domingo, 26 de julho de 2026

São Joaquim e Sant'Ana


    Eram o pai e a mãe de Maria Santíssima, logo avós de Jesus, o que fez dessa data o dia dos avós.
    Foi no ventre de Santa Ana, portanto, que aconteceu a Imaculada Concepção de Maria, que lhe deu o título de Nossa Senhora da Conceição. E seus pais foram uma das maravilhas que Deus concedeu a Nossa Mãe do Céu, como ela mesma declarou no Magnificat, seu hino, que consta do Evangelho Segundo São Lucas: "... o Todo-Poderoso realizou grandes obras em meu favor. Seu Nome é Santo..." Lc 1,49
    Ora, o Livro de Cântico dos Cânticos, em profecia, havia dito que a Santíssima Virgem seria filha única, e menciona a Senhora Sant'Ana, ainda que não pelo nome, quando Deus, o Amado, proclama a bem-aventurança de Sua Amada, a Rainha entre as rainhas: "Há sessenta rainhas, oitenta concubinas e inumeráveis jovens mulheres. Uma, porém, é Minha pomba, uma só Minha perfeita. Ela é a única de sua mãe, a predileta daquela que a deu à luz. Ao vê-la, as donzelas proclamam-na bem-aventurada, rainhas e concubinas louvam-na." Ct 6,8-9
    Fora as revelações pessoais, as informações que temos sobre São Joaquim e Santa Ana estão em três apócrifos, livros que a Santa Igreja Católica não reconhece com totalmente inspirados. Um desses é uma muita antiga obra, talvez até mesmo anterior aos Evangelhos Canônicos, e por isso é chamado de Proto-Evangelho. Ele trata de importantes detalhes que antecedem a vida pública de Jesus, mas impropriamente aponta São Tiago Menor como autor, que pelo Colégio Apostólico se sabe que não deixou obra alguma. Outro apócrifo é um 'evangelho' falsamente atribuído ao Apóstolo que era publicano, por isso chamado de Pseudo-Mateus, que pretende ser a história da infância de Jesus e da origem de Nossa Senhora, embora reconhecidamente tenha sido escrito muitos séculos mais tarde. O último deles é o chamado 'Evangelho' da Infância de Jesus, cujas evidentes fantasias afastam qualquer possibilidade de consideração.
    Não obstante, a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo estuda-os, neles buscando possíveis indícios de fatos reais que contribuam para o melhor conhecimento dos sinais de Deus. Os fatos levantados da vida de São Joaquim e Santa Ana servem de exemplo desses estudos. No Proto-evangelho de 'São Tiago', nominalmente, temos informações da ascendência de Jesus, afirmando que, por parte da Santíssima Virgem, Seu avô era de Galileia e Sua vó, de Belém. Eles teriam concebido Maria pela Graça, pois já eram idosos, e Santa Ana, estéril. Também conta que São Joaquim era rico pastor e que eles foram morar em Jerusalém, onde Nossa Senhora nasceu, fato que foi atestado por São Sofrônio, Bispo da Cidade Santa no século VII.


    Nesse apócrifo igualmente está registrado que Nossa Senhora foi consagrada ao Templo de Jerusalém quando tinha apenas 3 anos de idade, e aí estudou até os 12, só então retornando à casa dos pais. Esses anos de estudo explicam seu conhecimento das Escrituras, e assim sua capacidade para compor o conhecido cântico religioso, chamado Magnificat, que entoou na casa de Santa Isabel, glorificando o Pai Celeste pelo Advento do Salvador e agradecendo por ter sido a escolhida para O trazer à Luz.


