sábado, 18 de outubro de 2025

São Lucas Evangelista


    São Lucas não era judeu, como se deduz da Carta de São Paulo aos Colossenses quando menciona dois grandes Santos, um deles São Marcos, que também viria a ser Evangelista: "Saúda-vos Aristarco, meu companheiro de prisão, e Marcos, primo de Barnabé. A respeito de Marcos, recebestes instruções. Se ele for ter convosco, acolhei-o. Jesus, chamado Justo, também vos saúda. Dentre os judeus, somente estes três trabalham comigo pelo Reino de Deus." Cl 4,10-11
    Mas percebendo desde o início a importância do Apóstolo dos Gentios, que por erudição e profunda espiritualidade brilhava cada vez mais em suas missões, nosso evangelista, que igualmente era estudioso, tornou-se um de seus mais íntimos colaboradores no anúncio da Boa Nova. Está na saudação da Carta de São Paulo a Filemon: "Epafras, meu companheiro de prisão por Cristo Jesus, saúda-te. Igualmente, Marcos, Aristarco, Demas e Lucas, meus colaboradores." Fm 1,23-24
    Além de São Paulo, Loukás conheceu e também conviveu com alguns ou mesmo com todos demais Apóstolos, dos quais obteve privilegiadas informações. Por isso, resolveu escrever o que viria a ser o Evangelho Segundo São Lucas, em concorrência com tantos outros, inclusive aqueles que mais tarde seriam reconhecidos apenas como apócrifos. Ele declarou logo no início: "Muitos empreenderam compor uma história dos acontecimentos que se realizaram entre nós, como no-los transmitiram aqueles que desde o princípio foram testemunhas oculares e que se tornaram Ministros da Palavra. A mim também pareceu, depois de diligentemente haver investigado tudo desde o princípio, escrevê-los para ti segundo a ordem, excelentíssimo Teófilo, para que conheças a solidez daqueles ensinamentos que tens recebido." Lc 1,1-4
    Essas mesmas linhas desfazem uma hipótese que se levanta sobre o próprio São Lucas, apontando-o como um dos setenta e dois discípulos de Jesus (cf. Lc 10,1), uma vez que, como visto, ele não se inclui entre as testemunhas oculares nem entre os Ministros da Palavra. A verdade é que, apesar de tudo que escreveu, em todo Novo Testamento temos pouca informação sobre sua pessoa. Nosso Santo bem atendia, portanto, ao que Nosso Senhor ensinou no Evangelho Segundo São João: "Quem fala por si mesmo busca a própria glória, mas quem busca a Glória de Quem o enviou, é verdadeiro e nele não há injustiça." Jo 7,18
    Ele também registrou os primeiros capítulos da História da Santa Igreja Católica, o fundamental Livro de Atos dos Apóstolos, onde temos importantíssimos detalhes sobre como Jesus ministrava Seus ensinamentos, sobre a ação do Espírito Santo e sobre o nascimento da Tradição Cristã: "Em minha primeira narração, ó Teófilo, contei toda sequência das ações e dos ensinamentos de Jesus, desde o princípio até o dia em que, depois de ter dado pelo Espírito Santo Suas instruções aos Apóstolos que escolhera, foi arrebatado ao Céu. E a eles manifestou-Se vivo depois de Sua Paixão, com muitas provas, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas do Reino de Deus. E comendo com eles, ordenou-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem o cumprimento da promessa de Seu Pai, 'que ouvistes', disse Ele, 'de Minha boca. Porque João batizou na água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo daqui a poucos dias.'" At 1,1-5
    Nesse Livro, nosso Amado Médico, como São Paulo o chamou, várias vezes inclui-se na narrativa, pois de fato tomou parte de um longo período de sua vida e viagens. Segundo Santo Irineu, eles ter-se-iam encontrado pela primeira vez na cidade de Trôade, na costa noroeste de atual Turquia, por volta do ano 51 de nossa era, antes da viagem a Macedônia, que se deu logo após uma aparição do anjo desta nação: "Depois de rapidamente haverem atravessado Mísia, (São Paulo e São Timóteo) desceram a Trôade. De noite, Paulo teve uma visão: um macedônio, em pé, diante dele, rogava-lhe: 'Passa a Macedônia e vem em nosso auxílio!' Assim que teve essa visão, procuramos partir para Macedônia, certos de que Deus nos chamava a pregar-lhes o Evangelho." At 16,8-10


    E realmente fizeram amizade que se mostraria para sempre: "Embarcados em Trôade, fomos diretamente à Samotrácia e no outro dia a Neápolis e dali a Filipos, que é a cidade principal daquele distrito de Macedônia, uma colônia romana. Nesta cidade, detivemo-nos por alguns dias. No sábado, saímos fora da porta para junto do rio, onde pensávamos haver lugar de oração. Aí nos assentamos e falávamos às mulheres que se haviam reunido." At 16,11-13
    Foi visto, junto a São Paulo e seus seguidores, como servo de Deus por um mau espírito, e testemunhou um exorcismo: "Certo dia, quando íamos à oração, eis que nos veio ao encontro uma moça escrava que tinha o espírito de Pitão, a qual com suas adivinhações dava muito lucro a seus senhores. Pondo-se a seguir a Paulo e a nós, gritava: Estes homens são servos do Deus Altíssimo, que vos anunciam o Caminho da Salvação. Repetiu isto por muitos dias. Por fim, Paulo enfadou-se. Voltou-se para ela e disse ao espírito: 'Ordeno-te em Nome de Jesus Cristo que saias dela.' E na mesma hora ele saiu." At 16,16-18
    Mas com a revolta que se deu na cidade, não foi açoitado nem preso como aconteceu com São Paulo e São Silas, também chamado São Silvano: "O povo insurgiu-se contra eles. Os magistrados mandaram arrancar-lhes as vestes para os açoitar com varas. Depois de terem-lhes feito muitas chagas, meteram-nos na prisão, mandando ao carcereiro que os guardasse com segurança. Este, conforme a ordem recebida, meteu-os na prisão inferior e prendeu-lhes os pés ao cepo. Pela meia-noite, Paulo e Silas rezavam e cantavam um hino a Deus, e os prisioneiros os escutavam." At 16,22-26
