segunda-feira, 2 de março de 2026

A Inveja


    O Catecismo da Igreja Católica diz com precisas palavras: "A inveja é a tristeza sentida diante do bem de outrem, e o imoderado desejo de apropriar-se dele. É um vício capital." CIC § 2553
    Este pecado manifestou-se logo nos primórdios, no fratricídio praticado por Caim, que não soube nem esperar por reconhecimento da parte de Deus nem controlar seus ímpetos. A inveja foi, portanto, a razão da primeira morte e do primeiro assassinato, como está no Livro de Gênesis: "Abel tornou-se pastor e Caim, lavrador. Passado algum tempo, em oblação ao Senhor Caim ofereceu frutos da terra. Abel, de seu lado, ofereceu dos primogênitos de seu rebanho e das gorduras dele, e o Senhor olhou com agrado para Abel e para sua oblação, mas não olhou para Caim, nem para sua oblação. Caim ficou extremamente irritado com isso, e seu semblante tornou-se abatido. O Senhor disse-lhe: 'Por que estás irritado? E por que está abatido teu semblante? Se praticares o bem, sem dúvida alguma poderás reabilitar-te. Mas se precederes mal, o pecado estará a tua porta, espreitando-te. Tu, porém, deverás dominá-lo.'" Gn 4,2b-7
    Nós, portanto, também devemos saber esperar de Deus nosso reconhecimento, praticando o bem, confiantes na divina Justiça e evitando deixar-nos dominar pelo pecado: "O batizado combate a inveja pela benevolência, pela humildade e pelo abandono nas mãos da Divina Providência." CIC § 2554
    E Jesus sempre é nosso exemplo. No Evangelho Segundo São João, Ele disse perante o líderes judeus em Jerusalém: "Não espero Minha Glória dos homens." Jo 5,41
    Segundo pecado do Demônio contra Deus, porque nasce de seu pecado capital da soberba, o Livro do Profeta Isaías anotou, ainda que expressamente falando de um rei destronado de Babilônia durante o exílio, a inveja em suas pretensões: "Escalarei os Céus e erigirei meu trono acima das estrelas. Sentar-me-ei no monte da assembleia, no extremo norte. Subirei as mais altas nuvens e tornar-me-ei igual ao Altíssimo." Is 14,13-14
    O Catecismo, pois, ainda ensinar: "Santo Agostinho via na inveja 'o diabólico pecado por excelência'." CIC § 2539
    E São Gregório Magno, também Doutor da Igreja e formidável Papa, dizia: "Da inveja nascem o ódio, a maledicência, a calúnia, a alegria causada pela desgraça do próximo e o desprazer causado por sua prosperidade."
    Como Caim, os onze filhos de Jacó, patriarcas das tribos de Israel, deixaram-se levar pela inveja e venderam seu irmão José a estrangeiros (cf. Gn 37,28), por ser o preferido de seu pai. E assim São José de Egito tornou-se uma prefigura de Jesus, que seria vendido por Judas Iscariotes e entregue aos pagãos pelos principais dos judeus, seus irmãos: "José ainda teve outro sonho, que contou a seus irmãos. Disse-lhes ele: 'Tive mais um sonho: o sol, a lua e onze estrelas prostravam-se diante de mim.' Seus irmãos, pois, ficaram com inveja dele, mas seu pai guardou a lembrança desse acontecimento." Gn 37,9.11
    Santo Estevão, no Livro de Atos dos Apóstolos, ao denunciar os membros do conselho judeu em Jerusalém pela Crucificação de Jesus, rememorou estes fatos e acusou-os: "Os patriarcas, invejosos de José, venderam-no para Egito. Mas Deus estava com ele." At 7,9
    Por tão grave pecado, Deus pede que o aplaquemos. Está no Livro de Êxodo como um dos Dez Mandamentos: "Não cobiçarás a casa de teu próximo. Não cobiçarás a mulher de teu próximo, nem seu escravo, nem sua escrava, nem seu boi, nem seu jumento, nem nada do que lhe pertence." Êx 30,17
    No Livro de Jó, tratando sobre Sabedoria, vemos seu amigo proferir a sentença que espera o invejoso: "O arrebatamento mata o insensato, a inveja leva o tolo à morte." Jó 5,2
    Contraditoriamente, muitos religiosos ressentem-se e cansam-se de esperar pela Justiça de Deus, e acabam seduzidos por práticas de corrompidos e infiéis. No Livro de Salmos, porém, o rei Davi lembra como é vã a glória daqueles que não obedecem a Deus, e volta a estimular à e à esperança: "Não te irrites por causa daqueles que agem mal, nem invejes aqueles que praticam a iniquidade, pois logo serão ceifados como a erva dos campos, e como a verde erva murcharão. Em silêncio, abandona-te ao Senhor, n'Ele põe tua esperança. Não invejes aquele que em suas más empresas prospera, e bem sucedido parece em seus maus desígnios." Sl 36,1-2.7
