sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

O Evangelho da Reconciliação


    A Primeira Carta que São Paulo aos Tessalonicenses afirma o poder que o Evangelho tem em si mesmo, como Divina Palavra que é, e informa que seu principal objetivo é reconciliar o povo com Deus. Não poderia ser diferente: é Deus Jesus, Verbo Encarnado (cf. Jo 1,14), que vem ao nosso encontro: "Nosso Evangelho foi-vos pregado não somente por palavra, mas também com poder, com o Espírito Santo e com plena convicção. Sabeis o que temos sido entre vós para vossa Salvação." 1 Ts 1,5
    Lembrando as trombetas que derrubaram as muralhas de Jericó (cf. Js 6,20), a Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios dá uma ideia desse poder: "Não são carnais as armas com que lutamos. São poderosas, em Deus, capazes de arrasar fortificações. Nós aniquilamos todo raciocínio e todo orgulho que se levanta contra o conhecimento de Deus, e cativamos todo pensamento e reduzimo-lo à obediência a Cristo." 2 Cor 10,4-5
    Ele diz que no Evangelho se tem a Glória de Jesus, quer dizer, a própria personificação de Deus, e que só a sedução do inimigo pode evitar que a percebamos: "Se nosso Evangelho ainda estiver encoberto, está encoberto para aqueles que se perdem, para os incrédulos, cujas inteligências o deus deste mundo obcecou a tal ponto que não percebem a Luz do Evangelho, onde resplandece a Glória de Cristo, que é a imagem de Deus. Porém, temos este tesouro em vasos de barro, para que claramente transpareça que este extraordinário poder provém de Deus e não de nós." 2 Cor 4,3-4.7
    E vibrante, ele comenta a percepção que os cristãos alcançaram de Jesus e da própria humanidade, para muito além do meramente humano, atestando a profunda transformação dos fiéis como resultado da reconciliação com o Pai. Ora, o Ministério da Igreja é exatamente esse, que ela cumpre através dos Sacramentos: "Por isso, daqui em diante a ninguém nós conhecemos de um humano modo. Muito embora tenhamos considerado Cristo dessa maneira, agora já não O julgamos assim. Todo aquele que está em Cristo é uma nova criatura. Passou o que era velho, eis que tudo se fez novo! Tudo isso vem de Deus, que Consigo nos reconciliou, por Cristo, e nos confiou o ministério desta reconciliação. Porque é Deus que, em Cristo, Consigo reconciliava o mundo, não levando mais em conta os pecados dos homens, e pôs em nossos lábios a mensagem da reconciliação. Portanto, desempenhamos o encargo de embaixadores em Nome de Cristo, e é Deus mesmo que vos exorta por nosso intermédio. Em Nome de Cristo, rogamo-vos: reconciliai-vos com Deus!" 2 Cor 5,16-20
    Essa, aliás, era a reclamação da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios: "A vós, irmãos, não vos pude falar como a homens espirituais, mas como a carnais, como a criancinhas em Cristo. Eu dei-vos leite a beber, e não sólido alimento, que ainda não podíeis suportar. Nem ainda agora o podeis, porque ainda sois carnais. Com efeito, enquanto houver entre vós ciúmes e contendas, não será porque sois carnais e procedeis de totalmente humano modo?" 1 Cor 3,1-3
    E do próprio Jesus, que inquiriu os líderes judeus em Jerusalém no Evangelho segundo São João: "Por que não compreendeis Minha linguagem? Quem de vós Me acusará de pecado? Se falo-vos a Verdade, por que Me não credes? Quem é de Deus ouve as palavras de Deus, e se vós não as ouvis é porque não sois de Deus." Jo 8,43a.46-47