    Dadas as controvérsias e confusões, e a grande quantidade de colaboradores de São Paulo, contados em dezenas, depois de uma breve separação nosso Santo voltou a encontrar-se com ele em Trôade. Foi após uma grande agitação na cidade de Éfeso, quando o Apóstolo dos Gentios foi denunciado por tirar a população do culto que aí se prestava à deusa Ártemis: "Depois que cessou o tumulto, Paulo convocou os discípulos. Fez-lhes uma exortação, despediu-se e pôs-se a caminho de Macedônia. Percorreu aquela região, exortou os discípulos com muitas palavras e chegou a Grécia, onde se deteve por três meses. Como os judeus lhe armassem ciladas no momento em que ia embarcar para Síria, tomou a resolução de voltar a Macedônia. Acompanharam-no Sópatro de Bereia, filho de Pirro, e os tessalonicenses Aristarco e Segundo, Gaio de Derbe, Timóteo, Tíquico e Trófimo, de Ásia. Estes foram à frente e esperaram-nos em Trôade. Nós, só depois da festa de Páscoa é que navegamos de Filipos. E cinco dias depois fomos ter com eles em Trôade, onde ficamos uma semana." At 20,1-6
    E aí, num Domingo como desde de sempre os cristãos guardavam, realizando a Santa Missa, viu-o operar uma Ressurreição, que bem lembrou a realizada pelo Profeta Elias (cf. 1 Rs 17,21-22): "No primeiro dia da semana, estando nós reunidos para partir o Pão, Paulo, que havia de viajar no dia seguinte, conversava com os discípulos e prolongou suas palavras até a meia-noite. Havia muitas lâmpadas no quarto, onde nos achávamos reunidos. Acontece que um moço, chamado Êutico, que estava sentado numa janela, foi tomado de profundo sono enquanto Paulo ia prolongando seu discurso. Vencido pelo sono, caiu do terceiro andar abaixo, e foi levantado morto. Paulo desceu, debruçou-se sobre ele, tomou-o nos braços e disse: 'Não vos perturbeis, porque sua alma está nele.'" At 20,7-10
    Nova separação teve fim noutra cidade, na mesma região, um pouco mais ao sul. Mas desta vez por uma mera decisão do próprio Apóstolo. E aí também registrou a celebração que os cristãos faziam do dia no nascimento da Santa Igreja: "Nós tínhamo-nos adiantado e navegado para Assos, para ali recebermos Paulo. Ele mesmo assim o havia disposto, preferindo fazer a viagem a pé. Reuniu-se a nós em Assos, e nós tomamo-lo a bordo e fomos a Mitilene. Continuando dali, sempre por mar, chegamos no dia seguinte defronte de Quios. No outro dia, chegamos a Samos, e um dia depois estávamos em Mileto. Paulo havia determinado não ir a Éfeso, para não se demorar em Ásia, pois se apressava para celebrar, se possível em Jerusalém, o dia de Pentecostes." At 20,13-16
    De Mileto seguiram viagem até Cesareia, já em Judeia, onde se hospedaram na casa de São Filipe Diácono (cf. At 6,5): "Depois de separarmo-nos deles (anciãos de Éfeso), embarcamos e fomos em direção a Cós, e no dia seguinte a Rodes e dali a Pátara. Aí encontramos um navio que ia partir a Fenícia. Entramos e seguimos viagem. Quando estávamos à vista de Chipre, deixando-a à esquerda, continuamos rumo a Síria e aportamos em Tiro, onde o navio devia ser descarregado. Como achássemos uns discípulos, detivemo-nos com eles por sete dias. Eles, sob a inspiração do Espírito, aconselhavam Paulo que não subisse a Jerusalém. Mas, passados que foram esses dias, partimos e seguimos nossa viagem. Todos eles com suas mulheres e filhos acompanharam-nos até fora da cidade. Ajoelhados na praia, fizemos nossa oração. Despedimo-nos então e embarcamos, enquanto eles voltaram para suas casas. Navegando, fomos de Tiro a Ptolemaida, onde saudamos os irmãos, passando um dia com eles. Partindo no dia seguinte, chegamos a Cesareia e, entrando na casa de Filipe, o evangelista, que era um dos sete, ficamos com ele. Tinha quatro filhas virgens que profetizavam." At 21,1-9
    Aí ouviram o profeta Agabo advertir que São Paulo seria preso em Jerusalém, como os fiéis de Tiro já temiam, mas ele não desistiu. Era a última visita deste grande pregador a Cidade Santa: "A estas palavras, nós e os fiéis que eram daquele lugar, rogamos-lhe que não subisse a Jerusalém. Paulo, porém, respondeu: 'Por que chorais e me magoais o coração? Pois eu estou pronto não só a ser preso, mas também a morrer em Jerusalém pelo Nome do Senhor Jesus.' Como não pudéssemos persuadi-lo, desistimos, dizendo: 'Faça-se a vontade do Senhor!' Depois desses dias, terminados os preparativos, subimos a Jerusalém. Conosco também foram alguns dos discípulos de Cesareia, que nos levaram à casa de Menason de Chipre, um antigo discípulo em cuja casa nos devíamos hospedar. A nossa chegada em Jerusalém, os irmãos receberam-nos com alegria." At 21,12-17
    Uma vez aí, ele não deixou de reverenciar o bispo da Cidade Santa, que depois de São Pedro foi São Tiago Menor (cf. At 12,17), que era parente de Jesus: "No dia seguinte, Paulo dirigiu-se conosco à casa de Tiago, onde todos anciãos se reuniram." At 21,18
    São Lucas acompanhou São Paulo em viagem a Roma, já sob custódia da guarda imperial, onde seria julgado por César (cf. At 25,11). De fato, ele havia sido preso em Jerusalém pelo tribuno militar, oficial romano, dada uma agitação popular ocorrida por sua presença no Templo, sob forte segurança transferido para Cesareia, pois os judeus tinham plano para o assassinar (cf. At 23,12), e aí foi mantido em cárcere por dois anos (cf. At 24,27): "Logo que foi determinado que embarcássemos para Itália, Paulo foi entregue com outros presos a um centurião da coorte augusta, chamado Júlio." At 27,1


    E assim seguiram: "Embarcamos num navio de Adramito que devia costear as terras de Ásia, e levantamos âncora. Em nossa companhia estava Aristarco, macedônio de Tessalônica. No dia seguinte, fazendo escala em Sidônia, Júlio, usando de bondade com Paulo, permitiu-lhe ir ver seus amigos e prover-se do que havia de necessário. Dali, fazendo-nos ao mar, fomos navegando perto das costas de Chipre, por serem-nos contrários os ventos. Tendo atravessado o mar de Cilícia e de Panfília, chegamos a Mira, cidade de Lícia. O centurião ali encontrou um navio de Alexandria, que rumava a Itália, e fez-nos passar para ele. Por muitos dias lentamente navegamos e com dificuldade até diante de Cnido, onde o vento não nos permitiu aportar. Fomos então costeando ao sul da ilha de Creta, junto ao cabo Salmona. Navegando com dificuldade ao longo da costa, chegamos afinal a um lugar, a que chamam Bons Portos, perto do qual está a cidade de Lasaia." At 27,2-8