    O Livro de Eclesiástico deixa a mesma recomendação, lembrando a infalibilidade da divina Justiça: "Não invejes a glória nem as riquezas do pecador, pois não sabes qual será sua ruína." Eclo 9,16
    E dá detalhes de um gesto que bem conhecemos: "O olhar do invejoso é mau: ele vira o rosto e despreza as pessoas." Eclo 14,8
    Diz daqueles que, à inveja, acumulam o pecado mortal da gula: "Quando um homem olha para a mesa de outro, sua vida não é realmente vida, na obsessão do alimento, porque se nutre dos víveres de outrem." Eclo 40,30
    Sem dúvida, a inveja é um dos artifícios de Satanás para atacar o santo povo e todo aquele que busca a retidão: "Aquele que educa o filho torna invejoso seu inimigo, mas entre seus amigos será honrado por causa dele." Eclo 30,3
    E para não aumentar os pecados dos invejosos, não devemos falar-lhes de nossos projetos e confidências: "Esconde tuas intenções àqueles que te têm inveja." Eclo 37,7
    O Livro de Provérbios também desmascara as supostas benesses daqueles que praticam a maldade: "Não invejes os maus nem desejes estar com eles, porque seus corações maquinam a violência e seus lábios só proclamam a iniquidade." Pr 24,1-2
    Pede que não nos iludamos com momentâneas situações, mas que olhemos para o futuro: "Que teu coração não inveje os pecadores, mas sempre permaneça no temor do Senhor, porque certamente haverá um futuro e tua esperança não será frustrada." Pr 23,17-18
    Pois a ganância do invejoso certamente não lhe trará boas consequências: "O homem invejoso precipita-se atrás da fortuna, não sabe que sobre ele vai cair a indigência." Pr 28,22
    Ainda pede que nos afastemos dessas companhias, cujas intenções podem ser presumidas: "Não comas com homem invejoso, não cobices seus manjares, porque ele se mostra tal qual se calculou em si mesmo. Ele diz-te: 'Come e bebe', mas seu coração não está contigo." Pr 23,6-7
    E denuncia uma peculiar inveja, que se tem daqueles que detêm força bruta. Mas avisa que esse também não é o caminho que agrada a Deus: "Não invejes o homem violento, nem adotes seu procedimento, porque o Senhor detesta aquele que mal procede, mas reserva Sua intimidade para os retos homens." Pr 3,31-32
    O Livro de Sabedoria atinadamente aponta na inveja a falta da Divina Luz: "Não imitarei aquele a quem a inveja consome, porque esse tal não tem nada a ver com a Sabedoria..." Sb 6,23
    Além dos casos de Abel e José, que foram emblemáticos, Moisés e Aarão também sofreram a inveja de seus irmãos, por estarem liderando o povo de Deus em saída de Egito. O sagrado autor de um Salmo cantou: "Em seus acampamentos invejaram Moisés e Aarão, o eleito do Senhor." Sl 105,16
    Aliás, a própria Morte de Jesus foi motivada pela inveja dos chefes dos sacerdotes e dos anciãos judeus, como Pilatos bem pôde perceber. O Evangelho Segundo São Mateus apontou: "Ele sabia que tinham entregue Jesus por inveja." Mt 27,18
    O mesmo aconteceu a São Pedro, quando começou a liderar a Santa Igreja Católica e manifestou poder de curar: "De maneira que traziam os doentes às ruas e os punham em leitos e macas, a fim de que, quando Pedro passasse, ao menos sua sombra cobrisse alguns deles. Das cidades vizinhas de Jerusalém também afluía muita gente, trazendo os enfermos e os atormentados por imundos espíritos, e todos eles eram curados. Então se levantaram os sumos sacerdotes e seus partidários, isto é, a seita dos saduceus, cheios de inveja..." At 5,15-17
    Também aconteceu ao Apóstolo dos Gentios e seu colaborador, quando anunciaram Cristo aos judeus da cidade de Tessalônica: "Alguns deles creram e associaram-se a Paulo e Silvano, como também uma grande multidão de prosélitos gentios, e não poucas mulheres de destaque. Os judeus, tomados de inveja, ajuntaram alguns homens da plebe e com esta gente amotinaram a cidade. Assaltaram a casa de Jasão, procurando-os para os entregar ao povo." At 17,4-5
