domingo, 4 de janeiro de 2026

Epifania do Senhor


    Epifania, em grego, significa 'manifestação', e na Liturgia Católica esse termo faz referência à manifestação de Deus, ou mais propriamente a Sua Encarnação na Pessoas de Jesus.
    N'Ele, portanto, Deus pessoalmente manifestou-Se ao mundo em três especiais momentos: após Seu Nascimento, aos estrangeiros Santos Reis, que representam todas nações não judias; durante Seu Batismo, a São João Batista e seus seguidores, que representam o povo judeu; e no milagre das Bodas em Caná, aos Apóstolos, aos quais confiou Sua Doutrina.
    São três momentos marcados pelo indiscutível poder de Deus: a Estrela da Natividade, que guiava os magos; o Espírito Santo, em forma de Pomba, e a voz de Deus Pai, logo após o Batismo; e a transformação da água em vinho, em Galileia.
    A Vinda de Deus ao mundo era muito esperada pelo povo judeu e por religiosos de outras nações. No Livro de Números, o remoto profeta pagão Balaão já dizia em seu oráculo: "Eu vejo-O, mas não é para agora. Percebo-O, mas não de perto: um Astro sai de Jacó, um Cetro levanta-Se de Israel..." Nm 24,17
    Esse Astro, como o Rebento de Jessé, pai do rei Davi, profetizado o Livro do Profeta Isaías (cf. Is 11,10), é o próprio Jesus, que no Livro de Apocalipse de São João vai dizer: "Eu sou o Rebento da descendência de Davi, a radiosa Estrela da Manhã." Ap 22,16b
    E referindo-se ao Antigo Testamento, a Segunda Carta de São Pedro já havia afirmado: "Assim demos ainda maior crédito à Palavra dos Profetas, à qual fazeis bem em atender, como a uma lâmpada que brilha em um tenebroso lugar, até que desponte o Dia e a Estrela da Manhã Se levante em vossos corações." 2 Pd 1,19
    Ora, no Evangelho Segundo São Mateus, Jesus também foi simbolizado pela Estrela da Natividade que os Santos Reis Magos seguiram, como perguntaram ao chegar em Jerusalém. E, de fato, adoração só devemos a Deus, e era o que eles pretendiam: "Onde está o Rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos Sua Estrela no Oriente e viemos adorá-Lo." Mt 2,2
    Não foi, absolutamente, uma casual expressão, pois se prostraram e adoraram o Menino Jesus tão logo se viram a Sua frente, onde a família de São José morava em Belém: "Entrando na casa, acharam o Menino com Maria, Sua mãe. Prostrando-se diante d'Ele, adoraram-nO." Mt 2,11
    De fato, por várias vezes Nosso Senhor afirmou Sua Majestade, como, no Evangelho Segundo São João, quando foi julgado: "Pilatos entrou no pretório, chamou Jesus e perguntou-Lhe: 'És Tu o Rei dos judeus?' Respondeu Jesus: 'Meu Reino não é deste mundo. Se Meu Reino fosse deste mundo, Meus súditos certamente teriam pelejado para que Eu não fosse entregue aos judeus. Mas Meu Reino não é daqui.'" Jo 18,33.36
    Já havia afirmado Sua celestial natureza perante religiosos no Templo de Jerusalém: "Vós sois cá de baixo, Eu sou lá de cima. Vós sois deste mundo, Eu não sou deste mundo." Jo 8,23b
    Bem como afirmou ser o Cristo em Seu 'julgamento' perante os líderes judeus, e que a partir de então só tornariam a vê-Lo ou no Juízo Particular ou no Final: O Evangelho Segundo São Marcos registrou: "O sumo sacerdote tornou a perguntar-Lhe: 'És Tu o Cristo, o Filho de Deus Bendito?' Jesus respondeu: 'Eu O sou. E vereis o Filho do Homem sentado à direita do Poderoso, vindo sobre as nuvens do Céu.'" Mc 14,61b-62
    E desde o início de Sua Missão havia dito à samaritana, junto ao poço de Jacó: "Respondeu a mulher: 'Sei que deve vir o Messias (que se chama Cristo), pois, quando Ele vier, nos fará conhecer todas coisas.' Disse-lhe Jesus: 'Sou Eu, Quem fala contigo.'" Jo 4,25-26
    Enfim, nos Céus, essa foi a saudação que Ele recebeu dos seres e anciãos, claramente angelicais criaturas, que se referiam a instituição da Santa Igreja Católica, conforme a visão de São João Apóstolo: "Cantavam um novo cântico, dizendo: 'Tu és digno de receber o Livro e de abrir-lhe os selos, porque foste imolado e resgataste para Deus, ao preço de Teu Sangue, homens de toda tribo, língua, povo e raça. E deles fizeste para Nosso Deus um Reino de Sacerdotes, que reinam sobre a Terra.'" Ap 5,9-10
    No Livro de Salmos, o rei Salomão tinha previsto que o "Filho de Davi" seria bênção para todos povos e que reis Lhe trariam presentes: "Ó Deus, confiai ao rei Vossos juízos, e Vossa Justiça ao Filho do rei. Ele viverá tão longamente como dura o sol, tanto quanto ilumina a lua, através das gerações. .. os reis da Arábia e de Sabá oferecê-Lhe-ão seus dons. N'Ele serão abençoadas todas tribos da Terra, Bem-Aventurado proclamá-Lo-ão todas nações." Sl 71,1.5,10-17
    Estes, porém, seriam apenas os primeiros de uma longa série de reis e rainhas ao longo dos séculos, muitos dos quais também se tornariam Santos e Santas: "Todos reis hão de adorá-Lo, todas nações hão de servi-Lo." Sl 71,11
    Pois Jesus é o Rei dos Santos Reis, como o Amado Discípulo registrou: "Ainda vi o Céu aberto: eis que aparece um branco cavalo. Seu Cavaleiro chama-Se Fiel e Verdadeiro, e é com Justiça que Ele julga e guerreia. Está vestido com um manto tinto de sangue, e Seu Nome é Verbo de Deus. Ele traz escrito no manto e na coxa: Rei dos reis e Senhor dos senhores!" Ap 19,11.13.16