    Pois o Apóstolo dos Gentios explicava: "Ora, nós não recebemos o espírito do mundo, mas sim o Espírito que vem de Deus, que nos dá a conhecer as Graças que Deus nos prodigalizou e que pregamos numa linguagem que nos foi ensinada não pela sabedoria humana, mas pelo Espírito, que exprime as coisas espirituais em termos espirituais. Mas o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucuras. Nem pode compreendê-las, porque é pelo Espírito que devem ponderá-las. O homem espiritual, ao contrário, julga todas coisas e não é julgado por ninguém." 1 Cor 2,12-15
    E fez um contraponto ao Antigo Testamento, exultando com o Ministério do Santo Paráclito, que chamou de Ministério da Justificação, válido para a eternidade: "Ora, se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, se revestiu de tal Glória que os filhos de Israel não podiam fitar os olhos no rosto de Moisés, por causa do resplendor de sua face, embora transitório, quanto mais glorioso não será o Ministério do Espírito? Se o ministério da condenação já foi glorioso, muito mais há de sobrepujá-lo em Glória o Ministério da Justificação! Aliás, sob esse aspecto e em comparação desta eminentemente Glória superior, empalidece a Glória do primeiro Ministério. Se o transitório era glorioso, muito mais glorioso é o que permanece!" 2 Cor 3,7-11
    Foi o que Jesus disse sobre o Espírito Santo na noite da Santa Ceia, quando prometeu que Ele seria derramado sobre a Santa Igreja. Quer dizer, o Divino Paráclito veio para ficar no Corpo Místico de Cristo, e para sempre: "E Eu rogarei ao Pai, e Ele dá-vos-á outro Paráclito, para que convosco fique eternamente. É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber porque não O vê nem O conhece. Mas vós conhecer-Lo-eis, porque convosco permanecerá e em vós estará." Jo 14,16-17
    Também disse de Si mesmo, pela Comunhão da Santíssima Trindade, pouco antes de Sua Ascensão, no Evangelho segundo São Mateus: "Eis que convosco estou todos dias, até o fim do mundo." Mt 28,20b
    A Carta de São Tiago, aliás, diz a própria Sabedoria já é por si um apelo à conciliação com Deus e com todas pessoas: "Onde houver ciúme e contenda, ali também há perturbação e toda espécie de vícios. A Sabedoria, porém, que vem de cima, é primeiramente pura, depois pacífica, condescendente, conciliadora, cheia de Misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, nem fingimento." Tg 3,16-17
    Ora, exaltando a preciosidade do Sangue de Jesus, a Carta de São Paulo aos Romanos atestou: "Se, quando ainda éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela Morte de Seu Filho, com muito mais razão, estando já reconciliados, seremos salvos por Sua Vida. ... nós gloriamo-nos em Deus por Nosso Senhor Jesus Cristo, por Quem desde agora temos recebido a reconciliação!" Rm 5,10-11
    De fato, ao anunciar a iminência de Sua Crucificação, Nosso Senhor mesmo afirmou: "E quando Eu for levantado da Terra, a Mim atrairei todos homens." Jo 12,32
    E, desde o início de Suas pregações, Ele já associava o acolhimento do Evangelho ao necessário reconhecimento dos pecados, e assim à conversão. O Evangelho segundo São Marcos anotou: "Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Fazei penitência e crede no Evangelho." Mc 1,15
    Pela mesma razão, Ele convocou os Apóstolos e deu-lhes poder: "Então chamou os Doze e começou a enviá-los, dois a dois. E deu-lhes poder sobre os imundos espíritos. Eles partiram e pregaram a penitência." Mc 6,7.12
    Por isso, logo na primeira aparição ao Colégio dos Apóstolos, ainda no Domingo da Ressurreição, Ele mesmo instituiu a Igreja, dando-lhe o poder de perdoar os pecados, que propriamente é o Sacramento da Reconciliação: "Disse-lhes outra vez: 'A Paz esteja convosco! Como o Pai Me enviou, Eu envio a vós.' Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: 'Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, sê-lhes-ão perdoados. Àqueles a quem os retiverdes, sê-lhes-ão retidos.'" Jo 20,21-23