    E a Carta de São Paulo aos Filipenses abertamente denunciou que nem todos que anunciam o Evangelho têm nobres motivos: "É verdade que alguns pregam Cristo por inveja a mim e por discórdia, mas outros fazem-no com a melhor boa vontade." Fl 1,15
    Pudera: a generosidade e a felicidade, daqueles que verdadeiramente se entregam a Deus, sempre serão invejadas por aqueles que continuam em pecado. É o que outro autor canta: "Feliz o homem que se compadece e empresta, que pela Justiça regula suas ações. Com largueza distribuiu, deu aos pobres; para sempre permanecerá sua liberalidade. Pode levantar a cabeça com altivez. O pecador, porém, não pode vê-lo sem inveja, range os dentes e definha. Anulam-se, assim, os desejos dos maus." Sl 111,5.9-10


A INVEJA TROUXE A MORTE

    A Sabedoria, ademais, expressamente afirma que a origem da morte foi a inveja, como já dissemos, e profetiza a "segunda morte" (cf. Ap 20,14) para quem não se arrepende: "Ora, Deus criou o homem para a imortalidade, e fê-lo à imagem de Sua própria natureza. É por inveja do Demônio que a morte entrou no mundo, e aqueles que pertencem ao Demônio prová-la-ão." Sb 2,23-24
    O Catecismo, citando outro Doutor e admirável Papa, argumenta: "Mas por que Deus não impediu o primeiro homem de pecar? São Leão Magno responde: 'A inefável Graça de Cristo deu-nos melhores bens que aqueles que a inveja do Demônio nos havia subtraído.'" CIC § 412
    Enquanto certeza da perdição para impenitentes, o Eclesiástico vê nela uma prematura morte: "A inveja e a ira abreviam os dias, e a inquietação acarreta a velhice antes do tempo." Eclo 30,26
    Ao passo que os Provérbios apontam o coração em Paz como segredo da vitalidade: "Um tranquilo coração é a vida do corpo, enquanto a inveja é a cárie dos ossos." Pr 14,30
    No Evangelho Segundo São Marcos, enfim, Jesus diz que o mau coração é a fonte de toda concupiscência, entre elas a inveja: "Porque é do interior do coração dos homens que procedem os maus pensamentos: devassidões, roubos, assassinatos, adultérios, cobiças, perversidades, fraudes, desonestidade, inveja, difamação, orgulho e insensatez. Todos estes vícios procedem de dentro, e tornam impuro o homem." Mc 7,21-23
    Entre outros pecados, Ele acusa a cobiça como a erva daninha que mata a semente, que é a Palavra de Deus na parábola do Semeador (cf. Mt 13,37): "Outros ainda recebem a semente entre os espinhos. Ouvem a Palavra, mas as mundanas preocupações, a ilusão das riquezas, as múltiplas cobiças sufocam-na e tornam-na infrutífera." Mc 4,18-19
    Por isso, desde o início Ele advertia: "Porque onde estiver teu tesouro, lá também estará teu coração." Mt 6,21
    Alertava, então, para as mais patentes evidências, bem como suas consequências: "O olho é a luz do corpo. Se teu olho é são, todo teu corpo será iluminado. Se teu olho estiver em mau estado, todo teu corpo estará nas trevas. E se a luz que está em ti são trevas, quão espessas deverão ser as trevas!" Mt 6,22-23
    Pedia comedimento nas palavras, precedido de sinceras reflexões: "Não julgueis, e não sereis julgados. Porque do mesmo modo que julgardes, vós também sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido, vós também sereis medidos. Por que olhas o cisco que está no olho de teu irmão e não vês a trave que está no teu? Como ousas dizer a teu irmão: 'Deixa-me tirar o cisco de teu olho', quando tens uma trave no teu? Hipócrita! Primeiro tira a trave de teu olho, e assim verás para tirar o cisco do olho de teu irmão." Mt 7,1-5
    E numa hipérbole, pois absolutamente não falava de automutilação, recomendava, advertindo do eterno castigo e da imorredoura memória da culpa: "Se teu olho for para ti ocasião de queda, arranca-o. É melhor entrares com um olho a menos no Reino de Deus que, tendo dois olhos, seres lançado à geena do fogo, onde seu verme não morre e o fogo não se apaga." Mc 9,47-48
