sábado, 4 de outubro de 2025

São Francisco


    Um rico jovem, apaixonado por vida noturna, roupas, música, bebida, aventuras e histórias de cavaleiros, foi sutilmente tocado por Deus para chocar o mundo.
    Giovanni di Pietro di Bernardone, que seu pai, Pietro di Bernardone, resolveu chamar de Francesco, queria tornar-se herói, e tomou parte na guerra entre Assis, sua comuna natal, e Perúgia, comuna vizinha, ambas na central região italiana de Úmbria, mas foi preso por um ano e só libertado após um resgate pago por seu pai. Dessa prisão trouxe enfermidades de visão e de digestão que teve que suportar por toda vida.
     Depois se alistou para lutar contra o Sacro-Império Germânico, que combatia os Estados Pontifícios, pertencentes à Igreja Católica Apostólica Romana, mas por problemas de saúde teve que voltar para casa. Noutro esforço, tentou alistar-se para a Quarta Cruzada, que era uma grande honra para os homens de seu tempo, mas ainda na comuna de Spoleto, também em Úmbria, caiu enfermo e duas noturnas visões fizeram-no retornar. Os amigos, para o confortar em sua aparente desolação, tentaram levá-lo de volta à boemia, mas ele retirou-se para meditar numa caverna acompanhado de apenas um amigo. E aí pedia a Deus Sabedoria para entender o verdadeiro sentido da vida.
    Um dia, em casual passeio a cavalo, deparou-se com um leproso pelo caminho, que com um sinete avisava aos passantes de sua presença, para que se afastassem. Num impulso, porém, Francisco desceu do cavalo e entregou-lhe o manto, pois estava coberto de farrapos e era um frio inverno. E ao ver a grande alegria nos olhos do pobre enfermo, o Santo de Assis desatou a chorar e a beijar, várias vezes, seu rosto cheio de chagas. Chorava de comoção pela triste condição do leproso, mas também de felicidade, pois finalmente conhecia a caridade, a razão última da existência.
    Não foi nada fácil, no entanto, convencer sua gente da nova vida que havia encontrado: suas conversas de compaixão pelos pobres eram ridicularizadas pelos amigos, pois, segundo eles, os prazeres da nascente vida burguesa em toda Europa seriam inegáveis. E assim, na solidão em que se viu, enquanto a angústia de uma vida sem sentido tinha acabado, um grande dilema se instalava: como viver só para o amor se os trabalhos e as necessidades do dia-a-dia o tragavam de volta para a 'realidade' da vida material? Que poderia fazer? Vender sua herança e entregar o dinheiro aos pobres como Jesus mandou, no Evangelho Segundo São Mateuso rico jovem que se julgava perfeito (cf. Mt 19,21)?
    Naqueles dias, seu pai teve que viajar a Provença, em França, como sempre fazia para comprar e vender tecidos, e precisava que ele assumisse todos negócios em Assis, como tão bem fazia desde os 14 anos, quando deixou a escola. São Francisco resignou-se, tentou sufocar seus novos sonhos e com sinceridade esforçou-se para seguir a vontade e a carreira do pai.
    Mas, dias mais tarde, sentindo-se profundamente inquieto, fechou a venda e foi passear fora dos muros da cidade, nas imediações da igreja de São Damião, que estava em ruínas. E ao aproximar-se dela ouviu a voz de Cristo, que lhe falava do crucifixo, pedindo que reconstruísse Sua Igreja. Radiante de felicidade, São Francisco não teve dúvida: foi à loja de seu pai, vendeu os mais caros tecidos por qualquer preço e correu para entregar o dinheiro ao padre.
    Quando retornou da viagem e tomou conhecimento deste feito, seu pai mandou que o capturassem, mas ele escondeu-se num celeiro. Arrependido de lançar mão dos bens de seu pai, dias depois ele apresentou-se diante de sua loja e armazém e admitiu a culpa, acusando-se de desocupado e preguiçoso. O povo ria-se dele e simbolicamente começou a apedrejá-lo, sem violência, tratando-o como um louco. Seu pai, porém, recolheu-o e acorrentou-o dentro de casa, julgando mesmo ter algum desequilíbrio mental, embora com esperança de que o castigo e o isolamento o curassem.
    Mas sua mãe, Madonna de Bourlemont, não resistiu muitos dias: soltou-o e ele foi ao encontro do bispo, que era muito piedoso, dele tinha compaixão e terminou tornando-se seu protetor, levando-o para sua casa. Seu pai, que o queria trabalhando para si, tomado de raiva, foi à frente da casa do bispo e ainda da rua pediu de volta o dinheiro que Francisco havia entregue ao padre. É quando São Francisco sai, despe-se por completo diante de toda gente, entrega suas roupas ao pai, renuncia à herança, pede a benção do bispo e definitivamente abraça a pobreza.
    Tornou-se pedreiro para reconstruir igrejas, e missionário para anunciar o Evangelho. Pregando, e tão apaixonadamente, conquistou os primeiros irmãos entre a nobre gente de Assis. Tornou-se um grande adorador e propagador da adoração ao Santíssimo Sacramento. Quando foi ao Papa em 1209, entre 27 e 28 anos de idade, para pedir a aprovação de uma regra religiosa baseada naquele estilo de vida, pois 'já eram doze irmãos', a princípio enfrentou a ironia de membros do clero, que sequer lhe permitiram ter uma audiência com o Sumo Pontífice. Uma mendicante e tão rigorosa ordem, como ele propunha, era impossível de ser obedecida por muito tempo e certamente seria tratada com repugnância pelo povo. Aquilo só podia ser devaneio, coisa de um jovem sem juízo.
    Mas, em um sonho, o Papa Inocêncio III viu um pobre religioso sustentando a Basílica de São João de Latrão, a Catedral do Bispo de Roma, ou seja, do próprio Papa. Julgou ser um sinal de Deus e, lembrando-se do jovem em farrapos que lhe disseram ter vindo a seu encontro, chamou-o a sua presença, verbalmente autorizou-lhe que fizesse a experiência da pregação mendicante e retornasse mais tarde, para lhe informar dos resultados.
    No caminho, voltando de Roma, como não foi ouvido pelo povo da cidade de Spoleto, São Francisco fez um célebre sermão que acabou sendo ouvido pelos... pássaros.
    Em Assis, ele e seus amigos adotaram uma rude cabana para morar, que logo se tornaria muito pequena com a chegada de novos irmãos. E em 1210, vendo a sinceridade da devoção daqueles jovens, o abade do Mosteiro Beneditino de Subásio concedeu-lhes o uso da minúscula Capela da Porciúncula.


    É nesse período, em 1212, que Santa Clara, aos 18 anos, abandona a nobre vida de sua família. Pouco mais tarde, ela vai fundar com São Francisco o que viria a ser a Segunda Ordem Franciscana, que eles chamaram de Ordem das Damas Pobres de São Damião, depois denominada de Pobres Claras, e em seguida Clarissas.
    Na companhia de alguns irmãos, São Francisco tomou a decisão de viajar a Síria, com intenção de converter os árabes e conseguir pacífico acesso à Terra Santa. Era o período em que líderes de Europa arregimentava o povo para se juntar aos peregrinos, na tentativa de reabrir o caminho e reconquistar sagrados lugares por meio das Cruzadas. Retornaram, ao menos da primeira vez, sem nenhum sucesso, mas pelo caminho São Francisco começou a realizar grandes milagres. De fato, ele visivelmente vivia uma profunda Comunhão com Deus, e assim crescia sua fama de Santo, atraindo cada vez maior número de irmãos para a Ordem. É quando recebe em doação o Monte Alverne, no ano de 1213, presente de Orlando Cattaniconde de Chiusi della Verna, comuna da vizinha região de Toscana, após evangelizar o castelo em que vivia. Aí vai fundar um memorável santuário.
    Persistente, outra vez viajou à Terra Santa, visitando sagrados lugares, realizando milagres e efetivamente convertendo muitos muçulmanos. Mas teve que retornar ao receber notícias do martírio de vários frades em Marrocos, e principalmente porque sua Ordem dos Frades Menores, como ele a batizou, vivia uma grande crise em Itália.
    De fato, uns irmãos haviam-se casado, outros queriam construir suntuosas igrejas, outros queriam fazer caros estudos, outros abusavam do direito de não obedecer aos superiores... São Francisco perde a paciência e chega a reagir com violência contra os dissidentes. Na comuna de Bolonha expulsou todos irmãos, inclusive os enfermos, de um colégio que haviam fundado.
    Em 1221 escreve a segunda Regra, mesmo que a primeira ainda não houvesse sido aprovada. Tentava evitar esses abusos, mas alguns mais próximos irmãos acharam-na demasiadamente rigorosa.
    Em 1223, após algumas alterações feitas pelo Cardeal Ugolino, a Regra foi aprovada pelo Papa Honório III. Contudo, foi um duro golpe para São Francisco saber que foram retiradas do texto a absoluta pobreza, a permissão de desobediência aos indignos superiores, a exigência de trabalhos manuais, assim como a proibição de mais caros livros e estudos.
    Para ele, sempre tão fervoroso, permitir essas coisas seriam uma traição a Cristo. Pensou em desistir de tudo, porém começou a ver nisso apenas uma 'grande tentação'. Depois de um período de profundo silêncio, e alguns conselhos de amados irmãos, resolveu aceitar a Regra em obediência ao Papa. Sabia, entretanto, que ali se criava um profundo abismo entre a hierarquia espiritual e a institucional, que é um frequente dilema da vida na , mas conseguiu estabelecer três fortes e marcantes princípios para a religiosidade dos companheiros, que foram a fraternidade, a humildade e a pobreza. E para tanto constituiu Maria Santíssima como a Advogada da Ordem, o que sem dúvida é um poderosíssimo trunfo.


