quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Visões e Aparições (II)


NO NOVO TESTAMENTO

    As revelações da Nova Aliança começam com a aparição do Arcanjo São Gabriel ao sacerdote São Zacarias no Templo de Jerusalém, para anunciar o nascimento de São João Batista, seu filho. É do Evangelho Segundo São Lucas: "Ora, exercendo Zacarias diante de Deus as funções de sacerdote, na ordem de sua classe, coube-lhe por sorte, segundo o costume em uso entre os sacerdotes, entrar no santuário do Senhor e aí oferecer o incenso. Todo povo estava de fora, à hora da oferenda do incenso. Apareceu-lhe, então, um anjo do Senhor, em pé, à direita do altar do incenso. Vendo-o, Zacarias ficou perturbado e o temor assaltou-o. Mas o anjo disse-lhe: 'Não temas, Zacarias, porque tua oração foi ouvida: Isabel, tua mulher, dá-te-á um filho, e chamá-lo-ás João. Ele será para ti motivo de gozo e felicidade, e muitos alegrar-se-ão com seu nascimento. Porque será grande diante do Senhor e não beberá vinho nem cerveja, e desde o ventre de sua mãe será cheio do Espírito Santo. Ele converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, Seu Deus, e irá adiante de Deus com o Espírito e poder de Elias para reconduzir os corações dos pais aos filhos, e os rebeldes à Sabedoria dos justos, e assim preparar ao Senhor um povo bem disposto.' Zacarias perguntou ao anjo: 'Como terei certeza disto? Pois sou velho e minha mulher é de avançada idade.' O anjo respondeu-lhe: 'Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e fui enviado para te falar e te trazer esta Boa Nova. Eis que ficarás mudo e não poderás falar até o dia em que estas coisas acontecerem, visto que não deste crédito a minhas palavras, que hão de cumprir-se a seu tempo.' Entretanto, o povo estava esperando Zacarias, e admirava-se de ele demorar-se tanto tempo no santuário. Ao sair, não lhes podia falar, e compreenderam que no santuário tivera uma visão. Ele explicava-lhes isto por acenos, e permaneceu mudo." Lc 1,8-22
    Seis meses depois, este mesmo Arcanjo vai aparecer a Maria Santíssima na mais remota região de Israel, para lhe anunciar o Nascimento de Nosso Salvador. E perfeitamente afeita a celestiais manifestações, Nossa Mãe do Céu não vai estranhar sua aparição, mas apenas a mensagem: "No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade de Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de Davi, e o nome da virgem era Maria. Entrando onde ela estava, disse-lhe: 'Ave, cheia de Graça, o Senhor é contigo.' Perturbou-se ela com estas palavras, e pôs-se a pensar o que significaria semelhante saudação. O anjo disse-lhe: 'Não temas, Maria, pois encontraste Graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um Filho, e Lhe porás o Nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus dá-Lhe-á o trono de Seu pai Davi. Ele reinará eternamente na Casa de Jacó, e Seu Reino não terá fim.' Maria perguntou ao anjo: 'Como se fará isso, pois não conheço homem algum?' Respondeu-lhe o anjo: 'O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo envolvê-te-á com Sua sombra. Por isso, o Ente Santo que de ti nascer será chamado Filho de Deus. Isabel, tua parenta, também concebeu um filho em sua velhice. E já está no sexto mês aquela que é tida por estéril, porque para Deus nenhuma coisa é impossível.' Então disse Maria: 'Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo tua palavra.' E o anjo afastou-se dela." Lc 1,26-38
    E como ela não poderia explicar tal gestação a São José, o Anjo da Guarda dele tratou de falar-lhe em sonhos, atribuindo a ele dar nome ao Menino. O Evangelho Segundo São Mateus anotou, citando o Livro do Profeta Isaías: "Eis como nasceu Jesus Cristo: Maria, Sua mãe, estava desposada com José. Antes de coabitarem, aconteceu de ela conceber por virtude do Espírito Santo. José, seu esposo, que era homem de bem, não querendo difamá-la, resolveu secretamente rejeitá-la. Enquanto assim pensava, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: 'José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois Aquele que nela foi concebido vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um Filho, a Quem porás o Nome de Jesus, porque Ele salvará Seu povo de seus pecados.' Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor falou pelo Profeta: 'Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que Se chamará Emanuel (Is 7,14), que significa: Deus conosco.' Despertando, José fez como o anjo do Senhor lhe havia mandado, e em sua casa recebeu sua esposa." Mt 1,18-24


    E assim, na noite de Natal, uma multidão de anjos apareceu a pastores da cidade de Belém, lugar de recenseamento de São José (cf. Lc 2,4), para que fossem adorar o Menino Jesus: "Nos arredores havia uns pastores, que durante as vigílias da noite guardavam seu rebanho nos campos. Um anjo do Senhor apareceu-lhes e a Glória do Senhor refulgiu ao redor deles, e tiveram grande temor. O anjo disse-lhes: 'Não temais! Eis que vos anuncio uma Boa Nova que será alegria para todo povo: hoje, na Cidade de Davi, vos nasceu um Salvador, que é o Cristo Senhor. Isto servi-vos-á de sinal: achareis um Recém-Nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura.' E subitamente ao anjo juntou-se uma multidão do Celeste Exército, que louvava a Deus e dizia: 'Glória a Deus no mais alto dos Céus, e Paz na Terra aos homens, objetos da divina benevolência.' Depois que os anjos os deixaram e voltaram para o Céu, os pastores falaram uns com os outros: 'Vamos a Belém, e vejamos o que se realizou e o Senhor nos manifestou.' Foram com grande pressa e acharam Maria e José, e o Menino deitado na manjedoura. Vendo-O, contaram o que se lhes havia dito a respeito deste Menino. Todos que ouviam, admiravam-se das coisas que contavam os pastores. Maria conservava todas estas palavras, meditando-as em seu coração. Voltaram os pastores, glorificando e louvando a Deus por tudo que tinham ouvido e visto, e que estava de acordo com o que lhes fora dito." Lc 2,8-20
    Mas eles não foram os únicos. Reis do Oriente, atestando o caráter universal da manifestação do Salvador, e assim da Santa Igreja, foram guiados por uma estrela a Belém, bem como por um anjo a sua nação na viagem de retorno: "Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que Magos vieram do Oriente a Jerusalém. Perguntaram eles: 'Onde está o Rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos Sua estrela no Oriente e viemos adorá-Lo.' A esta notícia, o rei Herodes ficou perturbado e com ele toda Jerusalém. Convocou os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo, e indagou-lhes onde havia de nascer o Cristo. Disseram-lhe: 'Em Belém de Judeia, porque assim foi escrito pelo Profeta: E tu, Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor entre as cidades de Judá, porque de ti sairá o Chefe que governará Israel, Meu povo (Mq 5,2).' Herodes, então, secretamente chamou os magos e perguntou-lhes sobre a exata época em que o astro lhes havia aparecido. E enviando-os a Belém, disse: 'Ide e bem informai-vos a respeito do Menino. Quando O tiverdes encontrado, comunicai-me para que eu também vá adorá-Lo.' Tendo eles ouvido as palavras do rei, partiram. E eis que a estrela, que tinham visto no Oriente, foi precedendo-os até chegar sobre o lugar onde estava o Menino e ali parou. A aparição daquela estrela encheu-os de profunda alegria. Entrando na casa, acharam o Menino com Maria, Sua mãe. Prostrando-se diante d'Ele, adoraram-nO. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-Lhe como presentes: ouro, incenso e mirra. Avisados em sonhos de não tornarem a Herodes, voltaram a sua terra por outro caminho." Mt 2,1-12
    E depois da visita dos Reis Magos, o Anjo da Guarda de São José mandou que a Sagrada Família fugisse de Herodes, o que cumpriria a Escritura, o Livro do Profeta Oseias : "Depois de sua partida, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: 'Levanta-te, toma o Menino e Sua mãe e foge para Egito! Fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o Menino para O matar.' José levantou-se durante a noite, tomou o Menino e Sua mãe e partiu para Egito. Ali permaneceu até a morte de Herodes, para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo Profeta: 'De Egito, Eu chamei Meu Filho (Os 11,1).'" Mt 2,13-15
    Bem como lhe mandou voltar a Israel, e ir morar em Nazaré: "Com a morte de Herodes, o anjo do Senhor apareceu nos sonhos de José, em Egito, e disse: 'Levanta-te, toma o Menino e Sua mãe e retorna à terra de Israel, porque morreram aqueles que atentavam contra a vida do Menino.' José levantou-se, tomou o Menino e Sua mãe e foi para a terra de Israel. Ao ouvir, porém, que Arquelau reinava em Judeia, em lugar de seu pai Herodes, não ousou ir para lá. Divinamente avisado em sonhos, retirou-se para a província de Galileia e veio habitar na cidade de Nazaré, para que se cumprisse o que foi dito pelos Profetas: 'Será chamado Nazareno.'" Mt 2,19-23
    A vida pública de Jesus começa com Seu Batismo por São João Batista, quando se deu a primeira manifestação conjunta da Santíssima Trindade, pois Lhe apareceu o Espírito Santo e se ouviu a voz do Pai: "De Galileia, foi Jesus ao Jordão ter com João, a fim de por ele ser batizado. João recusava-se: 'Eu devo ser batizado por Ti e Tu vens a mim?' Mas Jesus respondeu-lhe: 'Deixa por agora, pois convém que cumpramos toda justiça.' João então cedeu. Depois que Jesus foi batizado, logo saiu da água, e eis que os Céus se abriram e se viu sobre Ele descer, em forma de Pomba, o Espírito de Deus. E do Céu baixou uma voz: 'Eis Meu Amado Filho, em quem ponho Minha afeição." Mt 3,13-17
    E logo depois o Diabo manifestou-se a Ele, que respondeu mencionando o Livro de Deuteronômio, enquanto Satanás O provocou citando o Livro de Salmos: "Cheio do Espírito Santo, voltou Jesus do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto, onde foi tentado pelo Demônio durante quarenta dias. Durante este tempo, Ele nada comeu e, terminados estes dias, teve fome. Disse-Lhe, então, o Demônio: 'Se és o Filho de Deus, ordena a esta pedra que se torne pão.' Jesus respondeu: 'Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda Palavra de Deus (Dt 8,3).' Em seguida, o Demônio levou-O a um alto monte e num só momento mostrou-Lhe todos reinos da Terra, e disse-Lhe: 'Dá-Te-ei todo o poder e a glória desses reinos, porque me foram dados e os dou a quem quero. Portanto, se Te prostrares diante de mim, tudo será Teu.' Jesus disse-lhe: 'Está escrito: Adorarás o Senhor Teu Deus, e só a Ele só servirás (Dt 6,13).' O Demônio ainda O levou a Jerusalém, à mais alta parte do Templo, e Lhe disse: 'Se és o Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo! Porque está escrito: Ordenou a Seus anjos a teu respeito, que te guardassem. E que te sustivessem em suas mãos, para não ferires teu pé nalguma pedra (Sl 90,11).' Jesus disse: 'Foi dito: Não tentarás o Senhor Teu Deus (Dt 6,16).' Depois de tê-Lo tentado de todos modos, o Demônio apartou-se d'Ele até outra ocasião." Lc 4,1-13
    Então, vieram-Lhe Seus anjos, na narrativa de São Mateus: "Em seguida, o Demônio deixou-O, e os anjos aproximaram-se d'Ele para O servir." Mt 4,11
    Ora, a própria vida pública de Jesus era uma grande manifestação dos Céus, como Ele vai dizer aos Apóstolos, explicando-lhes porque falava ao povo em parábolas: "Mas quanto a vós, bem-aventurados vossos olhos, porque vêem! Ditosos vossos ouvidos, porque ouvem! Eu declaro-vos, em Verdade: muitos Profetas e justos desejaram ver o que vedes e não o viram, ouvir o que ouvis e não ouviram." Mt 13,16-17
    E segundo o Evangelho Segundo São João, Ele disse em Jerusalém, após o Domingo de Ramos, aos líderes religiosos judeus que n'Ele creram: "... e aquele que Me vê, vê Aquele que Me enviou." Jo 12,45
    Teve que dizê-lo ainda mais claramente a São Filipe, Seu Apóstolo, logo depois da Santa Ceia: "Respondeu Jesus: 'Há tanto tempo que estou convosco e não Me conheceste, Filipe! Aquele que Me viu, também viu o Pai.'" Jo 14,9a
    Mas realmente não era uma manifestação indiscriminada, como Ele mesmo afirmou após sentenciar as cidades que não se converteram mesmo vendo Seus milagres: "Por aquele tempo, Jesus pronunciou estas palavras: 'Eu bendigo-Te, Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequenos." Mt 11,25
    E aí mesmo Ele vai acrescentar: "Todas coisas foram-Me dadas por Meu Pai. Ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelá-Lo." Mt 11,27
    Não por acaso, o Amado Discípulo, em profunda conclusão, iniciou seu Evangelho afirmando: "Ninguém jamais viu Deus. O Único Filho, que está no seio do Pai, foi Quem O revelou." Jo 1,18
    Com efeito, dias após Seu Batismo por São João, Nosso Senhor havia prometido aos primeiros Apóstolos a realização do sonho de Jacó (cf. Gn 28,12): "Em Verdade, em Verdade, digo-vos: vereis o Céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem." Jo 1,51
    Por isso, durante Sua Transfiguração, seis dias depois de ser reconhecido por São Pedro como Cristo, apareceram-Lhe Moisés e Elias, que foram vistos por Seus mais íntimos Apóstolos. Era, assim como em Seu Batismo, mais uma simultânea manifestação da Santíssima Trindade, pois a Nuvem é uma das sete formas assumidas pelo Espírito Santo: "Seis dias depois, Consigo Jesus tomou Pedro, Tiago e João, seu irmão, e conduziu-os à parte a uma alta montanha. Lá Se transfigurou em presença deles: Seu rosto brilhou como o sol, Suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura. E eis que apareceram Moisés e Elias conversando com Ele. Pedro então tomou a palavra e disse-Lhe: 'Senhor, é bom estarmos aqui. Se queres, farei aqui três tendas: uma para Ti, uma para Moisés e outra para Elias.' Ele ainda falava, quando veio uma luminosa Nuvem e os envolveu. E daquela Nuvem fez-se ouvir uma voz que dizia: 'Eis Meu Amado Filho, em Quem pus toda Minha afeição. Ouvi-O!' Ouvindo esta voz, os discípulos caíram com a face por terra e tiveram medo. Mas Jesus aproximou-Se deles e tocou-os, dizendo: 'Levantai-vos e não temais.' Eles levantaram os olhos e não viram mais ninguém, senão Jesus. E quando desciam, Jesus fez-lhes esta proibição: 'Não conteis a ninguém o que vistes, até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos.'" Mt 17,1-9
    E prometeu manifestar-Se pessoalmente a Seus fiéis, mesmo após Sua Ascensão. Isso deu-se momentos antes do início de Sua Paixão, e levaria o Apóstolo São Judas Tadeu, Seu parente, a perguntar-Lhe por que não Se manifestar ao mundo: "Aquele que tem e guarda Meus Mandamentos, esse é que Me ama. E aquele que Me ama, será amado por Meu Pai, e Eu amá-lo-ei e a ele manifestar-Me-ei." Jo 14,21
    Já no Getsêmani, a exemplo dos quarenta dias no deserto, também apareceu um anjo para consolar Jesus. Foi logo que deixaram o Cenáculo, que como edifício veio a ser a primeira igreja: "Conforme Seu costume, Jesus dali saiu e dirigiu-Se para o Monte das Oliveiras, seguido de Seus discípulos. Ao chegar àquele lugar, disse-lhes: 'Rezai para que não caiais em tentação.' Depois, afastou-Se deles à distância de um tiro de pedra e, ajoelhando-Se, rezava: 'Pai, se é de Teu agrado, afasta de Mim este cálice! Não se faça, todavia, Minha vontade, mas sim a Tua.' Apareceu-Lhe, então, um anjo do Céu para O confortar." Lc 22,39-43