    A Primeira Carta de São João, pois, é categórica: "Não ameis o mundo nem as coisas do mundo. Se alguém ama o mundo, nele não está o amor do Pai. Porque tudo que há no mundo, a saber, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, isto não procede do Pai, mas do mundo. O mundo passa com suas concupiscências, mas quem cumpre a vontade de Deus permanece eternamente." 1 Jo 2,15-17
    A Carta de São Tiago, por sua vez, ensina: "Acaso, meus irmãos, pode a figueira dar azeitonas ou a videira dar figos? Do mesmo modo, a fonte de salobra água não pode dar doce água! Quem dentre vós é sábio e inteligente? Mostre com um bom proceder suas obras perpassadas de doçura e de Sabedoria. Mas se tendes no coração um amargo ciúme, e gosto pelas contendas, não vos glorieis nem mintais contra a Verdade. Esta não é a Sabedoria que vem do alto, mas uma terrena, humana, diabólica sabedoria. Onde houver ciúme e contenda, ali também há perturbação e toda espécie de vícios. A Sabedoria, porém, que vem de cima, primeiramente é pura, depois pacífica, condescendente, conciliadora, cheia de Misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade nem fingimento." Tg 3,12-17
    Ele denuncia: "Donde vêm as lutas e as contendas entre vós? Não vêm elas de cossas paixões, que em vossos membros combatem? Cobiçais, e não recebeis. Sois invejosos e ciumentos, e não conseguis o que desejais. Litigais e fazeis guerra. Não obtendes, porque não pedis. Pedis e não recebeis, porque pedis mal, com o fim de satisfazerdes vossas paixões. Adúlteros, não sabeis que o amor do mundo é abominado por Deus? Todo aquele que quer ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus." Tg 4,1-4
    E em inverso sentido, recomenda autêntica humildade, abertamente reconhecendo, para além do Sacramento da Confissão, as ofensas entre os próprios irmãos de fé como forma de corrigir-se e permitir ser corrigido, assim como a caridade espiritual: "Confessai vossos pecados uns aos outros, e rezai uns pelos outros para serdes curados." Tg 5,16
    A Carta de São Paulo aos Romanos também aponta a inveja como um dos mais graves pecados, e diz que ele é cometido justamente por aqueles que não participam da Santa Missa (cf. Ef 3,21): "Porque, conhecendo a Deus, não O glorificaram como Deus nem Lhe deram graças. Pelo contrário, extraviaram-se em seus vãos pensamentos e obscureceu-se-lhes o insensato coração. Como não se preocupassem em adquirir o conhecimento de Deus, Ele entregou-os a depravados sentimentos e daí seu indigno procedimento. São repletos de toda espécie de malícia, perversidade, cobiça, maldade. Cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade. São difamadores, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, soberbos, altivos, inventores de maldades, rebeldes contra os pais." Rm 1,21.28-30
    Bem diferente, a Carta de São Paulo aos Gálatas diz, é o que acontece com aqueles que se deixam guiar pelo Espírito de Deus, Divino Guia da Igreja Católica pela efetivação da Comunhão (cf. 2 Cor 13,13): "Se vivemos pelo Espírito, também andemos de acordo com o Espírito. Não sejamos ávidos da vanglória. Nada de provocações, nada de invejas entre nós." Gl 5,25-26
    Pois os verdadeiros filhos de Deus cultuam o amor, e a compaixão é a virtude que se opõe ao pecado da inveja. A Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios divinamente ensina: "O amor é paciente, o amor é prestativo. Não tem inveja. O amor não é orgulhoso. Não é arrogante." 1 Cor 13,4
    Jesus ensinou na parábola do devedor do rei: "Mau servo, Eu perdoei toda tua dívida porque Me suplicaste. Não devias tu também ter compaixão de teu companheiro, como Eu tive compaixão de ti?" Mt 18,32b-33
    Na parábola do bom samaritano: "Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos de ladrões, que o despojaram e depois de terem-no maltratado com muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o meio morto. Mas um samaritano que viajava, chegando àquele lugar, viu-o e moveu-se de compaixão." Lc 10,30b.33
