ternura, só Deus é meu sustentáculo, só Deus é todo meu bem, minha vida e minha riqueza."
    "Deus ama tanto as crianças que as coloca como prioridade do Reino dos Céus. Por isso, quando temos um coração de criança que é dócil a Palavra de Deus e busca praticar o que Jesus ensinou, acabamos por escolher o mais fácil caminho para chegar a Salvação: o caminho da pequenez."

    "Oh! Espírito Santo, concede-me uma grande devoção e uma grande inclinação para Maria, um sólido apoio sobre seu materno seio e um assíduo recurso à sua misericórdia, para que, nela, Tu possas formar Jesus dentro de mim."
    "Divino Espírito Santo, lembrai-Vos de produzir e de formar filhos de Deus, com Maria, Vossa divina e fiel Esposa."
    "Lembrai-vos, repito-o uma segunda vez, de que Maria é o grande e único molde de Deus, próprio para fazer imagens vivas de Deus, com pouca despesa e em pouco tempo; e que uma alma que encontrou este molde, e que nele se perde, fica em breve mudada em Jesus Cristo, aí representado ao natural."
    "A consagração é conjuntamente feita à Santíssima Virgem e a Jesus Cristo; à Santíssima Virgem como ao perfeito meio que Jesus Cristo escolheu para unir-Se a nós e nós a Ele; e a Nosso Senhor como a nosso fim último, ao qual devemos tudo que somos, como a Nosso Redentor e Nosso Deus."
    "Quanto mais uma alma estiver consagrada a Maria, tanto mais estará consagrada a Jesus Cristo."
    "Esta devoção (à Maria) é um fácil, curto, perfeito e seguro caminho para chegar à união com Nosso Senhor, e nisto consiste a perfeição do cristão."
    "O espírito desta devoção é tornar a alma interiormente dependente e escrava da Santíssima Virgem, e de Jesus por meio dela."
    "Ser vosso devoto, ó Santíssima Virgem, é uma arma de Salvação que Deus dá àqueles que quer salvar."
    "Através da devoção a Maria, o próprio Jesus 'alarga o coração com uma santa confiança em Deus, fazendo com que Ele seja visto como Pai e inspirando terno e filial amor.'"
    "A Santíssima Virgem é o meio de que Nosso Senhor Se serviu para vir a nós; e é o meio de que nos devemos servir para ir a Ele."
    "A Santíssima Virgem é a fiel Virgem que, por sua fidelidade a Deus, repara as perdas que infiel Eva causou por sua infidelidade, e que obtém de Deus a fidelidade e a perseverança para aqueles que a ela se apegam. Por isso, um Santo (São João Damasceno) compara-a à firme âncora, porque os retém e impede de soçobrar no agitado mar deste mundo, onde tantas pessoas naufragam por não se firmarem nesta inabalável âncora."
    "Uma das razões por que tão poucas almas atingem a plenitude da maturidade de Jesus Cristo, é que Maria, a Mãe do Filho e a Esposa do Espírito Santo, não está suficientemente formada nos corações."
    "É mister fazer todas ações com Maria, isto é, em todas ações olhar Maria como um modelo acabado de todas virtudes e perfeições, que o Espírito Santo formou numa pura criatura, e imitá-lo na medida de nossa capacidade."
    
"Deus, vendo que somos indignos de receber Suas Graças diretamente de Suas divinas mãos, dá-as a Maria, afim de obtermos por ela o que Ele quer dar-nos; e também redunda em Glória para Ele, receber pelas mãos de Maria o reconhecimento, o respeito e o amor que Lhe devemos por Seus benefícios."
    "Se atentamente examinarmos o resto da vida de Jesus, veremos que foi por Maria que Ele quis começar Seus milagres."
    "Quem encontrar Maria, encontrará a Vida (Jesus Cristo)."
    "É por Maria que procuro e que vou encontrar Jesus, que eu esmagarei a cabeça da Serpente e vencerei todos meus inimigos e a mim mesmo, para a maior Glória de Deus."
    "O que Lúcifer perdeu por orgulho, Maria ganhou por humildade. O que Eva condenou e perdeu pela desobediência, salvou-o Maria pela obediência. Eva, obedecendo à Serpente, perdeu consigo todos seus filhos e entregou-os ao poder infernal; Maria, por sua perfeita fidelidade a Deus, salvou consigo todos seus filhos e servos e consagrou-os a Deus."
    "Por meio de Maria começou a Salvação do mundo, e é por Maria que deve ser consumada. Na primeira vinda de Jesus Cristo, Maria quase não apareceu, para que os homens, ainda insuficientemente instruídos e esclarecidos sobre a Pessoa de Seu Filho, não se lhe apegassem demais e grosseiramente, afastando-se, assim, da Verdade."
    "A diferença entre a primeira e a última vinda (de Jesus) é que a primeira foi secreta e oculta, e a segunda será gloriosa e retumbante; ambas, porém, são perfeitas, porque, como a primeira, também a segunda será por Maria."
    "Mas o poder de Maria sobre todos demônios há de patentear-se com mais intensidade, nos últimos tempos, quando Satanás começar a armar insídias ao seu calcanhar, isto é, aos seus humildes servos, aos seus pobres filhos, os quais ela suscitará para combater o príncipe das trevas."
    "Mil graças a Maria! Este Jesus que eu possuo é, com efeito, seu fruto, e sem ela eu jamais O teria."
    "Eu sou todo Teu, e tudo que é meu Te pertence, Meu amável Jesus, por meio de Maria, Tua Santa Mãe."
    "Ela (Maria) é de tal forma transformada em Ti pela Graça, que não mais vive, não mais existe. És unicamente Tu, Meu Jesus, que nela vives e reinas..."
    "A Virgem Maria 'mais ardentemente ama-Te (Jesus) e mais perfeitamente glorifica-Te que todas outras criaturas juntas.'"
    "Saúdo-te, Maria, predileta do Pai Eterno! Saúdo-te, Maria, admirável mãe do Filho! Saúdo-te, Maria, fidelíssima esposa do Espírito Santo!"
    "Ó fiel Virgem, tornai-me em todas coisas um perfeito discípulo, imitador e escravo da Sabedoria Encarnada, Jesus Cristo, Vosso Filho."
    "Que todos homens, os estudiosos e os simples, os justos e os pecadores, os maiorais e os pequenos, louvem e honrem a Jesus e a Maria, dia e noite, através da oração do Santíssimo Rosário."
    "Peço que estejam atentos, a fim de não pensarem que o Rosário é de pouca importância, como dizem os ignorantes e alguns grandes intelectuais do orgulho. Longe de insignificante, o Rosário é um tesouro de incalculável valor e inspirado por Deus."
    "É lamentável ver como a maioria das pessoas rezam o Santo Rosário, extremamente rápido e murmurando, fazendo com que as palavras não sejam claramente pronunciadas."
    "O cristão que não medita sobre os mistérios do Rosário é muito ingrato a Nosso Senhor, e mostra o quão pouco se preocupa por tudo que o Divino Salvador sofreu para salvar o mundo."
    