O RESSUSCITADO

    No Domingo da Ressurreição, primeiro um anjo apareceu a Santa Maria Madalena, a Maria de Cleofas, verdadeira mãe dos chamados 'irmãos de Jesus', e aos guardas que vigiavam o Santo Sepulcro: "Depois do sábado, quando amanhecia o primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o túmulo. E eis que houve um violento tremor de terra: um anjo do Senhor desceu do Céu, rolou a pedra e sentou-se sobre ela. Resplandecia como relâmpago e suas vestes eram brancas como a neve. Vendo isto, os guardas pensaram que morreriam de pavor. Mas o anjo disse às mulheres: 'Não temais! Sei que procurais Jesus, que foi crucificado. Não está aqui: ressuscitou, como disse. Vinde e vede o lugar em que Ele repousou. Ide depressa e dizei aos discípulos que Ele ressuscitou dos mortos. Ele precede-vos em Galileia. Lá haveis de revê-Lo, eu disse.' Com receio, elas prontamente afastaram-se do túmulo, mas ao mesmo tempo com alegria, e correram para anunciar a Boa Nova aos discípulos." Mt 28,1-8
    Então o próprio Jesus apareceu a Santa Maria Madalena, na mesma manhã, depois que ela voltou ao túmulo com São Pedro e São João, e acabou lá ficando sozinha: "Ditas estas palavras, voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não O reconheceu. Perguntou-lhe Jesus: 'Mulher, por que choras? Quem procuras?' Supondo ela que fosse o jardineiro, respondeu: 'Senhor, se tu O tiraste, dize-me onde O puseste e eu irei buscá-Lo.' Disse-lhe Jesus: 'Maria!' Voltando-se ela, exclamou em hebraico: 'Rabôni!', que quer dizer Mestre. Disse-lhe Jesus: 'Não Me retenhas, porque ainda não subi a Meu Pai. Mas vai a Meus irmãos e dize-lhes: Subo a Meu Pai e a Vosso Pai, Meu Deus e Vosso Deus.'" Jo 20,14-17
    Em seguida, Jesus apareceu a São Pedro, mais uma vez o 'primeiro' dos Apóstolos (cf. Mt 10,2), como o Amado Médico anotou em seu Evangelho: "Todos diziam: 'O Senhor verdadeiramente ressuscitou, e apareceu a Simão.'" Lc 24,34
    A Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios confirmou-o, chamando-o pelo nome de ofício, quando confundiu os Dez, pois aí não estavam nem Judas Iscariotes nem São Tomé, com os Doze. É também nessa passagem que o Apóstolo dos Gentios, apesar das visões e aparições com que foi agraciado, atesta sua fidelidade à Sagrada Tradição, ou seja, à transmissão oral da Sã Doutrina: "Eu primeiramente transmiti-vos o que eu mesmo havia recebido: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras. Foi sepultado e ressurgiu ao terceiro dia, segundo as Escrituras, apareceu a Cefas e, em seguida, aos Doze." 1 Cor 15,3,5
    Antes disso, porém, ainda na manhã do Domingo da Ressurreição, muitos Santos haviam aparecido ao povo de Jerusalém: "Os sepulcros abriram-se e os corpos de muitos justos ressuscitaram. Saindo de suas sepulturas, entraram na Cidade Santa depois da Ressurreição de Jesus e apareceram a muitas pessoas." Mt 27,52-53
    Na tarde do Domingo da Ressurreição, Jesus apareceu a dois discípulos que partiram de Jerusalém mesmo após ouvirem os relatos de Santa Maria Madalena e São Pedro. E Ele fez-Se reconhecer exatamente pela Santa Eucaristia: "Nesse mesmo dia, dois discípulos caminhavam para uma vila chamada Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios. Iam falando um com o outro sobre tudo que se tinha passado. Enquanto iam conversando e debatendo entre si, o próprio Jesus aproximou-Se e caminhava com eles. Mas os olhos estavam-lhes como que vendados, e não O reconheceram. Perguntou-lhes, então: 'De que estais falando pelo caminho, e por que estais tristes?' Um deles, chamado Cléofas, respondeu-Lhe: 'És Tu, acaso, o único forasteiro em Jerusalém que não sabe o que nela aconteceu estes dias?' Perguntou-lhes Ele: 'Que foi?' Disseram: 'A respeito de Jesus de Nazaré... Era um poderoso Profeta em obras e palavras, diante de Deus e de todo povo. Nossos sumos sacerdotes e nossos magistrados entregaram-nO para ser condenado à morte, e crucificaram-nO. Nós esperávamos que fosse Ele Quem havia de restaurar Israel, e agora, além de tudo isto, é hoje o terceiro dia que essas coisas sucederam. É verdade que algumas mulheres dentre nós nos alarmaram. Elas foram ao sepulcro, antes do nascer do sol, e não tendo achado Seu Corpo, voltaram dizendo que tiveram uma visão de anjos, os quais asseguravam que está vivo. Alguns dos nossos foram ao sepulcro e assim acharam, como as mulheres tinham dito, mas a Ele mesmo não viram.' Jesus disse-lhes: 'Ó gente sem inteligência! Como sois insensatos e tardos de coração para crerdes em tudo que anunciaram os Profetas! Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse em Sua Glória?' E começando por Moisés, percorrendo todos Profetas, explicava-lhes o que d'Ele se achava dito em toda Escritura. Aproximaram-se da vila para onde iam, e Ele fez como se quisesse passar adiante. Mas eles forçaram-nO a parar: 'Fica conosco! É tarde e o dia já declina.' Então entrou com eles. Aconteceu que, estando sentado à mesa com eles, Ele tomou o pão, abençoou-o, partiu-O e serviu-lhO. Então se lhes abriram os olhos e O reconheceram... mas Ele desapareceu." Lc 24,13-31
    Enfim, Jesus apareceu ao Colégio dos Apóstolos em Jerusalém, no Cenáculo, ainda no Domingo da Ressurreição, e deu aos Sacerdotes da Santa Igreja Católica o poder para perdoar os pecados: "Na tarde do mesmo dia, que era o primeiro da semana, os discípulos tinham fechado as portas do lugar onde se achavam, por medo dos judeus. Jesus veio e pôs-Se em meio a eles. Disse-lhes Ele: 'A Paz esteja convosco!' Dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos alegraram-se ao ver o Senhor. Disse-lhes outra vez: 'A Paz esteja convosco! Como o Pai Me enviou, Eu também vos envio.' Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: 'Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, sê-lhes-ão perdoados. Àqueles a quem os retiverdes, sê-lhes-ão retidos.'" Jo 20,19-23
    São Lucas deu outros detalhes: "Enquanto ainda falavam dessas coisas, Jesus apresentou-Se em meio a eles e disse-lhes: 'A Paz esteja convosco!' Perturbados e espantados, pensaram estar vendo um espírito. Mas Ele disse-lhes: 'Por que estais perturbados, e por que essas dúvidas em vossos corações? Vede Minhas mãos e Meus pés, sou Eu mesmo. Apalpai e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que tenho.' E dizendo isso, mostrou-lhes as mãos e os pés. Mas ainda vacilando eles, e estando transportados de alegria, perguntou: 'Tendes aqui alguma coisa para comer?' Ofereceram-Lhe, então, um pedaço de peixe assado. Ele tomou e comeu à vista deles." Lc 24,36-43
    E São Tomé, como é bem sabido, não acreditaria nas aparições: "Os outros discípulos disseram-lhe: 'Vimos o Senhor!' Mas ele replicou-lhes: 'Se não vir em Suas mãos o sinal dos pregos, e não puser meu dedo no lugar dos pregos, e não introduzir minha mão em Seu lado, não acreditarei!'" Jo 20,25
    Findos os dias da Páscoa, no seguinte domingo deu-se a segunda aparição ao Colégios dos Apóstolos, também no Cenáculo, quando Jesus, logo após Sua memorável saudação, dirigiu-Se a este renitente Apóstolo. Mas notemos: em suas reflexões, ele já estava pronto para O chamar de Deus! "Oito dias depois, estavam Seus discípulos outra vez no mesmo lugar, e Tomé com eles. Estando trancadas as portas, veio Jesus, pôs-Se em meio a eles e disse: 'A Paz esteja convosco!' Depois disse a Tomé: 'Introduz aqui teu dedo, e vê Minhas mãos. Põe tua mão em Meu lado. Não sejas incrédulo, mas homem de .' Respondeu-Lhe Tomé: 'Meu Senhor e Meu Deus!'" Jo 20,26-28


