quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Revestir-se de Cristo


    São Paulo frequentemente usa o verbo 'revestir-se' no sentido de transformação espiritual, de mais profunda conversão para quem se põe no Caminho da Salvação. De fato, as vestes são uma maneira de representar quem somos, como nas profissões, ou a situação que vivemos, como nas festas e no luto. Assim ele exorta a um significativo crescimento na Graça, que seja tão notório às pessoas em volta quanto nossas vestes. E cuidando de nos livrar de toda pequena influência do Maligno, a Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses recomenda: "Abstende-vos de toda aparência do Mal." 1 Ts 5,22
    No Evangelho Segundo São Mateus, Jesus ordenou esse gesto de clara humildade mesmo que não tenhamos culpa: "Se estás, portanto, para fazer tua oferta diante do Altar, e lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá tua oferta diante do Altar e primeiro vai reconciliar-te com teu irmão. Só então vem fazer tua oferta." Mt 5,23-24
    Porque conforme a Carta de São Paulo aos Romanos, aqueles que verdadeiramente amam a Cristo devem trazer em si Sua imagem e Sua Glória, pois Deus "... os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho, a fim de que Ele seja o Primogênito entre uma multidão de irmãos. E aqueles que predestinou, também os chamou, e aqueles que chamou, também os justificou, e aqueles que justificou, também os glorificou." Rm 8,29-30
    Com efeito, este é um indizível dom que Jesus deu aos Apóstolos, e assim à Santa Igreja Católica, que por ser Una é a própria prova de Seu Advento e do amor de Deus. Na noite em que ia ser entregue, Ele rezou ao Pai a Oração da Unidade, que o Evangelho Segundo São João registrou: "Dei-lhes a Glória que Me deste, para que sejam Um, como Nós somos Um: Eu neles e Tu em Mim. Para que sejam perfeitos na Unidade, e o mundo reconheça que Me enviaste e os amaste, como amaste a Mim." Jo 17,22-23
    Pois a Glória de Cristo é infinitamente maior que a que Moisés conheceu, como vemos no contraste que a Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios faz entre o Antigo e o Novo Testamento, exaltando o Ministério do Espírito Santo, que é o próprio Ministério da Igreja Apostólica: "Ora, se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, se revestiu de tal Glória que os filhos de Israel não podiam fitar os olhos no rosto de Moisés, por causa do resplendor de sua face, embora transitório, quanto mais glorioso não será o Ministério do Espírito?" 2 Cor 3,7-8
    Essa Glória é a imagem do próprio Pai, é Sua santidade, que a Carta de São Paulo aos Efésios pregou: "... revesti-vos do novo homem, criado à imagem de Deus, na verdadeira Justiça e santidade." Ef 4,24
    De fato, tomando Deus mesmo como modelo, a Carta de São Paulo aos Colossenses diz que assim devemos restaurar-nos: "Vós despiste-vos do velho homem, com seus vícios, e revestiste-vos do novo, que constantemente vai restaurando-se à imagem d'Aquele que o criou, até atingir o perfeito conhecimento." Cl 3,9-10
    E essa Graça, que precisa ser efetivamente vivenciada, é adquirida desde o Sacramento do Batismo. Lê-se na Carta de São Paulo aos Gálatas: "Todos vós que fostes batizados em Cristo, revestiste-vos de Cristo." Gl 3,27
    Guardá-la, pois, deve ser nosso combate nesse pervertido mundo. Este Apóstolo exorta-nos: "... revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não façais caso da carne nem lhe satisfaçais aos apetites." Rm 13,14
    E tal deve ser nossa postura em todas circunstâncias, conforme a Carta de São Paulo aos Filipenses: "Fazei todas coisas sem murmurações nem críticas, a fim de serdes irrepreensíveis e inocentes, íntegros filhos de Deus em meio a uma depravada e maliciosa sociedade, onde brilhais como luzeiros no mundo, a ostentar a Palavra da Vida." Fl 2,14-16a
    Porque a Graça é nossa defesa contra os verdadeiros inimigos, a saber, altas ordens de anjos caídos, das quais este Apóstolo cita três, que obviamente são invisíveis: "Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do Demônio. Pois nossa luta não é contra o sangue e a carne, mas contra os principados, as potestades e as dominações deste tenebroso mundo, os malignos espíritos espalhados pelos ares." Ef 6,11-12
    Tomando como exemplo as armas de um guerreiro, ele segue e faz uma pertinente comparação com nossas 'armas espirituais': "Tomai, portanto, a armadura de Deus, para que possais resistir nos maus dias e manter-vos inabaláveis no cumprimento de vosso dever. Ficai alerta, à cintura cingidos com a Verdade, o corpo vestido com a couraça da Justiça, e os pés calçados de prontidão para anunciar o Evangelho da Paz. Sobretudo, embraçai o escudo da , com que possais apagar todos inflamados dardos do Maligno. Tomai, enfim, o capacete da Salvação e a espada do Espírito, isto é, a Palavra de Deus." Ef 6,13-17
    De sua grande inspiração, invocou um dos símbolos de Jesus (cf. Jo 8,12): "A noite vai adiantada e o dia vem chegando. Despojemo-nos das obras das trevas e vistamo-nos das armas da Luz." Rm 13,12