    Na parábola das ovelhas e das cabras: "... porque tive fome e Me deste de comer, tive sede e Me deste de beber, era peregrino e Me acolheste, nu e Me vestiste, enfermo e Me visitaste, estava na prisão e viestes a Mim. ... todas vezes que fizestes isto a um destes Meus pequeninos irmãos, foi a Mim mesmo que o fizestes." Mt 25,35-36.40
    Assim, exaltando as penitências como meio de conversão, a Carta de São Paulo aos Colossenses prega: "Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às da Terra. Mortificai vossos membros, pois, no que têm de terreno: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a cobiça, que é uma idolatria. Dessas coisas provém a ira de Deus sobre os descrentes. Outrora assim também vivíeis vós, mergulhados como estáveis nesses vícios. Agora, porém, deixai de lado todas estas coisas: ira, animosidade, maledicência, maldade, torpes palavras de vossa boca, nem vos enganeis uns aos outros. Vós despiste-vos do velho homem com seus vícios e revestistes-vos do novo, que constantemente vai restaurando-se à imagem d'Aquele que o criou, até atingir o perfeito conhecimento." Cl 3,1-2.5-10
    E a Primeira Carta de São Paulo a São Timóteo indica a religiosidade como o Caminho a constantemente seguir: "Quem ensina de outra forma e discorda das salutares palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, bem como da Doutrina conforme à piedade, é um obcecado pelo orgulho, um ignorante, doentio por ociosas questões e contendas de palavras. Daí se originam a inveja, a discórdia, os insultos, as injustas suspeitas, os vãos conflitos entre homens de corrompido coração e privados da Verdade, que só vêem na piedade uma fonte de lucro. Sem dúvida, grande fonte de lucro é a piedade, porém quando acompanhada de espírito de desprendimento. Porque nada trouxemos ao mundo, e igualmente nada poderemos levar. Tendo alimento e vestuário, contentemo-nos com isto. Aqueles que ambicionam tornar-se ricos caem nas armadilhas do Demônio e em muitos insensatos e nocivos desejos, que precipitam os homens no abismo da ruína e da perdição. Porque a raiz de todos males é o amor ao dinheiro. Acossados pela cobiça, alguns desviaram-se da fé e enredaram-se em muitas aflições. Mas tu, ó homem de Deus, foge desses vícios e com todo empenho procura a piedade, a fé, a caridade, a paciência, a mansidão." 1 Tm 6,3-11
    Em mesmo sentido, a Segunda Carta de São Pedro denuncia na cobiça, enquanto manifestação da inveja, a fraqueza, a cegueira e a loucura dos falsos mestres: "Assim como entre o povo houve falsos profetas, entre vós também haverá falsos doutores que disfarçadamente introduzirão perniciosas seitas. Movidos por cobiça, eles hão de explorar-vos com palavras cheias de astúcia. Há muito tempo a condenação ameaça-os, e sua ruína não dorme. Mas estes, quais brutos destinados pela lei natural para a presa e para a perdição, injuriam o que ignoram, e assim da mesma forma perecerão. Este será o salário de sua iniquidade. Encontram suas delícias em entregar-se em plena luz do dia a suas libertinagens. Pervertidos e imundos homens, sentem prazer em enganar enquanto banqueteiam-se convosco. Têm os olhos cheios de adultério e são insaciáveis no pecar. Por seus atrativos seduzem as inconstantes almas, têm o coração acostumado à cobiça, são filhos da maldição." 2 Pd 2,1a.3.12-14
    Já a Primeira Carta de São Pedro, em oposto sentido, reza a Deus Pai pela Igreja de Jesus: "Que ninguém de vós venha a sofrer como homicida, ou ladrão, ou difamador, ou cobiçador do alheio." 1 Pd 4,15
    E enfaticamente recomenda, citando um Salmo de Davi. a libertação pela Palavra de Deus: "Em obediência à Verdade, tendes purificado vossas almas para praticardes sincero e fraterno amor. Amai-vos uns aos outros, pois, ardentemente e do fundo do coração. Porque fostes regenerados não por uma corruptível semente, mas pela Palavra de Deus, incorruptível, viva e eterna semente. Deponde, portanto, toda malícia, toda astúcia, fingimentos, invejas e toda espécie de maledicência. Como recém-nascidos, com ardor desejai o leite espiritual que vos fará crescer para a Salvação, se é que tendes saboreado quão suave o Senhor é (Sl 33,9)." 1 Pd 1,22-23;2,1-3

    "Lembrai-Vos, ó Pai, de Vossos filhos!"