    Apesar de continuar pregando pela região, e ser muito procurado por novos irmãos e pelo povo, São Francisco passou a levar uma vida cada vez mais interiorizada e de ermitério. Com frequência retirava-se sozinho pelas matas, onde tinha visões e êxtases místicos. Recebeu revelações do passado, do presente e do futuro. Conhecia o pensamento e o desejo dos irmãos e das pessoas. Para a contemplação durante o Natal, criou o presépio.
    Em 14 de setembro de 1224, na festa da Exaltação da Santa Cruz, de um serafim, a mais alta ordem de anjos, recebeu em seu corpo os estigmas de Cristo, que de todos tentava esconder com faixas, com as mangas do hábito ou simplesmente ausentando-se até mesmo da presença dos frades. Mas essas chagas quase constantemente sangravam e as dores eram muito fortes. Alguns irmãos perceberam os estigmas ainda durante sua vida, pois por muitas vezes não conseguia sequer caminhar, e tinha que ser levado em uma mula, coisa que ele tentava rejeitar por considerar um grande luxo.
    Por esses tempos, já tinha composto o Cântico das Criaturas, Canticum ou Laudes Creaturarum, também conhecido como Cântico do Irmão Sol, que é o mais antigo poético texto da literatura italiana, já bem distinto do latim, que repete a cada estrofe: "Louvado sejas, Meu Senhor...".
    Já muito frágil, foi entregue aos cuidados de Santa Clara e suas irmãs no Mosteiro de São Damião, fundado por ela e as mulheres que lhe acompanhavam, com a ajuda de nosso Santo, de onde logo voltou assim que sentiu ligeira melhora. Na verdade, não aceitava fugir das dores que Deus lhe havia dado.
    Sua saúde, porém, estava cada vez mais fragilizada. Seus contínuos jejuns, desde os primeiros dias de nova vida, em muito haviam agravado seus problemas de digestão.
    Suas reflexões, porém, atingiam expressiva profundidade:

    "Nem os demônios O crucificaram. Fostes vós que O crucificastes e ainda O crucificais, quando vos deleitais em vossos vícios e pecados."
    "Por meio das ansiedades e preocupações desta vida, Satanás tenta entorpecer o coração do homem e ali fazer morada para si mesmo."
    "Todos nós deveríamos perceber que não importa onde ou como um homem morre. Se ele estiver em estado de pecado mortal e não se arrepender, quando ele poderia ter feito isso e não o fez, o Diabo arranca sua alma de seu corpo em meio a tanta angústia e sofrimento que somente uma pessoa que passou por isso pode avaliar."
    "Não mais adies a Confissão de todos teus pecados, pois a morte logo chegará. Dá e sê-lhe-á dado, perdoa e tu serás perdoado... Bem-aventurados aqueles que morrem arrependidos, pois eles irão para o Reino dos Céus!"
    "A esmola é uma herança e uma justiça devida aos pobres, e que Jesus nos impôs."
    "Seria considerado um roubo de nossa parte se não doássemos a alguém mais necessitado que nós."
    "Lembra-te de que, quando tu deixares esta Terra, não poderá levar consigo nada do que recebeste, apenas o que deste: um pleno coração, enriquecido por honesto serviço, amor, sacrifício e coragem."
    "Nem todos vós podeis abandonar vossos bens, mas pelo menos podeis mudar sua atitude em relação a eles. Todo receber separa-vos dos outros, toda doação une-vos."
    "Nossas ações são nossas. Suas consequências pertencem ao Céu."
    "Um homem tem apenas a quantidade de conhecimento que ele coloca em prática."
    "As ações que tu fazes podem ser o único sermão que algumas pessoas ouvirão hoje."
    "Toma cuidado com tua vida, talvez ela seja o único Evangelho que as pessoas leiam."
    "Começa fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente tu estarás fazendo o impossível."
    "Faço tudo que posso, tento fazer o possível, e lá na frente, quando olhar para trás, vou ver que fiz o impossível."
    "A única coisa que se consegue na vida sem esforço é o fracasso."
    "Cuidado com as armadilhas, elas chegam disfarçadas... Por isso, sempre devemos manter a vigilância. Não ser um rabugento, que de todos desconfia, mas cuidadoso."
    "O que temer? Nada. A quem temer? Ninguém. Por quê? Porque aqueles que se unem a Deus obtêm três grandes privilégios: onipotência sem poder, embriaguez sem vinho e vida sem morte."
    "A maior segurança que podemos ter neste mundo de que estamos na Graça de Deus não consiste nos sentimentos que temos de amor por Ele, mas sim num irrevogável abandono de todo nosso ser em Suas mãos e numa firme resolução de nunca consentir em nenhum pecado, grande ou pequeno."
    "Acima de tudo, a Graça e os dons que Cristo dá a Seus amados é a superação de si mesmo."
    "Sê paciente, porque as fraquezas do corpo nos foram dadas por Deus neste mundo para a Salvação da alma. Portanto, são de grande mérito quando suportadas com paciência."
    "Sê paciente nas provações, vigilante na oração e nunca pares de trabalhar."
    "A alegria espiritual surge da pureza do coração e da perseverança na oração."
    "Não devemos procurar tanto orar, mas tornar-nos oração."
    "Para pregar a 
Paz, primeiro tu deves ter a Paz dentro de ti."
    "Prega o Evangelho em todo tempo. Se necessário, usa palavras."
    "É pois uma grande vergonha para nós, servos de Deus, terem os Santos praticados tais obras, e nós querermos receber honra e glória somente por contar e pregar os que eles fizeram."
    "O que é que está acima das palavras? Ação. O que é que está acima da ação? Silêncio."
    "Não vos esforceis pelas honras do mundo, mas honrai o Senhor."
    "Quem a tudo renuncia, tudo receberá."
    "Santifica-te e tu santificarás a sociedade."
    "A humildade é a chave que abre todas portas."
    "Apenas um raio de sol é suficiente para afastar várias sombras."
    "Ao servo de Deus nada deve desagradar senão o pecado."
    "Aprendamos com as pedras..."
    "O Céu é que sustenta a Terra."
    "Enche-se de felicidade aquele que vê, sem inveja, a felicidade dos outros."
    "Quem ler e entender o Evangelho em espírito e Verdade, nele encontrará Deus e o Céu, os anjos e o próprio Paraíso, tudo a esperar-nos, aguardando que façamos nossa parte, para recebermos o prêmio da felicidade."