    Na mesma ocasião, Ele justificou Sua Paixão nestes termos, apontando a Missão da Igreja Católica, como está no Evangelho segundo São Lucas: "Assim é que está escrito, e assim era necessário que Cristo padecesse, mas que ressurgisse dos mortos ao terceiro dia. E que em Seu Nome se pregasse a penitência e a remissão dos pecados a todas nações, começando por Jerusalém." Lc 24,46-47
    Contudo, é o Batismo o primeiro e principal Sacramento para o perdão dos pecados, porque, como indispensáveis requisitos à Salvação, Jesus estabeleceu a e o Batismo, em Sua última aparição antes do Pentecostes: "E disse-lhes: 'Ide por todo mundo e pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo...'" Mc 16,15-16a
    E como diz São Paulo, é pelo Batismo que temos a justificação: "Fomos, pois, sepultados com Ele em Sua Morte pelo Batismo, para que, como Cristo ressurgiu dos mortos pela Glória do Pai, nós também vivamos uma Nova Vida." Rm 6,4
    Por isso, em pregação no dia do Nascimento da Igreja, no Livro dos Atos dos Apóstolos, São Pedro vai recomendá-lo ao peregrinos que estavam em Jerusalém, sempre começando pelo arrependimento: "Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em Nome de Jesus Cristo para remissão de vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo." At 2,38
    Pois segundo Jesus, em despedida do Apóstolos, a função do Divino Paráclito é exatamente levar o mundo a um verdadeiro exame de consciência: "E quando Ele vier, convencerá o mundo a respeito do pecado, da justiça e do Juízo." Jo 16,8
    Ele já lhes havia afirmado: "Digo-vos que assim haverá maior júbilo no Céu por um só pecador que fizer penitência do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento." Lc 15,7
    E a Primeira Carta de São João bem observou: "Quem conhece a Deus, ouve-nos. Quem não é de Deus, não nos ouve. É nisto que conhecemos o Espírito da Verdade e o espírito do erro. Quem observa Seus Mandamentos, permanece em Deus e Deus nele. É nisto que reconhecemos que Ele permanece em nós: pelo Espírito que nos deu." 1 Jo 4,6a;3,24
    Desta forma, todo gesto de verdadeira  deve estar impregnado do poder do Espírito de Cristo, que se antecipa e promove a total reconciliação, com Deus e com todos irmãos. Jesus recomendou desde o Sermão da Montanha: "Se estás, portanto, para fazer tua oferta diante do Altar e lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá tua oferta diante do Altar e primeiro vai reconciliar-te com teu irmão. Só então vem fazer tua oferta." Mt 5,23-24
    Nas palavras de São Paulo, essa é obrigatória atitude para quem está sob os Sacramentos, como o do Matrimônio: "Aos casados mando (não eu, mas o Senhor) que a mulher não se separe do marido. E se ela estiver separada, que fique sem se casar, ou que se reconcilie com seu marido. Igualmente, o marido não repudie sua mulher." 1 Cor 7,10-11
    Ora, o perdão que podemos obter de Deus sempre será proporcional ao perdão que oferecemos aos irmãos. É o que rezamos no Pai Nosso, que o Senhor mesmo nos ensinou: "... perdoai nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos têm ofendido..." Mt 6,12
    Aliás, em todas orações que fizermos, também como Ele determinou: "E quando vos puserdes de pé para orar, perdoai, se tiverdes algum ressentimento contra alguém, para que Vosso Pai, que está nos Céus, também perdoe vossos pecados. Mas se não perdoardes, tampouco Vosso Pai que está nos Céus perdoará vossos pecados." Mc 11,25-26
    São João Evangelista é taxativo: "Aquele que diz estar na Luz, e odeia seu irmão, ainda jaz nas trevas. Quem ama seu irmão permanece na Luz e não se expõe a tropeçar. Mas quem odeia seu irmão está nas trevas e anda nas trevas, sem saber para onde dirige os passos. As trevas cegaram seus olhos." 1 Jo 2,9-11