    Essas 'vestes espirituais' deixam claros sinais em nossa alma, que fortemente transparecem em nosso jeito de agir, ainda segundo ele: "Portanto, como eleitos de Deus, santos e queridos, revesti-vos de entranhada Misericórdia, de bondade, humildade, doçura, paciência." Cl 3,12
    Elas fazem-se notar na obediência a nossos Padres, como a Primeira Carta de São Pedro recomendou, citando o Livro de Provérbios: "Semelhantemente, vós que sois mais jovens, sede submissos aos Anciãos. Todos vós, em vosso mútuo tratamento, revesti-vos de humildade, porque Deus resiste aos soberbos, mas dá Sua Graça aos humildes (Pr 3,34)." 1 Pd 5,5
    Assim também às autoridades e instituições, desde que não oponíveis, sejam elas divinas ou humanas como São Paulo dizia, reafirmando a necessidade de se abster de toda aparência do Mal: "Cada qual seja submisso às autoridades constituídas, porque não há autoridade que não venha de Deus. Aquelas que existem foram instituídas por Deus. Assim, aquele que resiste à autoridade, opõe-se à ordem estabelecida por Deus. E aqueles que a ela se opõem, sobre si atraem a condenação." Rm 13,1-2
    Porque, em nome da ordem pública, por elas até devemos rezar. A Primeira Carta de São Paulo a São Timóteo ensina: "Acima de tudo, recomendo que se façam preces, orações, súplicas, Ações de Graças por todos homens, pelos reis e por todos que estão constituídos em autoridade, para que possamos viver calma e tranquila Vida, com toda piedade e honestidade." 1 Tm 2,1-2
    Devemos portar, enfim, a indefectível marca do amor, sem o qual não nos achegamos a Cristo. O Apóstolo dos Gentios exorta: "Mas, acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição." Cl 3,14
    Porque não se revestir de Cristo será sinônimo de trágico destino, como Nosso Senhor explicou na parábola em que alude a Suas Núpcias, às Núpcias do Cordeiro de Deus, que se realizará nos Céus com a Jerusalém Celestial, Sua Esposa (cf. Ap 21,9-10) e símbolo da Igreja Católica Apostólica Romana: "'Meu amigo, como entraste aqui, sem a veste nupcial?' Disse, então, o Rei aos servos: 'Amarrai-lhe os pés e as mãos, e lançai-o nas trevas exteriores. Ali haverá choro e ranger de dentes.'" Mt 22,12-13
    E no Livro de Apocalipse de São João, Ele mandou essa mensagem a uma das sete dioceses de Ásia, mas que vale para todos nós: "Pois dizes: 'Sou rico, faço bons negócios, de nada necessito', e não sabes que és infeliz, miserável, pobre, cego e nu. Aconselho-te que de Mim compres ouro provado ao fogo para ficares rico, alvas roupas para te vestir, a fim de que não apareça a vergonha de tua nudez, e um colírio para ungir os olhos, de modo que possas ver claro." Ap 3,17-18
    Ora, Ele denunciava desvios já na hipocrisia de falsos religiosos, no seguinte caso escribas e fariseus, que invariavelmente se materializa desde a aparência: "Fazem todas suas ações para serem vistos pelos homens, por isso trazem largas faixas e longas franjas em seus mantos." Mt 23,5
    Por isso, em oposição a mundanos cuidados, recomendava confiança na Divina Providência, que se reflete na modéstia em se vestir, exatamente o contrário do pecado mortal da vaidade: "E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como os lírios do campo crescem, que não trabalham nem fiam. Entretanto, Eu digo-vos que o próprio Salomão, no auge de sua glória, não se vestiu como um deles. Se Deus assim veste a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé? São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, Vosso Pai Celeste sabe que necessitais de tudo isso. Antes buscai o Reino de Deus e Sua Justiça, e todas estas coisas sê-vos-ão dadas em acréscimo." Mt 6,28-30.32-33
    São Pedro dizia o mesmo às mulheres, sempre tão volúveis diante dessas tentações: "Não seja vosso adorno o que externamente aparece: cabelos trançados, ornamentos de ouro, elegantes vestidos. Mas tende aquele interior e oculto ornato do coração, a incorruptível pureza de um suave e pacífico espírito, que é tão precioso aos olhos de Deus." 1 Pd 3,3-4
    São Paulo deu este exemplo de humildade por toda vida, como em despedida testemunhou diante dos Bispos da cidade de Éfeso, no Livro de Atos dos Apóstolos: "De ninguém cobicei prata, nem ouro, nem vestes." At 20,33
    E pregou: "Porque nada trouxemos ao mundo, como igualmente nada poderemos levar. Tendo alimento e vestuário, contentemo-nos com isto. Aqueles que ambicionam tornar-se ricos, caem nas armadilhas do Demônio e em muitos insensatos e nocivos desejos, que precipitam os homens no abismo da ruína e da perdição. Porque a raiz de todos males é o amor ao dinheiro. Acossados pela cobiça, alguns desviaram-se da fé e enredaram-se em muitas aflições." 1 Tm 6,7-10
    Foi exatamente essa condição de modéstia que Jesus determinou aos Apóstolos, ao enviá-los em primeira missão, para que por completo se entregassem nas mãos da Divina Providência: "Não leveis nem ouro, nem prata, nem dinheiro em vossos cintos, nem mochila para a viagem, nem duas túnicas, nem calçados, nem bastão. Pois o operário merece seu sustento." Mt 10,9-10
    No Evangelho Segundo São LucasSão João Batista, essênio que era, também ensinou: "Perguntava-lhe a multidão: 'Que devemos fazer?' Ele respondia: 'Quem tem duas túnicas, dê uma a quem não tem. E quem tem o que comer, faça o mesmo.'" Lc 3,10-11