    "Se tu tens homens que excluem qualquer criatura de Deus do abrigo da compaixão e da piedade, tu terás homens que farão o mesmo com seus semelhantes."
    "Não te envergonhes se, às vezes, animais estejam mais próximos de ti que pessoas. Eles também são teus irmãos."
    "Todas coisas da Criação são filhos do Pai e irmãos do homem. Deus quer que ajudemos aos animais, se necessitam de ajuda. Toda criatura em desgraça tem o mesmo direito a ser protegida."
    "Todos seres são iguais por sua origem, seus naturais e divinos direitos e seu objetivo final."
    "Irmão lobo, tu prejudicas a muitos nestas paragens e fazes um grande mal. Todas estas pessoas acusam-te e amaldiçoam-te. Mas, irmão lobo, eu gostaria de fazer a paz entre ti e essas pessoas."
    "A pura saudade não encontra distância no espaço nem no tempo, criando de tal sorte um vínculo que, mesmo as almas estando separadas, sentem-se unidas pela força do amor."
    "A cortesia é irmã da caridade, que apaga o ódio e fomenta o amor."
    "O Amor não é amado! O Amor não é amado!"
    "Como é que os homens podem amar uns aos outros se não amam o Amor?"
    "Nada existe desprezado no amor de Deus, que espera de nós a compreensão, e ainda nos dá meios de compreender. Vede a bondade de Deus na eternidade!"
    "A vida é um mistério que somente nos é revelado pelos processos do Amor. Quanto mais nós amamos, no quilate do amor que nada pede, mais ficamos sabendo das coisas escondidas dos que desconhecem essa virtude por excelência."
    "E se por esse motivo tiver de suportar perseguições da parte de alguém, que então o ame ainda mais por amor a Deus."
    "Quando digo Ave, Maria, os Céus sorriem, os anjos rejubilam, o mundo alegra-se, o inferno treme e os demônios fogem. Vós sois, ó Maria, a filha do Altíssimo Pai Celestial, a Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo e a Esposa do Divino Espírito Santo."
    "Por isso, ordeno a todos meus Irmãos, aqueles que vivem agora e aqueles que virão no futuro, que venerem a Santa Mãe de Deus a quem sempre imploramos que seja Nossa Protetora. Que a louvem em todos momentos, em todas circunstâncias da vida, com todos meios a seu alcance e com a maior devoção e submissão."
    "Vamos confiar mais em Deus e obedecer a Suas magnânimas leis. Se trabalharmos em favor do Bem, esse Bem virá a nosso encontro. Esta é a lei."
    "Peço a todos que me ouvis que, ao sairdes daqui, não vos mostrais desinteressados pela Luz do coração. Procurai, na sequência das horas, melhorar em todos sentidos e anular o mal que ainda existe em cada um de nós, como princípio de ajuda ao Bem que deseja entrar em nossos corações."
    "Em toda parte onde estiverem ou se encontrarem os irmãos, que estejam a serviço uns dos outros. Que com confiança manifestem uns aos outros suas necessidades, pois se uma mãe nutre e cuida de seu filho carnal, com quanto mais cuidado não deve cada qual amar e nutrir seu irmão espiritual? Se um dos irmãos cair doente, os outros irmãos devem servi-lo como gostariam eles mesmos de serem servidos."
    "Ninguém deve ser chamado de inimigo. Todos são vossos benfeitores, e ninguém vos faz mal. Vós não tendes inimigos além de vós mesmos."
    "Fomos chamados para curar feridas, unir o que se afastou e trazer para casa aqueles que se perderam. Muitos que nos parecem filhos do Diabo ainda se tornarão discípulos de Cristo."
    "Ninguém é suficientemente perfeito, que não possa aprender com o outro. E ninguém é totalmente estruído de valores, que não possa ensinar algo a seu irmão."
    "Eis aqui um dos melhores meios para adquirir humildade. Fixa bem em mente esta máxima: cada um é tanto quanto é aos olhos de Deus, e nada mais."
    "Todos somos candidatos à imperturbável tranquilidade, mas para tanto temos de lutar e vencer a mais dura das batalhas, na guerra contra nós mesmos, que carece de permanente vigilância para eliminar os inimigos que muito conhecemos: o ódio, a inveja, o ciúme, a discórdia, a maledicência, a vingança, o orgulho, o egoísmo... São frentes de lutas que devemos travar para vencer a nós mesmos, e conhecer o sagrado terreno de nosso coração."
    "... porque os anjos têm asas como as aves, porque os homens têm pelos como os bichos e todos nós temos alma como Deus!"
    "Eternas são somente as coisas do Bem, a função caritativa e as leis que o Evangelho nos revela."
    "E em qualquer pregação que fizerdes, admoestai o povo sobre o arrependimento e que ninguém pode ser salvo, exceto aquele que recebe o Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor. E quando for sacrificado no altar pelo Sacerdote ou levado para qualquer lugar, que todo povo, de joelhos, renda louvor, glória e honra ao Verdadeiro e Vivo Senhor Deus."
    "Peço-vos que mostreis a maior reverência e honra possível ao Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, por Quem todas coisas, tanto na Terra como no Céu, foram trazidas à Paz e reconciliadas com Deus Todo-Poderoso."
    "E como apareceu aos santos Apóstolos em verdadeira Carne, também a nós e do mesmo modo que eles, enxergando Sua Carne, não viam senão Sua Carne, contemplando-O contudo com seus olhos espirituais, n'Ele creram como em Seu Senhor e Deus (cf. Jo 20,28), assim também nós, vendo o Pão e o Vinho com nossos olhos corporais, olhemos e firmemente creiamos que Ele está presente."
    "O homem deveria tremer, o mundo deveria vibrar, o Céu inteiro deveria profundamente comover-se quando o Filho de Deus aparece sobre o altar nas mãos do Sacerdote."
    "Todos dias Ele humilha-Se, assim como fez quando saiu de Seu celestial trono para o ventre da Virgem. Todos dias Ele vem até nós e deixa-nos vê-Lo em humildade, quando desce do seio do Pai para as mãos do Sacerdote no altar."
    "O que faz o pobre à porta do rico, o doente diante do seu médico, o sedento diante de um riacho límpido? O que eles fazem, eu faço diante do Deus Eucarístico. Eu rezo. Eu adoro. Eu amo."
    "Irmãos, comecemos, pois até agora pouco ou nada fizemos."
    "Senhor, fazei de mim um instrumento de Vossa Paz."
    "E depois que o Senhor me deu irmãos, ninguém me mostrou o que eu deveria fazer. Mas o Altíssimo mesmo revelou-me que eu devia viver segundo a forma do Santo Evangelho."
    "E o Senhor deu-me e ainda me dá tanta fé nos Sacerdotes que vivem segundo a forma da Santa Igreja Romana, por causa de suas ordens, que, mesmo que me perseguissem, quero recorrer a eles. E hei de respeitar, amar e honrar a eles e a todos outros como a meus senhores. Não quero neles considerar o pecado, porque neles vejo o Filho de Deus e eles são meus senhores."
    "Choro as dores e humilhações de Meu Senhor. O que mais me faz chorar é que os homens, por quem Ele tanto sofreu, d'Ele vivem esquecidos."
    "Era fácil amar a Deus em tudo que era belo. As lições de um conhecimento mais profundo, porém, instruíram-me a abraçar Deus em todas coisas."
    "Eu tenho sido totalmente profano. Se Deus pode operar através de mim, Ele pode operar através de qualquer um."
    "Deus não poderia ter escolhido ninguém menos qualificado, ou mais pecador, que eu. E assim, para esta obra maravilhosa que Ele pretende realizar através de nós, Ele me escolheu, pois Deus sempre escolhe os fracos e os absurdos, e aqueles que não valem nada."
    "Senhor, ajuda-me a viver este dia, sereno e tranquilo. A apoiar-me em Tua grande força, confiante e serenamente. A aguardar o desenrolar de Tua vontade, paciente e serenamente. A encontrar os outros, em paz e alegria. A encarar o amanhã, confiante e corajosamente."
    "Nós adoramos-Te, ó Santíssimo Senhor Jesus Cristo, aqui em todas Tuas igrejas que estão no mundo inteiro, porque por Tua Santa Cruz remiste o mundo."

    "Onde há amor e Sabedoria, não há medo nem ignorância.
    Onde há paciência e humildade, não há raiva nem aborrecimento.
    Onde há pobreza e alegria, não há 
cobiça nem avareza.
    Onde há paz e contemplação, não há cuidado nem inquietação.
    Onde há misericórdia e prudência, não há excesso nem aspereza.
    Onde há o temor a Deus para guardar a morada, nenhum inimigo pode entrar."

    "Salve ó Senhora, Rainha Santa,
    Mãe Santa de Deus, ó Maria, que sois Virgem feita Igreja,
    escolhida pelo Santíssimo Pai Celestial,
    que vos consagrou por Seu Santíssimo e
    Dileto Filho e o Espírito Santo Paráclito.
    Em vós residiu e reside toda plenitude da Graça e todo bem.

    Salve, ó Palácio do Senhor!
    Salve, ó Tabernáculo do Senhor!
    Salve, ó Morada do Senhor!
    Salve, ó Manto do Senhor!
    Salve, ó Serva do Senhor!
    Salve, ó Mãe do Senhor!

    Salvai vós todas santas virtudes derramadas,
    pela Graça e iluminação do Espírito Santo,
    nos corações dos fiéis, transformando-os de infiéis
    em servos fiéis de Deus!

    Amém.

    "Deus é Deus de amor que transforma a semente em árvore, em fruto que alimenta a vida, e, por vezes, o luto!...
    Deus é Deus de amor que muda o ninho dos pensamentos em ninho de Luz, que muda as idéias em ação que nos conduz, ou deixa que nós caiamos, para compreender Jesus.
    Deus é Deus de amor que nos deu os pés para que haja caminhada, que nos ofertou as mãos para dar trabalho à enxada. Mas, se ferirmos o companheiro, erramos a estrada.
    Deus é deus de amor que nos deu a cabeça para pensar, que nos premiou com o coração para amar. Quem aceita o ódio, não pode cantar.
    Deus é Deus de amor que tudo fez, sem usar o alarde, que tudo faz, mesmo que achemos tarde. Que nunca diz: sois covardes.
    Deus é Deus de amor que nos deu o Verbo e nos ensina a falar, que nos deu a boca e nos ensina a cantar: que nos deu o coração e nos ensina a amar."