    Mas, como o próprio Jesus, Maria perdeu seu pai muito cedo, logo após acabar os estudos. Por isso, muitas pinturas retratam apenas a Senhora Sant'Ana estudando com ela as Sagradas Escrituras.
    Mesmo extraídas de um 'evangelho' não reconhecido, essas informações nunca foram contestadas pelos Primeiros Padres. Ao contrário, vivendo no mesmo contexto sócio-cultural e ainda respirando dos ares da passagem do Messias e do Nascimento da Igreja, vários Papas e Santos fizeram muitas e importantes citações de algumas de suas passagens, o que é mais um forte indício de que tais escritos atestem, ao menos em parte, a realidade. Assim se deduz plausível que, como Deus muito bem escolheu Maria para ser a mãe de Seu Amado Filho, com idêntica propriedade escolheu o casal em cujo seio ela seria concebida sem pecado (cf. Jó 14,4). Sem dúvida, trata-se de um homem e uma mulher absolutamente fiéis aos planos de Deus, e que piamente acreditavam na Vinda do Salvador.
    São João Damasceno, Padre e Doutor da Igreja do século VII, de quem se tem os mais antigos registros da Imaculada Conceição e que escreveu uma linda homilia em homenagem ao Nascimento de Nossa Senhoratambém rendeu inspirados louvores a seus pais: "Oh Joaquim e Ana, venturoso casal! Toda Criação está em dívida para convosco, porque através de vós pôde ela oferecer ao Criador o dom, entre todos o mais excelso, de uma venerável Mãe, a única digna d’Aquele que a criou. Ditosos os rins de Joaquim, de onde saiu uma semente totalmente imaculada, e admirável o seio de Ana, graças ao qual lentamente se desenvolveu, onde se formou e de onde nasceu tão Santa criança! Oh seio que aleitaste aquela que alimentou Aquele que alimenta o mundo!"
    E Santa Brígida de Suécia, grande mística que viveu entre 1303 e 1373, recebeu em visão essa revelação da própria Nossa Senhora: "Vou contar-te como foi maravilhoso Seu amor por meu corpo e minha alma, e quanta honra deu a meu nome. Ele, Meu Filho, amou-me antes que eu O amasse, pois é Meu Criador. Ele uniu meu pai e minha mãe em tão casto Matrimônio que não se pode encontrar mais casto casal. Nunca desejaram unir-se, exceto, de acordo com a Lei, para terem descendência. Quando o anjo lhes anunciou que gerariam uma Virgem, pela qual a Salvação do mundo viria, antes desejariam morrer que se unir em carnal amor, pois neles estava extinta a luxúria. Asseguro-te que, pela divina caridade e devido à mensagem do anjo, eles se uniram na carne. Não por concupiscência, mas contra sua vontade e por amor a Deus. Dessa forma, minha carne foi gerada de suas sementes e através do divino amor." (Livro I, capítulo IX)