    Ele era um fulgurante exemplo de vida religiosa: "João usava uma vestimenta de pelos de camelo e um cinto de couro em volta dos rins. Alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre." Mt 3,4
    E assim foi desde sua infância, pois nasceu de idosos pais (cf. Lc 1,7): "O menino foi crescendo e fortificava-se em espírito, e viveu nos desertos até o dia em que se apresentou diante de Israel." Lc 1,80
    Nosso Senhor mesmo testemunhou: "Tendo eles partido, disse Jesus à multidão a respeito de João: 'Que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? Que fostes ver, então? Um homem vestido com luxuosas roupas? Mas aqueles que estão revestidos de tais roupas vivem nos palácios dos reis. Então, por que fostes lá? Para ver um Profeta? Sim, digo-vos Eu, mais que um Profeta." Mt 11,7-9
    De fato, as promessas de Vida Eterna são representadas por outras vestes, mais que especiais, iguais às do próprio Salvador, como Ele revelou através de São João Evangelista, dizendo ao anjo de uma diocese: "Todavia, tens em Sardes algumas pessoas que não contaminaram suas vestes. Comigo andarão vestidas de branco, porque o merecem. O vencedor será assim revestido de brancas vestes. Jamais apagarei seu nome do Livro da Vida, e proclamá-lo-ei diante de Meu Pai e de Seus anjos." Ap 3,4-5
    Essas já são as vestes dos anciãos, anjos de alta hierarquia (tronos?) que representam Sacerdotes, como o Amado Discípulo viu nos Céus: "Ao redor, havia vinte e quatro tronos, e neles, sentados, vinte e quatro anciãos vestidos de brancas vestes e com coroas de ouro na cabeça." Ap 4,4
    São as vestes dos Santos Mártires da Igreja fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, cujas almas nos Céus, junto a Deus, intercedem por Justiça: "Quando abriu o quinto selo, debaixo do Altar vi as almas dos homens imolados por causa da Palavra de Deus e por causa do testemunho de que eram depositários. E clamavam em alta voz, dizendo: ‘Até quando Vós, que sois o Senhor, o Santo, o Verdadeiro, ficareis sem fazer Justiça e sem vingar nosso sangue contra os habitantes da Terra?’ Então foi dada a cada um deles uma branca veste, e lhes foi dito que aguardassem ainda um pouco, até que se completasse o número dos companheiros de serviço e irmãos que consigo estavam para ser mortos." Ap 6,9-11
    Aliás, são as veste de Todos Santos, que venceram o pecado, o mundo e Satanás, e já estão perante Deus, louvando diante de Seu trono: "Depois disso, vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua: conservavam-se em pé diante do trono e diante do Cordeiro, de brancas vestes e palmas na mão... Então um dos anciãos falou comigo e me perguntou: 'Esses, que estão revestidos de brancas vestes, quem são e de onde vêm?' Respondi-lhe: 'Meu senhor, tu o sabes'. E ele disse-me: 'Esses são os sobreviventes da grande tribulação. Lavaram suas vestes e alvejaram-nas no Sangue do Cordeiro.'" Ap 7,9.13-14
    Por fim, essa é a marca da própria Ressurreição da Carne, na qual pomos toda nossa esperança. São Paulo diz: "Nós, porém, somos cidadãos dos Céus. É de lá que ansiosamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará nosso mísero corpo, tornando-o semelhante a Seu Corpo Glorioso..." Fl 3,20-21
    A Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios explicou: "Também há corpos celestes e corpos terrestres, mas o brilho dos celestes difere do brilho dos terrestres. Assim também é a Ressurreição dos Mortos. Semeado na corrupção, o corpo ressuscita incorruptível, semeado no desprezo, ressuscita glorioso, semeado na fraqueza, ressuscita vigoroso, semeado corpo animal, ressuscita corpo espiritual." 1 Cor 15,40.42-44a
    De fato, é a própria Vida Eterna, como ele menciona o Livro do Profeta Isaías e o Livro do Profeta Oseias: "Quando este corpo corruptível estiver revestido da incorruptibilidade, ou seja, quando este corpo mortal estiver revestido da imortalidade, então se cumprirá a Palavra da Escritura: 'A morte foi tragada pela Vitória' (Is 25,8). 'Onde está, ó morte, tua vitória? Onde está, ó morte, teu aguilhão' (Os 13,14)?" 1 Cor 15,54-55
    E por isso exorta, contrastando Adão e Jesus: "O primeiro homem, tirado da terra, é terreno. O Segundo veio do Céu. Qual o homem terreno, tais os homens terrenos, e Qual o Homem Celestial, tais os homens celestiais. Assim como reproduzimos em nós as feições do homem terreno, precisamos reproduzir as feições do Homem Celestial." 1 Cor 15,47-49
    Não por acaso, ainda entre nós, Nosso Senhor deu aos mais íntimos Apóstolos um sinal de Sua Glória. Foi na Transfiguração, que se deu no Monte Tabor, apontada no Evangelho Segundo São Marcos: "... Jesus tomou Consigo a Pedro, Tiago e João, e conduziu-os a sós a um alto monte. E transfigurou-Se diante deles. Suas vestes tornaram-se resplandecentes, e de uma tal brancura que nenhum lavadeiro sobre a Terra pode fazê-las assim tão brancas." Mc 9,2-3
    Na narração de São Lucas sobre este grandiosíssimo capítulo da Revelação, o grande legislador e o mais importante Profeta também resplandeciam: "E eis que dois personagens falavam Consigo: eram Moisés e Elias, que apareceram envoltos em Glória..." Lc 9,30-31a
    