    Eis o grande teste para quem diz que conhece o amor de Deus: "Se alguém disser: Amo a Deus, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a Quem não vê." 1 Jo 4,20
    Pois estar em Comunhão com Deus significa estar em Comunhão com a Igreja: "Se dizemos ter Comunhão com Ele, mas andamos nas trevas, mentimos e não seguimos a Verdade. Se, porém, andamos na Luz como Ele mesmo está na Luz, temos Comunhão uns com os outros, e o Sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, purifica-nos de todo pecado." 1 Jo 1,6-7


O EVANGELHO DA PAZ

    Sem dúvida, era essencialmente essa a missão dos Apóstolos, como o Amado Discípulo declara: "O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com nossos olhos, o que temos contemplado e nossas mãos têm apalpado no tocante ao Verbo da Vida, porque a Vida se manifestou e nós temo-la visto, damos testemunho e anunciamo-vos a Vida Eterna, que estava no Pai e que se nos manifestou. O que vimos e ouvimos nós anunciamo-vos, para que vós também tenhais Comunhão conosco. Ora, nossa Comunhão é com o Pai e com Seu Filho Jesus Cristo." 1 Jo 1,1-3
    Porque a Igreja de Jesus aí está para celebrar na Santa Missa o Santíssimo Sacramento, e d'Ele aprendemos que sem a Comunhão Eucarística, que é o símbolo máximo dessa Comunhão, não entraremos na Vida Eterna: "Então lhes disse Jesus: 'Em Verdade, em Verdade, digo-vos: se não comerdes a Carne do Filho do Homem, e não beberdes Seu Sangue, não tereis a Vida em vós mesmos.'" Jo 6,53
    Afirmativamente, Ele vinculou Sua Paixão, oferecida em Pão e Vinho, à Redenção: "Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-o, partiu-O e deu-O aos discípulos, dizendo: 'Tomai e comei, isto é Meu Corpo.' Depois tomou o Cálice, rendeu graças e deu-lhO, dizendo: 'Bebei d'Ele todos, porque isto é Meu Sangue, o Sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens para a remissão dos pecados.'" Mt 24,26-28
    Com este mesmo propósito, a Carta de São Paulo aos Colossenses anuncia Nosso Salvador em Sua plenitude, como Deus Filho, bem como Sua Missão de restabelecer, pela força do Evangelho, a santidade, isto é, a divina semelhança que havemos perdido: "Sede contentes e agradecidos ao Pai, que vos fez dignos de participar da herança dos Santos na Luz. Ele arrancou-nos do poder das trevas e introduziu-nos no Reino de Seu Amado Filho, no Qual temos a Redenção, a remissão dos pecados. Ele é a imagem de Deus invisível, o Primogênito de toda Criação. N'Ele foram criadas todas coisas nos Céus e na Terra, as criaturas visíveis e as invisíveis. Tronos, dominações, principados, potestades: tudo foi criado por Ele e para Ele. Ele existe antes de todas coisas, e todas coisas n'Ele subsistem. Ele é a Cabeça do Corpo, da Igreja. Ele é o Princípio, o Primogênito dentre os mortos, e por isso tem o primeiro lugar em todas coisas. Porque aprouve a Deus fazer habitar n'Ele toda plenitude, e por Seu intermédio reconciliar Consigo todas criaturas, através d'Aquele que, ao preço do próprio Sangue na Cruz, restabeleceu a Paz a tudo quanto existe na Terra e nos Céus. E a vós, que há bem pouco tempo eram alheios a Deus e inimigos por vossos pensamentos e más obras, eis que agora Ele também vos reconciliou pela Morte de Seu Corpo humano, para que possais apresentar-vos Santos, imaculados, irrepreensíveis aos olhos do Pai. Para isto, é necessário que permaneçais fundados e firmes na fé, inabaláveis na esperança do Evangelho que ouvistes, que foi pregado a toda criatura que há debaixo do Céu, e do qual eu, Paulo, fui constituído ministro." Cl 1,12-23