    Mas o tempo não se mostrou favorável: "Sem poder resistir à ventania, o navio foi arrebatado e deixamo-nos arrastar. Rapidamente impelidos para uma pequena ilha chamada Cauda, conseguimos, com muito esforço, recolher o batel. Içaram-no e, depois, como meio de segurança, cingiram o navio com cabos. Então, temendo encalhar em Sirte, arriaram as velas e entregaram-se à mercê dos ventos. No dia seguinte, sendo a tempestade ainda mais violenta, atiraram fora a carga. No terceiro dia, atiramos para fora com nossas próprias mãos os acessórios do navio. Ora, não aparecendo por muitos dias nem sol nem estrelas, e sendo batidos por forte tempestade, tínhamos por fim perdido toda esperança de sermos salvos." At 27,15-20
    São Paulo, então, profetizou que chegariam a uma ilha: "Já estávamos na décima quarta noite, pelo mar Adriático, quando, pela meia-noite, os marinheiros pressentiram que estavam perto de alguma terra. Então, atirando a sonda, perceberam que a profundidade era de vinte braças. Depois, um pouco mais adiante, viram que era de quinze braças. Temendo que déssemos em algum recife, lançaram quatro âncoras da popa, esperando ansiosos que amanhecesse o dia." At 27,27-29
    Vieram, pois, a naufrágio no mar da ilha de Malta, atualmente país, ao sul da ilha italiana de Sicília: "No navio, éramos ao todo duzentas e setenta e seis pessoas. Afinal, clareou o dia. Os marinheiros não reconheceram a terra, mas viram uma enseada com uma praia, na qual tencionavam encalhar o navio, caso o pudessem. Mas deram numa língua de terra, e aí o navio encalhou. A proa, encalhada, permanecia imóvel, ao mesmo tempo que a popa se abria com a força do mar. Os soldados tencionavam matar os presos, por temerem que algum deles fugisse a nado. O centurião, porém, querendo salvar Paulo, impediu que o fizessem e ordenou que aqueles que pudessem nadar fossem os primeiros a lançar-se ao mar e alcançar a terra. Os demais, uns atingiram a terra em tábuas, outros em cima dos destroços do navio. Desse modo, todos conseguiram chegar à terra, sãos e salvos. Estando já salvos, então soubemos que a ilha se chamava Malta." At 27,37-39.41-44; 28,1
    E ai testemunhou mais milagres deste grande Santo: "Os indígenas trataram-nos com extraordinária benevolência. Acenderam uma grande fogueira e em torno dela recolheram-nos, em vista da chuva que caía e do frio que fazia. Havia na vizinhança sítios pertencentes ao principal da ilha, chamado Públio. Este homem hospedou-nos por três dias em sua casa, tratando-nos bem. Ora, o pai desse Públio achava-se acamado com febre e sofrendo de disenteria. Paulo foi visitá-lo e, orando e impondo-lhe as mãos, sarou-o. Depois desse fato, vieram ter com ele todos habitantes da ilha que se achavam doentes, e foram curados. Assim tiveram conosco toda sorte de considerações e, quando estávamos para navegar, proveram-nos do que era necessário." At 28,2.7-10
    Partiram, então, para o destino que tinham, numa embarcação que tinha como bandeira irmãos gêmeos da mitologia greco-romana: "Ao termo de três meses, embarcamos num navio de Alexandria, que havia passado o inverno na ilha. Este navio levava por insígnias os Dióscuros. Fizemos escala em Siracusa, onde ficamos três dias. De lá, seguindo a costa, atingimos Régio. No dia seguinte, soprava o vento sul e chegamos em dois dias a Pozzuoli. Ali encontramos irmãos que nos rogaram que ficássemos em sua companhia sete dias. Em seguida, dirigimo-nos a Roma." At 28,11-14
    Ele chegou, enfim, com São Paulo a um mercado na Via Apia, a cerca de 60 quilômetros de Roma, e depois a uma vila mais à frente, duas ocasiões em que cristãos vieram acompanhar-lhes: "Os irmãos de Roma foram informados de nossa chegada e vieram a nosso encontro até o Foro de Ápio e as Três Tavernas. Ao vê-los, Paulo deu graças a Deus e sentiu-se animado. Chegados que fomos a Roma, foi concedida licença a Paulo para que ficasse em casa própria com um soldado que o guardava." At 28,15
    Na despedida de sua Carta aos Colossenses, escrita durante esta primeira prisão, que também durou dois anos (cf. At 28,30) e podemos chamar de 'domiciliar', ainda que também tivesse o braço esquerdo acorrentado ao braço deste soldado, ele diz-nos a profissão de São Lucas, que mesmo nessa situação se manteve em sua companhia: "Saúdam-vos, enfim, Lucas, o Amado Médico..." Cl 4,14
    E quando São Paulo foi preso pela segunda vez em Roma, agora encarcerado, mais uma vez São Lucas era seu fiel companheiro. Está escrito ao fim da Segunda Carta de São Paulo a São Timóteo: "Só Lucas está comigo." 2 Tm 4,11


    Exatamente por causas de seu ofício, é tão importante o registro que ele fez da imposição de mãos que Jesus fez sobre a sogra de São Pedro. De fato, ele não aponta a cura de uma simples febre, que bem conhecia, mas propriamente um exorcismo: "Saindo Jesus da sinagoga, entrou na casa de Simão. A sogra de Simão estava com alta febre e pediram-Lhe por ela. Inclinando-Se sobre ela, ordenou Ele à febre, e a febre deixou-a. Ela imediatamente levantou-se e pôs-se a servi-los." Lc 4,38-39
    Igual peso, e pelo mesmo motivo, tem seu relato sobre a agonia de Nosso Senhor no Jardim das Oliveiras, quando anotou um fenômeno médico: "Ele entrou em agonia e rezava com ainda mais instância, e Seu suor tornou-se como gotas de Sangue a escorrer por terra." Lc 22,44
    Enfim, podemos dizer que São Lucas é o Evangelista do Espírito Santo, pois vai mencioná-Lo mais que os outros evangelistas juntos: são 14 vezes. E no Livro de Atos dos Apóstolos, início do tempo da Igreja Católica, fica clara a importância que Lhe confere: são 39 menções, quando com nitidez vemos que o Divino Espírito é Deus e francamente Se põe à frente da Igreja. Aliás, como o próprio Jesus havia predito (cf. Jo 16,13).