    "Louvado sejas, Meu Senhor,
    com todas Tuas criaturas,
    especialmente com o senhor irmão Sol
    que clareia o dia e com sua luz nos alumia.

    E ele é belo e radiante
    com grande esplendor:
    de ti, Altíssimo, é a imagem."


    Louvado sejas, Meu Senhor,
    Pela irmã Lua e as Estrelas,

    Que no céu formaste claras
    E preciosas e belas.

    Louvado sejas, Meu Senhor,
    Pelo irmão Vento,
    Pelo ar, ou nublado
    Ou sereno, e todo tempo
    Pela qual a Tuas criaturas dás sustento.

    Louvado sejas, Meu Senhor,
    Pela irmã Água,
    Que é mui útil e humilde
    E preciosa e casta.

    Louvado sejas, Meu Senhor,
    Pelo irmão Fogo
    Pelo qual iluminas a noite
    E ele é belo e jucundo
    E vigoroso e forte.

    Louvado sejas, Meu Senhor,
    Por nossa irmã, a mãe Terra
    Que nos sustenta e governa,
    E produz diversos frutos
    E coloridas flores e ervas.


    Louvado sejas, Meu Senhor,
    Por nossa irmã, a morte corporal,
    Da qual homem algum pode escapar.

    Ai dos que morrerem em pecado mortal!
    Felizes os que ela achar
    Conformes Tua santíssima vontade,
    Porque a segunda morte não lhes fará mal!

    Morreu por volta de 44 anos, em 3 de outubro de 1226, depois de ler algumas passagens do Evangelho, quando a maioria dos irmãos e o povo da cidade puderam ver seus estigmas.
    Foi enterrado no dia seguinte, totalmente despido, conforme havia solicitado, acompanhado de uma grande multidão. Em menos de 2 anos, o Papa Gregório IX foi pessoalmente a Assis para o canonizar.
    Sua sepultura fica numa cripta da Basílica de Assis, que tem seu convento anexo, onde seu manto e a pedra que ele usava com travesseiro estão expostos. É, junto a Santa Catarina de Sena, o Padroeiro de Itália, além de Padroeiro dos comerciantes, dos poetas, dos animais e dos ecologistas. 


    São Francisco, rogai por nós!