    Povos de todas nações, portanto, têm em Jesus a verdadeira oportunidade de reconciliar-se com Deus, como se lê na Carta de São Paulo aos Efésios: "Ele quis, assim, a partir do judeu e do pagão, criar em Si um só novo homem, estabelecendo a Paz. Quis reconciliá-los com Deus, ambos em um só Corpo, por meio da Cruz." Ef 2,15a-16b
    De fato, já estava no Livro do Profeta Isaías, 700 anos antes do Advento: "O povo que andava nas trevas viu uma grande Luz, sobre aqueles que habitavam uma tenebrosa região resplandeceu uma Luz. ... porque um Menino nos nasceu, um Filho nos foi dado. A soberania repousa sobre Seus ombros, e Ele chama-Se: Admirável Conselheiro, Deus Forte, Pai Eterno, Príncipe da Paz. Seu império será grande e a Paz sem fim sobre o trono de Davi e em Seu Reino. Ele firmá-lo-á e mantê-lo-á pelo direito e pela justiça, desde agora e para sempre. 'Eis Meu Servo que Eu amparo, Meu Eleito ao qual dou toda Minha afeição. Sobre Ele faço repousar Meu Espírito para que leve às nações a verdadeira religião. Eu, o Senhor, realmente chamei-Te, segurei-Te pela mão, formei-Te e designei para ser a Aliança com os povos, a Luz das nações, para abrir os olhos aos cegos, tirar do cárcere os prisioneiros e da prisão aqueles que vivem nas trevas.'" Is 9,1.5-6a;42,1.6-7
    E o próprio Jesus afirmou: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai senão por Mim." Jo 14,6b
    Foi assertivo: "Aquele que não honra o Filho, não honra o Pai, que O enviou." Jo 5,23b
    Disse aos principais dos judeus: "Não conheceis nem a Mim nem a Meu Pai. Se Me conhecêsseis, certamente também conheceríeis a Meu Pai." Jo 8,19b
    Explicou a condição deles: "... sei que não tendes em vós o amor de Deus." Jo 5,42
    E São Paulo complementou: "Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado." Rm 5,5b
    Assegura que é ouvindo o Evangelho que recebemos o Espírito de Deus: "Em Cristo, vós, depois de terdes ouvido a Palavra da Verdade, o Evangelho de vossa Salvação no qual tendes crido, também fostes selados com o Espírito Santo que fora prometido..." Ef 1,13 
    E muito além de judeus e pagãos, Deus Pai quer reunir em Jesus todas criaturas, toda Criação, dando um único sentido a toda existência: "Ele manifestou-nos o misterioso desígnio de Sua vontade, que em Sua benevolência formara desde sempre, para realizá-lo na plenitude dos tempos, desígnio de reunir em Cristo todas coisas, as que estão nos Céus e as que estão na Terra." Ef 1,9-10
    Embora mencionando a armadura de um guerreiro, ele deixou-nos uma das definições mais apropriadas do Evangelho: "Estejam, portanto, bem firmes: cingidos com o cinturão da Verdade, vestidos com a couraça da justiça, os pés calçados com o zelo para propagar o Evangelho da Paz..." Ef 6,14-15
    Ora, essa foi a determinação dada por Jesus a São Pedro, o Príncipe dos Apóstolos após ressuscitar: "Apascenta Meus cordeiros. Apascenta Minhas ovelhas." Jo 21,15b.17b
    E a Carta de São Paulo aos Gálatas segue garantindo o poder e a origem da Palavra de Deus: "Asseguro-vos, irmãos, que o Evangelho por mim pregado nada tem de humano. Não o recebi nem o aprendi de homem algum, mas mediante uma revelação de Jesus Cristo." Gl 1,11
    Garante o poder dos Sacerdotes, quer dizer, da Igreja para anunciá-lo: "Por conseguinte, desprezar estes preceitos é desprezar não a um homem, mas a Deus, que nos infundiu Seu Santo Espírito." 1 Ts 4,8
    Garante o acesso à : "Logo, a fé provém da pregação, e a pregação exerce-se em razão da Palavra de Cristo." Rm 10,17
    Ele afirma: "Não me envergonho do Evangelho, pois ele é uma força vinda de Deus para a Salvação de todo aquele que crê..." Rm 1,16
    Ora, dele vem a esperança, como ele diz aos cristãos da cidade de Colosso: "Esperança que vos foi transmitida pela pregação da Verdade do Evangelho..." Cl 1,5b