    Ora, é dele as imagens que temos do Pentecostes, quando a Igreja nasceu Católica, para assim falar ao mundo desde o primeiro instante: "Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um impetuoso vento, e encheu toda casa onde estavam sentados. Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem. Achavam-se em Jerusalém piedosos judeus de todas nações que há debaixo do céu. Ouvindo aquele ruído, reuniu-se muita gente e maravilhava-se de que cada um os ouvia falar em sua própria língua." At 2,1-6
    Da mesma forma, pode-se dizer que São Lucas é o Evangelista de Nossa Senhora. Por não ser judeu, e assim em mais abrangente perspectiva contemplar a tradição deles, refere-se à Santíssima Virgem por 12 vezes, quer dizer, também mais que os outros evangelistas juntos. E se não é possível dizer que a tenha conhecido, certamente conheceu a comunidade cristã que a venerava, pois registra a expressão "desde agora" que ela usou logo após a Anunciação, ou seja, o nascimento de uma devoção que se antecipa ao próprio estabelecimento da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo: "Por isto, desde agora todas gerações proclamá-me-ão bem-aventurada." Lc 1,48b
    E este assim como entre tantos outros detalhes de que nos informa, como a Anunciação, a visita a Santa Isabel, as inspiradas palavras de seu Magnificat e importantíssimos fatos da infância de Jesus, como Sua Páscoa em Jerusalém aos 12 anos de idade, quando expressou indissociabilidade da Casa do Pai (cf. Lc 2,49), e Sua submissão a Maria Santíssima e São José (cf. Lc 2,51). Apontou, ademais, a expressiva condição religiosa da Mãe de Deus, que vemos em sua reação à aparição de São Gabriel Arcanjo (cf. Lc 1,29), que absolutamente não estranhou, senão o significado de suas palavras.
    E registros ainda dão conta de que nosso Santo mesmo pintou o primeiro quadro de Maria, que deu origem ao ícone abaixo, de Nossa Senhor do Perpétuo Socorro. O original, infelizmente, desfez-se.


    Um antigo documento, prólogo do Evangelho de São Lucas, muito provavelmente escrito no século II, dá-nos as seguintes informações: "Lucas é um sírio de Antioquia, sírio pela raça, médico de profissão. Tornou-se discípulo dos Apóstolos e mais tarde seguiu a Paulo até seu martírio. Tendo com perseverança servido ao Senhor, solteiro e sem filhos, cheio da Graça do Espírito Santo, morreu aos 84 anos de idade."
    São Jerônimo, Historiador e Doutor da Igreja, que é do século IV, disse a seu respeito: "Era discípulo e inseparável companheiro de São Paulo. Nasceu em Antioquia, exercia a profissão de médico. Ao mesmo tempo, cultivava as letras e chegou a ser muito versado em língua e literatura gregas. Seu gosto literário ressalta nessa preciosa História (Atos dos Apóstolos) que nos deixou da origem do Cristianismo, mais completa em muitíssimos pontos que a dos demais evangelistas, melhor ordenada e de mais agradável leitura."
    São Lucas foi martirizado na região de Bitínia, costa do Mar Negro, em atual Turquia, mas ainda no ano de 357 suas relíquias foram levadas para Constantinopla pelo Imperador Constâncio, filho de Constantino, e depositadas na igreja dos Santos Apóstolos, junto às relíquias de Santo André e São Timóteo. São Gregório Magno, um dos Padres Latinos e quarto Doutor da Igreja, levou-as a Itália ao fim de sua nunciatura, e depositou-as na igreja do Mosteiro de Santo André, que ele havia fundado no Monte Célio, próximo a Roma.
    É o Santo Padroeiro dos médicos e dos artistas.
    Atualmente encontram-se na cidade de Pádua, norte de Itália, na Basílica de Santa Justina, onde recentemente tiveram a autenticidade reconhecida. Seu esqueleto está miraculosamente bem preservado.


    São Lucas, rogai por nós!