A FORÇA DO ALTO

    Mas o poder das vestes de Cristo não se encerram em Luz. Ao tocá-las, a mulher que tinha hemorragia havia doze anos foi no mesmo instante curada: "Jesus imediatamente percebeu que d'Ele saíra uma força e, voltando-Se para o povo, perguntou: 'Quem tocou Minhas vestes?'" Mc 5,30
    E ela não foi a única: "Onde quer que Ele entrasse, fosse nas vilas ou nos povoados ou nas cidades, punham os enfermos nas ruas e pediam-Lhe que os deixassem tocar ao menos na orla de Suas vestes. E todos aqueles que tocavam em Jesus ficavam sãos." Mc 6,56
    Até Seus carrascos quiseram um pedaço de Suas veste e da túnica, embora não soubessem o inestimável valor que elas têm. Citando uma profecia do rei Davi no Livro de Salmos, o Amado Discípulo anotou: "Depois que os soldados crucificaram Jesus, tomaram Suas vestes e delas fizeram quatro partes, uma para cada soldado. A túnica, porém, toda tecida de alto a baixo, não tinha costura. Disseram, pois, uns aos outros: 'Não a rasguemos, mas sobre ela deitemos sorte, para ver de quem será.' Assim se cumpria a Escritura: 'Repartiram entre si Minhas vestes, e deitaram sorte sobre Minha túnica.' (Sl 21,19)" Jo 19,23-24
    Ora, tal poder está na autoridade que Jesus deu à Santa Igreja desde sua fundação no dia de Pentecostes, quando derramou o Espírito Santo sobre os Apóstolos. Pedindo que eles permanecessem em Jerusalém, poucos dias antes Ele assegurou: "Eu mandá-vos-ei o Prometido de Meu Pai. Entretanto, permanecei na cidade até que sejais revestidos da força do alto." Lc 24,49
    Literalmente disse que essa é a força que constitui Suas testemunhas por toda Terra, pois Sua Igreja é Católica, quer dizer, universal: "... mas descerá sobre vós o Espírito Santo e dá-vos-á força, e sereis Minhas testemunhas em Jerusalém, em toda Judeia e Samaria e até os confins do mundo." At 1,8
    As autênticas testemunhas de Cristo, de fato, atestam o poder do Santo Paráclito, como São Paulo registrou: "Minha palavra e minha pregação longe estavam da persuasiva eloquência da Sabedoria. Antes, eram uma demonstração do Espírito e do poder divino..." 1 Cor 2,4
    Ele já o havia dito aos cristãos da cidade de Tessalônica: "Nosso Evangelho foi-vos pregado não somente por palavra, mas também com poder, com o Espírito Santo e com plena convicção. Sabeis o que temos sido entre vós para vossa Salvação." 1 Ts 1,5
    Invocando a queda das muralhas de Jericó (cf. Js 6,20), ele diz mais: "Não são carnais as armas com as quais lutamos. São poderosas, em Deus, capazes de arrasar fortificações. Nós aniquilamos todo raciocínio e todo orgulho que se levanta contra o conhecimento de Deus, e cativamos todo pensamento e reduzimo-lo à obediência a Cristo." 2 Cor 10,4-5
    Pois a Santa Madre Igreja é feita de novas criaturas, ou seja, aqueles que pelo Espírito Santo foram adotados e assim se tornaram filhos de Deus (cf. Rm 8,15), que vivem uma condição além da carne como o próprio Cristo viveu. São Paulo atestou: "De fato, Cristo morreu por todos para que os vivos não vivam mais para si mesmos, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou. Assim, doravante, não conhecemos ninguém conforme a natureza humana. E se uma vez conhecemos Cristo segundo a Carne, agora já não O conhecemos assim. Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criatura. O velho mundo desapareceu. Tudo agora é novo." 2 Cor 5,15-17
    Com efeito, ao enviar os Apóstolos antes de Sua Ascensão, Jesus não Se referiu às pessoas que não conheciam o Evangelho como filhos de Deus: "Ide por todo mundo e pregai o Evangelho a toda criatura." Mc 16,15b
    No Sermão da Montanha, de fato, Ele exortou-nos atribuindo a nós uma propriedade que sabemos ser Sua: "Vós sois a Luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha, nem se acende uma luz para a colocar debaixo do caixote, mas sim para a colocar sobre o candeeiro, a fim de que brilhe a todos que estão em casa. Assim, brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam vossas boas obras e glorifiquem Vosso Pai que está nos Céus." Mt 5,14-16
    E de forma muito especial, a transfiguração também foi o sinal dado por Deus na pessoa de Nossa Mãe Celeste, desde sua chegada aos Céus: "Em seguida, apareceu um grande sinal no Céu: uma Mulher revestida do sol, tendo a lua debaixo de seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas. Ela deu à luz um Filho, um Menino, Aquele que deve reger todas pagãs nações com cetro de ferro. Mas Seu Filho foi arrebatado para junto de Deus e de Seu trono." Ap 12,1.5