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Ouvir a Deus


    O verbo 'obedecer', em hebraico, é literalmente traduzido como 'ouvir a voz'. Por isso, vemos na Bíblia tantas passagens que falam em 'ouvir'. O Primeiro Mandamento (cf. Mc 12,29), anunciado por Moisés no Livro de Deuteronômio, começa exatamente com um convite à escuta dos ensinamentos de Deus: "Ouve, ó Israel! O Senhor, Nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor, Teu Deus, de todo teu coração, de toda tua alma e de todas tuas forças." Dt 6,4-5
    Em caso contrário, esse grande Profeta de Israel também advertia: "Como as nações que o Senhor exterminou diante de vós, assim também perecereis vós, se não obedecerdes a voz do Senhor, Vosso Deus." Dt 8,20
    O Livro de Salmos, portanto, convida-nos a exaltar o Senhor e canta para que O ouçamos de abertos corações: "Entremos com louvor em Sua presença... Ele é Nosso Deus, e nós somos Seu povo, rebanho que Ele conduz. Oxalá escuteis hoje o que Ele diz: 'Não endureçais vossos corações...'" Sl 94,2.7-8
    Sem dúvida, essa foi a razão da prosperidade de Israel, como Deus prometeu ao patriarca Isaac, filho de Abraão, no Livro de Gênesis: "Multiplicarei tua posteridade como as estrelas do céu, dá-lhe-ei todas estas regiões e nela serão benditas todas nações da Terra, porque Abraão obedeceu a Minha voz e observou Meus preceitos, Meus Mandamentos e Minhas leis." Gn 26,4-5
    Aliás, tão preciosa é a obediência aos olhos de Deus, que mesmo os ritos por Ele determinados devem ser preteridos em caso de expressa de ordem Sua. Está no Primeiro Livro de Samuel, quando ele anunciou a destituição do rei Saul por não seguir estritamente o que Deus lhe ordenara, no combate contra o povo de Amalec: "Samuel replicou-lhe: 'Acaso o Senhor Se compraz tanto nos holocaustos e sacrifícios como na obediência a Sua voz? A obediência é melhor que o sacrifício, e a submissão vale mais que a gordura dos carneiros. A rebelião é tão culpável quanto a superstição, a desobediência é como o pecado de idolatria. Pois como rejeitaste a Palavra do Senhor, Ele também te rejeita e te despoja da realeza!" 1 Sm 15,22-23
    E acenando para o Advento, quando Cristo aperfeiçoaria o Antigo Testamento, os sagrados autores de um Salmo garantem: "Escutarei o que diz o Senhor Deus, porque Ele diz palavras de Paz a Seu povo, a Seus fiéis, e àqueles cujos corações se voltam para Ele. Sim, Sua Salvação está bem perto daqueles que O temem, de sorte que Sua Glória retornará a nossa terra." Sl 84,9-10
    Pois desde os tempos de Moisés, o mais importante Profeta do povo hebreu (cf. Dt 34,10), já coube a ele fazer o primeiro anúncio da Vinda do Messias. E sua recomendação singularmente reduzia-se a que nós O ouvíssemos: "O Senhor, Teu Deus, suscitará dentre teus irmãos um Profeta como eu: é a Ele que devereis ouvir." Dt 18,15
    Ora, Deus pessoalmente tratou de apresentar este 'Profeta' a três dos Apóstolos, o seleto grupo mais próximo de Jesus. Foi no momento de Sua Transfiguração, quando a voz do Pai se fez ouvir dentro da radiante Nuvem que era o Espírito Santo, ordenando que todos O ouvissem. Está no Evangelho Segundo São Mateus: "Eis Meu Amado Filho, em Quem pus toda Minha afeição. Ouvi-O!" Mt 17,4
    E tal audição causou-lhes tão grande pavor que só um toque da Mão de Jesus pôde aclamá-los: "Ouvindo esta voz, os discípulos caíram com a face por terra e tiveram medo. Mas Jesus aproximou-Se deles e tocou-os, dizendo: 'Levantai-vos e não temais.' Eles levantaram os olhos e não viram mais ninguém, senão Jesus." Mt 17,6-8
    O Evangelho Segundo São João, que era um desses três, em reconhecidamente difícil tarefa assim explicou Quem é Jesus: o próprio Verbo que encarnou, a Palavra de Deus que se tornou Carne: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. E o Verbo fez-Se Carne e habitou entre nós. E vimos Sua Glória, a Glória que o Filho Único recebe de Seu Pai, cheio de Graça e de Verdade." Jo 1,1.14
    Por isso, ao falar da fonte de Seus ensinamentos, Jesus atestou, clamando em Jerusalém durante Sua última Páscoa: "Em Verdade, não falei por Mim mesmo, mas o Pai, que Me enviou, Ele mesmo prescreveu-Me o que devo dizer e o que devo ensinar. O que digo, portanto, digo-o como o Pai Me falou." Jo 12,49.50b
    E dava exemplo, como disse aos Apóstolos após a Santa Ceia: "... Eu também guardei os Mandamentos de Meu Pai, e persisto em Seu amor." Jo 15,10b
    Perante Pilatos, Ele declarou qual é Sua Missão e a quem é dirigida Sua Mensagem: "É para dar testemunho da Verdade que nasci e vim ao mundo. Todo aquele que é da Verdade ouve Minha voz." Jo 18,37
    E já havia dito aos judeus durante a Festa da Dedicação, quando estava no Templo de Jerusalém, próximo ao Pórtico de Salomão, referindo-Se a Sua Igreja ainda por nascer (cf. At 2,4): "Minhas ovelhas ouvem Minha voz, Eu conheço-as e elas seguem-Me." Jo 10,27
    Isso explica a pessoal realização do próprio São João Batista, antes de ser preso, quando testemunho sobre Jesus: "Aquele que tem a esposa é o Esposo. O amigo do Esposo, porém, que está presente e O ouve, sobremodo regozija-se com a voz do Esposo. Nisso consiste minha alegria, que agora se completa." Jo 3,29
    Com efeito, no Livro do Apocalipse de São João, Nosso Senhor confirma os tempos que vivemos desde Sua Ascensão, que são os tempos do Santo Paráclito, da Santa Igreja Católica ou dos Sacramentos: "Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir Minha voz e Me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos. Eu com ele e ele Comigo." Ap 3,20
    Na parábola do Semeador, que é Ele mesmo, Nosso Salvador compara Sua Palavra a uma semente, e tudo mais refere-se ao cuidado como nós a ouvimos. O Evangelho Segundo São Marcos apontou: "O Semeador semeia a Palavra. Alguns encontram-se à beira do Caminho, onde ela é semeada. Apenas ouvem-na, vem Satanás tirar a Palavra neles semeada. Outros recebem a semente em pedregosos lugares. Quando a ouvem, recebem-na com alegria, mas não têm raiz em si, são inconstantes, e assim que se levanta uma tribulação ou uma perseguição por causa da Palavra, eles tropeçam. Ainda outros recebem a semente entre os espinhos. Ouvem a Palavra, mas as mundanas preocupações, a ilusão das riquezas, as múltiplas cobiças sufocam-na e tornam-na infrutífera. Mas aqueles que recebem a semente em boa terra, escutam a Palavra, acolhem-na e dão fruto, trinta, sessenta e cem por um." Mc 4,14-20
    E para que esta parábola fosse bem entendida, Ele havia alertado, pois aos Apóstolos só daria a explicação que vimos acima: "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!" Mc 4,9
    Igreja Católica Apostólica Romana, portanto, que Jesus pessoalmente edifica sobre a pessoa de São Pedro (cf. Mt 16,18), é a guardiã de Sua Palavra. E não pode ser desprezada! Do contrário, está-se renegando a Revelação e incorrendo em excomunhão, como o próprio Jesus determinou: "E se também se recusar a ouvir a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano." Mt 18,17
    Onisciente, Ele confiou Sua Palavra a seres humanos, e assim nos induz à Comunhão, à Salvação do homem pela participação homem, enfim, à Santa Unidade. Pois ouvir a Igreja é ouvir os Apóstolos, e ouvir os Apóstolos é ouvir a Ele mesmo e ao Pai. No Evangelho Segundo São Lucas, enquanto subiam a Jerusalém, Ele garantiu aos Doze: "Quem vos ouve, a Mim ouve. E quem vos rejeita, a Mim rejeita. E quem Me rejeita, rejeita Aquele que Me enviou." Lc 10,16
    Ora, referindo-Se aos não judeus, Ele avisou que seria ouvido mesmo após Sua Paixão, por intermédio de Sua Igreja, como disse aos religiosos de Jerusalém: "Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco. Também preciso conduzi-las. E ouvirão Minha voz, e haverá um só rebanho e um só Pastor." Jo 10,16
    Num claro exemplo da Igreja Católica identificada enquanto pessoas, São Lucas diz que, antes de sua conversão, São Paulo perseguia não pessoas mas a própria Igreja. É do Livro de Atos dos Apóstolos: "Saulo, porém, devastava a Igreja. Entrando pelas casas, delas arrancava homens e mulheres e entregava-os à prisão." At 8,3
    E no dia de sua conversão, Jesus vai acusá-lo de estar perseguindo não os membros da Igreja, mas a Ele mesmo. E quando o futuro Apóstolo Lhe perguntou o que deveria fazer, Ele simplesmente mandou-o ouvir a Igreja, no caso representada pela comunidade de Damasco: "Saulo disse: 'Quem és, Senhor?' Respondeu Ele: 'Eu sou Jesus, a Quem tu persegues. Duro é debater-te contra o aguilhão.' Então, trêmulo e atônito, disse ele: 'Senhor, que queres que eu faça?' Respondeu-lhe o Senhor: 'Levanta-te, entra na cidade. Aí te será dito o que deves fazer.'" At 9,5-6
    Exemplar, pois, foi a atitude de um estrangeiro que não tirava conclusões pessoais dos Sagrados Livros, mas pediu explicações a São Filipe Diácono: "Ora, um etíope, eunuco, ministro da rainha Candace, de Etiópia, e superintendente de todos seus tesouros, tinha ido a Jerusalém para adorar. Voltava sentado em seu carro, lendo o Profeta Isaías. O Espírito disse a Filipe: 'Aproxima-te deste carro.' Filipe aproximou-se e ouviu que o eunuco lia o Profeta Isaías, e perguntou-lhe: 'Porventura entendes o que estás lendo?' Respondeu-lhe: 'Como é que posso, se não há alguém que mo explique?' E rogou a Filipe que subisse e sentasse junto a ele." At 8,27b-31
    Pois na oração que fez ao Pai pela Unidade da Igreja, Jesus pediu-Lhe não apenas pelos Apóstolos, mas também por nós, que ouviríamos Sua Palavra no Ministério deles: "Eu não rogo somente por eles, mas por aqueles que também vão crer em Mim pela palavra deles." Jo 17,20
    E referindo-Se ao inicial acolhimento dado a Sua Palavra já lançada ao mundo, Ele assegurou-lhes: "Se guardaram Minha Palavra, também hão de guardar a vossa." Jo 15,20b
    Por isso, a Primeira Carta de São João obedientemente diz: "Aceitamos o testemunho dos homens." 1 Jo 5,9a
    Com efeito, desde o início Deus usou deste recurso para divulgar a Revelação, como o salmista Asaf, que era levita, cantou: "Ele (Deus) promulgou uma Lei para Jacó, instituiu a legislação de Israel, para que aquilo que confiara a nossos pais, eles o transmitissem a seus filhos, a fim de que a nova geração O conhecesse, e os filhos que lhes nascessem também pudessem contar aos seus." Sl 77,5-6
    O próprio Jesus exigiu dos Apóstolos o acatamento dos testemunhos. Foi no Domingo da Ressurreição: "Por fim, apareceu aos Onze, quando estavam sentados à mesa, e censurou-lhes a incredulidade e dureza de coração, por não acreditarem nos que O tinham visto ressuscitado." Mc 16,14
    Também o exigiu de São Tomé, oito dias depois, condenando seu egocentrismo, quando dizia aos demais Apóstolos, apesar de seus testemunhos, que tinha que 'ver para crer': "Não sejas incrédulo, mas homem de ." Jo 20,27b
    A Missão de Jesus, portanto, é evidente: que alcancemos a Unidade do Reino de Deus, como Ele declarou ao apresentar-Se como o Bom Pastor, visto acima: "... ouvirão Minha voz e haverá um só rebanho e um só Pastor." Jo 10,16
    Contudo, nem todos realmente buscam, desde então, entender Sua Mensagem, como Ele mesmo atestou diante dos judeus que se bastavam em arrogar-se filhos de Abraão: "Por que não entendeis o que Eu falo?" Jo 8,43a
    Ele bem sabia, no entanto, o porquê! Era o inimigo, tal qual na parábola do Semeador, que lhes fechava o coração: "É porque não sois capazes de ouvir Minha Palavra." Jo 8,43b
    E denunciou: "Quem é de Deus ouve as Palavras de Deus, e se vós não as ouvis é porque não sois de Deus." Jo 8,47
    Amado Discípulo vai dizer algo muito parecido: "Eles são do mundo. É por isto que falam segundo o mundo, e o mundo ouve-os. Nós, porém, somos de Deus. Quem conhece a Deus, ouve-nos. Quem não é de Deus, não nos ouve. É nisto que conhecemos o Espírito da Verdade e o espírito do erro." 1 Jo 4,5-6
    E afirma a razão de ser do Ministério dos Apóstolos, logo em primeira linha: "O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com nossos olhos, o que temos contemplado e nossas mãos têm apalpado no tocante ao Verbo da Vida... o que vimos e ouvimos, nós anunciamo-vos para que vós também tenhais Comunhão conosco. Ora, nossa Comunhão é com o Pai e com Seu Filho Jesus Cristo." 1 Jo 1,1.3
    Nosso Senhor, de fato, reclamara de Nicodemos, que era doutor e bem intencionado fariseu, mas ainda carente das primícias do Espírito de Deus. Isso deu-se logo em sua primeira visita à Jerusalém após iniciar Sua vida pública: "Se vos tenho falado das terrenas coisas e não Me credes, como crereis se vos falar das celestiais?" Jo 3,12
    Também reclamou de dois de Seus discípulos que partiram para Emaús, no Domingo da Ressurreição, apesar dos testemunhos que ouviram de que Ele havia ressuscitado: "Jesus disse-lhes: 'Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo que anunciaram os Profetas!'" Lc 24,25
    Aliás, reclamou dos próprios Apóstolos, ainda quando ensinava que o mal sai do coração do homem e punha por terra as tradições dos fariseus: "Tomando então a palavra, Pedro disse: 'Explica-nos esta parábola.' Jesus respondeu: 'Também sois vós de tão pouca compreensão?'" Mt 15,15-16
    E aludindo a Sua Ressurreição, provocou até os ateus, através da parábola do pobre Lázaro e do mau rico: "O rico disse: 'Então te rogo, pai, que mandes Lázaro à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos, para lhes testemunhar. Que não aconteça também virem eles parar neste lugar de tormentos.' Abraão respondeu: 'Eles lá têm Moisés e os Profetas. Ouçam-nos!' O rico replicou: 'Não, pai Abraão. Mas se for a eles algum dos mortos, arrepender-se-ão.' Abraão, no entanto, respondeu-lhe: 'Se não ouvirem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão convencer, ainda que alguém ressuscite dos mortos.'" Lc 16,27-31
    Pois, mesmo àquela época, essa insensatez já não era nenhuma novidade! O Livro do Profeta Daniel, por exemplo, confessa os pecados de Israel nestes termos: "Recusamos ouvir a voz do Senhor, Nosso Deus. Não seguimos as leis que Ele nos oferecia pela boca de Seus servos, os Profetas." Dn 10,10
    E a Segunda Carta de São Pedro segue insistindo no conjunto da Revelação para o pleno conhecimento do Cristo: "Assim, demos ainda maior crédito à Palavra dos Profetas, à qual fazeis bem em atender como a uma lâmpada que brilha num tenebroso lugar, até que o dia desponte e a Estrela da Manhã se levante em vossos corações." 2 Pd 1,19
    Sobre aqueles que bem ouvem o Pai, Jesus, citando o Livro do Profeta Isaías, já havia afirmado: "Ninguém pode vir a Mim se o Pai, que Me enviou, não o atrair. E Eu hei de ressuscitá-lo no Último Dia. Está escrito nos Profetas: 'Todos serão ensinados por Deus (Is 54,13).' Assim, todo aquele que ouviu o Pai e por Ele foi instruído, vem a Mim." Jo 6,44-45
    De tão manso e sereno, porém, Ele chegou a propor um prático teste: "Se alguém quiser cumprir a vontade de Deus, distinguirá se Minha Doutrina é de Deus ou se falo de Mim mesmo." Jo 7,17