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Santo Inácio de Antioquia


    Eis uma alma cujos escritos e vida perpetuaram importantes capítulos da Teologia, da Sagrada Tradição e da História da Santa Igreja Católica. Ignátios Antiokheías, um dos três mais importantes Padres Apostólicos, por ser daqueles que conheceram os Apóstolos, chamado 'O Teóforo', ou seja, O Portador de Deus, e entres sírios 'Nurono', que significa O Iluminador, não era judeu e deve ter visto São Barnabé, este admirável discípulo de Jesus que chegou a ser chamado de Apóstolo (cf. At 14,14), chegar a sua cidade, pois muitos pagãos estavam convertendo-se. No Livro de Atos dos Apóstolos, São Lucas assim narrou esse episódio: "A notícia dessas coisas chegou aos ouvidos da igreja de Jerusalém. Então enviaram Barnabé a Antioquia. Ao lá chegar, alegrou-se vendo a Graça de Deus, e a todos exortava a perseverar no Senhor com firmeza de coração, pois era um homem de bem, cheio do Espírito Santo e de . Assim uma grande multidão se uniu ao Senhor." At 11,22-24
    Ele também deve ter presenciado São Barnabé apresentar São Paulo a sua comunidade, que era um sábio e fervoroso Apóstolo, recém-convertido, de quem nosso Santo se tornaria fiel seguidor. E certamente viu os 'nazarenos', como os judeus chamavam os seguidores de Cristo, passarem a ser chamados de 'cristãos', ainda segundo nosso Amado Médico: "Em seguida, partiu Barnabé para Tarso, à procura de Saulo. Achou-o e levou-o a Antioquia. Durante um ano inteiro, eles tomaram parte nas reuniões da comunidade e instruíram grande multidão, de maneira que em Antioquia é que os discípulos, pela primeira vez, foram chamados pelo nome de cristãos." At 11,25-26
    O termo nazareno, contudo, não desapareceria definitivamente, e seria empregado décadas mais tarde quando São Paulo foi preso em Jerusalém pela primeira vez. No julgamento realizado em Cesareia perante Felix, governador de Judeia entre 52 e 60, o Apóstolo dos Gentios assim foi acusado pelo advogado do sumo sacerdote: "Encontramos este homem, uma peste, um indivíduo que fomenta discórdia entre os judeus no mundo inteiro. É um dos líderes da seita dos nazarenos." At 24,5
    Santo Inácio deve ter acompanhado as primeiras grandes decisões da Santa Igreja, como a questão sobre circuncidar ou não os cristãos vindos do paganismo, que motivou o primeiro Concílio, dado em Jerusalém. Talvez até tenha dele participado, na qualidade de 'irmão' como São Lucas citou: "Alguns homens, descendo de Judeia, puseram-se a ensinar aos irmãos o seguinte: 'Se não vos circuncidais, segundo o rito de Moisés, não podeis ser salvos.' Originou-se, então, grande discussão de Paulo e Barnabé com eles, e resolveu-se que estes dois, com alguns irmãos, fossem tratar desta questão com os Apóstolos e os Anciãos em Jerusalém." At 15,1-2
    Também foi seguidor e sucessor do próprio São Pedro, logo após Evódio, no encargo de Bispo de Antioquia, precisamente do ano 68 até 107 de nossa era, quando foi martirizado. De fato, antes de ir a Roma pela primeira vez, foi em Antioquia que o Príncipe dos Apóstolos se refugiou ao ser libertado da cadeia por seu Anjo da Guarda, após ser preso por Herodes (cf. At 12,3). Por esses tempos a liderança da comunidade de Jerusalém já havia sido confiada a São Tiago Menor: "Pedro continuava a bater. Afinal abriram a porta, viram-no e ficaram atônitos. Ele, acenando-lhes com a mão para que se calassem, contou como o Senhor o havia livrado da prisão, e disse: 'Comunicai-o a Tiago e aos irmãos.' Em seguida, saiu dali e retirou-se para outro lugar." At 12,17
    Mas São Pedro, que aliás havia ordenado nosso Santo, acabou expulso de Roma com os judeus pelo Imperador Cláudio. Esse fato foi registrado por São Lucas, ao citar o encontro de São Paulo com judeus vindos de lá, que se deu em Corinto: "Encontrou ali um judeu chamado Áquila, natural do Ponto, e sua mulher Priscila. Pouco antes, eles haviam chegado de Itália, por Cláudio ter decretado que todos judeus saíssem de Roma." At 18,2a
    E assim São Pedro retornou a Antioquia, retomando seu episcopado, pois era a mais importante cidade da região, da qual Jerusalém era apenas mais uma cidade satélite. A Carta de São Paulo aos Gálatas indica sua chegada e a inoportuna resistência que lhe fez: "Quando, porém, Cefas veio a Antioquia, francamente resisti-lhe, porque era censurável. Pois antes de chegarem alguns homens da parte de Tiago, ele comia com os pagãos convertidos. Mas quando aqueles vieram, retraiu-se e separou-se destes, temendo os circuncidados." Gl 2,11-12
    De fato, mais tarde, como vemos na Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, ele vai usar exatamente deste comportamento para não afetar a sensibilidade alheia, e até fingir não ter lei: "Para os que não têm lei, fiz-me como se eu não tivesse lei, ainda que eu não esteja isento da lei de Deus - porquanto estou sob a lei de Cristo -, a fim de ganhar os que não têm lei." 1 Cor 9,21
    Antioquia de Síria era uma das três grandes metrópoles do Império Romano, menor apenas que Roma e Alexandria. Lá já vivia uma grande comunidade de hebreus desde os tempos da Diáspora, quando eles se dispersaram pelo mundo, 600 anos antes da Vinda de Nosso Salvador. E para lá foram vários discípulos após o apedrejamento de Santo Estevão, fazendo com que se tornasse um grande e importante centro cristão: "Entretanto, aqueles que foram dispersados pela perseguição que houve no tempo de Estêvão, chegaram até a Fenícia, Chipre e Antioquia, pregando a Palavra só aos judeus. Alguns deles, porém, que eram de Chipre e de Cirene, entrando em Antioquia, também se dirigiram aos gregos, anunciando-lhes o Evangelho do Senhor Jesus. A mão do Senhor estava com eles, e grande foi o número daqueles que receberam a fé e se converteram ao Senhor." At 11,19-22
    Aliás, de Antioquia, desde o início da vida pública de Jesus, já haviam saído grandes discípulos, como Nicolau, que, mesmo sem ser judeu de nascimento, fez parte do primeiro grupo de Diáconos. Ele foi, de fato, o primeiro gentio a entrar na Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, seguido do eunuco da da rainha de Etiópia, batizado por São Filipe Diácono, ambos antecipando-se ao 'Pentecostes dos Gentios' presidido por São Pedro (cf. At 10,44): "Este parecer agradou a toda assembleia. Escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia." At 6,5
    E como São João Evangelista foi o último Apóstolo a morrer, por volta do ano 100 de nossa era, Santo Inácio, em consideração ao primeiríssimo Colégio, por Jesus pessoalmente convocado, muito valeu-se de sua companhia, sempre o procurando para esclarecer e resolver importantes questões relativas à Sã Doutrina.