    Fulgurantes, ademais, eram as vestes do anjo que apareceu a Santa Maria Madalena diante do Santo Sepulcro, no Domingo da Ressurreição: "E eis que houve um violento tremor de terra. Um anjo do Senhor desceu do Céu, rolou a pedra e sentou-se sobre ela. Resplandecia como relâmpago, e suas vestes eram brancas como a neve." Mt 28,2-3
    Foi em idêntica condição que o Santo Anjo da Guarda do centurião Cornélio lhe apareceu, fato que culminou no 'Pentecostes dos não judeus', presidido por São Pedro. Ele vai testemunhar perante nosso Primeiro Papa: "Hoje faz quatro dias que estava eu a rezar em minha casa, à nona hora, quando diante de mim se pôs um homem com resplandecentes vestes..." At 10,30
    Essa é a promessa que Jesus faz a todos que guardam Seus Mandamentos, falando de Si em terceira Pessoa: "Então, no Reino de Seu Pai, os justos resplandecerão como o sol." Mt 13,43
    Já estava no Livro do Profeta Daniel: "Aqueles que tiverem sido inteligentes, fulgirão como o brilho do firmamento, e aqueles que tiverem introduzido muitos nos Caminhos da Justiça, luzirão como as estrelas, com um perpétuo resplendor." Dn 12,3
    Pois a Glória que Nosso Senhor deu aos Apóstolos semelhantemente estará estampada em Seus fiéis, segundo São Paulo, que disse da Definitiva Volta de Jesus: "Quando Cristo, vossa Vida, aparecer em Seu triunfo, então vós também aparecereis Consigo, revestidos de Glória." Cl 3,4
    Ora, é assim a roupa do próprio Cordeiro de Deus, à espera de Suas Núpcias: "Alegremo-nos, exultemos e demos-Lhe Glória, porque as Núpcias do Cordeiro se aproximam. Foi-Lhe dado revestir-Se de puríssimo e resplandecente linho. Porque o linho são as boas obras dos Santos." Ap 19,8
    É assim a aparência da Nova Jerusalém, a Celestial: "... a Cidade Santa, Jerusalém, que descia do Céu, de junto de Deus, revestida da Glória de Deus." Ap 21,10-11
    Aliás, tal qual havia sido prescrito pelo Livro do Profeta Baruc: "Tira, Jerusalém, a veste de luto e de miséria. Reveste, para sempre, os adornos da Divina Glória. Cobre-te com o manto da Justiça que vem de Deus, e coloca sobre a cabeça o diadema da Glória do Eterno. Deus vai mostrar à Terra, e sob todos Céus, teu esplendor." Br 5,1-3
    Por fim, o próprio Jesus, Deus de Deus, promete que a Vida Eterna, pelo fruto da mais importante árvore do Paraíso (cf. Gn 2,16;3,22), e a eterna felicidade serão daqueles que plenamente usufruirão desta Jerusalém Celestial: "Felizes aqueles que lavam suas vestes para ter direito à árvore da Vida, e poder entrar na Cidade pelas portas." Ap 22,14
    E a todos já havia advertido do necessário pudor: "Eis que venho como um ladrão! Feliz aquele que vigia e guarda suas vestes para que não ande nu, ostentando sua vergonha!" Ap 16,15
    Em perfeita inspiração, assim o Príncipe dos Apóstolos já se comportava diante Nosso Senhor, como se viu após a segunda miraculosa pesca: "Quando Simão Pedro ouviu dizer que era o Senhor, cingiu-se com a túnica, porque estava nu, e lançou-se às águas." Jo 21,7b
    São Paulo, enfim, deixou-nos alguns detalhes da definitiva transfiguração em corpo glorioso, ressaltando o importantíssimo pudor: "Sabemos, com efeito, que ao desfazer-se a tenda que habitamos neste mundo, recebemos uma casa preparada por Deus e não por mãos humanas, uma eterna habitação no Céu. E por isto suspiramos e anelamos ser sobrevestidos de nossa celeste habitação, contanto que sejamos achados vestidos e não despidos. Pois, enquanto permanecemos nesta tenda, gememos oprimidos: desejamos ser não despojados, mas revestidos com uma nova veste por cima da outra, de modo que o que há de mortal em nós seja absorvido pela Vida. Aquele que nos formou para este destino é Deus mesmo, que por penhor nos deu Seu Espírito. Por isso, estamos sempre cheios de confiança. Sabemos que todo tempo que passamos no corpo é um exílio longe do Senhor. Andamos na fé e não na visão. Estamos, repito, cheios de confiança, preferindo ausentar-nos deste corpo para irmos habitar junto ao Senhor. É por isso que, vivos ou mortos, também nos esforçamo por Lhe agradar. Porque teremos de comparecer diante do Tribunal de Cristo. Ali cada um receberá o que mereceu, conforme o bem ou o mal que tiver feito enquanto estava no corpo." 2 Cor 5,1-10