    Já em Galileia, Jesus primeiro apareceu a São Pedro (é sempre ele!), São Tomé, São Bartolomeu, São Tiago Maior, São João Evangelista e mais dois discípulos, no episódio da segunda miraculosa pesca: "Estavam juntos Simão Pedro, Tomé, chamado Dídimo, Natanael, que era de Caná de Galileia, os filhos de Zebedeu e dois outros de Seus discípulos. Disse-lhes Simão Pedro: 'Vou pescar.' Responderam-lhe eles: 'Nós também vamos contigo.' Partiram e entraram na barca. Naquela noite, porém, nada apanharam. Chegada a manhã, Jesus estava na praia, mas os discípulos não O reconheceram. Perguntou-lhes Jesus: 'Amigos, acaso não tendes alguma coisa para comer?' 'Não', responderam-Lhe. Disse-lhes Ele: 'Lançai a rede ao lado direito da barca e achareis.' Lançaram-na, e já não podiam arrastá-la por causa da grande quantidade de peixes. Aquele discípulo, que Jesus amava, então disse a Pedro: 'É o Senhor!' Quando Simão Pedro ouviu dizer que era o Senhor, cingiu-se com a túnica, porque estava nu, e lançou-se às águas. Os outros discípulos vieram na barca, arrastando a rede dos peixes, pois não estavam longe da terra, senão cerca de duzentos côvados. Ao saltarem em terra, viram umas brasas preparadas e um peixe em cima delas, e pão. Disse-lhes Jesus: 'Trazei aqui alguns dos peixes que agora apanhastes.' Subiu Simão Pedro, e para a terra puxou a rede, cheia de cento e cinqüenta e três grandes peixes. Apesar de serem tantos, a rede não se rompeu. Disse-lhes Jesus: 'Vinde, comei.' Nenhum dos discípulos ousou perguntar-Lhe: 'Quem és Tu?', porque bem sabiam que era o Senhor." Jo 21,2-12
    Enfim, como havia prometido através de Santa Maria Madalena, apareceu ao Colégio dos Apóstolos, que provavelmente estava acompanhado de vários outros discípulos: "Os onze discípulos foram para Galileia, para a montanha que Jesus lhes tinha designado. Quando O viram, adoraram-nO. Entretanto, alguns ainda hesitavam." Mt 28,16-17
    Em seguida, também aí em Galileia, Jesus apareceu a Apóstolos, discípulos e seguidores. São notas de São Paulo: "Depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais a maior parte ainda vive, e alguns já são mortos..." 1 Cor 15,6
    Tempos depois, particularmente apareceu a São Tiago Menor, também segundo registro deste Apóstolo. Certamente foi para tratar de seu bispado na igreja de Jerusalém que lhe seria entregue, depois da intensificação das missões de São Pedro (cf. At 9,32) e de outros bispados que ele assumiria (cf. At 12,17), como o de Antioquia: "... depois apareceu a Tiago..." 1 Cor 15,7a
    A partir daí, em aparições mostrava-Se a todos os Seus, que São Paulo aqui generalizou como 'Apóstolos': "... em seguida a todos Apóstolos." 1 Cor 15,7b
    Foram ao todo 40 dias de aparições até o dia de Sua Ascensão. No começo do Livro de Atos dos Apóstolos, São Lucas escreveu: "E a eles manifestou-Se vivo depois de Sua Paixão, com muitas provas, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas do Reino de Deus." At 1,3
    Mas não aparecia indiscriminadamente a qualquer pessoa, como São Lucas disse acima: "E a eles manisfestou-Se vivo..." São Paulo também testemunhou perante os judeus de Antioquia da Pisídia, em sua primeira pregação: "Durante muitos dias, apareceu àqueles que com Ele subiram de Galileia a Jerusalém, os quais até agora são Suas testemunhas junto ao povo." At 13,31
    São Pedro semelhantemente atestou esta restrição em pregação que fez na casa do centurião Cornélio, quando se deu o 'Pentecostes dos não judeus': "Mas Deus ressuscitou-O no terceiro dia, concedendo-Lhe manifestar-Se não a todo o povo, mas às testemunhas que Deus havia escolhido..." At 10,40-41a
    E logo em seguida a Sua Ascensão aos Céus, deu-se outra vez uma aparição de anjos: "E comendo com eles, ordenou-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem o cumprimento da promessa de Seu Pai, 'que ouvistes', disse Ele, 'de Minha boca. Porque João batizou na água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo daqui a poucos dias.' Assim reunidos, eles interrogavam-nO: 'Senhor, porventura é agora que ides instaurar o reino de Israel?' Respondeu-lhes Ele: 'Não vos pertence saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou em Seu poder. Mas descerá sobre vós o Espírito Santo e dá-vos-á força, e sereis Minhas Testemunhas em Jerusalém, em toda Judeia e Samaria e até os confins do mundo.' Dizendo isso, elevou-Se da Terra à vista deles e uma Nuvem ocultou-O a seus olhos. Enquanto O acompanhavam com seus olhares, vendo-O afastar-Se para o Céu, eis que lhes apareceram dois homens vestidos de branco, que lhes disseram: 'Homens de Galileia, por que ficais aí a olhar para o céu? Esse Jesus, que acaba de ser arrebatado ao Céu, voltará do mesmo modo que O vistes subir para o Céu.' Voltaram eles para Jerusalém, então, do Monte chamado das Oliveiras, que fica perto de Jerusalém, distante uma jornada de sábado." At 1,4-12
    Segundo o próprio São Lucas, mas ainda em seu Evangelho, isto teria acontecido em Betânia: "Depois, levou-os para Betânia e, levantando as mãos, abençoou-os. Enquanto os abençoava, separou-Se deles e foi arrebatado ao Céu." Lc 24,50-51
    Por fim, aconteceu o Pentecostes, a vinda do Espírito Santo como por Deus prometido havia muito, nos longínquos tempos do Profeta Joel (cf. Jl 3,1). E deu-se no Cenáculo: "Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um impetuoso vento, e encheu toda casa onde estavam sentados. Então lhes apareceu uma espécie de línguas de fogo, que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem. Achavam-se em Jerusalém piedosos judeus de todas nações que há debaixo do céu, e, ouvindo aquele ruído, reuniu-se muita gente e maravilhava-se de que cada um os ouvia falar em sua própria língua. Profundamente impressionados, manifestavam sua admiração: 'Não são galileus, porventura, todos estes que falam? Como, então, todos nós os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna?' Partos, medos, elamitas, os que habitam Macedônia, Judeia, Capadócia, Ponto, Ásia, a Frígia, Panfília, Egito e províncias de Líbia próximas a Cirene, peregrinos romanos, judeus ou prosélitos, cretenses e árabes diziam: 'Ouvimo-los publicar em nossas línguas as maravilhas de Deus!'" At 2,1-11
    E é já nos tempos da Igreja Católica que vemos um anjo do Senhor instruir as missões de São Filipe Diácono, quando ele vai batizar o eunuco, ministro da Rainha de Etiópia. Note-se: esse Batismo deu-se num lugar onde todos sabem que não há rio, senão córregos! "Um anjo do Senhor dirigiu-se a Filipe e disse: 'Levanta-te e vai para o sul, em direção ao caminho que desce de Jerusalém a Gaza, a Deserta.'" At 8,26
    Em seguida, este Diácono vai ser arrebatado pelo Espírito Santo: "Mal saíram da água, o Espírito do Senhor arrebatou Filipe dos olhares do eunuco, que, cheio de alegria, continuou seu caminho. Filipe, entretanto, foi transportado a Azoto. Passando além, pregava o Evangelho em todas cidades, até que chegou a Cesareia." At 8,39-40
    Ademais, é o Anjo da Guarda de Cornélio que vai aparecer-lhe para que convide São Pedro a sua casa e o ouça: "Havia em Cesareia um homem, por nome Cornélio, centurião da coorte que se chamava Itálica. Era religioso: ele e todos de sua casa eram tementes a Deus. Dava muitas esmolas ao povo e constantemente orava. Este homem claramente distinguiu numa visão, pela hora nona do dia, dele aproximar-se um anjo de Deus e chamá-lo: 'Cornélio!' Cornélio fixou nele os olhos e, possuído de temor, perguntou: 'Que há, Senhor?' O anjo replicou: 'Tuas orações e tuas esmolas subiram à presença de Deus como uma oferta de lembrança. Agora envia homens a Jope e faze vir aqui um certo Simão, que tem por sobrenome Pedro. Ele acha-se hospedado em casa de Simão, um curtidor, cuja casa fica junto ao mar.' Quando se retirou o anjo que lhe falara, chamou dois de seus criados e um soldado temente ao Senhor, daqueles que estavam a suas ordens. Contou-lhes tudo e enviou-os a Jope." At 10,1-8


    Depois o Anjo da Guarda de São Pedro (cf. At 12,15) apareceu para o livrar da morte, quando ele foi encarcerado por perseguição de Herodes Antipas, tetrarca de Galileia, que queria matá-lo (cf. At 12,19): "Ora, quando Herodes estava para o apresentar, naquela mesma noite dormia Pedro entre dois soldados, preso por duas correntes. Os guardas, à porta, vigiavam o cárcere. De repente, apresentou-se um anjo do Senhor, e uma Luz brilhou no recinto. Tocando no lado de Pedro, o anjo despertou-o: 'Levanta-te depressa', disse ele. Caíram-lhe as cadeias das mãos. O anjo ordenou: 'Cinge-te e calça tuas sandálias.' Ele assim fez. O anjo acrescentou: 'Cobre-te com tua capa e segue-me.' Pedro saiu e seguiu-o, sem saber se era real o que se fazia por meio do anjo. Julgava estar sonhando. Passaram o primeiro e o segundo postos da guarda. Chegaram ao portão de ferro, que dá para a cidade, o qual se lhes abriu por si mesmo. Saíram e tomaram juntos uma rua. Em seguida, de súbito, o anjo desapareceu. Então Pedro tornou a si e disse: 'Agora verdadeiramente vejo que o Senhor mandou Seu anjo, e livrou-me da mão de Herodes e de tudo que esperava o povo dos judeus.'" At 12,6-11
    Tempos depois de Sua Ascensão, Jesus apareceu no caminho de Damasco a São Paulo, à época chamado Saulo, um fariseu que perseguia cristãos. Ele mesmo apontou: "E por último de todos, também apareceu a mim, como a um abortivo. Porque eu sou o menor dos Apóstolos, e não sou digno de ser chamado Apóstolo porque persegui a Igreja de Deus." 1 Cor 15,8-9
    Ao rei de Judeia, Herodes Agripa I, ele assim a narrou os detalhes, após ser preso em Jerusalém e enquanto aguardava, detido em Cesareia, o julgamento. Diz claramente, pois, que Jesus o acusou de perseguir não a Igreja Católica, mas a Ele mesmo: "Nesse intuito, fui a Damasco, com poder e comissão dos sumos sacerdotes. Era meio-dia, ó rei. Eu estava a caminho quando uma Luz do céu, mais fulgurante que o sol, brilhou em torno de mim e de meus companheiros. Caímos todos nós por terra, e ouvi uma voz que me dizia em língua hebraica: 'Saulo, Saulo, por que Me persegues? Duro é debater-te contra o aguilhão.' Eu então disse: 'Quem és, Senhor?' O Senhor respondeu: 'Eu sou Jesus, a Quem persegues. Mas levanta-te e põe-te em pé, pois apareci para te fazer ministro e testemunha das coisas que viste, e de outras para as quais ainda hei de manifestar-Me a ti. Escolhi-te do meio do povo e dos pagãos, aos quais agora te envio para lhes abrir os olhos, a fim de que se convertam das trevas à Luz, e do poder de Satanás a Deus, para que, pela fé em Mim, recebam perdão dos pecados e herança entre os que foram santificados.' Desde então, ó rei, não fui desobediente à celestial visão." At 26,12-19
    Apareceu-lhe mais uma vez no Templo de Jerusalém, em seu primeiro retorno à Cidade Santa após sua conversão: "Voltei para Jerusalém e, rezando no Templo, fui arrebatado em êxtase. E vi Jesus que me dizia: 'Apressa-te e sai logo de Jerusalém, porque não receberão teu testemunho a Meu respeito.' Eu repliquei: 'Senhor, eles sabem que eu encarcerava e açoitava com varas, de sinagoga em sinagoga, os que creem em Ti. E quando se derramou o sangue de Estêvão, Tua testemunha, eu estava presente, nisso consentia e guardava os mantos daqueles que o matavam.' Mas Ele respondeu-me: 'Vai, porque Eu te enviarei para longe, às nações...'" At 22,17-21
    E ainda lhe apareceu em Jerusalém anos depois, antes de ser preso e levado a Roma: "Na noite seguinte, apareceu-lhe o Senhor e disse-lhe: 'Coragem! Deste testemunho de Mim em Jerusalém, importa que também o dês em Roma.'" At 23,11
    Um anjo igualmente apareceu a São Paulo, certamente seu Anjo da Guarda, durante o maremoto que levou a embarcação, destinada a Roma, à ilha de Malta: "Desde muito tempo, ninguém havia comido nada. Paulo levantou-se em meio a eles e disse: 'Amigos, deveras devíeis ter-me atendido e não ter saído de Creta, e assim evitar esse perigo e essas perdas. Agora, porém, admoesto-vos a que tenhais coragem, pois não perecerá nenhum de vós, mas somente o navio. Esta noite apareceu-me um anjo de Deus, a Quem pertenço e a Quem sirvo, o qual me disse: 'Não temas, Paulo. É necessário que compareças diante de César. Deus deu-te todos que navegam contigo.' Por isso, amigos, coragem! Eu confio em Deus que há de acontecer como me foi dito. Vamos dar a uma ilha.'" At 27,21-26
    Ora, ele não fala como de uma ou outra visão, mas de visões, bem como revelações que teve. Está na Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios, quando teve que defender-se4: "Importa que me glorie? Na verdade, não convém! Passarei, entretanto, às visões e revelações do Senhor." 2 Cor 12,1b
    Tinha-nas, porém, como uma grande responsabilidade: "Ademais, para que a grandeza das revelações não me levasse ao orgulho, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás para me esbofetear e me livrar do perigo da vaidade. Três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim. Mas Ele disse-me: 'Basta-te Minha Graça, porque é na fraqueza que Minha força se revela totalmente.'" 2 Cor 12,7-9a
    De fato, dentre as revelações que tinha, procurava confirmá-las com São Pedro, se estavam em conformidade com a Sã Doutrina. Lemos na Carta de São Paulo aos Gálatas, quando ele usa como referência o primeiro encontro com o Príncipe dos Apóstolos, sempre citando-o pelo nome de ofício, três anos após sua conversão (cf. Gl 1,18): "Catorze anos mais tarde, subi outra vez a Jerusalém com Barnabé, comigo também levando Tito. E subi em conseqüência de uma revelação. Expus-lhes o Evangelho que prego entre os pagãos, e isso particularmente àqueles que eram de maior consideração, a fim de não correr ou de não ter corrido em vão. Tiago, Cefas e João, que são considerados as colunas, reconhecendo a Graça que me foi dada, deram as mãos a mim e a Barnabé em sinal de pleno acordo: iríamos aos pagãos, e eles aos circuncidados. Apenas recomendaram que nos lembrássemos dos pobres, o que era precisamente minha intenção." Gl 2,1-2.9-10
    Porque nem todas aparições que ele viu, foram do bem: "Pois, se o próprio Satanás se transfigura em anjo de Luz, parece bem normal que seus ministros se disfarcem em Ministros de Justiça, cujo fim, no entanto, será segundo suas obras." 2 Cor 11,14b-15
    Por isso, a Carta de São Paulo aos Colossenses convictamente fala de visíveis e invisíveis criaturas, quando cita quatro ordens de anjos: "N'Ele (Cristo) foram criadas todas coisas nos Céus e na Terra, as visíveis e as invisíveis criaturas. Tronos, dominações, principados, potestades: tudo foi criado por Ele e para Ele." Cl 1,16
    Ele dizia de sua pregação: "Asseguro-vos, irmãos, que o Evangelho por mim pregado não tem nada de humano. Não o recebi nem o aprendi de homem algum, mas mediante uma revelação de Jesus Cristo." Gl 1,11-12
    E da concepção de que, só por obra do Espírito Santo, podemos realmente ser Corpo de Cristo, isto é, ser Igreja Católica. É da leitura da Carta de São Paulo aos Efésios: "Foi por revelação que me foi manifestado o Mistério que acabo de esboçar." Ef 3,3
    Na Segunda Carta de São Pedro, vemos que o Primeiro Apóstolo também seguia em estreito contato com Jesus após a Ascensão, referindo-se a seu corpo como uma tenda: "Tenho por meu dever, enquanto estiver neste tabernáculo, manter-vos vigilantes com minhas admoestações. Porque sei que em breve terei que deixá-lo, assim como Nosso Senhor Jesus Cristo me fez conhecer." 2 Pd 1,13-14
    Por fim, e encerrando a Revelação, o Livro de Apocalipse de São João registrou que o anjo de Jesus o arrebatou, concedendo-lhe as visões e revelações: "Revelação de Jesus Cristo, que Lhe foi confiada por Deus para manifestar a Seus servos o que deve acontecer em breve. Ele, por Sua vez, por intermédio de Seu anjo, comunicou a Seu servo João, o qual atesta, como Palavra de Deus, o testemunho de Jesus Cristo e tudo que viu." Ap 1,1-2
    De início, foi-lhe concedido ver o próprio Jesus em Sua Divina Natureza, que lhe dizia das sete dioceses de Ásia de então: "Num domingo, fui arrebatado em êxtase, e por trás de mim ouvi uma forte voz como de trombeta, que dizia: 'O que vês, escreve-o num Livro e manda-o às sete igrejas: a Éfeso, a Esmirna, a Pérgamo, a Tiatira, a Sardes, a Filadélfia e a Laodiceia.' Voltei-me para saber que voz falava comigo. Tendo-me voltado, vi sete candelabros de ouro e, no meio dos candelabros, alguém semelhante ao Filho do Homem, vestindo longa túnica até os pés, o peito cingido por um cinto de ouro. Tinha Ele brancos cabeça e cabelos, como lã cor de neve. Seus olhos eram como chamas de fogo. Seus pés pareciam-se ao fino bronze incandescido na fornalha. Sua voz era como o ruído de muitas águas. Segurava na mão direita sete estrelas. De Sua boca saía uma afiada espada, de dois gumes. Seu rosto assemelhava-se ao sol, quando brilha com toda força. Ao vê-Lo, caí como morto a Seus pés. Ele, porém, pôs sobre mim Sua mão direita e disse: 'Não temas! Eu sou o Primeiro e o Último, e Aquele que vive. Pois estive morto, e eis-Me de novo vivo pelos séculos dos séculos: tenho as chaves da morte e da região dos mortos. Escreve, pois, o que viste, tanto as atuais coisas como as futuras. Eis o simbolismo das sete estrelas que viste em Minha mão direita e dos sete candelabros de ouro: as sete estrelas são os anjos das sete igrejas, e os sete candelabros, as sete igrejas." Ap 1,10-20
    Também viu Nossa Senhora, em esplendorosa aparição que a confirma como a definitiva Arca da Aliança e a Rainha dos Céus. Isso deu-se com o início do Reino de Cristo sobre o mundo: "O sétimo anjo tocou a trombeta. Então ressoaram no Céu altas vozes que diziam: 'O Império de Nosso Senhor e de Seu Cristo estabeleceu-se sobre o mundo, e Ele reinará pelos séculos dos séculos. Os vinte e quatro anciãos (anjos!), que se assentam em seus tronos diante de Deus, prostraram-se de rosto em terra e adoraram a Deus, dizendo: 'Graças damo-Te, Senhor, Deus Dominador, que és e que eras, porque assumiste a plenitude de Teu real poder.' Abriu-se o Templo de Deus no Céu e apareceu, em Seu Templo, a Arca de Seu Testamento. Houve relâmpagos, vozes, trovões, terremotos e forte saraiva. Em seguida, apareceu um grande sinal no Céu: uma Mulher revestida do sol, tendo a lua debaixo de seus pés e, na cabeça, uma coroa de doze estrelas." Ap 11,15-17.19 ;12,1
    E ele teve essa perspectiva de Jesus na Final Batalha: "Vi o Céu ainda aberto: eis que aparece um branco cavalo. Seu Cavaleiro chama-se Fiel e Verdadeiro, e é com justiça que Ele julga e guerreia. Tem flamejantes olhos. Há em Sua cabeça muitos diademas, e traz escrito um Nome que ninguém conhece, senão Ele. Está vestido com um manto tinto de sangue, e Seu Nome é Verbo de Deus. Seguiam-nO, em brancos cavalos, os Celestes Exércitos, vestidos de fino linho de imaculada brancura. De Sua boca sai uma afiada espada, para com ela ferir as pagãs nações, porque Ele deve governá-las com cetro de ferro e pisar o lagar do vinho da ardente ira do Deus Dominador. Ele traz escrito no manto e na coxa: 'Rei dos reis e Senhor dos senhores!'" Ap 19,11-16
    Contudo, no Sermão da Montanha, ou seja, no início de Seu ministério, Nosso Senhor já havia prometido: "Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus!" Mt 5,8
    E das revelações que teve, o Amado Discípulo afirma sobre aqueles que são fiel a Jesus, o Cordeiro de Deus: "Verão Sua face, e Seu Nome estará em suas frontes." Ap 22,4
    Quanto às aparições e visões que se têm pelo mundo, muitas delas de Nossa Senhora, desde que em compatibilidade com a Sã Doutrina, devemos sempre ter presente a defesa que Jesus fazia de Suas testemunhas, como vemos na primeira aparição ao Colégio dos Apóstolos registrada no Evangelho Segundo São Marcos: "Por fim, apareceu aos Onze quando estavam sentados à mesa, e censurou-lhes a incredulidade e dureza de coração, por não acreditarem naqueles que O tinham visto ressuscitado." Mc 16,14
    Ou, como vimos acima, o que São Tomé ouviu de Jesus por egocentricamente exigir 'ver para crer': "Não sejas incrédulo, mas homem de fé.'" Jo 20,27
    Em específico, por força destas palavras que lhe disse: "Creste, porque Me viste. Felizes aqueles que creem sem ter visto!" Jo 20,29