    Em Jerusalém, sobre o lugar da casa onde eles moravam e Nossa Senhora nasceu, foi erguida a Basílica de Sant'Ana, que ficou muito conhecida por sua prodigiosa caridade para com os mais pobres após a morte de São Joaquim. Não que ele não fosse caridoso, mas porque ela realmente em muito o excedeu, a ponto de se desfazer de quase todos bens deixados, notadamente entre parentes. Isso leva-nos à parentela de Nossa Senhora que vivia na pobre cidade de Nazaré, onde ela foi morar com Santa Ana depois que São Joaquim faleceu. E assim, se ele Sant'Ana não teriam prometido Maria Santíssima a São José antes, ainda em Jerusalém, só Sant'Ana o teria feito.
    E na Santa Casa de Nazaré viveu ela com São José, após a Anunciação do Senhor. O Amado Médico assim a narrou, tomando como referência de tempo a concepção de São João Batista no ventre de Santa Isabel: "No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade de Galileia, chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de Davi, e o nome da Virgem era Maria." Lc 1,26-27
    Em Galileia teria ela ao menos uma prima, Santa Maria de Cléofas, que os judeus chamavam de irmã, como vemos durante a Crucificação do Senhor. Aliás, é esta cena que dá nome a 'constelação' chamada de Três Marias: "Junto à Cruz de Jesus estavam de pé Sua mãe, a irmã de Sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena." Jo 19,25
    Essa prima é a verdadeira a mãe dos chamados 'irmãos de Jesus' (cf. Mc 6,3), dos quais dois viriam a ser Apóstolos: São Tiago Menor e São Judas Tadeu. Está no Evangelho Segundo São Marcos: "Também se achavam ali umas mulheres, observando de longe, entre as quais Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José, e Salomé, que O tinham seguido e assistido quando estava em Galileia." Mc 15,40-41a
    São Lucas, que teve contato com a comunidade cristã que cultuava veneração a Nossa Senhora, ainda na infância de Jesus menciona esses parentes de Maria Santíssima em Nazaré, pois São José era apenas Seu pai adotivo: "Tendo Ele atingido doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa (Páscoa). Acabados os dias da festa, quando voltavam, o Menino Jesus ficou em Jerusalém sem que Seus pais o percebessem. Pensando que Ele estivesse com Seus companheiros de comitiva, andaram caminho de um dia e buscaram-nO entre os parentes e conhecidos." Lc 2,42-44
    O próprio Jesus vai apontá-los, após iniciada Sua vida pública e Sua primeira passagem por Cafarnaum: "Depois, Ele partiu dali e foi para Sua pátria, seguido de Seus discípulos. Quando chegou o dia de sábado, começou a ensinar na sinagoga. E ficaram perplexos a Seu respeito. Mas Jesus disse-lhes: 'Um Profeta só é desprezado em sua pátria, entre seus parentes e em sua própria casa.' Ali não pôde fazer milagre algum. Apenas curou alguns poucos enfermos, impondo-lhes as mãos. E admirou-Se da desconfiança deles." Mc 6,1-2.3b-6a
    Só mais um parentesco de Nossa Senhora, e de já avançada idade, é apontado pelas Escrituras: em Judeia, quando o São Gabriel Arcanjo lhe faz a Anunciação: "'Até Isabel, tua parenta, concebeu um filho em sua velhice. E já está no sexto mês aquela que é tida por estéril, porque a Deus nenhuma coisa é impossível.' Naqueles dias, Maria levantou-se e foi às pressas às montanhas, a uma cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel." Lc 1,36-37.39-40 
    Por fim, se alguns menosprezam essa santa devoção, deveriam meditar sobre a importância da família para Deus e sobre a santidade daqueles a quem Nossa Mãe do Céu muito honrou, pois é o Quarto Mandamento, que Deus mesmo escreveu com Seu dedo nas Tábuas da Lei (cf. Êx 31,18), e ela jamais iria desobedecer: "Honra teu pai e tua mãe, para que teus dias se prolonguem sobre a terra que o Senhor, Teu Deus, te dá." Êx 20,12
    A casa de Santa Ana e São Joaquim em Jerusalém, sobre a qual se ergueu uma basílica, como dissemos, ficava perto das ruínas da Porta das Ovelhas, próximo ao tanque de Betesda, de cinco pórticos (cf. Jo 5,2), onde Jesus curou um homem que estava paralítico havia 38 anos. A cripta da casa, uma das dependências à época, foi originalmente preservada.


    Outra propriedade de São Joaquim em Jerusalém, também dotada de gruta, é tratada pela igreja 'ortodoxa' como local de nascimento da Santíssima Virgem.


    São Joaquim e Sant'Ana, rogai por nós!