domingo, 1 de março de 2026

O Domingo da Transfiguração


    Pouco tempo depois de multiplicar pães e peixes para milhares de pessoas pela segunda vez, Jesus encontrava-Se com os Apóstolos nas proximidades da cidade de Cesareia de Filipe. Aí vai questioná-los, para constatar se realmente sabiam Quem Ele era. Inspirado pelo Pai (cf. Mt 16,17), São Pedro, é quase sempre ele o interlocutor entre Nosso Senhor e os demais Apóstolos, respondeu com convicção, como está no Evangelho Segundo São Mateus: "Tu és o Cristo, o Filho de Deus Vivo!" Mt 16,16
    E é então Nosso Senhor identifica São Pedro como a pedra fundamental da Igreja Viva, a única, que Ele chamou de Sua. Aí também fez dele a 'ponte', o Pontífice entre o Céu e a Terra: "E Eu declaro-te: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei Minha Igreja. As portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu dá-te-ei as chaves do Reino dos Céus: tudo que ligares na Terra será ligado nos Céus, e tudo que desligares na Terra será desligado nos Céus." Mt 16,18-19
    Identificados Criador e criatura, Nosso Salvador passou a revelar Sua Paixão: "Desde então Jesus começou a manifestar a Seus discípulos que precisava ir a Jerusalém e muito sofrer da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas. Seria morto e ressuscitaria ao terceiro dia." Mt 16,21
    Não eram tão boas notícias para aquele sofrido povo, que longamente esperou e acreditava numa imediata Salvação. Mas Ele guardava-lhes, assim como para qualquer um de nós, indizíveis consolações, e uma delas era Sua Transfiguração, que aconteceria no sexto dia após esta declaração de São Pedro, ou seja, no último dia daquela intensa semana, antes do sétimo dia, o de guarda.
    Além de um dos momentos em que Jesus Se revela Deus, pelo resplendor de Sua Glória, também é um dos poucos, nas Escrituras, de conjunta manifestação da Santíssima Trindade, na qual Deus Pai fala e o Espírito Santo assume a forma de Nuvem, uma de Suas sete:

    "Seis dias depois, Jesus tomou Consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e conduziu-os à parte, a uma alta montanha. Lá Se transfigurou em presença deles: Seu rosto brilhou como o sol, Suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura. E eis que apareceram Moisés e Elias, conversando com Ele.
    Então Pedro tomou a palavra e Lhe disse:
    - Senhor, é bom estarmos aqui. Se queres, aqui farei três tendas: uma para Ti, uma para Moisés e outra para Elias.
    Ainda falava ele, quando veio uma luminosa Nuvem e os envolveu. E daquela Nuvem fez-se ouvir uma voz, que dizia:
    - Eis Meu Amado Filho, em Quem pus toda Minha afeição. Ouvi-O!
    Ouvindo esta voz, os discípulos caíram com a face por terra e tiveram medo.
    Mas Jesus aproximou-Se deles e tocou-os, dizendo:
    - Levantai-vos e não temais.
    Eles levantaram os olhos e não viram mais ninguém, senão Jesus.
    E quando desciam, Jesus fez-lhes esta proibição:
    - Não conteis a ninguém o que vistes, até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos." 
                                                   Mt 17,1-9


"OUVI-O!"