    Quanto ao Salvador, Moisés foi quem primeiro O previu, falando ao povo de Israel. E é a Quem devemos seguir, como se lê no Livro de Deuteronômio: "O Senhor, Teu Deus, suscitará dentre teus irmãos um Profeta como eu: é a Ele que devereis ouvir." Dt 18,15
    Deus Pai mesmo confirmou a realização dessa profecia. Foi no segundo momento de Epifania, logo em seguida ao Batismo de Nosso Senhor Jesus Cristo: "Eis que os Céus se abriram e sobre Ele se viu descer, em forma de Pomba, o Espírito de Deus. E do Céu baixou uma voz: 'Eis Meu Amado Filho, em Quem ponho Minha afeição.'" Mt 3,16-17
    E durante a Transfiguração do Senhor, que segundo a Sagrada Tradição se deu no Monte Tabor, o Pai Eterno repetiu essa confirmação aos mais íntimos Apóstolos, e acrescentou que Jesus era o Profeta a ser ouvido, como profetizado por Moisés: "Eis Meu Amado Filho, em Quem pus toda Minha afeição. Ouvi-O." Mt 17,4
    Também se ouviu a voz do Pai quando Jesus entrou em Jerusalém, no Domingo de Ramos, e a Ele rezou"'Pai, glorifica Teu Nome!' Nisto veio do Céu uma voz: 'Já O glorifiquei e tornarei a glorificá-Lo.' Ora, a multidão que ali estava, ao ouvir isso, dizia ter havido um trovão. Outros replicavam: 'Um anjo falou-lhe.'" Jo 12,28-29
    Pois São João Batista já havia testemunhado a divindade de Jesus logo que O viu: "João dá testemunho d'Ele, e exclama: 'Eis Aquele de Quem eu disse: 'Aquele que vem depois de mim é maior que eu, porque existia antes de mim.'" Jo 1,15
    E São João Evangelista completou: "De Sua plenitude todos nós recebemos Graça sobre Graça. Pois a Lei foi dada por Moisés, mas a Graça e a Verdade vieram por Jesus Cristo." Jo 1,16-17
    O Batista, revelando que falava com o Pai, foi ainda mais explícito: "No dia seguinte, João viu Jesus que vinha a ele e disse: 'Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Eu não O conhecia, mas se vim batizar em água é para que Ele Se torne conhecido em Israel. Eu não O conhecia, mas Aquele que me mandou batizar em água disse-me: 'Sobre Quem vires descer e repousar o Espírito, Este é Quem batiza no Espírito Santo.' Eu vi-O, e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus." Jo 1,29.31.33-34
    E dizendo que em Jesus se atesta a veracidade de Deus, concluiu seu testemunho: "Importa que Ele cresça e que eu diminua. Aquele que vem da Terra é terreno, e fala de coisas terrenas. Aquele que vem do Céu é superior a todos. Quem recebe Seu testemunho confirma que Deus é verdadeiro. Com efeito, Aquele que Deus enviou fala a linguagem de Deus, porque Ele concede o Espírito sem medidas." Jo 3,30.31b.33-34