PECADO E A PREGAÇÃO

    Mas apontar os desvios do povo de Deus, mesmo dos religiosos, também não era uma novidade. Através de Asaf, o próprio Deus havia-Se pronunciado: "Escutai, ó Meu povo, que Eu vou falar. Israel, vou testemunhar contra ti. Deus, Teu Deus, sou Eu." Sl 49,7
    E após citar alguns graves pecados, Ele pergunta: "Eis o que fazes! E Eu? Hei de calar-Me? Pensas que Eu sou igual a ti? Não, mas vou repreender-te e lançar-te em rosto teus pecados." Sl 49,21
    Pois mesmo em Sua natureza humana, Jesus conhecia o coração da criatura humana, e garantiu que Seu Juízo era o de Deus: "Tenho muitas coisas a dizer e a julgar a vosso respeito, mas o que Me enviou é verdadeiro e o que d'Ele ouvi Eu digo ao mundo." Jo 8,26
    E Seus ensinamentos, como disse aos judeus que n'Ele creram, tem o dom de emancipar-nos do pecado: "Se permanecerdes em Minha Palavra, sereis Meus verdadeiros discípulos. Conhecereis a Verdade, e a Verdade libertá-vos-á." Jo 8,31-32
    Eles vão muito além de simples questões morais: tratam da própria vida espiritual: "Em Verdade, em Verdade, digo-vos: quem ouve Minha Palavra e crê n'Aquele que Me enviou, tem a Vida Eterna e não incorre na condenação, mas passou da morte para a Vida." Jo 5,24
    Sem dúvida, de sua reconhecida inspiração, o Livro de Sabedoria já versava sobre obediência para que se obtenha a imortalidade: "Mas amá-la (a Sabedoria) é obedecer a suas leis, e obedecer a suas leis é a garantia da imortalidade. Ora, a imortalidade faz habitar junto a Deus, assim o desejo da Sabedoria conduz ao Reino!" Sb 6,18-20
    Porque precisamente essa havia sido a promessa de Deus, feita ao povo através do Livro do Profeta Isaías: "Inclinai vosso ouvido e vinde a Mim, ouvi e tereis Vida..." Is 55,3a
    E tão poderosa, a Palavra de Jesus é o próprio Juízo, como publicamente clamou dias antes do início de Sua Paixão: "Se alguém ouve Minhas Palavras e não as guarda, Eu não o condenarei, porque não vim para condenar o mundo, mas para o salvar. Quem Me despreza e não recebe Minhas Palavras, tem quem o julgue. A Palavra que anunciei julgá-lo-á no Último Dia." Jo 12,47-48
    Ele havia anunciado, dizendo dos já falecidos, durante sua segunda festa em missão na Cidade Santa: "Em Verdade, em Verdade, digo-vos: vem a hora, e já está aí, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus. E aqueles que a ouvirem viverão." Jo 5,25
    Juízo que Ele proferiu logo após entrar triunfalmente nela, no Domingo de Ramos: "Agora é o Juízo deste mundo. Agora será lançado fora o príncipe deste mundo." Jo 12,31
    De fato, falando das intenções e dos meramente humanos projetos, Ele coloca a Vida e a eterna condenação nesses termos: "Aquele, pois, que ouve Minhas Palavras e as põe em prática é semelhante a um prudente homem, que edificou sua casa sobre a rocha. Mas aquele que ouve Minhas Palavras e não as põe em prática, é semelhante a um insensato, que construiu sua casa na areia." Mt 7,24.26
    Diante de tão séria decisão, e atestando Sua permanente interlocução com a Santa Igreja, pois jamais a abandonou (cf. Mt 28,20), os seguidores da tradição de São Paulo advertem-nos na Carta aos Hebreus: "Guardai-vos, pois, de recusar ouvir Aquele que fala. Porque, se não escaparam do castigo aqueles que d'Ele se desviaram, quando lhes falava na Terra, muito menos escaparemos nós se O repelirmos quando nos fala desde o Céu." Hb 12,25
    Sem dúvida, nem mesmo o Espírito Santo a abandonaria, como Jesus prometeu na última noite entre os Apóstolos. Aliás, é uma Pessoa de Deus que o mundo não pode receber: "E Eu rogarei ao Pai, e Ele dá-vos-á outro Paráclito, para que fique convosco eternamente. É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem O conhece. Mas vós conhecê-Lo-eis, porque convosco permanecerá e em vós estará." Jo 14,16-17
    Pois, sobre a guia do Espírito Santo, as igrejas particulares são portadoras de Sua Palavra, como Jesus mesmo repetidamente recomenda às dioceses de Ásia: "Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas." Ap 2,7.11.17.29;3,6.13.22
    Não por acaso, enquanto Príncipe dos Apóstolos, São Pedro pediu exatamente isso ao Sinédrio, o mais alto conselho dos judeus, após ele e São João Apóstolo serem presos pela primeira vez: "Então Pedro, cheio do Espírito Santo, respondeu-lhes: 'Chefes do povo e anciãos, ouvi-me...'" At 4,8
    Pois o Verbo de Deus tem vida própria, como se viu no 'Pentecostes dos Gentios': "Estando Pedro ainda a falar, o Espírito Santo desceu sobre todos que ouviam a Palavra. Os fiéis da circuncisão, que tinham vindo com Pedro, profundamente admiraram-se vendo que o dom do Espírito Santo também era derramado sobre os não judeus..." At 10,44-45
    Ora, o Espírito de Deus só Se derrama sobre quem Lhe obedece, como o próprio São Pedro disse ao Sinédrio ao testificar a Ressurreição de Jesus e o Sacramento da Confissão: "Destes fatos, nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que Lhe obedecem." At 5,32
    E fechando o ciclo, a Primeira Carta de São Pedro diz para que O recebemos: "... santificados pelo Espírito, para obedecer a Jesus Cristo..." 1 Pd 1,2
    Aliás, segundo os discípulos de São Paulo, a própria Salvação é uma questão de obediência. Eles dizem de Jesus: "Mas, na consumação de Sua Vida, tornou-Se causa de Eterna Salvação para todos que Lhe obedecem." Hb 5,9
    Dizem dos Sacerdotes da Santa Igreja Católica: "Sede submissos e obedecei àqueles que vos guiam, pois eles velam por vossas almas e delas devem dar conta. Assim eles o farão com alegria, e não a gemer, pois isto vos seria funesto." Hb 13,17
    Ora, a Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses pede bem mais que obediência: "Suplicamo-vos, irmãos, que reconheçais aqueles que arduamente trabalham entre vós para vos dirigir no Senhor e vos admoestar. Para com eles tendes singular amor, em vista do encargo que exercem. Conservai a Paz entre vós." 1 Ts 5,12-13
    Obediência que o próprio Jesus demonstrou perante o Pai, como o Hino Cristológico canta, apontado na Carta de São Paulo aos Filipenses: "Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas Ele esvaziou-Se a Si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-Se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, humilhou-Se a Si mesmo, fazendo-Se obediente até a morte, e morte de Cruz." Fl 2,6-8
    Sem dúvida, a obediência deve começar em casa, por força do Quarto Mandamento, o único que incluso traz uma promessa. A Carta de São Paulo aos Efésios exorta: "Filhos, obedecei a vossos pais segundo o Senhor porque isto é justo. O Primeiro Mandamento acompanhado de uma promessa é: 'Honra teu pai e tua mãe, para que sejas feliz e tenhas longa vida sobre a Terra (Dt 5,16).'" Ef 6,1-3
    Porque assim se inicia no caminho da santidade: "Aliás, temos na Terra nossos pais que nos corrigem e, no entanto, olhamo-los com respeito. Com quanto mais razão havemos de submeter-nos ao Pai de nossas almas, o Qual nos dará a Vida? Os primeiros educaram-nos para pouco tempo, segundo sua própria conveniência, ao passo que Este o faz para nosso bem, para nos comunicar Sua santidade." Hb 12,9-10
    São conveniências, enfim, que a sociedade dita moderna reluta em entender, como está na Carta de São Paulo aos Colossenses: "Mulheres, sede submissas a vossos maridos, como convém no Senhor." Cl 3,18
    Pois a rebeldia tem bem conhecida origem, conforme suas palavras aos cristãos da cidade de Éfeso: "E vós estáveis mortos por vossas faltas, pelos pecados que outrora cometestes seguindo o modo de viver deste mundo, do príncipe das potestades do ar, do espírito que agora atua nos rebeldes." Ef 2,1-2
    De fato, para anunciar o Messias, essa era a grande missão de São João Batista, como Deus mesmo prometeu no Livro do Profeta Malaquias: "... e ele converterá o coração dos pais para os filhos, e o coração dos filhos para os pais..." Ml 3,24b
    E o Arcanjo São Gabriel reafirmaria, dizendo ao sacerdote São Zacarias, seu pai: "... para reconduzir os corações dos pais aos filhos e os rebeldes à Sabedoria dos justos..." Lc 1,17b
    Assim, afirmando a insensibilidade do mundo e defendendo a importância da pregação, a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios diz: "Já que o mundo, com sua sabedoria, não reconheceu a Deus na divina Sabedoria, aprouve a Deus salvar aqueles que creem pela loucura de Sua Mensagem." 1 Cor 1,21