    Quando disse 'Ouvi-O', o Pai confirmou Jesus enquanto o Profeta 'como Moisés' (cf. Dt 34,10), prometido através deste grande líder havia séculos, a Quem todos nós devemos ouvir. O Livro de Deuteronômio registrou estas palavras de Moisés aos israelitas: "O Senhor, Teu Deus, dentre teus irmãos suscitará um Profeta como eu. É a Ele que devereis ouvir. E o Senhor disse-me: '... pô-Lhe-ei Minhas Palavras em Sua boca, e Ele fá-lhes-á conhecer Minhas ordens. Caso haja alguém que não ouça Minhas Palavras, que Este Profeta pronunciar em Meu Nome, Eu mesmo irei acertar contas com ele.'" Dt 18,15.18-19
    As presenças de Moisés, que representa a Lei, e Elias, que representa os Profetas, confirmam, como síntese do Antigo Testamento, a história da Salvação iniciada por Deus através deste povo. Com efeito, no Evangelho Segundo São João, Nosso Senhor declarou a uma mulher da religião samaritanista, a Verdade que vale para todas demais religiões: "Vós adorais o que não conheceis. Nós adoramos o que conhecemos, porque a Salvação vem dos judeus." Jo 4,22
    A Transfiguração ainda confirma, também pelas presenças de Moisés e Elias, o início da Nova e Eterna Aliança na Pessoa de Jesus, uma vez que estes são os maiores personagens bíblicos judeus e vieram ter com Ele, em Quem se cumpriam as Escrituras, como Ele mesmo afirmou, falando aos líderes religiosos de Jerusalém: "Vós perscrutais as Escrituras julgando encontrar nelas a Vida Eterna. Pois bem! São elas mesmas que dão testemunho de Mim." Jo 5,39
    Disse-lhes mais: "Pois se crêsseis em Moisés, certamente creríeis em Mim, porque ele escreveu a Meu respeito." Jo 5,46
    E se Moisés e Elias vieram ter com Jesus, não menos importantes para a cristandade são São Pedro, São Tiago Maior e São João Apóstolo, que presenciaram a Transfiguração. Dos Doze, eles são os mais íntimos Apóstolos de Nosso Senhor, privilegiadas e exclusivas testemunhas de pelo menos dois outros relevantíssimos momentos, como a ressurreição da filha de Jairo, chefe da sinagoga de Cafarnaum (cf. Mc 5,37) e agonia de Jesus no Horto das Oliveiras (cf. Mc 14,33). São Tiago Maior, o São Tiago de Compostela, seria o primeiro mártir dos Apóstolos (cf. At 12,2), e São Pedro e São João, junto a São Tiago Menor, seriam chamados as "colunas" da Santa Igreja Católica (cf. Gl 2,9).
    Tão importante, esse evento também foi citado no Evangelho Segundo São Marcos, sendo muito provavelmente dele o original que nos chegou, e ainda no Evangelho Segundo São Lucas, que apontou que Jesus subiu o monte para rezar, revelou o assunto que Ele conversou com Moisés e Elias, e expressamente falou da "Glória de Jesus", ou seja, confirmou-O como Deus, pois só Deus tem a Glória (cf. Jo 5,44). Igualmente notemos que o Amado Médico apresenta, sem a segurança de São Marcos (cf. Mc 9,2), uma diferente contagem a partir da identificação de Jesus como Cristo por São Pedro:

    "Mais ou menos uns oitos dias depois dessas palavras, Jesus tomou Consigo Pedro, Tiago e João, e subiu ao monte para rezar. Enquanto rezava, o aspecto de Seu rosto alterou-se e Suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura. E eis que com Ele falavam dois personagens: eram Moisés e Elias, que apareceram envoltos em Glória e falavam sobre Sua Morte, que havia de cumprir-se em Jerusalém.
    Entretanto, Pedro e seus companheiros tinham-se deixado vencer pelo sono. Ao despertarem, viram a Glória de Jesus e os dois personagens em Sua companhia. Quando estes se apartaram de Jesus, Pedro disse:
    - Mestre, é bom estarmos aqui. Podemos levantar três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias!
    Ele não sabia o que dizia.
    Enquanto assim ainda falava, veio uma Nuvem e encobriu-os com Sua sombra. E os discípulos, vendo-se desaparecer na Nuvem, tiveram um grande pavor.
    Então da Nuvem saiu uma voz:
    - Este é Meu amado Filho. Ouvi-O!
    E enquanto ainda ressoava esta voz, Jesus achou-Se sozinho." 