"Conhecerão as misericórdias de que ela (Maria) é cheia e a necessidade que têm de seu auxílio, e hão de recorrer a ela em todas circunstâncias como à sua querida advogada e medianeira junto de Jesus Cristo. Reconhecerão que ela é o mais seguro, mais fácil, mais rápido e mais perfeito meio de chegar a Jesus Cristo, e entregar-se-lhe-ão de corpo e alma, sem restrições, para assim também pertencerem a Jesus Cristo."
    "(Maria) É tão caridosa que a ninguém repele dos que imploram sua intercessão, ainda que seja um grande pecador. Pois, como dizem os Santos, nunca se ouviu dizer, desde que o mundo é mundo, que alguém que tenha recorrido à Santíssima Virgem, com confiança e perseverança, e tenha sido desamparado ou repelido."
    "Confesso com toda a Igreja que Maria é uma pura criatura, saída das mãos do Altíssimo. Comparada, portanto, à Infinita Majestade, ela é menos que um átomo; é, antes, um nada, pois que só Ele é 'Aquele que é (Ex 3,14).'"
    "Tudo que convém a Deus pela Natureza, convém a Maria pela Graça."
    "Maria é um santo lugar, o Santo dos Santos, em que se formam e modelam os Santos."
    "Só Maria achou Graça diante de Deus (Lc 1,30) sem auxílio de qualquer outra criatura."
    "Quanto mais ganhares a benevolência desta venerável Princesa e fiel Virgem, tanto mais teu comportamento de vida estará inspirado pela pura fé."
    "Minha querida e amadíssima Mãe, se for possível, faze com que eu não tenha outro espírito, a não ser o teu, para conhecer Jesus Cristo e Seus divinos desejos; que não tenha outra alma, a não ser a tua, para louvar e glorificar o Senhor; que não tenha outro coração, a não ser o teu, para amar Deus com pura e ardente caridade como tu."
    "Aprouve a Deus, atendendo a seus pedidos (de Maria) de ocultação, empobrecimento e humildade, esconder sua concepção, seu nascimento, sua vida, seus mistérios, sua ressurreição e sua assunção aos olhos de quase toda criatura humana."
    "Sua humildade (de Maria) foi tão profunda, que na terra nada a seduziu mais poderosa ou mais continuamente que se esconder de si própria e de toda criaturas, para que só Deus a conhecesse."
    "Maria manteve-se muito escondida durante toda sua vida. Por isso, o Espírito Santo e a Igreja chamaram-na 'Alma Mater': Mãe escondida e secreta."
    "Tal é a vontade de Deus, que tudo tenhamos por Maria! E assim pelo Altíssimo será enriquecida, elevada e honrada aquela que, em toda sua vida, quis ser pobre, humilde e escondida até ao nada."
    "Como é feliz uma alma quando... está totalmente arrebatada e guiada pelo espírito de Maria, que é um doce e forte espírito, zeloso e prudente, humilde e corajoso, puro e fecundo."
    "Se eu soubesse que meu pecaminoso sangue poderia servir para fazer entrar no coração as verdades que escrevo em honra de minha querida Mãe e soberana Senhora, da qual sou o último dos filhos e escravos, em lugar de tinta eu usá-lo-ia para formar esses caracteres, na esperança que me anima de encontrar boas almas que, por sua fidelidade à prática que ensino, compensarão minha boa Mãe e Senhora das perdas que lhe têm causado minha ingratidão e infidelidade."

    Em 1716, durante uma missão em Saint-Laurent-sur-Sèvre, nas imediações de Nantes, com apenas 43 anos e a saúde bastante fragilizada, nosso Santo deixou esse mundo. Milhares de fieis acorreram ao seu funeral, realizado aí mesmo, e logo surgiram relatos de milagres junto a seu sepulcro.
    Em 1892, sobre a igreja dedicada a São Lourenço, do século XI, nesta pequena cidade foi concluída uma Basílica toda em granito para a devoção a ele, que é visitada por milhares de peregrinos todos anos. Nela também há uma estátua de seu último gesto, quando a gente do lugar, ao saber de seu frágil estado de saúde, acorreu para pedir-lhe uma última benção. E num esforço que lhe era característico, ele abençoou-os com o crucifixo.



    São Luís-Maria Montfort, rogai por nós!