sábado, 25 de julho de 2026

São Tiago Maior, Apóstolo


    São Tiago Maior foi dos primeiros Apóstolos, e é chamado de Maior por sua estatura física e para o diferenciar de São Tiago Menor, que era parente de Jesus, como o Evangelho Segundo São Marcos o nomeou ao relatar a Crucificação do Senhor: "Também se achavam ali umas mulheres, observando de longe, entre as quais Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José, e Salomé..." Mc 15,40
    Foi o primeiro mártir entre os Apóstolos. Após viagem em missão para anunciar o Advento do Salvador em terras de Espanha, onde havia várias comunidades judaicas (cf. Rm 15,24), foi decapitado em Jerusalém, pois, sereno e destemido, não mais admitia calar-se justamente na Cidade Santa, como o próprio Jesus não Se calou. Era o 'batismo' que Nosso Senhor mesmo lhe havia profetizado, dizendo inclusive de Si mesmo, como está no Evangelho Segundo São Lucas: "... não é admissível que um Profeta morra fora de Jerusalém." Lc 13,33b
    Nosso Santo, pois, fielmente seguia o exemplo de Nosso Salvador e de São João Batista, e bravamente enfrentou o martírio. O Amado Médico, que não chegou a o conhecer, registrou no Livro de Atos dos Apóstolos: "Por aquele tempo, o rei Herodes tomou medidas visando maltratar alguns membros da Igreja. Mandou matar à espada Tiago, irmão de João." At 12,1-2
    Suas ostensivas presença e pregação tinham perturbado os líderes judeus de Jerusalém, que já se viam atormentados pelo crescimento do que chamavam a 'seita dos nazarenos', como tempos mais tarde iriam alegar na acusação feita a São Paulo, pelo advogado do sumo sacerdote: "Encontramos este homem, uma peste, um indivíduo que fomenta discórdia entre os judeus no mundo inteiro. É um dos líderes da seita dos nazarenos." At 24,5


    Na narração de São Marcos, como na de São Mateus (cf. Mt 4,19), por Nosso Senhor este Apóstolo foi chamado junto a seu irmão, São João Evangelista, logo após os chamados de São Pedro e de Santo André: "Uns poucos passos mais adiante, (Jesus) viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam numa barca, consertando as redes. E logo os chamou." Mc 1,19
    Eles todos eram pescadores de uma cooperativa de Cafarnaum: "Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão..." Lc 5,10a
    São Lucas já havia usado mais apropriado termo, dizendo desta sociedade de trabalho, quando relatou a primeira miraculosa pesca: "Acenaram aos sócios que estavam na outra barca, para que viessem ajudar. Eles vieram e encheram ambas as barcas, de modo que quase iam ao fundo." Lc 5,7
    E as profissões de São Pedro e Santo André, de quem eram sócios, foi claramente apontada: "Passando ao longo do mar da Galileia, viu Simão e André, seu irmão, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. Mc 1,16
    Seu pai, aliás, além de líder na cooperativa pesqueira, junto a São Pedro que tinha a própria barca (cf. Lc 5,3), era homem de posses naquela pobre região, tinha empregados, o que explica a boa formação que ele e seu irmão tiveram, a despeito do que os líderes judeus pensavam (cf. At 4,13): "Eles deixaram seu pai Zebedeu na barca com os empregados, e partiram, seguindo Jesus." Mc 1,20
    E desde então não mais parou de seguir o Divino Mestre. Esteve com Ele na casa de São Pedro, em Cafarnaum, já em Sua primeira visita, depois que partiu de Nazaré com Maria Santíssima, discípulos e Seus 'irmãos' (cf. Jo 2,12): "Assim que saíram da sinagoga, dirigiram-se com Tiago e João à casa de Simão e André." Mc 1,29
    Seu pai Zebedeu também era sacerdote, o que se deduz da amizade de seu irmão, o 'outro discípulo', com o sumo sacerdote, como vemos quando Jesus foi julgado pelo sinédrio, o conselho dos judeus em Jerusalém. É do próprio Evangelho Segundo São João: "Mas o outro discípulo, que era conhecido do sumo sacerdote, saiu e falou à porteira, e esta deixou Pedro entrar." Jo 18,16b
    Sério e rigoroso, mereceu de Jesus, junto a São João Evangelista, um significativo apelido: "Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, aos quais (Jesus) pôs o nome de Boanerges, que quer dizer Filhos do Trovão." Mc 3,17
    Isto deu-se por causa de um marcante episódio, quando Cristo e os Apóstolos não foram bem recebidos num povoado de samaritanos, e ele e seu irmão, enraivecidos, não se contiveram: "'Senhor, queres que mandemos que desça fogo do Céu e os consuma?' Jesus voltou-Se e severamente os repreendeu. 'Não sabeis de que Espírito sois animados. O Filho do Homem não veio para perder as vidas dos homens, mas para as salvar.'" Lc 9,54
    Nosso Santo fazia parte de um pequeno grupo mais íntimo de Jesus, junto a São Pedro e seu irmão São João, e por isso foi testemunha ocular da ressurreição da filha do chefe da sinagoga de Cafarnaum: "Tendo Jesus outra vez navegado para a margem oposta (do mar de Galileia), de novo acorreu a Ele uma grande multidão. Ele achava-Se à beira do mar, quando um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo, se apresentou e, a Sua vista, se Lhe lançou aos pés, Lhe rogando com insistência: 'Minha filhinha está nas últimas. Vem, impõe-lhe as mãos para que se salve e viva.' Enquanto ainda falava, chegou alguém da casa do chefe da sinagoga, anunciando: 'Tua filha morreu. Para que ainda incomodas o Mestre?' Ouvindo Jesus a notícia que era transmitida, dirigiu-Se ao chefe da sinagoga: 'Não temas. Somente crê.' E não permitiu que ninguém O acompanhasse, senão Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago." Mc 5,21-23.35-37
    Depois vemos Jesus com esse pequeno e privilegiado grupo quando Se transfigurou, no último dia 'útil' da semana em que foi reconhecido por São Pedro como o Messias. Lê-se no Evangelho Segundo São Mateus: "Seis dias depois, Consigo Jesus tomou Pedro, Tiago e João, seu irmão, e conduziu-os à parte a uma alta montanha. Lá Se transfigurou na presença deles: Seu rosto brilhou como o sol, Suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura. E eis que apareceram Moisés e Elias, conversando com Ele." Mt 17,1-3