    "Confirmai na caridade Vosso povo!"

terça-feira, 25 de agosto de 2026

São Luís


    Um rei de França, tão honesta e humildemente serviu a Deus, que se tornou Santo. Nascido a 25 de abril de 1214 no castelo de Poissy, uma das mais antigas cidades reais da Ilha de França, região do centro norte do reino, Luís IX foi coroado com apenas 12 anos, pois seu mais velho irmão, Felipe, o príncipe herdeiro, havia morrido bem antes de seu pai, o rei Luís VIII. Ele contava, porém, com o firme e inteligente apoio de sua religiosa mãe, a rainha Branca de Castela, e do velho camareiro da corte, chamado Bartolomeu do rei. Com ironia, dizia-se que França estava nas mãos de uma criança, uma mulher e um velho.
    Mas por mérito de seu pai e de sua mãe, esse jovem teve contato com as mais brilhantes mentes de seu povo, os melhores professores. Tanto que o jogo de interesses, que moviam os casamentos entre príncipes e princesas de Europa, não enganaram sua mãe nem seduziram o jovem rei, que lhe era muito obediente.
    E, de fato, eles conduziram o reino promovendo não apenas a justiça, mas a dignidade humana. Eram tempos de grande aclamação às ordens mendicantes: franciscanos, dominicanos e mercedários tocavam o coração do povo e também de Luís IX. Ele praticava o Lava-Pés dos pobres, diariamente assistia à Santa Missa, de manhã e à tarde, e a humildade, a prudência, a oração e a caridade eram suas virtudes. Deus estava com ele.
    Enfim, sua mãe encontrou uma dama com quem ele pudesse contrair o Sacramento do Matrimônio, que se deu em 1234, logo após os completar 20 anos. Era Margarida da Provença, filha do Conde de Provence e de Forcalquier, Raimundo Béranger IV, e de Beatriz de Sabóia, que realmente foi religiosa e dedicada esposa.
    Durante seu reinado, São Luís teve que resistir a rebeliões e invasões, demonstrando habilidades de grande estrategista e mesmo de guerreiro. Lúcido governante, estruturou a administração da nação e resolveu divergências com reinos vizinhos. Organizou o sistema judiciário, levando o povo a notável período de paz e ordem pública, suprimindo os desmandos dos juízes, instituindo juízes extraordinários para recursos de apelação e colocando-se ele mesmo no posto de juiz supremo, para decidir casos mais importantes e que demorassem em litígio.


    Em caso de erro de seus oficiais, primeiro severamente penitenciava a si mesmo, depois a eles, e só promovia aqueles que agiam com correção. Introduziu a presunção de inocência, mitigou bastante a tortura e proibiu, em definitivo, a vingança privada e os duelos como forma de resolver disputas e de estabelecer direitos, que em Europa só aos poucos desapareceria durante o século XVI. Não por acaso, seu modelo de arbitragem foi copiado por vários monarcas do continente europeu.
    Era religiosamente zeloso, mas também tolerante. Velando pela Salvação das almas, construiu várias igrejas, abadias e catedrais, combateu heresias, pondo fim ao movimento cátaro, e proibiu a prostituição, a blasfêmia, a usura e a jogatina. Por conta das invasões árabes, trouxe de Constantinopla a Santa Coroa de Espinhos usada por Jesus em Sua Paixão, adquiriu relíquias da Santa Cruz, encontrada por Santa Helena, e em 1246 mandou construir a Santa Capela, em estilo gótico, no centro de Paris, exclusivamente para as abrigar.