    Diz de seus termos: "A linguagem da Cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que foram salvos, para nós, é uma divina força." 1 Cor 1,18
    Por ele, Jesus realizou o maior sonho da humanidade: "... destruiu a morte e suscitou a Vida e a imortalidade, pelo Evangelho..." 2 Tm 1,10b
    Por ele nascem os filhos de Deus, como São Paulo diz: "... fui eu que vos gerei em Cristo Jesus pelo Evangelho." 1 Cor 4,15
    Que a ele se tornam obedientes, como se deu entre os fiéis de Corinto: "... eles glorificam a Deus pela obediência que professais relativamente ao Evangelho de Cristo..." 2 Cor 9,13
    Por ele, toma-se parte na Glória do Filho de Deus. A Segunda Carta de São Paulo aos Tessalonicenses diz: "E pelo anúncio do nosso Evangelho, Deus chamou-vos para tomar parte na Glória de Nosso Senhor Jesus Cristo." 2 Ts 2,14
    Dele os verdadeiros Sacerdotes de Cristo tornam-se servos: "Eu tornei-me servo deste Evangelho em virtude da Graça que me foi dada pela onipotente ação divina." Ef 3,7
    E assim, dos cristãos a Carta de São Paulo aos Filipenses exige testemunho de vida: "Cumpre, somente, que em vosso proceder vos mostreis dignos do Evangelho de Cristo." Fl 1,27a
    Por todas essas Graças, ele não deixa de reconhecer seu mistério: "E também orai por mim, para que me seja dado corajosamente anunciar o mistério do Evangelho..." Ef 6,19
    A esse respeito, Jesus reclamou das limitações dos fariseus, como disse a Nicodemos: "Se vos tenho falado das coisas terrenas e não Me credes, como crereis se vos falar das celestiais?" Jo 3,12
    Reclamou dos líderes judeus: "Como podeis crer, vós que recebeis a glória uns dos outros, e não buscais a Glória que é só de Deus?" Jo 5,44
    Disse-lhes: "'Tenho muitas coisas a dizer e a julgar a vosso respeito, pois Aquele que Me enviou é verdadeiro, e o que d'Ele ouvi, digo ao mundo.' Eles, porém, não compreenderam que Ele lhes falava do Pai. Então lhes disse Jesus: 'Quando tiverdes levantado o Filho do Homem, então conhecereis que EU SOU e que nada faço de Mim mesmo, mas falo do modo como o Pai Me ensinou.'" Jo 8,26-28
    Disse aos próprios Apóstolos, na última noite entre eles: "Muitas coisas ainda tenho a dizer-vos, mas agora não podeis suportá-las. Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensiná-vos-á toda Verdade, porque não falará por Si mesmo, mas dirá o que ouvir e anunciá-vos-á as coisas que virão." Jo 16,12-13
    Falando de Sua Ressurreição, garantiu-lhes a Comunhão dos Santos: "Naquele dia conhecereis que estou em Meu Pai, e vós em Mim e Eu em vós. Aquele que tem Meus Mandamentos e os guarda, esse é que Me ama. E aquele que Me ama será amado por Meu Pai, e Eu amá-lo-ei e a ele manifestar-Me-ei." Jo 14,20-21
    Por fim, após o Domingo de Ramos, perante os Apóstolos referiu-Se à Boa Nova como a grande prova do amor de Deus, que é a razão de ser de todas coisas: "Este Evangelho do Reino será pregado pelo mundo inteiro para servir de testemunho a todas nações, e então chegará o fim." Mt 24,14
    A Primeira Carta de São Pedro, falando a todos cristãos, também discorreu sobre a Graça da Boa Nova. Pois movidos pelo Espírito de Deus, os Profetas já haviam anunciado a remissão dos pecados pelo Sacrifício de Cristo: "Esta Salvação tem sido o objeto das investigações e das meditações dos Profetas, que proferiram oráculos sobre a Graça que vos era destinada. Eles investigaram a época e as circunstâncias indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava e que profetizava os sofrimentos do mesmo Cristo e as Glórias que haveriam de segui-los. Foi-lhes revelado que propunham não para si mesmos, senão para vós, estas revelações que agora vos têm sido anunciadas por aqueles que vos pregaram o Evangelho da parte do Espírito Santo, enviado do Céu. Revelações estas que os próprios anjos desejam contemplar. Cingi, portanto, os rins do vosso espírito, sede sóbrios e colocai toda vossa esperança na Graça que vos será dada no Dia em que Jesus Cristo aparecer." 1 Pd 1,10-13