    "Em comunhão com toda a Igreja aqui estamos!"

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Visões e Aparições (I)


NO ANTIGO TESTAMENTO

    Embora o mundo moderno, e aí inclusos muitos religiosos, se pretenda o mais acurado observador da Verdade, as visões e aparições são fenômenos absolutamente comuns através dos tempos, e são vários os registros no Novo e no Antigo Testamento. Aliás, a veracidade da religião que temos se deve ao fato de que ela foi inteiramente revelada: toda Doutrina da Igreja Católica Apostólica Romana foi revelada pela Santíssima Trindade! Ora, nós acolhemos a Revelação em sua plenitude, que foi feita através de visões e aparições pelo próprio Deus.
    Além de muito frequentes no Pentateuco, tiveram expressivas visões, entre outros servos de Deus, os Profetas Jeremias, Isaías, Samuel, Daniel, Ezequiel, Habacuc, Abdias, Naum, Amós e Zacarias. De fato, não ter visões era sinal de más relações com Deus, conforme o Primeiro Livro do Profeta Samuel: "O jovem Samuel servia ao Senhor sob os olhos de Heli. A Palavra do Senhor era rara naqueles dias, e as visões não eram frequentes." 1 Sm 3,1
    É nessa atmosfera que é prometido o Pentecostes, quando as visões se tornariam abundantes pela plena ação do Espírito Santo na Santa Igreja Católica, como está no Livro do Profeta Joel. Deus disse-lhe: "Depois disso, acontecerá que derramarei Meu Espírito sobre todo ser vivo: vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos anciãos terão sonhos, e vossos jovens terão visões. Farei aparecer prodígios no céu e na Terra, sangue, fogo e turbilhões de fumaça." Jl 3,1.3
    O Livro das Lamentações, escrito depois da destruição de Jerusalém e do Templo, quando o povo de Israel foi levado ao exílio em Babilônia, também se ressente de seu tempo: "Mesmo os Profetas não mais recebem as visões do Senhor." Lm 2,9b
    Foi mesmo muito grave castigo, como de depreende do Livro do Profeta Amós, de mais de 100 anos antes deste flagelo: "Porque o Senhor Javé nada faz sem revelar Seu segredo aos Profetas, Seus servos." Am 3,7
    Com efeito, o Livro do Profeta Miqueias, poucas décadas depois de Amós, já acusava os maus líderes e falsos profetas de Israel: "Eu disse: 'Ouvi, chefes de Jacó, e vós, príncipes de Israel! Não devíeis vós saber o que é justo? Um dia clamarão ao Senhor, mas Ele não lhes responderá. Ocultá-lhes-á Sua face naquele dia por causa da malícia de seus atos.' Oráculo do Senhor contra os profetas que desencaminham meu povo, que anunciam a paz quando têm algo para mastigar e declaram guerra a quem nada lhes põe na boca. Por isso, em lugar de visões tereis a noite, e trevas em lugar de revelações. Pôr-se-á o sol para esses profetas, o dia vai tornar-se obscuro... Todos esconderão a barba, porque Deus cessará de falar-lhes." Mq 3,1.4-6.7b
    E o Livro de Provérbios, que começou a ser escrito ainda no tempo do rei Salomão, atestava a importância que têm essas divinas interveniências: "Por falta de visão, o povo vive sem freios..." Pr 29,18a
    Por vezes, porém, a culpa era do próprio povo, como se vê no Livro do Profeta Isaías, que foi contemporâneo de Miqueias: "'Ai dos rebeldes filhos', diz o Senhor, 'eles seguem um plano que não vem de Mim. Concluem alianças sem Meu consentimento, acumulando, assim, falta sobre falta. Porque este é um povo rebelde, são mentirosos filhos, filhos que se recusam a ouvir as instruções do Senhor. Eles dizem aos videntes: 'Não vejais.' E aos Profetas: 'Não nos anuncieis a Verdade! Dizei-nos coisas agradáveis, profetizai-nos fantasias.'" Is 30,1-2.9-10
    Pois no Livro do Profeta Oseias, que foi sucedido pelo Profeta Miqueias, já se fazia um rápida revisão da História de Israel até então, mencionando a divina assistência e as já muitas e gritantes quedas por infidelidade, que não ficariam sem os devidos castigos: "'Efraim cerca-Me de mentira, e a casa de Israel, de hipocrisia; Judá é um traidor testemunho de Deus, que tem comércio com as hieródulas.' O Senhor está em processo com Judá. Vai castigar Jacó por seus atos e tratá-lo segundo suas obras. Desde o nascimento, Jacó suplantou o irmão, e quando se tornou adulto, lutou com Deus. Lutou com o anjo e venceu-o, chorou e pediu-lhe Graça. Encontrou-o em Betel, onde Deus nos falou, o Senhor, Deus dos Exércitos, Cujo Nome é Javé. 'Falei aos Profetas e multipliquei as visões. Pela boca dos Profetas, falei em comparações.' O Senhor fez Israel sair de Egito por um Profeta, por um Profeta foi guardado o povo. Efraim causou amargos desgostos. Por isso, o sangue que derramou recairá sobre ele, e Seu Senhor pagá-lhe-á seus ultrajes." Os 12,1.3-6.11.14-15
    Etapas da Revelação, tanto as aparições quanto as visões foram determinantes desde o início da História do povo de Israel. No Livro de Gênesis, após falar a Abraão, mandando-o para a 'Terra Prometida', Deus vai manifestar-Se a ele: "O Senhor disse a Abrão: 'Deixa tua terra, tua família e a casa de teu pai, e vai para a terra que Eu te mostrar.' Tomou Sarai, sua mulher, e Lot, filho de seu irmão, assim como todos bens que possuíam e os escravos que tinham adquirido em Harã, e partiram para a terra de Canaã. Ali chegando, Abrão atravessou a terra até Siquém, até o carvalho de Moré. Os cananeus estavam então naquela terra. O Senhor apareceu a Abrão e disse-lhe: 'Darei esta terra a tua posteridade.' Abrão edificou um altar ao Senhor, que lhe tinha aparecido." Gn 12,1.5-7
    Depois, veio prometer-lhe a paternidade de uma grande nação: "Abrão tinha noventa e nove anos. O Senhor apareceu-lhe e disse-lhe: 'Eu sou o Deus Todo-Poderoso. Anda em Minha presença e sê perfeito. Quero fazer Aliança contigo, e ao infinito multiplicarei tua descendência.' Abrão prostrou-se com o rosto por terra." Gn 17,1-3
    Depois veio anunciar-lhe um filho, antes de destruir Sodoma e Gomorra: "O Senhor apareceu a Abraão nos carvalhos de Mambré, quando ele estava assentado à entrada de sua tenda, no maior calor do dia. Abraão levantou os olhos e viu três Homens de pé diante dele. No mesmo instante, levantou-se da entrada de sua tenda, veio-Lhes ao encontro e prostrou-se por terra. E Ele disse-lhe: 'Voltarei a tua casa dentro de um ano, a esta época, e Sara, tua mulher, terá um filho.'" Gn 18,1-2.10
    Mas para testar a fidelidade de Abraão, Deus pediu-lhe o sacrifício deste único filho, quando a intervenção de um anjo se confunde com o próprio Deus, o que àqueles tempos não era raro (cf. Gn 16,13): "Deus disse: 'Toma teu filho, teu único filho a quem tanto amas, Isaac e vai à terra de Moriá, onde tu o oferecerás em holocausto sobre um dos montes que Eu te indicar.' Quando chegaram ao lugar indicado por Deus, Abraão edificou um altar, nele colocou a lenha, amarrou Isaac, seu filho, e pô-lo sobre o altar em cima da lenha. Depois, estendendo a mão, tomou a faca para imolar seu filho. O anjo do Senhor, porém, gritou-lhe do Céu: 'Abraão! Abraão!' 'Eis-me aqui!' 'Não estendas tua mão contra o menino, e não lhe faças nada. Agora eu sei que temes a Deus, pois não Me recusaste teu próprio filho, teu único filho.' Abraão, levantando os olhos, viu atrás dele um cordeiro preso pelos chifres entre os espinhos, e, tomando-o, ofereceu-o em holocausto em lugar de seu filho. Abraão chamou a este lugar 'Javé proverá', de onde se diz até o dia de hoje: 'Sobre o monte, Javé proverá.' Pela segunda vez chamou o anjo do Senhor a Abraão do Céu, e disse-lhe: 'Juro por Mim mesmo', diz o Senhor, 'porque fizeste isto e não Me recusaste teu filho, teu único filho, Eu abençoá-te-ei.'" Gn 22,2.9-16
    Tempos mais tarde, Deus apareceu a Isaac, quando uma grande fome veio à região: "O Senhor apareceu-lhe e disse-lhe: 'Não desças a Egito! Fica na terra que Eu te indico. Habita nela! Eu estou contigo e abençoá-te-ei, porque é a ti e a tua posteridade que darei toda esta terra, e cumprirei o juramento que fiz a teu pai Abraão. Multiplicarei tua posteridade como as estrelas do céu, dá-lhe-ei todas estas regiões, e nela serão benditas todas nações da Terra, porque Abraão obedeceu a Minha voz e observou Meus preceitos, Meus Mandamentos e Minhas leis.'" Gn 26,2-5