    A Santa Coroa de Espinhos é hoje guardada na Catedral de Notre-Dame, também em Paris.


    Seu reino viveu a bonança e a prosperidade, tempo que foi chamado de 'Século de Ouro de São Luís': França era o centro intelectual e artístico de Europa, Paris era a maior cidade, sua arquitetura atingia um inegável esplendor, surgia a Universidade de Sorbonne e o rei era reconhecido como um Santo em vida. Politicamente levou França de uma monarquia feudal a uma monarquia moderna, baseada em leis: não era um rei perante vassalos, mas perante súditos, propriamente um chefe de Estado. Estimulou os encontros e debates que levariam às instituições do Parlamento e do Tribunal de Contas. No campo da economia, unificou a moeda no reino, e também é reconhecido por inovações intelectuais e artísticas.
    Mas um rei católico de seu tempo, principalmente por sua capacidade de arregimentação e poderio, não poderia deixar de tentar libertar os sagrados lugares da Terra Santa, que estavam sendo saqueados, profanados e invadidos por muçulmanos, que fugiam dos avanços territoriais do Império Mongol, iniciado pela temida pessoa de Gengis Khan e que iria até o século XIV. Em 1244 esteve muito doente, e prometeu que se sobrevivesse partiria o mais rápido para Palestina. Miraculosamente curado, organizou a Cruzada VII e partiu com a benção do Papa Inocêncio IV. Viajando em navios rumo a Egito, teve que se abrigar de um forte inverno em Chipre, onde uma peste exterminou um sexto de seu exército.


    Fez acordo com os governantes mongóis, inclusive catequizando-os, que de suas terras expulsavam os guerreiros muçulmanos, para atacar Bagdá, ponto de partida dos invasores da Terra Santa, e convenceu o rei do Chipre a o seguir. Mas por uma grande tempestade no Mar Mediterrâneo, parte da esquadra foi desviada para Egito, que era seu primeiro destino, onde chegou com a tropa reduzida a apenas um quarto da inicial. Realmente valente, atacou o Cairo mesmo assim, porém foi derrotado e preso por 5 anos. Aí teve notícia do nascimento de seu filho João Tristão, futuro Conde de Valois, e por suas posturas e práticas de autêntica fé e espiritualidade, conquistou o respeito dos emires, que propuseram proclamá-lo sultão. Entretanto, como ele rejeitou e sua principal meta era defender a Terra Santa, foi libertado pela paga de um caro resgate.


    Todavia, por sua real determinação, não quis retornar a França. Buscou acordos com líderes de Egito e Síria, e consolidou importantes posições militares em várias cidades de Palestina. Ao receber notícia da morte de sua mãe, porém, decidiu retornar. Foi recebido em Paris como um vitorioso.


    Novos e destruidores ataques à Terra Santa, contudo, levaram São Luís a organizar a Cruzada VIII. Partiu em 1270 seguido por seus filhos, mas havia convencido e conquistado o apoio do rei Eduardo I de Inglaterra e de muitos príncipes e senhores feudais. No entanto, em ainda em Cartago, atuais terras de Tunísia, seu filho João Tristão, de apenas 20 anos de idade, morreu de desconhecida enfermidade, e também São Luís, provavelmente por peste bubônica.
    São Francisco de Sales, igualmente francês e piedoso Bispo que viveu nos séculos XVI e XVII, deu este testemunho dele: "Frequentemente servia à mesa dos pobres que alimentava. e quase todos dias mandava sentarem-se dois ou três a sua própria. Muitas vezes comia o que os pobres deixavam, com um incrível amor por eles e por sua condição. Amiúde visitava os hospitais e de preferência servia aos enfermos que tinham uma mais asquerosa doença, como os leprosos, os ulcerosos e aqueles que eram comidos de um cancro. E era de joelhos e com a fronte descoberta que lhes prestava estes serviços, respeitando neles a Pessoa de Nosso Senhor e amando-os com um tão terno amor como uma mãe a seus filhos." (Filoteia, Parte III, Capítulo XV)
    Disse mais: "São Luís, tão grande monarca na guerra e na paz, e tão empenhado em administrar a justiça e manejar os negócios do reino, ouvia todos dias duas Missas, recitava as Vésperas e Completas com seu Capelão, fazia sua meditação, visitava os hospitais, confessava-se todas sextas-feiras e trazia um cilício. Muitas vezes ele assistia aos sermões, além de mui frequentes conferências espirituais. E com tudo isso nunca faltou ele com a necessária aplicação e exatidão a um só negócio do bem público, e sua corte era muito mais bela e florescente que no tempo de seus antecessores." (Filoteia, Parte V, Capítulo VII)