    Desta forma, completando a obra da Salvação, o Evangelho foi anunciado aos que já haviam falecidos, e assim Jesus desceu à mansão dos mortos para levar aos Seus a reconciliação com Deus. São Pedro pontua: "Pois, para isto, o Evangelho também foi pregado aos mortos. Para que, embora sejam condenados em sua humanidade de carne, vivam segundo Deus quanto ao espírito." 1 Pd 4,6
    Tal qual São Paulo falando sobre a herança dos Santos, ou seja, sobre a perfeita reabilitação da condição humana, seus seguidores falam em santidade na Carta aos Hebreus: "Aliás, temos na Terra nossos pais que nos corrigem e, no entanto, olhamo-los com respeito. Com quanto mais razão havemos de submeter-nos ao Pai de nossas almas, o Qual nos dará a Vida? Os primeiros educaram-nos para pouco tempo, segundo sua própria conveniência, ao passo que Este o faz para nosso bem, para comunicar-nos Sua santidade." Hb 12,9-10
    E a Segunda Carta de São Pedro menciona o chamamento de Deus para participarmos de Sua natureza divina: "O divino poder deu-nos tudo que contribui para a Vida e a piedade, fazendo-nos conhecer Aquele que nos chamou por Sua Glória e Sua Virtude. Por elas, temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de tornar-vos por este meio participantes da natureza divina, subtraindo-vos à corrupção que a concupiscência gerou no mundo." 2 Pd 1,3-4

    "Fazei-nos, ó Pai, instrumentos de Vossa Paz!"

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

O Pão da Vida Eterna


    Existe um sagrado alimento que nos põe em Comunhão com Deus. Todo verdadeiro cristão, pois, deve desejar sentar-se à mesa com Seu Filho e Nosso Irmão Jesus Cristo, e servir-se deste Alimento. Contrapondo-o ao maná (cf. Êx 16,14) comido pelos israelitas no deserto, Jesus ensinou aos judeus no Evangelho segundo São João, depois de multiplicar pães e peixes: "Em Verdade, em Verdade, digo-vos: Moisés não vos deu o Pão do Céu, mas Meu Pai é Quem vos dá o verdadeiro Pão do Céu. Porque o Pão de Deus é o Pão que desce do Céu e dá Vida ao mundo." Jo 6,32-33
    E o Pão que Deus nos oferece é o próprio Jesus, o Verbo Encarnado, o Pão da Vida Eterna, pois nossa Salvação vem por Sua Carne e por Seu Sangue, como Ele disse nesta mesa ocasião: "Eu sou o Pão Vivo que desceu do Céu. Quem comer deste Pão viverá eternamente. E o Pão, que Eu hei de dar, é Minha Carne para a Salvação do mundo." Jo 6,51
    Falava mesmo de outra Vida: "Assim como o Pai, que Me enviou, vive, e Eu vivo pelo Pai, aquele que comer Minha Carne também viverá por Mim." Jo 6,57
    Expressamente disse sobre o miraculoso maná (cf. Êx 16,18), apontando para Si mesmo: "Este é o Pão que desceu do Céu. Não como o maná que vossos pais comeram e morreram. Quem come deste Pão viverá eternamente”.Jo 6,58
    Ele foi explicitamente claro: "Eu sou o Pão da Vida. Vossos pais, no deserto, comeram o maná (cf. Êx 16,15) e morreram. Este é o Pão que desceu do Céu, para que não morra todo aquele que dele comer." Jo 6,48-50
    Ora, como a Encarnação de Deus na Pessoa de Jesus foi um fenômeno sobrenatural, assim também se dá com Sua presença na Hóstia Consagrada, que recebemos na Santa Missa. Ambas manifestações são obras do Espírito Santo, que é a Terceira Pessoa de Deus: a primeira deu-se através de Nossa Mãe Maria Santíssima, e a segunda dá-se através da Santa Eucaristia.