    Tamanha intimidade tinham esses irmãos com Nosso Senhor que, num gesto de descabida pretensão, terminaram causando uma grande discussão entre os Apóstolos: "De Jesus aproximaram-se Tiago e João, filhos de Zebedeu, e disseram-Lhe: 'Mestre, queremos que nos concedas tudo que Te pedirmos. Concede-nos que nos sentemos em Tua Glória, um a Tua direita e outro a Tua esquerda.' Ouvindo isto, os outros Dez começaram a se indignar contra Tiago e João." Mc 10,35.37.41
    O Divino Mestre, no entanto, apenas lhes prometeu que amargariam 'batismo' igual ao Seu, referindo-Se ao testemunho de vida que eles dariam. Principalmente São Tiago Maior, porque São João morreria de velho, ainda que padecendo grandes perseguições até o fim da vida, como o exílio na ilha de Patmos (cf. Ap 1,9): "Jesus prosseguiu: 'Vós bebereis o cálice que Eu devo beber, e sereis batizados no batismo em que Eu devo ser batizado." Mc 10.39b
    E com a discussão que esse ato gerou entre os Apóstolos, Ele aproveitou pra dar a todos, inclusive a nós, um ensinamento que é a grande Luz da Igreja Católica Apostólica Romana: "Jesus chamou-os e deu-lhes esta lição: 'Sabeis que aqueles que são considerados chefes das nações dominam sobre elas, e aqueles seus intendentes exercem poder sobre elas. Entre vós, porém, não será assim: todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, seja vosso servo, e todo aquele que entre vós quiser ser o primeiro, seja escravo de todos. Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar Sua vida em Redenção por muitos."" Mc 10,42-45
    Porém, segundo São Mateus que foi testemunha ocular, como São Marcos não o foi, a mãe deles é que teria feito tal pedido, embora claramente com o consentimento deles: "Então se aproximou a mãe dos filhos de Zebedeu com seus filhos, e se prostrou diante de Jesus para Lhe fazer uma súplica. Perguntou-lhe Ele: 'Que queres?' Ela respondeu: 'Ordena que estes meus dois filhos se sentem em Teu Reino, um a Tua direita e outro a Tua esquerda.'" Mt 20,20-21
    Esta senhora também era fiel seguidora de Jesus, junto à Santa Maria Madalena e à mãe dos 'irmãos de Jesus', como se vê durante a cena da Crucificação: "Também havia ali algumas mulheres que de longe olhavam. Tinham seguido Jesus desde Galileia para O servir. Entre elas, achavam-se Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu." Mt 27,55-56
    Ela chamava-se Salomé, por informação que se obtém comparando esta narrativa de São Mateus com a de São Marcos, como vimos: "Também se achavam ali umas mulheres, observando de longe, entre as quais Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José, e Salomé, que O tinham seguido e assistido quando Ele estava em Galileia. E muitas outras que com Ele haviam subido a Jerusalém." Mc 15,40-41
    E também estava entre aquelas que foram ao Santo Sepulcro, no Domingo da Ressurreição, para ungir o Corpo de Jesus conforme os rituais judaicos, o que, por falta de tempo, não pode ser feito na Sexta-Feira Santa: "Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para ungir Jesus. E no primeiro dia da semana, foram muito cedo ao Sepulcro, mal o sol havia despontado." Mc 16,1-2