    Desse tão próximo convívio com três fulgurantes Apóstolos, deixou-nos 7 preciosíssimas cartas, na Tradição chamadas Epístolas de Inácio, que são: Epístola a Policarpo de Esmirna, Epístola aos Efésios, Epístola aos Esmirniotas, Epístola aos Filadélfos, Epístola aos Magnésios, Epístola aos Romanos e Epístola aos Trálios. Depois do Papa São Clemente I, Santo Inácio foi o segundo a mencionar as Cartas de São Paulo em seus escritos, o que ratifica a historicidade e a canonicidade delas.
    Para os mais sérios estudiosos, elas são consideradas tão importantes e reveladoras quanto as Cartas de São Paulo. Foram escritas no longo caminho que ele fez até Roma, após ser preso e condenado a morte, por não renegar a fé em Cristo, pela boca dos leões no Coliseu, como aconteceu a muitos cristãos até o início do século IV. De notória santidade, e sendo bispo em tão importante cidade, o imperador romano quis fazer de sua morte um espetáculo para dispersar os muitos fiéis que ele representava, aos quais com grande êxito divulgava o Nome de Jesus.
    Em suas cartas, vemos Santo Inácio enfrentar as heresias que surgiam para perverter a Sã Doutrina, demonstrando fervoroso empenho para manter a Unidade e Hierarquia da Igreja. É ele, sem dúvida, um elo chave para compreendermos a Igreja confiada por Jesus aos Apóstolos. A Sagrada Tradição tem nele um especial capítulo. Por exemplo, ele foi o primeiro a chamar a Igreja de Católica, ou seja, Universal, para o mundo todo, que claramente vinculava ao Santíssimo Sacramento: "Que nada façais à Igreja sem o conhecimento do Bispo. Que a celebração da Eucaristia seja válida quando celebrada pelo Bispo ou por quem este designar. Onde quer que o Bispo apareça, lá estejam as pessoas. Assim como onde quer que Jesus Cristo esteja, lá está a Igreja Católica. Não é lícito batizar ou dar Comunhão sem o consentimento do Bispo. Por outro lado, tudo que tem sua aprovação é agradável a Deus. Assim, tudo que for feito será seguro e válido." in Epístola aos Esmirniotas
    Além de mencionar a incorporação dos Anciãos à Hierarquia da Igreja Católica Apostólica Romana, que era uma tradição judaica e viriam a ser nossos Presbíteros, ou Padres, um grau de ordenação entre os Bispos e Diáconos de então, Santo Inácio esclarecidamente defendeu a autoridade dos Bispos, únicos e legítimos sucessores dos Apóstolos: "É bom para vós em união proceder de acordo com o pensamento do Bispo, o que já fazeis. De fato, vosso colégio de Presbíteros, justamente famoso, digno de Deus, assim harmoniosamente está unido ao Bispo como as cordas à cítara. Por isso, em vossa concórdia e em vosso sinfônico amor Jesus Cristo é cantado. E assim vós, um por um, vos tornais coro, para que na sinfonia da concórdia, depois de ter tomado o trono de Deus na Unidade, canteis a uma só voz." in Epístola aos Efésios
    Eram, de fato, os fundamentos da Eclesiologia: "Cuidai de fazer todas coisas em harmonia com Deus, com o Bispo presidindo no lugar de Deus, e com os Presbíteros no lugar do conselho dos Apóstolos, e com os Diáconos, que me são caríssimos, encarregados do serviço de Jesus Cristo, que estava com o Pai desde o princípio e por fim Se manifestou." in Epístola aos Magnésios
    Tal respeito devotado aos Bispos é essencial, pois o título de Apóstolo cabe apenas àqueles que Jesus pessoalmente constitui: "Ao amanhecer, chamou Seus discípulos e escolheu doze dentre Eles, que chamou de Apóstolos..." Lc 6,13
    Nosso Santo foi precursor nos assuntos da Cristologia, pois afirmava a Divindade de Jesus: "Há um só Médico que é tanto Carne quanto Espírito, tanto feito quanto não feito, Deus existindo em Carne, verdadeira Vida na morte, tanto de Maria quanto de Deus, primeiro passível e depois impassível: Jesus Cristo, Nosso Senhor." in Epístola aos Efésios
    Defendia os Evangelhos e a Santíssima Trindade"Cuidai, pois, de estar firmemente fundamentados nos ensinamentos do Senhor e de Seus Apóstolos, para que possais prosperar em todas suas ações, tanto no corpo como na alma, na fé e no amor, no Filho, no Pai e no Espírito, no princípio e no fim, juntamente com Seu digníssimo Bispo e sua coroa espiritual, com Seus Presbíteros e com os Diáconos, que são homens de Deus."