    Deus também apareceu a Jacó, filho de Isaac e neto de Abraão: "Jacó, partindo de Bersabeia, tomou o caminho de Harã. Chegou a um lugar, e ali passou a noite, porque o sol já se tinha posto. Como travesseiro, serviu-se de uma das pedras que ali se achavam, e dormiu naquele mesmo lugar. E teve um sonho: via uma escada, que, apoiando-se na terra, tocava com o cimo o Céu, e os anjos de Deus subiam e desciam pela escada. No alto estava o Senhor, que lhe dizia: 'Eu sou o Senhor, o Deus de Abraão, teu pai e o Deus de Isaac. Darei a ti e a tua descendência a terra em que estás deitado.' Jacó, despertando de seu sono, exclamou: 'Em verdade, o Senhor está neste lugar e eu não o sabia!' E cheio de pavor, ajuntou: 'Quão terrível é este lugar! É nada menos que a Casa de Deus. A porta do Céu é aqui!'" Gn 28,10-13.16-18
    E enquanto voltava à terra de Edom, ele vai lutar com um anjo, como mais tarde a tradição interpretou, embora o texto propriamente fale de Deus: "Jacó ficou só, e Alguém lutava com ele até o romper da aurora. Vendo que não podia vencê-lo, Aquele Homem tocou-lhe na articulação da coxa e esta deslocou-se, enquanto Jacó lutava com Ele. E disse-lhe: 'Deixa-Me partir, porque a aurora se levanta.' 'Não Te deixarei partir', respondeu Jacó, 'antes que me tenhas abençoado.' 'Ele perguntou-lhe: 'Qual é teu nome?' 'Jacó.' 'Teu nome não será mais Jacó', tornou Ele, 'mas Israel, porque lutaste com Deus e com os homens, e venceste.' Jacó perguntou-lhe: 'Peço-Te que me digas qual é Teu Nome.' 'Por que Me perguntas Meu Nome?', respondeu Ele. E abençoou-o no mesmo lugar. Jacó chamou àquele lugar Fanuel: 'Porque', disse ele, 'eu vi a Deus face-a-face, e conservei a vida.'" Gn 32,24-30
    Deus veio-lhe outra vez para lhe confirmar o nome de Israel: "Quando Jacó voltou de Padã-Arã, Deus novamente apareceu-lhe e abençoou-o. 'Teu nome,' disse-lhe Ele, 'é Jacó. Tu, porém, não te chamarás mais assim, mas Israel.' E chamou-o Israel." Gn 35,9-10
    E quando houve uma grande fome na região, enviou-o a Egito com seus filhos: "Em uma noturna visão, Deus disse-lhe: 'Jacó! Jacó!' 'Eis-me aqui', respondeu ele. E Deus disse: 'Eu sou Deus, o Deus de teu pai. Não temas descer a Egito, porque ali farei de ti uma grande nação. Descerei contigo a Egito, e Eu mesmo fá-te-ei de novo subir de lá. José fechá-te-á os olhos.'" Gn 46,20-4
    Séculos mais tarde, ainda em Egito, Deus viria ao encontro do grande Profeta de Israel, mas mais uma vez inicialmente confundido com um anjo. É leitura do Livro de Êxodo: "Moisés apascentava o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Madiã. Um dia em que conduzira o rebanho para além do deserto, chegou até a montanha de Deus, Horeb. O anjo do Senhor apareceu-lhe numa chama que saía do meio de uma sarça. Moisés olhava: a sarça queimava, mas não se consumia. 'Vou aproximar-me,' disse ele consigo, 'para contemplar esse extraordinário espetáculo, e saber porque a sarça não se consome.' Vendo o Senhor que ele se aproximou para ver, chamou-o do meio da sarça: 'Moisés, Moisés!' 'Eis-me aqui!' respondeu ele. E Deus: 'Não te aproximes daqui. Tira as sandálias de teus pés, porque o lugar em que te encontras é uma Terra Santa. Eu sou', ajuntou Ele, 'o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó.' Moisés escondeu o rosto, e não ousava olhar para Deus. 'Vai, reúne os anciãos de Israel e dize-lhes: O Senhor, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó apareceu-me.'" Êx 3,1-6.16
    Já durante o Êxodo, ao invés de confundir-Se com um anjo, Deus manifestava apenas Sua Glória: "Enquanto Aarão falava a toda assembleia dos israelitas, olharam para o deserto e eis que a Glória do Senhor apareceu na Nuvem!" Êx 16,10
    Assim também quando Deus convocou o grande Profeta para a conclusão da Aliança: "Moisés subiu ao monte. A Nuvem cobriu o monte e a Glória do Senhor repousou sobre o monte Sinai, que ficou envolvido na Nuvem durante seis dias. No sétimo dia, o Senhor chamou Moisés do seio da Nuvem. Aos olhos dos israelitas, a Glória do Senhor tinha o aspecto de um fogo consumidor sobre o cume do monte." Êx 24,15-17
    Mas, nesses assuntos, Moisés realmente era um privilegiado: "Quando Moisés se dirigia para a Tenda, todo mundo levantava-se, cada um diante da entrada de sua tenda, para o seguir com os olhos até que entrasse na Tenda. E logo que ele acabava de entrar, a coluna de Nuvem descia e punha-se à entrada da Tenda, e o Senhor entretinha-Se com Moisés. O Senhor entretinha-Se com Moisés face-a-face, como um homem fala com seu amigo. Voltava depois Moisés ao acampamento, mas seu ajudante, o jovem Josué, filho de Nun, não se apartava do interior da Tenda." Êx 33,8-9.11
    E no Livro de Números, Deus mesmo manifestou-Se sobre essa questão: "Maria e Aarão criticaram Moisés por causa da mulher etíope que ele desposara. Moisés tinha, com efeito, tomado uma mulher etíope. 'Porventura é só por Moisés,' diziam eles, 'que o Senhor fala? Também não fala Ele por nós?' E o Senhor ouviu isso. Ora, Moisés era um homem muito humilde, o mais humilde da Terra. Logo falou o Senhor a Moisés, a Aarão e a Maria: 'Ide todos três à Tenda de Reunião.' E eles foram. O Senhor desceu na coluna de Nuvem e parou à entrada da Tenda. Chamou Aarão e Maria, e eles aproximaram-se. 'Ouvi bem,' disse Ele, 'o que vou dizer: Se há entre vós um Profeta, Eu aparecê-lhe-ei em visão. Eu, o Senhor, é em sonho que lhe falarei. Mas não é assim a respeito de Meu servo Moisés, que é fiel em toda Minha Casa. A ele Eu falo face-a-face, a ele manifesto-Me sem enigmas, e Ele contempla o rosto do Senhor. Por que vos atrevestes, pois, a falar contra Meu servo Moisés?'" Nm 12,1-8
    Mas logo vemos, como na confusão com os anjos, uma pertinente deflecção destas aparições, pois em Sua plena Glória a face de Deus não pode ser vista pelo ser humano em vida, como acima vimos Isaac afirmar. Foi quando este grande Profeta pediu a Deus que Ele caminhasse pelo deserto com o povo de Israel, e Ele assim concordou: "Moisés disse: 'Mostrai-me Vossa Glória.' E Deus respondeu: 'Vou fazer passar diante de ti todo Meu esplendor, e pronunciarei diante de ti o Nome de Javé. Dou Minha Graça a quem quero, e uso de Misericórdia com quem Me apraz. Mas,' ajuntou o Senhor, 'não poderás ver Minha face, pois o homem não poderia ver-Me e continuar a viver. Eis um lugar perto de Mim', disse o Senhor; 'tu estarás sobre a rocha. Quando Minha Glória passar, pô-te-ei na fenda da rocha e cobri-te-ei com a mão até que Eu tenha passado. Retirarei depois a mão, e ver-Me-ás por detrás. Quanto a Minha face, ela não pode ser vista.'" Êx 33,18-23
    Depois do Êxodo, pois, Deus chamou Samuel, último Juiz de Israel e primeiro dos Profetas, excluindo Moisés, e passou a manifestar-Se a ele, antes de a Arca da Aliança cair nas mãos dos filisteus por causa dos pecados do sumo sacerdote e juiz de Israel, cujos dois filhos eram imorais e corruptos sacerdotes: "Veio o Senhor, pôs-Se junto a ele e chamou-o como das outras vezes: 'Samuel! Samuel!' 'Falai', respondeu o menino, 'Vosso servo escuta!' O Senhor disse a Samuel: 'Eis que vou fazer uma tal coisa em Israel, que a todo aquele que a ouvir ficá-lhe-ão retinindo os ouvidos. Naquele dia cumprirei contra Heli todas ameaças que pronunciei contra sua casa. Começarei e irei até o fim. Anunciei-lhe que Eu condenaria para sempre sua família, por causa dos crimes que ele sabia que seus filhos cometiam, e não os corrigiu. Por isso, jurei à casa de Heli que sua culpa jamais seria expiada, nem com sacrifícios nem com oblações.' Samuel ficou deitado até pela manhã, quando abriu as portas da Casa do Senhor. Ele temia contar a visão a Heli. Heli, porém chamou-o e disse: 'Samuel, meu filho!' 'Eis-me aqui', respondeu ele. E Heli: 'Que te disse Ele? Não me ocultes nada. Que Deus te trate com toda severidade se me encobrires algo de tudo que Ele te disse.' Então Samuel lhe contou tudo, sem nada ocultar. Heli exclamou: 'O Senhor fará o que Lhe parecer melhor.' Samuel crescia, e o Senhor estava com ele. Ele não negligenciava nenhuma de Suas palavras. Todo Israel, desde Dã até Bersabeia, reconheceu que Samuel era um Profeta do Senhor. E o Senhor continuou a manifestar-Se em Silo. É ali que o Senhor aparecia a Samuel, descobrindo-lhe Sua Palavra." 1 Sm 3,10-21
    E assim Deus revelou e sustentou os reis de Israel, como a Samuel e a Natã fez antever Davi. O sagrado autor cantou no Livro de Salmos: "Outrora, em visão, falastes a Vossos santos e disseste-lhes: 'Impus a coroa a um herói, escolhi Meu eleito dentre o povo. Encontrei Davi, Meu servo, e sagrei-o com Minha santa unção. Sempre lhe assistirá Minha mão, e Meu braço fortalecê-lo-á. Não há de surpreendê-lo o inimigo, nem ousará oprimi-lo o malvado. Sob seus olhos esmagarei seus contrários, serão feridos aqueles que o odeiam. Com ele ficarão Minha fidelidade e bondade, pelo Meu Nome crescerá seu poder. Estenderei sua mão por sobre o mar, e sua destra acima dos rios. Ele invocá-Me-á: 'Vós sois Meu Pai, Vós sois Meu Deus e Meu protetor rochedo." Sl 88,20-27
    Em seus Salmos, porém, como no tempo de Moisés, o rei Davi registou o sonho do povo de Israel para quando partissem deste mundo: a beatífica visão: "... com Vossa mão livrai-me dos homens, desses cuja única felicidade está nesta vida, que têm o ventre repleto de bens, cujos filhos vivem na abundância e ainda deixam a seus filhos o que lhes sobra. Mas eu, confiado em Vossa justiça, contemplarei Vossa face. Ao despertar, saciar-me-ei com a visão de Vosso Ser." Sl 16,14-15
    E essa passou a ser a tônica das celebrações, como ele cantava: "Quem será digno de subir ao monte do Senhor? Ou de permanecer em Seu Santo lugar? O que tem as mãos limpas e o coração puro, cujo espírito não busca as vaidades nem perjura para enganar seu próximo. Este terá a bênção do Senhor, e a recompensa de Deus, Seu Salvador. Tal é a geração daqueles que O procuram, daqueles que buscam a face do Deus de Jacó." Sl 23,3-6
    Era o pedido de suas orações: "Fala-Vos meu coração, minha face busca-Vos. Vossa face, ó Senhor, eu procuro-a. Não escondais de mim Vosso semblante, não afasteis com ira Vosso servo." Sl 26,8-9a
    E frequente: "... quando irei contemplar a face de Deus?" Sl 41,3
    "Ó Senhor, não me afasteis de Vossa face..." Sl 50,13a
    Mas se este rei pretendia construir um Templo para Deus, este desejo só se realizaria através de seu filho Salomão, enquanto que o definitivo Reino, leia-se a Igreja Católica, viria através de Jesus, que também era de sua descendência (cf. Mt 1,1). Foi o que o Profeta Natã previu no Primeiro Livro de Crônicas: "Quando Davi se instalou em sua casa, disse ao Profeta Natã: 'Eis que moro numa casa de cedro e a Arca da Aliança do Senhor está debaixo de uma Tenda.' Natã respondeu: 'Faze o que teu coração te sugere, porque Deus está contigo.' Mas, na seguinte noite, a Palavra de Deus foi dirigida a Natã nestes termos: 'Vai e dize a Davi, Meu servo: Eis o que diz o Senhor: Não és tu que Me construirás a Casa em que habitarei. Nunca habitei numa casa, desde o dia em que fiz Israel sair de Egito até hoje, mas tenho estado de Tenda em Tenda, de morada em morada. Quando teus dias se acabarem e tiveres ido juntar-te a teus pais, levantarei tua posteridade após ti, num de teus filhos, e firmarei Seu Reino. É Ele que Me construirá uma Casa e firmarei Seu trono para sempre. Serei para Ele um pai, e Ele será para Mim um filho. E nunca retirarei d'Ele Meu favor, como retirei daquele que reinou antes de ti. Eu estabelecê-Lo-ei em Minha Casa e em Meu Reino para sempre, e Seu trono será firme por todos séculos.' Natã referiu a Davi todas palavras que tinha ouvido em visão." 1 Cr 17,1-5.11-15