    Loucura, dizia ele, porque reconhecia que anunciar a Cristo é anunciar um Mistério: "Também rezai por nós. Pedi a Deus que dê livre curso a nossa palavra para que possamos anunciar o Mistério de Cristo. É por causa deste Mistério que estou preso." Cl 4,3
    Mas mesmo assim todos Apóstolos, inclusive ele, deram suas vidas para o anunciar. Disse daqueles que não o conheciam pessoalmente: "Tudo sofro para que seus corações sejam reconfortados e que, estreitamente unidos pela caridade, sejam enriquecidos de uma plenitude de inteligência, para conhecerem o Mistério de Deus, isto é, Cristo..." Cl 2,2
    Por isso, a Carta de São Paulo aos Romanos argumenta, citando o Livro do Profeta Isaías: "Porém, como invocarão Aquele em Quem não têm fé? E como crerão n'Aquele de Quem não ouviram falar? E como ouvirão falar, se não houver quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados, como está escrito: 'Quão formosos são os pés daqueles que anunciam as boas novas (Is 52,7)'? Mas não são todos que prestaram ouvido à Boa Nova. É o que exclama Isaías: 'Senhor, quem acreditou em nossa pregação (Is 53,1)?' Logo, a fé provém da pregação e a pregação exerce-se em razão da Palavra de Cristo." Rm 10,14-17
    Na verdade, sustenta ele, a verdadeira pregação não acontece se não for por obra do Divino Espírito Santo. São Paulo fez relembrar os cristãos da cidade de Tessalônica: "Nosso Evangelho foi-vos pregado não somente por palavra, mas também com poder, com o Espírito Santo e com plena convicção." 1 Ts 1,5
    Também fez relembrar os da cidade de Corinto: "Minha palavra e minha pregação longe estavam da persuasiva eloquência da sabedoria. Eram, antes, uma demonstração do Espírito e do divino poder, para que vossa fé não se baseasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus." 1 Cor 2,4-5
    E falando sobre os poderes da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, a Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios testemunha: "Nós aniquilamos todo raciocínio e todo orgulho que se levantam contra o conhecimento de Deus, e cativamos todo pensamento e reduzimo-lo à obediência a Cristo." 2 Cor 10,5
    Por isso, falando de Jesus aos fiéis da igreja de Roma, ele expressa logo no primeiro capítulo a razão de ser de seu Ministério: "... Jesus Cristo Nosso Senhor, do Qual temos recebido a Graça e o apostolado, a fim de levar, em Seu Nome, todas pagãs nações à obediência da fé..." Rm 1,5
    E ao fim, em idênticos termos, diz para que o Messias Se manifestou: "... mas agora manifestado por ordem do Eterno Deus e, por meio das proféticas Escrituras, dado a conhecer a todas nações, a fim de levá-las à obediência da fé..." Rm 16,26
    Sim, porque a esses tempos, o próprio Evangelho já estava sendo deturpado. É a humanidade reenvidando sua teimosia e desobediência, como São Pedro dizia: "Reconhecei que a longa paciência de Nosso Senhor vos é salutar, como vosso caríssimo irmão Paulo também vos escreveu, segundo o dom de Sabedoria que lhe foi dado. É o que ele faz em todas suas cartas, nas quais fala nestes assuntos. Nelas há algumas passagens difíceis de entender, cujo sentido ignorantes ou pouco fortalecidos espíritos deturpam para sua própria ruína, como também o fazem com as demais Escrituras." 2 Pd 3,15-16
    A Carta de São Paulo a São Tito também os denunciou: "Com efeito, há muitos insubmissos, charlatães e sedutores, principalmente entre aqueles da circuncisão. É necessário tapar-lhes a boca porque transtornam inteiras famílias ensinando o que não convém, e isso por vil espírito de lucro. Para os puros, todas coisas são puras. Para os corruptos e descrentes nada é puro: até sua mente e consciência são corrompidas. Proclamam que conhecem a Deus, mas na prática renegam-nO, detestáveis que são, rebeldes e incapazes de qualquer boa obra." Tt 1,10-11.15-16
    E do mesmo modo demonstrou seu receio aos coríntios: "Mas temo que, como a Serpente enganou Eva com sua astúcia, assim se corrompam vossos pensamentos e se apartem da sinceridade para com Cristo." 2 Cor 11,3
    Ora, o Livro de Provérbios já havia avisado: "Aquele que afasta o ouvido para não ouvir a Lei, até mesmo sua oração torna-se abominável." Pr 28,9
    O convite para ouvir a Deus, pois, já era antiquíssima prática, e continua sendo porque ao fim dos tempos uma grande batalha é dada por certa (cf. Ap 19,19): "Aproximai-vos, nações, para ouvir, e vós, povos, estai atentos! Que ouça a Terra e tudo o que ela contém, o mundo e tudo o que ele produz, porque o Senhor está indignado contra todas nações e enfurecido contra todas suas tropas. Ele devotou-as ao massacre e destinou-as ao morticínio." Pr 34,1-2
    Mas o Apóstolo dos Gentios não deixou de alegrar-se com aqueles que acolhiam o Evangelho, mesmo que àquele tempo ainda não tivesse sido escrito: "Graças a Deus, porém, que, depois de terdes sido escravos do pecado, obedecestes de coração à regra da Doutrina na qual tendes sido instruídos." Rm 6,17
    Ele havia explicado de que realmente se trata: "Não sabeis que, quando vos ofereceis a alguém para obedecer-lhe, sois escravos daquele a quem obedeceis, quer seja do pecado para a morte, quer da obediência para a justiça?" Rm 6,16
    Entre tantas outras grandes verdades que temos que aprender de Jesus, portanto, Ele conclamava-nos em especial a ouvir essa: Deus é um ciumento Pai que, por tanto amor que nos tem, quer ser amado e amado por todas nossas capacidades. Foi Sua resposta, enquanto pregava, quando questionado por um escriba em Jerusalém, reverberando o célebre "Ouve, Israel": "Jesus respondeu: 'O primeiro é: Ouve, Israel, o Senhor Nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus de todo teu coração, de toda tua alma, de todo teu entendimento e de todas tuas forças.'" Mc 12,29-30
    Inequivocamente, Deus merece ser amado. E tão grande é Seu amor por nós que Ele não poderia admitir outra coisa, senão nosso amor em retribuição. Quanto aos insensatos e seus insanos comentários sobre Suas obras, como vemos no Livro de Jó, o Pai rechaça: "Quem é este que assim obscurece a Providência com discursos sem inteligência?" Jó 38,2
    Porque, seja por Suas obras ou por Si mesmo, Ele sempre Se dá a conhecer, como Moisés garantiu após profetizar a desobediência e o castigo da escravidão para o povo israelita, como de fato aconteceria: "O Senhor espalhá-vos-á entre todos povos, e restareis poucos entre as nações, aonde vos conduzir o Senhor. Então procurarás o Senhor, Teu Deus e O encontrarás, contanto que O busques de todo teu coração e de toda tua alma." Dt 4,27.29
    E a verdadeira conversão não acontece senão pela observação de Seus Mandamentos, como este grande líder também profetizou o retorno do exílio e à fidelidade: "Quando, pois, tiverem acontecido todas essas coisas e postas diante de ti a bênção ou a maldição, se tu as tomares a peito em meio a todas nações entre as quais o Senhor, Teu Deus, te tiver espalhado, e assim voltares para o Senhor e obedeceres a sua voz de todo teu coração e de toda tua alma, tu e teus filhos, conformando-vos a tudo o que hoje vos ordeno, então o Senhor, Teu Deus, reconduzirá teus cativos e terá piedade de ti, e te ajuntará de novo do meio das nações entre as quais te houver espalhado." Dt 30,1-3.0
    E torna a enfatizar: "Tu, porém, voltarás a ouvir a voz do Senhor, e porás em prática todas ordens que hoje te prescrevo." Dt 30,8
    Enfim, explica: "O Mandamento que hoje te dou não está acima de tuas forças, nem fora de teu alcance. Mas essa Palavra está perto de ti, em tua boca e em teu coração, e tu podes cumpri-la. Tomo hoje por testemunhas o Céu e a Terra contra vós, ponho diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas tu e tua posteridade, amando o Senhor, Teu Deus, obedecendo a Sua voz e permanecendo unido a Ele." Dt 30,11.14.19-20a
    A Carta de São Tiago, por fim, veementemente deixou-nos essa pérola sobre a Palavra da Vida, que tem seu ápice no Evangelho: "Sede cumpridores da Palavra, e não apenas ouvintes. Isto equivaleria a enganardes a vós mesmos. Aquele que escuta a Palavra sem a praticar, assemelha-se a alguém que contempla num espelho a fisionomia que a natureza lhe deu. Contempla-se e, mal sai dali, esquece-se de como era. Mas aquele que procura meditar com atenção a Lei perfeita da liberdade e nela persevera, não como ouvinte que facilmente se esquece, mas como fiel cumpridor do preceito, este será feliz em seu proceder." Tg 1,22-25
    E sobre nossa vocação para ouvir, principalmente a Deus, ele dizia: "... todo homem deve ser pronto para ouvir, porém tardo para falar e tardo para irar-se..." Tg 1,19