                                                Lc 9,28-36a

    Aliás, para melhor exprimir este glorioso fenômeno, absolutamente sobrenatural, São Marcos relatou o efeito da Transfiguração na túnica e no manto de Jesus: "Suas vestes tornaram-se resplandecentes e de uma brancura tal, que nenhum lavadeiro sobre a Terra pode fazê-las assim tão brancas." Mc 9,3
    A Transfiguração, pois, sinaliza a passageira condição da carne, que haverá de ser transformada. Sobre o Dia da Definitiva Volta de Jesus, consta da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios: "Eis que vos revelo um mistério: nem todos morreremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta, porque a trombeta soará. Os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. É necessário que este corruptível corpo se revista da incorruptibilidade, e que este corpo mortal se revista da imortalidade." 1 Cor 15,51-53
    Ele explica, citando o Livro de Gênesis: "Assim também é a Ressurreição dos Mortos. Semeado na corrupção, o corpo ressuscita incorruptível. Semeado no desprezo, ressuscita glorioso. Semeado na fraqueza, ressuscita vigoroso. Semeado corpo animal, ressuscita corpo espiritual. Se há um corpo animal, também há um espiritual. Como está escrito: 'O primeiro homem, Adão, foi feito vivente alma (Gn 2,7)'. O Segundo Adão é Vivificante Espírito. Mas não é o espiritual que vem primeiro, e sim o animal. O espiritual vem depois. O primeiro homem, tirado da terra, é terreno, o Segundo veio do Céu. Qual o homem terreno, tais os homens terrenos; e qual o Homem Celestial, tais os homens celestiais. Assim como reproduzimos em nós as feições do homem terreno, precisamos reproduzir as feições do Homem Celestial." 1 Cor 15,42-49
    E a Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios diz de nosso corpo: "Com efeito, sabemos que ao desfazer-se a 'tenda', que neste mundo habitamos, recebemos uma casa preparada por Deus e não por mãos humanas, uma eterna habitação no Céu. E por isto suspiramos e anelamos ser sobrevestidos de nossa celeste habitação, contanto que sejamos achados vestidos e não despidos. Pois, enquanto permanecemos nesta 'tenda', gememos oprimidos: desejamos ser não despojados, mas revestidos com uma nova veste por cima da outra, de modo que o que há de mortal em nós seja absorvido pela Vida. Aquele que nos formou para este destino é Deus mesmo, que por penhor nos deu Seu Espírito. Por isso estamos sempre cheios de confiança, sabendo que todo tempo que passamos no corpo é um exílio longe do Senhor. Andamos na e não na visão." 2 Cor 5,1-7
    Ora, a Carta de São Paulo aos Colossenses diz o que significa a verdadeira conversão: "Vós despiste-vos do velho homem, com seus vícios, e revestiste-vos do novo, que constantemente vai restaurando-se à imagem d'Aquele que o criou, até atingir o perfeito conhecimento." Cl 3,9-10
    Esse processo, portanto, de 'reproduzir as feições do Homem Celestial', deve ser ativado desde já e para tanto temos a Santa Missa, na qual nos oferecemos em sacrifício, revivendo e atualizando a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. A Carta de São Paulo aos Romanos prega, dizendo do respeito que devemos ao dom da fé de nossos irmãos: "Eu exorto-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a oferecerdes vossos corpos em vivo, santo e agradável sacrifício a Deus: este é vosso culto espiritual. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação de vosso espírito para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe agrada e o que é perfeito. Em virtude da Graça que me foi dada, recomendo a todos e a cada um: não façam de si próprios maior opinião do que convém, mas um razoavelmente modesto conceito, de acordo com o grau de fé que Deus lhes distribuiu." Rm 12,1-3
    Pois se todos ressuscitarão, nem todos terão o mesmo destino nesta nova carne, como Jesus mesmo asseverou, de Si falando em terceira Pessoa: "Não vos maravilheis disso, porque vem a hora em que todos que se acham nos sepulcros sairão deles ao som de Sua voz: aqueles que praticaram o bem irão para a Ressurreição da Vida, e aqueles que praticaram o mal ressuscitarão para serem condenados." Jo 5,28-29
    Quanto àqueles que ressuscitarem para a Vida Eterna, Ele prometeu algo como Sua Transfiguração: "Então, no Reino de Meu Pai, os justos resplandecerão como o sol. Aquele que tem ouvidos, ouça." Mt 13,43
    É o que a Carta de São Paulo aos Filipenses aspira, dando a entender que na Transfiguração Nosso Senhor Se apresentou em Corpo Glorioso: "Nós, porém, somos cidadãos dos Céus. É de lá que ansiosamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará nosso mísero corpo, tornando-o semelhante a Seu Corpo Glorioso, em virtude do poder que tem de sujeitar a Si toda criatura." Fl 3,20-21

    "A todos saciai com Vossa Glória!"