    O Anjo da Guarda de Elias, insigne Profeta dos anos de 900 antes de Cristo, então mais claramente se apresentando, alimentou-o no deserto, e, à semelhança da aparição a Moisés sobre a rocha, Deus apresentou-Se-lhe, depois que ele fugiu da rainha Jezabel que obrigava os sacerdotes de Israel a prestar culto a Baal, deus dos cananeus. Está no Primeiro Livro de Reis: "Elias teve medo, e partiu para salvar sua vida. Chegando a Bersabeia, em Judá, ali deixou seu servo e andou pelo deserto um dia de caminho. Sentou-se debaixo de um junípero e desejou a morte: 'Basta, Senhor', disse ele, 'tirai-me a vida porque não sou melhor que meus pais.' Deitou-se por terra e adormeceu debaixo do junípero. Mas eis que um anjo tocou-o, e disse: 'Levanta-te e come.' Elias olhou e viu junto a sua cabeça um pão cozido debaixo da cinza, e um vaso de água. Comeu, bebeu e tornou a dormir. Veio o anjo do Senhor pela segunda vez, tocou-o e disse: 'Levanta-te e come, porque tens um longo caminho a percorrer.' Elias levantou-se, comeu e bebeu, e com o vigor daquela comida andou quarenta dias e quarenta noites, até Horeb, a montanha de Deus. Ali chegando, passou a noite numa caverna. Então a Palavra do Senhor lhe foi dirigida: 'Que fazes aqui, Elias?' Ele respondeu: 'Estou devorado de zelo pelo Senhor, o Deus dos Exércitos. Porque os israelitas abandonaram Vossa Aliança, derrubaram Vossos altares e passaram Vossos Profetas a fio de espada. Só eu fiquei, e querem tirar-me a vida.' Deus disse-lhe: 'Sai e conserva-te em cima do monte na presença de Javé: Ele vai passar.' Nesse momento, passou diante do Senhor um impetuoso e violento vento que fendia as montanhas e quebrava os rochedos, mas o Senhor não estava naquele vento. Depois do vento, a terra tremeu, mas o Senhor não estava no tremor de terra. Passado o tremor de terra, acendeu-se um fogo, mas o Senhor não estava no fogo. Depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa. Tendo ouvido isso, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da caverna. O Senhor disse-lhe: 'Retoma o caminho do deserto, em direção a Damasco. Ali chegando, ungirás Hazael como rei de Síria, Jeú, filho de Namsi, como rei de Israel, e Eliseu, filho de Safat, de Abel-Meula, como Profeta em teu lugar." 1 Rs 19,3-13a.15-16
    E assim Eliseu, seu discípulo, viu Elias ser arrebatado ao Céu, após ter cumprido a missão que Deus lhe confiara. Lê-se no Segundo Livro de Reis: "Elias tomou seu manto, dobrou-o e com ele feriu as águas, que se separaram para as duas bandas, de modo que ambos atravessaram a pé enxuto. Tendo passado, Elias disse a Eliseu: 'Pede-me algo antes que eu seja arrebatado de ti. Que posso fazer por ti?' Eliseu respondeu: 'Seja-me concedida a dobrada porção de Teu Espírito.' 'Pedes uma difícil coisa', replicou Elias. 'Entretanto, se me vires quando eu for arrebatado de ti, isso sê-te-á dado, mas se não me vires, não te será dado.' Continuando seu caminho, entretidos a conversar, eis que de repente um carro de fogo com cavalos de fogo os separou um do outro, e Elias subiu ao Céu num turbilhão. Vendo isso, Eliseu exclamou: 'Meu pai, meu pai! Carro e cavalaria de Israel!' E não o viu mais. Tomando, então, suas vestes, rasgou-as em duas partes. Apanhou o manto que Elias deixara cair, e voltando até o Jordão, parou à beira do rio. Tomou o manto que Elias deixara cair e com ele feriu as águas, dizendo: 'Onde está o Senhor, o Deus de Elias? Onde está Ele?' Tendo ferido as águas, estas separaram-se para um e outro lado, e Eliseu passou. Os filhos dos Profetas que estavam em Jericó, vendo o que acontecera defronte deles, disseram: 'O Espírito de Elias repousa em Eliseu.'" 2 Rs 2,8-15a
    Por revelação, pois, Eliseu anteviu o mal que Hazael faria a Israel: "Hazael partiu e foi ao encontro do homem de Deus, consigo levando presentes, o que havia de melhor em Damasco, em quarenta camelos carregados. Chegando aonde ele estava, disse-lhe: 'Teu filho Ben-Hadad, rei de Síria, mandou-me ter contigo para te perguntar se sairá vivo de sua enfermidade.' Eliseu respondeu-lhe: 'Vai e dize-lhe que ele certamente será curado. Mas o Senhor revelou-me que ele morrerá.' Depois o homem de Deus fixamente o olhou, de modo que Hazael se sentiu perturbado. E o homem de Deus pôs-se a chorar. 'Por que chora meu senhor?', perguntou Hazael. Ele respondeu: 'Porque sei os males que farás aos israelitas: incendiarás suas fortes cidades, passarás a fio de espada seus jovens, esmagarás suas crianças e rasgarás pelo meio o ventre de suas mulheres grávidas.' 'Será teu servo porventura um cão', disse-lhe Hazael, 'para fazer tais coisas?' Eliseu respondeu: 'O Senhor mostrou-me numa visão que serás rei de Síria.'" 2 RS 8,9-13