    E já àqueles tempos, Santo Inácio apontava o orgulho daqueles que não cultuavam a Cristo nas Santas Missas: "Se a oração de duas pessoas juntas tem tal força, quanto mais a do Bispo e de toda a Igreja! Aquele que não participa da reunião é orgulhoso e já está por si mesmo julgado, pois está escrito: 'Deus resiste aos orgulhosos (cf. Pr 3,34).' Tenhamos cuidado, portanto, para não resistirmos ao Bispo, a fim de estarmos submetidos a Deus." in Epístola aos Efésios
    Ele registrou a adoção do Domingo pelos cristãos: "Aqueles que viviam na antiga ordem de coisas chegaram à nova esperança, e não observam mais o sábado, mas o Dia do Senhor, em que nossa vida se levantou por meio d'Ele e de Sua Morte. Alguns negam isso, mas é por meio desse Mistério que recebemos a fé e no qual perseveramos para ser discípulos de Jesus Cristo, Nosso Único Mestre." in Epístola aos Esmirniotas
    Oura vez aqui, denunciando heresias: "Não vos deixeis seduzir por estranhas doutrinas nem por antiquadas fábulas, que são inúteis. Pois se até o dia de hoje vivermos à maneira do judaísmo, confessamos que não recebemos a Graça. ... Se, então, aqueles que andaram nas antigas práticas alcançaram a novidade da esperança, não mais observando os sábados, mas moldando suas vidas após o Dia do Senhor, no qual nossa vida também ressuscitou por meio d'Ele... como poderemos viver afastados d'Ele?" in Epístola aos Magnésios 
    Também apontou a veneração à Virgem Maria, como tão grande mistério quanto a morte de Cristo: "E permaneceram ocultos, ao príncipe desse mundo, a virgindade de Maria e seu parto, bem como a morte do Senhor: três mistérios de clamor, realizados no silêncio de Deus." in Epístola aos Efésios
    Registrou a já iniciada veneração aos Santos, ao prometer sua intercessão também dos Céus: "Meu espírito sacrifica-se por vós, não somente agora, mas também quando eu chegar a Deus. Eu ainda estou exposto ao perigo, mas o Pai é fiel, em Jesus Cristo, para atender minha oração e a vossa. Que n'Ele sem reprovação sejais encontrados." in Epístola aos Trálios
    Registrou a Hierarquia da Igreja e a importância da Unidade da fé: "Eu ofereço minha vida por aqueles que são submetidos ao Bispo, aos Presbíteros e aos Diáconos. Que com eles eu possa ter parte em Deus. Trabalhai juntos uns para os outros, lutai juntos, correi juntos, sofrei juntos, dormi e vigiai juntos como administradores de Deus, Seus assessores e servos. Procurai agradar Àquele pelo Qual militais e do Qual recebeis os favores. Que nenhum de vós seja desertor. Vosso Batismo permaneça como um escudo, a fé como um elmo, a caridade como uma lança, a paciência como uma armadura." in Epístola a Policarpo
    Exaltava a Santa Cruz: "Seja meu espírito reputado em nada por causa da Cruz, que é escândalo para os incrédulos, mas para nós SalvaçãoVida Eterna." in Epístola aos Efésios
    Pregava o Sacramento da Confissão: "É impossível para um homem se libertar do hábito do pecado antes de odiá-lo, assim como é impossível receber perdão antes de confessar suas transgressões."
    E que foi o primeiro a usar a palavra 'Cristianismo': "O Cristianismo não consiste em persuadir as pessoas a respeito de particulares ideias, mas em convidá-las a compartilhar a grandeza de Cristo. Portanto, rezem para que eu nunca caia na armadilha de impressionar as pessoas com inteligentes discursos, mas, em vez disso, aprenda a falar com humildade, desejando apenas impressionar as pessoas com o próprio Cristo."
    Entre os anos de 98 e 107, foi preso por ordem do imperador Trajano e, para servir de exemplo aos demais líderes cristãos, acorrentado levado a capital do império por dez soldados romanos para ser martirizado, como registrou enquanto estava a caminho: "De Síria até Roma, luto com feras, tanto em terra como no mar, tanto de dia como de noite, preso a dez leopardos, isto é, a uma tropa de soldados..." in Epístola aos Romanos
    Mas confiante, e para não desmerecer o Sacrifício de Cristo, não aceitou ser poupado da boca dos leões, pois recebeu, como esperava, a condenação ad bestias para ser cumprida no Coliseu. Como bispo, deu exemplo aos demais cristãos que iriam ser sacrificados naquele mesmo dia, para que morressem na fé"Deixai-me ser alimento das feras. Sou trigo de Deus. É necessário que eu seja moído pelos dentes dos leões para me tornar um pão digno de Cristo."


    Profícuo escritor, e testemunhando o martírio dos Apóstolos, seu amor pela Igreja era patente:

    "Todos que pertencem a Deus e a Jesus Cristo estão em Comunhão com o Bispo. E todos que se arrependem e voltam à unidade da Igreja também pertencerão a Deus, para viverem segundo Jesus Cristo."
    "Sujeitai-vos ao Bispo como a Jesus Cristo... É necessário, como já praticais, nada fazerdes sem o Bispo, pois quem é de Deus e de Jesus Cristo está com o Bispo."
    "Nada exista entre vós que possa dividir-vos. Vossa união com o Bispo e os Presbíteros seja a antecipada imagem e sinal da Vida Eterna."
    "Quem faz o que quer que seja sem o Bispo, os Presbíteros e os Diáconos não tem pura a consciência."
    "Deveis estar estreitamente unidos ao Bispo, como a Igreja o é com Cristo, e como Cristo o é com o Pai."
    "Sede obedientes ao Bispo e uns aos outros, como Jesus Cristo também o foi em Carne ao Pai, e os Apóstolos a Cristo, e ao Pai, e ao Espírito, para que haja unidade na carne e no espírito."
    "O Senhor não fez nada por Si mesmo ou por meio de Seus Apóstolos sem Seu Pai, com Quem Ele está unido. Assim também vós não deveis empreender nada sem o Bispo e os Presbíteros."
    "Como filhos da Luz e da Verdadeevitai a divisão e as perversas doutrinas. Para onde vai o Pastor, devem segui-Lo as ovelhas."
    "Da mesma forma, todo aquele que recebeu de Deus o poder de distinguir e ainda assim segue um inábil pastor e recebe uma falsa opinião sobre a Verdade será punido... Não vos enganeis: se alguém seguir aquele que se separa da Verdade, não herdará o reino de Deus. E se alguém não se mantiver afastado do pregador da mentira, será condenado ao inferno."
    "Pois alguns têm o hábito de levar o Nome de Deus com maligna astúcia, enquanto ainda praticam coisas indignas de Deus. Fugi desses como de selvagens animais. Pois são cães devoradores, que mordem às escondidas, contra os quais vós deveis estar atentos, pois são homens de difícil cura."    "Procurai, portanto, participar na única Eucaristia, porque uma só é a Carne de Nosso Senhor Jesus Cristo, um só é o Cálice que nos une em Seu Sangue, um só é o altar e um só é o Bispo com o Presbitério e os Diáconos, meus colaboradores no Ministério."
    "Parti um só Pão, que é remédio de imortalidade."
    "Tenho fome do Pão de Deus, da Carne de Jesus Cristo... Anseio por beber de Seu sangue, o dom do amor sem fim."