    Junto a São Pedro, esses destacados irmãos sempre achavam que podiam saber um pouco mais que os outros Apóstolos. Quiseram, por exemplo, saber quando se daria a destruição de Jerusalém e o fim dos tempos, enquanto Nosso Senhor estava em contemplação: "E estando sentado no Monte das Oliveiras, defronte ao Templo, perguntaram-Lhe à parte Pedro, Tiago, João e André: 'Dize-nos, quando hão de suceder essas coisas? E por que sinal se saberá que tudo isso vai realizar-se?'" Mc 13,3-4
    E no Jardim do Getsêmani, na agonia do início de Sua Paixão, mais uma vez Jesus tinha São Tiago Maior junto a Si, sempre com São Pedro e São João: "Retirou-Se Jesus com eles para um lugar chamado Getsêmani e disse-lhes: 'Sentai-vos aqui, enquanto Eu vou ali rezar.' E Consigo tomando Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a Se entristecer e Se angustiar. Disse-lhes, então: 'Minha alma está triste até a morte. Ficai aqui, e vigiai Comigo.'" Mt 26,36-38
    Ora, após a convocação por Jesus, ele é, na lista dos Apóstolos, o segundo, atrás apenas de São Pedro. E isso conforme o Evangelho de São Marcos, que escreveu as memórias de nosso Primeiro Papa: "Escolheu estes Doze: Simão, a quem pôs o nome de Pedro, Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão..." Mc 3,16-17a
    Já São Mateus, assim como São Lucas (cf. Lc 6,14) coloca Santo André junto ao irmão São Pedro, deixando nosso Santo como o terceiro. Ou seja, ele sempre está no primeiro dos três grupos de quatro Apóstolos, e sempre à frente de seu irmão, que mais tarde se revelaria importantíssimo teólogo para o Novo Testamento: "Eis os nomes dos Doze Apóstolos: o primeiro, Simão, chamado Pedro depois André, seu irmão. Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão..Filipe e Bartolomeu. Tomé e Mateus, o publicano. Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu. Simão, o cananeu, e Judas Iscariotes, que foi o traidor." Mt 10,2-4
    Mas após a Ressurreição do Senhor, e bem estabelecida a parceira entre São Pedro e São João (cf. Mc 6,7), São Lucas coloca seu irmão a sua frente, mas inscreve-o antes de Santo André, figurando mais uma vez como terceiro no Livro de Atos dos Apóstolos. São expressivas informações quanto a sua importância no Colégio Apostólico. "Tendo entrado no Cenáculo, subiram ao quarto de cima, onde costumavam permanecer. Eram eles: Pedro e João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o zelota, e Judas, irmão de Tiago." At 1,13
    Por fim, junto a São Tomé, São Bartolomeu e São João, seu irmão, este inteligente Apóstolo foi testemunha da investidura do pontificado de São Pedro, ou seja, da entrega de todo rebanho de Cristo ao líder pescador galileu. Eles obedientemente acataram esta indicação do Mestre, postura que explica a reverência que os Onze sempre tiveram diante do Príncipe dos Apóstolos, seja por sua natural liderança, seja por sua indicação por Jesus. São João Evangelista, seu irmão, narrou esta terceira aparição de Jesus a um grupo de Apóstolo:

    "Depois disso, Jesus tornou a Se manifestar a Seus discípulos junto ao lago de Tiberíades. Manifestou-Se deste modo: estavam juntos Simão Pedro, Tomé, chamado Dídimo, Natanael, que era de Caná de Galileia, os filhos de Zebedeu e outros dois de Seus discípulos. Disse-lhes Simão Pedro:
    - Vou pescar.
    Responderam-lhe eles:
    - Nós também vamos contigo.
    Partiram e entraram na barca.
    Chegada a manhã, Jesus estava na praia. Esta já era a terceira vez que Jesus Se manifestava a Seus discípulos, depois de ter ressuscitado. Tendo eles comido, Jesus perguntou a Simão Pedro:
    - Simão, filho de João, amas-Me mais que a estes?
    Respondeu ele:
    - Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo.
    Disse-lhe Jesus:
    - Apascenta Meus cordeiros. Apascenta Minhas ovelhas.'"
                                    Jo 21,1-3a.4a.14-15.17b

    Outro importante detalhe a respeito de sua passagem por Espanha, é que, antes de retornar a Israel para sofrer seu martírio, São Tiago teve na cidade de Saragoça uma visão da Santíssima Virgem, que à época ainda era viva, chamando-o a Éfeso. Tal fato perfeitamente se encaixa com a 'História dos últimos anos de Nossa Senhora', conforme as visões da Beata Anna Catarina Emmerich, que relata um último encontro dos Doze Apóstolos com a Santa Mãe de Deus nos dias que antecederam sua morte e Assunção aos Céus.


    Como essa aparição se deu em cima de um pilar, aí nasceu a mais antiga das devoções à Virgem Maria: Nossa Senhora do Pilar.
    Também há relatos de que, antes de chegar a Espanha, São Tiago Maior tenha passado por algumas cidades de Portugal, entre elas a milenar Braga, o que é muito provável pois foi viajando por mar que ele chegou a estas terras e depois voltou a Israel.
    E Espanha sempre esteve entre os objetivos dos Apóstolos. Tanto que, a após a morte de São Tiago, a Carta de São Paulo aos Romanos manifestou sua intenção de evangelizar esta então colônia romana: "... espero ver-vos de passagem, quando eu for para Espanha. Também espero ser por vós até lá conduzido, depois que tiver satisfeito, ao menos em parte, meu desejo de estar convosco." Rm 15,24
    Como São Tiago Maior havia expresso o desejo de retornar a Espanha, a tradição diz-nos que seus restos mortais foram levados para lá por seus seguidores com a aprovação do próprio São Pedro, de quem, como vimos, era muito próximo. Com efeito, há uma urna na cripta da Catedral de Santiago Compostela, erguida em sua homenagem, cujas relíquias são reconhecidas como suas. Notavelmente, e dando maior credibilidade a essa tradição, dos lados há dois túmulos, com muito antigas inscrições de nomes de dois de seus conhecidos seguidores.
    O povoado romano do século I em terras espanholas, provavelmente por nome de Aseconia, onde seus restos foram sepultados, veio a desaparecer com o fim do Império Romano em Europa, no século V, transferindo-se para Bizâncio, hoje Istambul, em terras de atual Turquia, que passaria a se chamar Constantinopla. Mas como sinal de significativo respeito ao longo dos séculos, o que é um forte indicativo da presença das relíquias desse seguidor de Cristo, seu cemitério permaneceu ativo. Por revelação, em sonho, seu túmulo aí foi reencontrado em 814 por um eremita cristão. A partir de então, o lugarejo ressurgiu vigoroso, levando seu nome, e sobre seu túmulo ergueu-se a famosa e imponente Catedral de Santiago Compostela.


    São Tiago Maior, rogai por nós!