GRANDIOSAS VISÕES

    Em sequência, através do Profeta Isaías, as visões assumem uma ainda maior grandeza, certamente para maior impacto perante a já vasta e instruída população de Israel, e Deus determina que a atividade profética deveria seguir até a completa devastação da Terra, após a grande apostasia, também profetizada por São Paulo (cf. 2 Ts 2,3). Note-se: aí foi revelado que até os serafins cobrem o rosto diante do Senhor: "No ano da morte do rei Ozias, eu vi o Senhor sentado num trono muito elevado. As franjas de Seu manto enchiam o Templo. Os serafins mantinham-se junto a Ele. Cada um deles tinha seis asas: com um par de asas velavam a face, com outro cobriam os pés e, com o terceiro, voavam. Suas vozes revezavam-se e diziam: 'Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus do Universo! A Terra inteira proclama Sua Glória!' A este brado, as portas estremeceram em seus gonzos e a Casa encheu-se de fumaça. 'Ai de mim', gritava eu. 'Estou perdido porque sou um homem de impuros lábios, e habito com um povo também de impuros lábios e, no entanto, meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos!' Porém, um dos serafins voou em minha direção. Trazia na mão uma viva brasa, que tinha tomado do altar com uma tenaz. Aplicou-a em minha boca e disse: 'Tendo esta brasa tocado teus lábios, teu pecado foi tirado, e tua falta, apagada.' Então ouvi a voz do Senhor que dizia: 'Quem enviarei Eu? E quem irá por Nós?' 'Eis-me aqui', disse eu, 'enviai-me.' 'Vai, pois, dizer a esse povo', disse Ele: 'Escutai, sem chegar a compreender, olhai, sem chegar a ver. Obceca o coração desse povo, ensurdece-lhe os ouvidos, fecha-lhe os olhos, de modo que nada veja com seus olhos, não ouça com seus ouvidos, não compreenda nada com seu espírito. E não se cure de novo.' Eu perguntei: 'Até quando, Senhor?' E Ele respondeu: 'Até que as cidades fiquem devastadas e sem habitantes, as casas, sem gente, e a Terra, deserta! Até que o Senhor tenha banido os homens, e grande seja a solidão na Terra! Se restar um décimo da população, ele será lançado ao fogo, como o terebinto e o carvalho, cuja linhagem permanece quando são abatidos. Sua linhagem é um santo germe.'" Is 6,1-13
    E a este grande Profeta, Deus revela o Cristo, dando minuciosos detalhes desde Seu Nascimento entre os pobres, bem como de Sua Crucificação e Morte: "Cresceu diante de Deus como um pobre rebento enraizado numa árida terra. Não tinha graça nem beleza para atrair nossos olhares, e Seu aspecto não podia seduzir-nos. Era desprezado, era a escória da humanidade, Homem das dores, experimentado nos sofrimentos. Como aqueles diante dos quais se cobre o rosto, era amaldiçoado e d'Ele não fazíamos caso. Em verdade, Ele tomou sobre Si nossas enfermidades e carregou nossos sofrimentos, e nós O reputávamos como um castigado, ferido e humilhado por Deus. No entanto, Ele foi castigado por nossos crimes e esmagado por nossas iniquidades. O castigo que nos salva pesou sobre Ele, fomos curados graças a Suas chagas. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, seguíamos cada qual nosso caminho. O Senhor fazia recair sobre Ele o castigo das faltas de todos nós. Foi maltratado e resignou-Se, não abriu a boca, como um Cordeiro que se conduz ao matadouro e uma ovelha muda nas mãos do tosquiador. Ele não abriu a boca! Por um iníquo julgamento, foi arrebatado. Quem pensou em defender Sua causa quando foi suprimido da terra dos vivos, morto pelo pecado de meu povo? Foi-Lhe dada sepultura ao lado de facínoras, e ao morrer achava-Se entre malfeitores, apesar de não haver cometido injustiça alguma e em Sua boca nunca tenha havido mentira. Mas aprouve ao Senhor esmagá-Lo pelo sofrimento. Se Ele oferecer Sua vida em expiatório sacrifício, terá uma duradoura posteridade, prolongará Seus dias, e a vontade do Senhor será por Ele realizada. Após suportar em Sua Pessoa os tormentos, alegrar-Se-á de conhecê-Lo até o enlevo. O Justo, Meu Servo, justificará muitos homens, e sobre Si tomará suas iniquidades." Is 53,1-11
    Elifaz de Temã, um amigo no Livro de Jó, que é um personagem fictício, teve a visão a seguir em tempos que a justiça de Deus já era questionada. Teria sido de seu Anjo da Guarda? "Uma palavra furtivamente chegou a mim, meu ouvido percebeu o murmúrio, na confusão das visões da noite, na hora em que o sono se apodera dos humanos. Assaltaram-me o medo e o terror, e sacudiram todos meus ossos. Um sopro perpassou meu rosto, e fez arrepiar o pelo de minha pele. Lá estava um ser, não lhe vi o rosto, como um espectro sob meus olhos. Ouvi uma débil voz: 'Pode um homem ser justo na presença de Deus, pode um mortal ser puro diante de seu Criador? Ele não confia nem em Seus próprios servos. Até mesmo em Seus anjos encontra defeitos, quanto mais em Seus hóspedes, das casas de argila que têm o pó por fundamento! São esmagados como uma traça, entre a noite e a manhã são aniquilados. Sem que neles se preste atenção, morrem para sempre. Não foi arrancada a estaca da tenda deles? Morrem por não terem conhecido a Sabedoria.'" Jó 4,12-21
    E seu segundo amigo, Eliú, também advertiu a Jó por sua insensatez em tempos de castigos: "Pois Deus fala de uma maneira e de outra e não prestas atenção. Por meio de sonhos, de noturnas visões, quando um profundo sono pesa sobre os humanos, enquanto o homem está adormecido em seu leito, então lhe abre o ouvido e o assusta com Suas aparições, a fim de desviá-lo do pecado e preservá-lo do orgulho, para lhe salvar a alma do fosso, e sua vida, da mortífera seta." Jó 33,14-18
    Vieram, pois, os tempos que antecediam a escravidão de Babilônia, e no Livro do Profeta Jeremias vemos este conselho que ele dava ao último rei de Judá, falando sobre Jerusalém: "E Jeremias então disse a Sedecias: 'Eis o que diz o Senhor dos Exércitos, Deus de Israel: Se te entregares aos oficiais do rei de Babilônia, terás a vida salva e a cidade não será queimada. E sobreviverás, assim como tua família. Mas se não te entregares aos oficiais do rei de Babilônia, cairá a cidade nas mãos dos caldeus, os quais a incendiarão. E tu não lhes escaparás.' 'Temo os judeus', replicou o rei Sedecias, 'que já se aliaram aos caldeus e me maltratarão se a eles for entregue.' 'Tal não acontecerá', retorquiu Jeremias. 'Escuta, portanto, a voz do Senhor naquilo que te digo: Nada te acontecerá e terás a vida salva. Mas se te recusares a entregar-te, eis a visão que o Senhor me mostrou: todas mulheres que ficarem no palácio do rei de Judá serão entregues aos oficiais do rei de Babilônia. E elas dirão: 'Foste enganado, e subjugaram-te teus bons amigos. Desapareceram, enquanto teus pés se atolavam na lama.' Todas tuas mulheres e teus filhos serão entregues aos caldeus. E tu não lhes escaparás. Serás feito prisioneiro pelo rei de Babilônia e a cidade será entregue às chamas!'" Jr 38,17-23
    Uma vez no exílio de Babilônia, Deus revelava Seus desígnios através de outro jovem, como consta do Livro do Profeta Daniel: "O rei dirigiu a palavra a Daniel, que tinha o cognome de Baltazar: 'És realmente capaz', disse-lhe, 'de desvendar-me o sonho que tive e fornecer-me a interpretação?' 'O mistério cuja revelação o rei pede', respondeu Daniel ao rei, 'nem os sábios, nem os mágicos, nem os feiticeiros, nem os astrólogos são capazes de revelar-lhos. Mas no Céu existe um Deus que desvenda os mistérios, o Qual quis revelar ao rei Nabucodonosor o que deve suceder no decorrer dos tempos. Eis, portanto, teu sonho e as visões que se apresentaram a teu espírito quando estavas em teu leito. Senhor, os pensamentos que vieram a teu espírito, enquanto estavas em teu leito, são previsões do futuro: Aquele que revela os mistérios mostrou-te o futuro." Dn 2,26-29
    Era um realmente expressivo dom: "Além disso, Daniel era capaz de interpretar qualquer sonho e visão." Dn 1,17b
    E estas manifestações, como vistas por Isaías, voltavam a revelar Sua face, ainda que de alguma transfigurada forma, para que pudesse ser contemplada pelo ser humano. Mas, sem dúvida, entre várias visões que teve, Daniel viu a Deus Pai e a Jesus: "No primeiro ano do reinado de Baltazar, rei de Babilônia, Daniel, estando em seu leito, teve um sonho e visões surgiram em seu espírito. Consignou por escrito esse sonho e a substância dos fatos. Assim se manifestou: 'Via, no transcurso de minha noturna visão, os quatro ventos do céu precipitarem-se sobre o Grande Mar. Continuei a olhar, até o momento em que foram colocados os tronos e um Ancião chegou e sentou-Se. Brancas como a neve eram Suas vestes, e tal como a pura lã era Sua cabeleira. Seu trono era feito de chamas, com rodas de fogo ardente. Saído de diante d'Ele, corria um rio de fogo. Milhares e milhares serviam-nO, dezenas de milhares assistiam-nO! O tribunal deu audiência e os livros foram abertos. Sempre olhando a noturna visão, vi um Ser, semelhante ao Filho do Homem, vir sobre as nuvens do Céu: dirigiu-Se para o lado do Ancião, diante de Quem foi conduzido. A Ele foram dados império, Glória e realeza, e todos povos, todas nações e povos de todas línguas serviram-nO. Seu domínio será eterno, nunca cessará, e Seu Reino jamais será destruído.'" Dn 7,1-2.9-10.13-14
    E não foi apenas uma vez, pois Jesus e um anjo tornaram a aparecer-lhe para anunciar o tempo da ira de Deus: "No vigésimo quarto dia do primeiro mês, encontrava-me à beira do grande rio, o Tigre. Levantando os olhos, vi um Homem vestido de linho. Cingia-Lhe os rins um cinto de ouro de Ufaz. Seu Corpo era como o crisólito. Seu rosto brilhava como o relâmpago, Seus olhos, como tochas ardentes, Seus braços e pés tinham o aspecto do bronze polido, e Sua voz ressoava como o rumor de uma multidão. Eu, Daniel, era o único a ver essa aparição. Meus companheiros não a viram, mas deles apoderou-se tão grande pavor que fugiram para se esconder. Fiquei, portanto, sozinho a contemplar essa grandiosa aparição. As forças abandonaram-me, a tez de meu rosto tornou-se lívida e eu desfaleci. Ouvi, então, esse Homem falar, e ao som de Suas palavras caí desmaiado, com o rosto por terra. Eis, porém, que uma mão me tocou, e fez com que me erguesse sobre os joelhos e as palmas das mãos. 'Daniel, homem de predileção', disse-me Ele, 'presta atenção às palavras que vou dirigir-te. Levanta-te, pois tenho uma mensagem a confiar-te.' Como me falasse assim, levantei-me tremendo. Enquanto assim me falava, eu mantinha meus olhos fixos no chão e permanecia mudo. De repente, alguém semelhante a um Filho de Homem tocou-me nos lábios. Abri a boca e falei, disse ao que estava perto de mim: 'Meu Senhor, essa visão transtornou-me, e estou sem forças. Como poderia o servo de Meu Senhor conversar com Seu Senhor, quando está sem forças e sem fôlego?' Então o Ser em humana forma me tocou novamente e me reanimou. 'Não temas nada, homem de predileção! Que a Paz esteja contigo! Coragem, coragem!' Enquanto Ele me falava, senti-me reanimado. 'Fala, Meu Senhor', disse, 'pois Tu restituíste minhas forças.'" Dn 10,4-11.15-19
    Contemporâneo de Daniel, o Livro do Profeta Ezequiel, noutra impressionante aparição, anota em detalhes a Glória de Deus, ainda que mitigada, sobre quatro querubins, que simbolizariam os quatro Evangelhos. Eram consolações e revelações aos israelitas em tempos do exílio de Babilônia: "No trigésimo ano, no quinto dia do quarto mês, quando me encontrava entre os deportados, às margens do rio Cobar, abriram-se os Céus e contemplei divinas visões. No quinto dia do mês, era o quinto ano de cativeiro do rei Joaquim, a Palavra do Senhor foi dirigida ao sacerdote Ezequiel, filho de Buzi, na Caldeia, às margens do rio Cobar. Nesse lugar, veio a mão do Senhor sobre mim. Então tive uma visão: do lado norte soprava um impetuoso vento, uma espessa Nuvem com um feixe de resplandecente fogo, e, no centro, saído do meio do fogo, algo que possuía um vermelho brilho. Distinguia-se no centro a imagem de quatro seres que aparentavam possuir humana forma. Cada um tinha quatro faces e quatro asas. Suas pernas eram direitas e as plantas de seus pés assemelhavam-se às do touro, e cintilavam como bronze polido. De seus quatro lados saíam mãos humanas por debaixo de suas asas. Suas asas tocavam uma na outra. Quando se locomoviam, não se voltavam: cada um andava para frente. Quanto ao aspecto de seus rostos, todos eles tinham humana figura, todos quatro uma face de leão pela direita, todos quatro uma face de touro pela esquerda, e todos quatro uma face de águia. Suas asas estendiam-se para o alto. Cada qual tinha duas asas que tocavam às dos outros, e duas que lhe cobriam o corpo. Pairando acima desses seres, havia algo que se assemelhava a uma abóbada, límpida como cristal, estendida sobre suas cabeças. Sob essa abóbada, alongavam-se suas asas até tocarem-se, tendo cada um sempre duas que lhe cobriam o corpo. Eu escutava, quando eles caminhavam, o ruído de suas asas, semelhante ao barulho das grandes águas, à voz do Onipotente, um vozerio igual ao de um campo de batalha. Acima dessa abóbada havia uma espécie de trono, semelhante a uma pedra de safira, e, bem no alto dessa espécie de trono, uma Humana Silhueta. Vi que Ela possuía um vermelho fulgor, como se houvesse sido banhada no fogo, desde o que parecia ser Sua cintura, para cima, enquanto que, para baixo, vi algo como fogo que esparzia clarões por todos lados. Como o arco-íris que aparece nas nuvens em dias de chuva, assim era o resplendor que a envolvia. Era esta visão a imagem da Glória do Senhor." Ez 1,1-8a.9-10.11b.22-24.26-28
    E também não lhe foi a única vez, pois as profanações que se viam em Jerusalém eram abomináveis: "No sexto ano, no quinto dia do sexto mês, estava eu sentado em minha casa, com os anciãos de Judá, quando a mão do Senhor baixou sobre mim. Olhei: enxerguei algo como uma Humana Silhueta. Abaixo do que parecia serem seus rins, era fogo e, desde os rins até o alto, havia um vermelho clarão. Estendeu uma espécie de mão, e agarrou-me pelos cachos dos cabelos. O espírito levantou-me entre o céu e a Terra, e levou-me a Jerusalém, em divinas visões, à entrada da porta interior que olha para o norte, lá onde se erige o ídolo que provoca o ciúme do Senhor. Lá se manifestou a mim a Glória do Deus de Israel, tal como a visão que tive no vale." Ez 8,1-4
    Então este Profeta viu a Glória de Deus deixar o Templo de Jerusalém, que seria preenchido por uma nuvem de obscuridade, pois os babilônios o destruiriam: "... os querubins estavam à direita do Templo, e a nuvem enchia o átrio interior. A Glória do Senhor elevou-se acima dos querubins até a soleira do Templo, e enquanto o esplendor da Glória do Senhor enchia o átrio, a nuvem invadia o Templo. De repente, a Glória do Senhor deixou a soleira do Templo e pousou sobre os querubins. Estes desdobraram as asas, e eu vi-os alçarem-se da terra com as rodas ao lado, para partirem." Ez 10,3b-4.18-19a
    Por fim, Deus anuncia a este Profeta que Sua paciência, bem como o que restava de didático caráter em Suas manifestações, chegavam ao fim: "A Palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: 'Filho do homem, que ditado é esse que corre em Israel: Passam os dias, mas as visões ficam sem efeito? Pois bem, dize-lhes: Eis o que diz o Senhor: Farei cessar esse provérbio, não se repetirá mais isso em Israel. Dize-lhes, pois: Aproximam-se os dias em que todas essas visões hão de cumprir-se. Daqui por diante, nenhuma visão será vã e nenhum oráculo, ineficaz em Israel, porque sou Eu, o Senhor, que falo: O que Eu digo sucederá sem mais delongas. É em vosso tempo, raça de rebeldes, que proferirei o Oráculo e o executarei, Oráculo do Senhor Javé." Ez 12,21-25
    E Ezequiel foi encarregado por Deus para desmentir os falsos profetas, ainda no exílio, anunciando-lhes severas punições: "A Palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: 'Filho do Homem, profetiza contra os profetas israelitas que pretendem profetizar, dize àqueles que profetizam de sua própria cabeça: Escutai a Palavra do Senhor!' Eis o que diz o Senhor Javé: 'Ai dos insensatos profetas que seguem sua própria inspiração sem terem tido visão alguma. Assim como chacais nos esconderijos, tais são teus profetas, ó Israel. Não é verdade que não tendes senão ineptas visões, e não fazeis senão enganadoras predições quando dizeis: Oráculo do Senhor, quando Eu não falei coisa alguma?' E, por isso, eis o que diz o Senhor Javé: 'Porque proferis enganadores oráculos e tendes mentirosas visões, Eu vou castigar-vos,' Oráculo do Senhor Javé. 'Estenderei Minha mão contra esses profetas... Não farão mais parte do conselho de Meu povo, não serão inscritos no número da Casa de Israel e não regressarão à terra de Israel. E saberão assim que sou Eu o Senhor Javé. Porquanto abusam de Meu povo, dizendo: 'Tudo vai bem, quando tudo vai mal.'" Ez 13,1-4.7-9a.10