    Excelente pai, criou seus onze filhos em estrita obediência à Santa Igreja Católica. Não lhes permitia usar coroa ou qualquer adereço sobre a cabeça nas sexta-feiras, em respeito à Santa Coroa de Espinho de Jesus. E realmente movido pelo Espírito Santo, em carta enviou estas recomendações a seu filho, que viria a ser o rei Felipe III, dignas da inspiração de um grande Santo:

    "Dileto filho, começo por querer ensinar-te a amar ao Senhor, Teu Deus, com todo teu coração, com todas tuas forças, pois de outra forma não há Salvação.
    Filho, deves evitar tudo quanto sabes desagradar a Deus, quer dizer, todo pecado mortal, de tal forma que prefiras ser atormentado por toda sorte de martírios a cometer um pecado mortal.
    Ademais, se o Senhor permitir que te advenha alguma tribulação, deves suportá-la com serenidade e Ação de Graças. Considera suceder tal coisa em teu proveito, e que talvez a tenhas merecido. Além disto, se o Senhor te conceder a prosperidade, tens de humildemente Lhe agradecer, tomando cuidado para que nesta circunstância não te tornes pior, por vanglória ou qualquer outro modo, porque não deves ir contra Deus ou ofendê-Lo, valendo-te de Seus dons.
    De boa disposição e piedade, ouve o Ofício da Igreja, e, enquanto estiveres no templo, cuides de não vagueares os olhos ao redor, de não falar sem necessidade, mas devotamente roga ao Senhor, quer pelos lábios, quer pela meditação do coração.
    Guarda o coração compassivo para com os pobres, infelizes e aflitos, e quando puderes, auxilia-os e consola-os. Por todos benefícios que te foram dados por Deus, rende-Lhe graças para te tornar digno de receber maiores. Em relação a teus súditos, sê justo até o extremo da justiça, sem te desviares nem para a direita nem para a esquerda. Poê-te sempre de preferência da parte do pobre mais que do rico, até estares bem certo da verdade. Procura com empenho que todos teus súditos sejam protegidos pela justiça e pela paz, principalmente as pessoas eclesiásticas e religiosas.
    Sê dedicado e obediente a Nossa Mãe, a Igreja Romana, ao Sumo Pontífice como pai espiritual. Esforça-te por remover de teu país todo pecado, sobretudo o de blasfêmia e a heresia.
    Ó amado filho, dou-te enfim toda benção que um pai pode dar ao filho, e toda Trindade e todos os Santos te guardem do Mal. Que o Senhor te conceda a Graça de fazer Sua vontade, de forma a ser servido e honrado por ti. E assim, depois desta vida, juntos iremos vê-Lo, amá-Lo e louvá-Lo sem fim. Amém."

    Após sua morte, sua esposa Margarida entrou para o Convento de Santa Clara em Longchamps. A irmã mais nova de São Luis, que viveu nesse mesmo mosteiro, atualmente parte do parque público Bois de Bologne, em Paris, foi beatificada: a Venerável Isabel de França. Foi para ela e seu mosteiro que São Boaventura escreveu o tratado "Sobre a Perfeição da Vida". Nosso Santo é o Padroeiro de França e da Ordem Terceira Regular de São Francisco. Na Catedral de Notre-Dame Paris, preserva-se uma camisa e a corrente com que ele se penitenciava. Sua camisa de cilício está exposta na Igreja de Saint-Aspais na comuna de Melun, na Ilha de França.


    Por espontânea veneração, parte de suas vísceras foram enterradas lá mesmo, em Cartago, e outra parte em Sicília, onde seu irmão, o rei Carlos I, morava. Seu corpo foi levado a Itália, à cidade de Bolonha, para homenagens, a Lion, onde foi igualmente reverenciado, e por fim a Paris, para ser enterrado na importante Abadia de São Dionísio, o primeiro Bispo de Paris e considerado 'Apóstolo' da província romana de Gália, terras que vieram a ser o reino de França.
    No século XVI, porém, com as bestiais batalhas provocadas pela 'reforma' protestante, seu sepulcro foi profanado, ficando de seus restos nessa abadia apenas o osso de um dedo. E terminado o período de influência francesa em Sicília, as relíquias que lá estavam foram levadas a Cartago, reunidas às que lá haviam ficado, e tempos depois todas transportadas para Paris, quando as sepultaram na Santa Capela, que ele havia construído para o madeiro da Santa Cruz e para a Santa Coroa de Espinhos. Aí elas permanecem zelosamente guardadas, mas quase esquecidas pela população bastante secularizada.
    Surgiram relatos, entretanto, das relíquias que estavam na Abadia de São Dionísio. Elas teriam sido resgatadas antes da profanação pelos protestantes, e na atualidade acredita-se mesmo que seu fêmur e parte do crânio estejam na modesta Igreja de São Ciro e Santa Julita da comuna de Écuelles, departamento de Saône-et-Loire, região de Borgonha, centro-leste de França, onde estiveram muito bem escondidas.


    São Luís, rogai por nós!