MARIA, EXEMPLO DE QUEM OUVE

    Ao contrário daqueles que distorcem a Palavra de Deus, a Santíssima Virgem é perfeito exemplo de quem ouve e guarda os divinos ensinamentos. São Lucas, que mais escreveu sobre Nossa Mãe Celeste, narra duas situações em que ela reage com respeitoso silêncio diante da Palavra de Seu Amado Filho.
    A primeira é quando Jesus responde a uns, que diziam que Sua mãe e 'Seus irmãos' queriam vê-Lo. Ele não os menospreza! Simplesmente aponta Sua verdadeira família em torno de Deus Pai, o que, sem dúvida, envolve muito mais pessoas que meros laços de sangue. E o vínculo dessa família é precisamente a Palavra: "Minha Mãe e Meus irmãos são estes, que ouvem a Palavra de Deus e a observam!" Lc 8,21
    A segunda é quando uma mulher exalta a Graça que tem Maria por ser a Virgem Profetizada (cf. Is 7,14 e Mq 5,2) que trouxe o Salvador ao mundo. E de novo Jesus põe como mais importante o ato de ouvir e obedecer à Palavra de Deus: "Enquanto Ele assim falava, uma mulher levantou a voz em meio ao povo e disse-Lhe: 'Bem-aventurados o ventre que Te trouxe e os seios que Te amamentaram!' Mas Jesus replicou: 'Antes bem-aventurados aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a observam!'" Lc 11,27-28
    Longe de desmerecer Nossa Senhora, Jesus fez-lhe grandes elogios. Sua importância não consistiam simplesmente em ser Sua mãe de sangue, ou de leite, fatos, aliás, que não deixam de ser indizíveis privilégios. Na verdade, desde quando foi gerada no ventre de Santa Ana, sem nenhuma mácula, Maria sempre obedeceu a Deus. Foi o que aconteceu quando lhe apareceu o Arcanjo São Gabriel. Como poderia ela estar preparada para tão grandioso projeto se o Senhor não estivesse sempre com ela? O próprio Santo Arcanjo declarou: "Ave, cheia de Graça, o Senhor é convosco." Lc 1,28
    Perfeitamente afeita à vida espiritual, Nossa Imaculada Mãe não estranhou sua aparição, mas tão somente a mensagem: "Intrigou-se ela com estas palavras, e pôs-se a pensar no que significaria tal saudação." Lc 1,29
    E demonstrando essa prontidão, além da ciência de que os anjos de Deus são fieis cumpridores da Palavra (cf. Sl 102,20), após rápidas explicações ela respondeu-lhe, alegando exatamente esse poderoso instrumento de Deus: "Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo tua palavra." Lc 1,38b
    Quanto a guardar, observar a Palavra de Deus como Jesus determina, também temos dois episódios, igualmente registrados por São Lucas, o Evangelista do Espírito Santo. O primeiro foi quando os pastores de Belém vieram testemunhar a aparição de anjos que lhes anunciaram o Nascimento de Jesus: "Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração." Lc 2,19
    O segundo foi quando Jesus ficou no Templo de Jerusalém, aos 12 anos de idade, após a Páscoa, e pela primeira vez afirmou Seu indefectível vínculo com a Casa do Pai: "Sua mãe guardava todas estas coisas em seu coração." Lc 2,51b
    Maria, portanto, mesmo sendo Mãe, obedecia a Seu Filho, pois, enquanto Bom Pastor e segundo Ele mesmo, "... as ovelhas seguem-nO, pois conhecem Sua voz." Jo 10,4
    Até seus opositores, homens de armas e sem maior formação religiosa, mandados pelo sumo sacerdote para O prender, admiravam-se com Sua Palavra: "Os guardas responderam: 'Ninguém jamais falou como este Homem!'" Jo 7,46
    Enfim, ao mencionar o momento em que Jesus, através das Escrituras, Se identifica com o Filho de Deus em Jerusalém, São Marcos registrou: "E a grande multidão ouvia-O com satisfação." Mc 12,37b
    Era o que se via após o Domingo de Ramos: "Jesus ensinava todos dias no Templo. Os sumos sacerdotes, os mestres da Lei e os notáveis do povo procuravam modo de matá-Lo. Mas não sabiam o que fazer, porque todo povo ficava fascinado quando ouvia Jesus falar." Lc 19,47-48
    Ora, foi assim desde o Sermão da Montanha: "Quando Jesus terminou essas palavras, as multidões ficaram extasiadas com Sua Doutrina. Porque a ensinava como quem tinha autoridade e não como os escribas do povo." Mt 7,28-29
    Aliás, desde que deixou Nazaré: "Desceu a Cafarnaum, cidade de Galileia, e ali os ensinava-os aos sábados. Maravilharam-se de Sua Doutrina, porque Ele ensinava com autoridade." Lc 4,32
    Busquemos essa Graça, como se viu durante uma das Festas das Tendas: "Antes do nascer do sol, já Se achava outra vez no Templo. Todo povo vinha a Ele e, sentando-Se, ensinava-os." Jo 8,2
    Façamos, pois, como Nossa Senhora: sejamos ovelhas de Cristo. Façamos como os peregrinos que estavam em Jerusalém na semana da Páscoa em que Jesus foi imolado: "De manhã cedo, todo povo ia ao Templo para O ouvir." Lc 21,38
    Porque, num suspiro, Nosso Senhor revelou a Santa Faustina. "Ó, se as almas quisessem ouvir Minha voz, quando falo no profundo de seus corações, em pouco tempo atingiriam os cumes da santidade." (Diário, 584)

    "Em Comunhão com toda a Igreja aqui estamos!"