    Mas a este Profeta também foi revelado o poder de Deus para a Ressurreição da Carne, na gloriosa visão do Vale dos Ossos, quando o poder do Santo Paráclito é invocado: "A mão do Senhor desceu sobre mim. Ele arrebatou-me em espírito e colocou-me no meio de uma planície que estava coberta de ossos. Ele fez-me circular em todos sentidos em meio a esses numerosos ossos que jaziam na superfície. Vi que estavam inteiramente secos. Disse-me o Senhor: 'Filho do homem, poderiam esses ossos retornar à vida?' 'Senhor Javé,' respondi, 'só Vós o sabeis.' Ele disse-me então: 'Profere um Oráculo sobre esses ossos. Ossos dessecados, di-lhes-ás tu, escutai a Palavra do Senhor: Eis o que vos declara o Senhor Javé: Vou fazer em vós reentrar o sopro da Vida, para vos fazer reviver. Em vós porei músculos, sobre vós farei vir carne, de pele cobri-vos-ei. Depois farei entrar em vós o sopro da Vida, a fim de que revivais, e assim sabereis que Eu sou o Senhor.' Profetizei, pois, assim como tinha recebido ordem. No momento em que comecei, um barulho fez-se ouvir, em seguida um ensurdecedor ruído, enquanto os ossos vinham unir-se aos outros. Prestando atenção, vi que sobre eles se formavam músculos, que neles nascia carne e que uma pele os recobria. Todavia, não tinham espírito. 'Profetiza ao Espírito,' disse-me o Senhor, 'profetiza, filho do homem, e dirige-te ao Espírito: Eis o que diz o Senhor Javé: Vem, Espírito, dos quatro cantos do Céu, sopra sobre esses mortos para que revivam.' Proferi o Oráculo que Ele me havia ditado, e daí a pouco o Espírito penetrou neles. Retornando à vida, eles levantaram-se sobre seus pés: um grande, um imenso exército. Então o Senhor me disse: 'Filho do homem, esses ossos são toda raça dos israelitas. Eles dizem: Nossos ossos estão secos, nossa esperança está morta; estamos perdidos! Por isso, dirige-lhes o seguinte Oráculo: Eis o que diz o Senhor Javé: Ó Meu povo, vou abrir vossos túmulos. Fá-vos-ei deles sair para vos transportar à terra de Israel. Sabereis que Eu é que sou o Senhor, ó Meu povo, quando Eu abrir vossos túmulos e deles vos fizer sair, quando em vós pôr Meu Espírito para vos fazer voltar à vida e quando vos restabelecer em vossa terra. Sabereis, então, que sou Eu o Senhor, que o disse e o executei, Oráculo do Senhor.'" Ez 37,1-14
    E igualmente numa visão a este sacerdote, Deus determina os detalhes da reconstrução do Templo de Jerusalém, após o exílio em Babilônia: "No ano vinte e cinco de nossa deportação, no começo do ano, no décimo mês, catorze anos após a queda da cidade, naquele mesmo dia, a mão do Senhor veio sobre mim. Deus transportou-me, no curso das divinas visões, à terra de Israel. Ele colocou-me nos cimos de uma muito elevada montanha, sobre a qual pareciam elevar-se, do lado do meio-dia, as construções de uma cidade. Conduzido ao lugar, divisei um homem que parecia ser de bronze, levando nas mãos uma corda de linho e uma cana de agrimensor. Ele permanecia de pé à porta. Esse homem dirigiu-me as seguintes palavras: 'Filho do homem, volta teus olhos, escuta com teus ouvidos, e presta bem atenção a tudo quanto vou mostrar-te, porque é para esse espetáculo que até aqui foste transportado. Darás conhecimento aos israelitas de tudo que vou mostrar-te.' Um muro exterior formava o recinto do Templo. O homem tinha na mão uma cana de agrimensor, de seis côvados (cada côvado tendo um palmo a mais que o côvado corrente). Ele mediu a largura da construção, uma cana, e a altura, também uma cana." Ez 40,1-5
    O Livro do Profeta Zacarias, já vivendo o período da reconstrução do Templo, dá de Deus a certeza da Paz que então se volta a experimentar, pois Ele claramente demonstra reger toda Terra: "No vigésimo quarto dia do décimo primeiro mês (o mês de Sabat) do segundo ano do reinado de Dario, a Palavra do Senhor foi dirigida ao Profeta Zacarias, filho de Baraquias, filho de Ado, nestes termos: 'Tive uma visão durante a noite. Percebi, entre as murtas do fundo do vale, um homem montado num vermelho cavalo, e atrás dele estavam ruços, alazões e brancos cavalos. Eu perguntei: 'Meu senhor, que cavalos são estes?' E o anjo porta-voz respondeu-me: 'Vou explicar-te.' E o homem que se encontrava entre as murtas respondeu: 'Estes são os mensageiros que o Senhor mandou para percorrer a Terra.' Então os cavaleiros disseram ao anjo do Senhor que permanecia entre as murtas: 'Acabamos de percorrer toda Terra, e vimos que toda Terra está em tranqüilidade e descanso.' O anjo do Senhor disse: 'Senhor dos Exércitos! Até quando ficareis insensível à sorte de Jerusalém e das cidades de Judá? Já faz setenta anos que estais irritado contra elas!' O Senhor respondeu ao anjo que me falava, e disse-lhe boas palavras, cheias de consolação. E o anjo disse-me: 'Proclama o seguinte: Eis o que diz o Senhor dos Exércitos: Estou animado de ardente amor por Jerusalém e por Sião. Porém, sumamente irritado contra as nações que vivem despreocupadas. Eu só estava ligeiramente agastado contra Israel, mas estas nações ultrapassaram a medida.' Por isso, eis o que diz o Senhor: 'Novamente volto para Jerusalém cheio de compaixão. Nela, Minha Casa será reedificada,' Oráculo do Senhor dos Exércitos, 'e o cordel será estendido sobre Jerusalém. Farás a seguinte proclamação: Eis o que diz o Senhor dos Exércitos: Minhas cidades terão de novo muitas riquezas. O Senhor será a consolação de Sião, e sua escolha cairá novamente sobre Jerusalém.'" Zc 1,7-17
    E assim Deus volta a habitar no Templo de Jerusalém até a Vinda de Jesus, enquanto Ezequiel se vê sempre assessorado por um anjo: "Então fui conduzido ao pórtico oriental, e eis que a Glória do Deus de Israel chegava do Oriente, com ruído semelhante ao ruído das muitas águas, enquanto a Terra resplandecia com seu clarão. A visão que eu contemplava recordava-me a que me havia aparecido quando eu tinha vindo para a destruição da cidade, e a que me havia aparecido nas margens do Cobar. Caí com a face em terra. A Glória do Senhor penetrou no Templo pela porta oriental. O espírito levou-me e transportou-me ao átrio interior. Eis que o Templo estava cheio do resplendor do Senhor. Ouvi, então, que alguém me falava do interior do Templo, enquanto o homem se conservava sempre a meu lado. 'Filho do homem', disse-me a voz, 'aqui é o lugar de Meu Trono, o lugar onde pus a planta de Meus pés, Minha definitiva morada entre os israelitas. De hoje em diante, nem o povo de Israel, nem seus reis profanarão Meu Santo Nome por suas fornicações nem pelos cadáveres de seus reis, seus altos lugares, pondo seu limiar junto a Meu limiar, e sua porta junto a Minha porta, não havendo entre Mim e eles senão um muro. É assim que manchavam Meu Santo Nome pelas abominações que cometiam. Por isso, exterminei-os em Minha cólera. Mas, doravante, eles afastarão de Mim suas prostituições e os cadáveres de seus reis, e Eu definitivamente estabelecerei Minha morada entre eles." Ez 43,1-9
    E quando Heliodoro é enviado por Seleuco IV, rei de Ásia nos séculos II e II a.C., para confiscar os tesouros do Templo de Jerusalém, vai ser confrontado por um Cavaleiro que invoca a imagem do próprio Jesus no Último Dia (cf. Ap 19,11). O Segundo Livro de Macabeus apontou: "Diante da profanação que ameaçava o Templo, o povo precipitava-se em multidão para fora das casas a fim de ajuntarem-se à prece comum. Causava dó observar toda confusão desse abatido povo, e a angústia em que jazia o sumo sacerdote. Enquanto assim suplicavam a proteção do Todo-Poderoso, para que conservasse invioláveis os depósitos que lhes haviam sido confiados, Heliodoro executava seu intento. Já se achava ali, com seus homens armados, quando o Senhor dos espíritos e Soberano detentor de todo poder suscitou uma tal aparição, que todos que ali haviam ousado vir desfaleceram de espanto, atingidos de pavor ante a majestade de Deus. Viram eles, montado num cavalo ricamente ajaezado e furiosamente guiado, um Cavaleiro de terrível aspecto, que lançava em Heliodoro as patas dianteiras do cavalo. O que nele vinha montado parecia ter uma armadura de ouro. Ao mesmo tempo, apareceram-lhe outros dois jovens, cheios de extraordinária força, fulgurantes de Luz, ricamente vestidos. Colocando-se dos dois lados, puseram-se eles a açoitá-lo sem interrupção e descarregaram sobre ele uma saraivada de golpes. Logo atirado por terra, Heliodoro foi envolvido por espessas trevas. Seus companheiros ergueram-no e depositaram-no numa liteira. E ele, que vinha para penetrar no mencionado tesouro com numerosa escolta e guardas pessoais, incapaz de ajudar a si mesmo, foi levado por pessoas que reconheciam o manifesto poder de Deus." 2 Mc 3,18.21-28
    Mas o Templo acabou pilhado por traição de Menelau, que usurpou o sumo sacerdócio e colaborava com o inimigo de Israel, o rei no Império Selêucida ( cf. 2 Mc 5,15), o que causaria rebelião em Jerusalém: "Por essa ocasião, Antíoco organizou sua segunda expedição a Egito. Aconteceu que em toda cidade e por mais de quarenta dias apareceram, correndo pelos ares, cavaleiros vestidos de ouro e armados com lanças e dispostos em coorte, espadas desembainhadas, esquadrões alinhados para a batalha, perseguições e choques de um lado e de outro, movimentos de escudos, florestas de lanças, tiros de dardos, armaduras de ouro resplandecentes e couraças de todo gênero. Por isso, todos rezavam para que tais aparições produzissem felizes resultados." 2 Mc 5,1-4
    E o Livro de Eclesiástico, escrito no início do século II a.C., trata de fulminar falsos profetas e falsos videntes: "O insensato vive de quiméricas esperanças, os imprudentes edificam sobre sonhos. Como aquele que procura agarrar uma sombra ou perseguir o vento, assim é o que se prende a enganadoras visões. Isto segundo aquilo, eis o que se vê nos sonhos. É como a imagem de um homem diante dele próprio. Que coisa pura poderá vir do impuro? Que verdade pode vir da mentira? A adivinhação do erro, os mentirosos augúrios e os sonhos dos maus, tudo isso não passa de vaidade. Teu coração, como o de uma mulher que está de parto, sofrerá imaginações. A menos que o Altíssimo te envie uma visão, não detenhas nelas teu pensamento, pois os sonhos fizeram errar muita gente, que pecou porque neles punham sua esperança. A Palavra da Lei cumpre-se integralmente, e a Sabedoria tornar-se-á evidente na boca do homem fiel. Que sabe aquele que não foi experimentado? O homem de grande experiência tem inúmeras ideias, aquele que muito aprendeu fala com Sabedoria. Aquele que não tem experiência pouca coisa sabe, mas aquele que passou por muitas dificuldades desenvolve a prudência." Eclo 34,1-10


    Por fim, o Livro de Sabedoria, de registros por volta do ano de 50 a.C., invoca a nona praga de Egito, que foram as trevas por três dias, como uma mostra do quanto a falsidade em que se vive, longe da realidade revelada por Deus, pode ser tenebrosa. Sem dúvida, nestes casos não só assombrações se fazem presente, mas o próprio inferno: "Em verdade, grandes e impenetráveis são Vossos juízos, Senhor, por isso grosseiras almas caíram no erro. Por terem acreditado que podiam oprimir a Santa Nação, os ímpios, prisioneiros das trevas e encarcerados por uma longa noite, jaziam encerrados em suas casas, tentando escapar a Vossa incessante vigilância. Depois de terem imaginado que, com seus secretos pecados, ficariam escondidos sob o sombrio véu do esquecimento, eles viram-se dispersos como presa de um terrível espanto e amedrontados por alucinações. Mesmo o mais afastado lugar em que se abrigavam não os punha ao abrigo do terror: aterradores ruídos ressoavam em torno deles, e taciturnos espectros de lúgubre aspecto apareciam-lhes. Nenhuma chama, por intensa que fosse, chegava a iluminar. E a brilhante luz dos astros era impotente para alumiar esta sombria noite. Mas, de súbito, aparecia-lhes nada mais que uma aterradora chama, e, tomados de terror por esta fugitiva visão, julgavam ainda mais terríveis essas aparições. A arte dos mágicos mostrou-se ilusória, e esta sabedoria, a que eles pretendiam, vergonhosamente evidenciou-se como falsidade. Aqueles que se jactavam de banir das doentes almas o terror e a perturbação, eram eles mesmos atormentados por um ridículo temor. Mesmo quando nada de mais grave os aterrorizava, a passagem dos animais e o silvo das serpentes punham-nos fora de si, e eles morriam de medo. Recusavam até mesmo contemplar essa atmosfera à qual nada podia escapar, porque a maldade, condenada por seu próprio testemunho, é medrosa, e sob o peso da consciência sempre supõe o pior. Pois o temor não é outra coisa que a privação dos socorros trazidos pela reflexão, porque, quanto menor for em sua alma a esperança de auxílio, tanto mais penosa é a ignorância daquilo de que se tem medo. Eles, durante essa noite de impotência, saída dos recantos do impotente Hades, dormiam num mesmo sono, agitados de um lado pelo terror dos espectros, e paralisados de outro pelo desfalecimento da alma, porque era um repentino e inesperado pavor que se abatia sobre eles. E todo aquele que sem força caía, ficava como que preso e encerrado num cárcere sem ferros. Fosse ele camponês ou pastor, ou o operário que sozinho se afadiga em seu trabalho, uma vez surpreendido, tinha de suportar a inevitável privação, porque todos estavam ligados por uma mesma cadeia de trevas. O silvo do vento, o harmonioso canto dos passarinhos nos espessos ramos, o murmúrio da água correndo precipitadamente, o estrondo das rochas que se despenhavam, a invisível carreira dos animais que saltavam, os urros dos selvagens animais, o eco que repercutia nas cavidades dos montes: tudo paralisava-os de terror. Enquanto o mundo inteiro era alumiado por uma brilhante luz, e sem obstáculo se entregava a suas ocupações, somente sobre eles se estendia uma pesada noite, imagem das trevas que mais tarde deviam acolhê-los. E eram, para si mesmos, mais insuportável peso que esta escuridão." Sb 17,1-20

   "Alegrai-nos, ó Pai, com Vossa Luz!"