    Por fim, no terceiro momento de Epifania, Jesus revela Sua divina Glória aos Apóstolos ao transformar água em vinho. É quando, a despeito da afirmação de Santo André nos dias de Seu Batismo (cf. Jo 1,41), eles claramente perceberam que estavam diante do Messias: "Este foi o primeiro milagre de Jesus, realizou-o em Caná de Galileia. Manifestou Sua Glória e Seus discípulos creram n'Ele." Jo 2,11
    Isso deu-se no terceiro dia após Seu encontro com São Filipe e São Bartolomeu, ou seja, no sexto dia desde o Batismo por São João. A semana da manifestação de Jesus aos Apóstolos, pois, encerra-se com o esplendor de Sua Glória: "Três dias depois, celebravam-se bodas em Caná de Galileia, e achava-se ali a mãe de Jesus. Também foram convidados Jesus e Seus discípulos." Jo 2,1-2
    Como este vinho que selou o Sacramento do Matrimônio, na Santa Ceia Jesus ofereceria Seu Sangue para a redenção da humanidade: "Bebei dele todos, porque isto é Meu Sangue, o Sangue da Nova Aliança, derramado em favor de muitos homens para a remissão dos pecados." Mt 26,27-28
    E Ele já afirmava com todas letras, como se viu na sinagoga de Cafarnaum após a multiplicação de pães e peixes, que quem não estivesse em Comunhão com Ele não viveria plenamente, ou seja, estaria despojado da Graça, dependendo exclusivamente da Divina Misericórdia para alcançar a Vida Eterna: "Em Verdade, em Verdade, digo-vos: se não comerdes a Carne do Filho do Homem, e não beberdes Seu Sangue, não tereis a Vida em vós mesmos." Jo 6,53
    Deve-se, portanto, zelosamente guardar Sua Palavra enquanto se vive à espera do Banquete do Cordeiro, como Ele avisou e o Evangelho Segundo São Lucas anotou: "Pois digo-vos: já não tornarei a beber do fruto da videira, até que venha o Reino de Deus." Lc 22,18
    Com efeito, seja por ocasião de nossa morte ou pelo fim dos tempos, a ostensiva instauração do Reino de Deus não demora, uma vez que já se deu a Epifania. Nos Céus, o imenso coro celeste canta: "Aleluia! O Senhor, Nosso Deus, o Todo-Poderoso passou a reinar. Alegremo-nos, exultemos e demos-Lhe Glória, porque se aproximam as Núpcias do Cordeiro." Ap 19,7

    "Todas vezes que comemos deste Pão e bebemos deste Cálice, anunciamos, Senhor, Vossa Morte, enquanto esperamos Vossa Vinda!"