    "Procurai reunir-vos com mais frequência para celebrar a Ação de Graças e o louvor de Deus. Quando vos reunis com frequência, abatem-se as forças de Satanás e seu destruidor poder é aniquilado pela concórdia de vossa fé."
    "Mas olha para os homens que têm essas noções pervertidas sobre a Graça de Jesus Cristo que chegou até nós, e veja quão contrários à mente de Deus eles são. (...) Eles até abstêm-se da Eucaristia e das orações públicas, porque não admitem que a Eucaristia é o mesmo Corpo de Nosso Salvador Jesus Cristo, cuja Carne sofreu por nossos pecados, e que o Pai de Sua bondade O ressuscitou."
    "Nossa tarefa não é produzir persuasiva propaganda. O Cristianismo mostra sua grandeza quando é odiado pelo mundo."
    "Pelo fruto conhece-se a árvore. Do mesmo modo, os que professam ser de Cristo reconhecem-se pelas suas obras."
    "Onde reinam a divisão e a ira, aí não habita Deus."
    "Fugi das divisões como o principio de todos males."
    "Nada há mais precioso que a Paz, que desarma todo celeste ou terrestre inimigo."
    "Sede indulgentes e afáveis uns com os outros, como Deus é convosco."
    "Sustenta os outros como Deus te sustenta, suporta todos na caridade."
    "Quem professa a fé, não peca. E quem possui a caridade, não odeia ninguém."
    "Nada vos faltará, se em Jesus Cristo tiverdes perfeita fé e caridade: a fé é o princípio da Vida, a caridade é o ápice. A união das duas é Deus mesmo. Todas demais virtudes fazem cortejo a estas, para conduzir o homem à perfeição."
    "É como se houvesse duas moedas, uma de Deus e outra do mundo. Cada uma delas tem gravado seu próprio cunho. Os infiéis têm a imagem do mundo, os que permanecem fiéis na caridade têm a imagem de Deus Pai, por intermédio de Jesus Cristo."
    "O que agora interessa não é apenas fazer profissão de fé, mas na prática da fé perseverar até ao fim."
    "O cristão não é patrão de si mesmo, mas está à disposição de Deus."
    "Ao Senhor nada se esconde, até nossos mais íntimos segredos estão-Lhe próximos. Façamos, então, todas coisas em Sua presença, visto que somos Seus Templos."
    "Aquele que possui a Palavra de Jesus também é capaz de perceber Seu silêncio e chegar à perfeição, agindo segundo Sua Palavra e fazendo-se reconhecer por Seu silêncio."
    "Melhor é calar-se e ser, que falar e não ser."
    "É melhor ser cristão sem dizê-lo, que dizê-lo sem ser."
    "É bom ensinar, desde que se pratique o que se ensina."
    "Não tenha Jesus Cristo em teus lábios e o mundo em teu coração."
    "Sejamos, pois, de reverente espírito e temamos a longanimidade de Deus, para que ela não nos condene."
    "Mostremo-nos aos outros que somos seus irmãos com nossa bondade, esforcemo-nos para imitar o Senhor. Quem mais que Ele sofreu a injustiça, a privação e o desprezo?"
    "... sois pedras do Templo do Pai, preparadas para a edificação do Pai e elevadas ao alto pelo instrumento de Jesus Cristo, que é a Cruz, servindo-vos do Espírito Santo como corda, enquanto vossa fé foi o meio pelo qual ascendestes, e vosso amor, o caminho que conduz a Deus."
    "Nenhum terreno prazer, nenhum reino deste mundo pode me beneficiar de alguma forma. Prefiro a morrer em Cristo Jesus ao poder sobre os confins da Terra. Aquele que morreu em nosso lugar é o único objeto de minha busca. Aquele que ressuscitou por nós é meu único desejo. Não fales de Jesus Cristo enquanto amar este mundo."
    "Se não estamos dispostos a morrer para imitar a Paixão de Cristo, Sua Vida não está conosco."
    "É belo transpor o mundo e ressurgir em Deus."
    "Agora começo a ser discípulo. Nenhuma visível ou invisível criatura me atrai para si, até que eu esteja em Jesus Cristo. Fogo e cruz, fileiras de feras, lacerações, esquartejamento, ruptura dos ossos, mutilação dos membros, trituração de todo corpo, todos cruéis tormentos do Diabo caiam sobre mim, desde que eu chegue à posse de Jesus Cristo."
    "Saúdo-vos de Esmirna, junto às igrejas de Deus comigo aqui presentes. Elas consolam-me em tudo, tanto no corpo como na alma. Minhas correntes, que comigo carrego por Jesus Cristo, implorando-me para que eu alegremente possa chegar a Deus, exortam-vos. Perseverai em vossa concórdia e em vossas orações comunitárias."
    "Escrevo a todas Igrejas e a todos exorto que de boa vontade morro por amor a Deus, se não o impedirem. Imploro-vos que não me façais uma inoportuna gentileza. Permiti que eu seja devorado pelas feras, que são meu meio de alcançar Deus."
    "Deixai que eu me torne alimento para as feras, por meio das quais poderei chegar à posse de Deus."
    "Deixai-me partir para a pura Luz, quando ali tiver chegado, então verdadeiramente serei homem."
    "Meu terreno desejo está crucificado, em mim não mais existe fogo de amor pela matéria. Uma Água Viva murmura em mim e diz-me lá dentro: 'Vem para o Pai!'"
    "Toma e recebe, Senhor, toda minha inteligência e minha vontade. Quanto possuo, Tu deste-me: eu restituo-To. Tudo é para Ti: dispõe disso como Te agradar. Dá-me só Teu amor e Tua Graça: nada mais Te peço, ó Senhor."
    "Adeus! Sede fortes até o fim no sofrer por Cristo."

    É venerado como Santo pelas igrejas 'ortodoxa', luterana e anglicana.
    Suas restos mortais foram levados por cristãos a Antioquia, mas com a tomada desta cidade pelos muçulmanos no ano de 637, foram sepultados em Roma, no altar da antiquíssima Basílica de São Clemente, junto às relíquias deste Santo. Esse local havia sido um templo pagão, como se vê na cripta, mas foi convertido em Casa de Oração cristã ainda no século I.


    Santo Inácio de Antioquia, rogai por nós!