    Logo, para vivermos a Vida Plena que Deus nos oferece, precisamos estar em Comunhão com a Santíssima Trindade, precisamos do Espírito de Deus agindo em nós, como a Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios diz: "A Graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a Comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós!" 2 Cor 13,13
    Porque não há Vida Plena se não nos alimentarmos do Corpo de Cristo. Falando em terceira Pessoa, são palavras de Nosso Salvador: "... se não comerdes a Carne do Filho do Homem, e não beberdes Seu Sangue, não tereis a Vida em vós mesmos." Jo 6,53
    E é por Seu Corpo e Seu Sangue que Ele nos garante a Vida Eterna, a Ressurreição da Carne para a Glória dos Céus: "Quem come Minha Carne e bebe Meu Sangue tem a Vida Eterna, e Eu ressuscitá-lo-ei no Último Dia." Jo 6,54
    Para tanto, Ele instituiu a Eucaristia na Santa Ceia, na noite do início de Sua Paixão, como se lê no Evangelho segundo São Lucas: "Em seguida, tomou o pão e depois de ter dado graças, partiu-O e deu-lhO, dizendo: 'Isto é Meu Corpo, que é dado por vós. Fazei isto em memória de Mim.'" Lc 22,19
    Ora, aí nada há de simbolismo, como falsos mestres de falsas igrejas divulgam. Jesus claramente afirmou a materialidade, a Transubstanciação do pão e do vinho em Seu Corpo e Seu Sangue: "Pois Minha Carne é verdadeiramente uma comida e Meu Sangue, verdadeiramente uma bebida." Jo 6,55
    E a palavra para isso, para o mal dos que a renegam, é Comunhão, Comunhão com Deus, porque são palavras Suas: "Quem come Minha Carne e bebe Meu Sangue, permanece em Mim e Eu nele." Jo 6,56
    Mas se muitos resolveram estranhar o Rito da Comunhão, deveriam saber que não estão fazendo nada de novo. Veja-se o que aconteceu logo depois destas palavras de Jesus: "Muitos de Seus discípulos, ouvindo-O, disseram: 'Isto é muito duro! Quem o pode admitir?' Ele prosseguiu: 'Por isso, disse-vos: Ninguém pode vir a Mim, se por Meu Pai não lho for concedido.' Desde então, muitos de Seus discípulos retiraram-se e já não andavam mais com Ele." Jo 6,60.65-66
    A instituição da Eucaristia, portanto, deu-se um dia antes de Jesus ser glorificado, e foram decisivos instantes de Sua Missão e para a Redenção da humanidade: "Chegada que foi a hora, Jesus pôs-Se à mesa e com Ele os Apóstolos. Disse-lhes: 'Ardentemente tenho desejado convosco comer esta Páscoa, antes de sofrer.'" Lc 22,14-15
    E no Domingo da Ressurreição, antes de aparecer ao Colégio dos Apóstolos, Ele só Se revelou aos dois discípulos que tomaram o caminho de Emaús quando partiu o Pão: "Aconteceu que, estando sentado juntos à mesa, Ele tomou o pão, abençoou-O, partiu-O e serviu-lhO. Então se lhes abriram os olhos e O reconheceram... mas Ele desapareceu." Lc 24,30-31
    Essa memória, pois, como sinal de perfeito acolhimento do testemunho dos Apóstolos, foi muito bem preservada não só pelos Doze como por discípulos e seguidores desde o início, logo após o Pentecostes. Está no Livro dos Atos dos Apóstolos: "Eles perseveravam na Doutrina dos Apóstolos, na reunião em comum, na fração do Pão e nas orações." At 2,42
    E eles celebravam-na aos 'domingos', que significa Dia do Senhor, nome que deram ao Dia da Ressurreição, testemunhada pelos Apóstolos na aparição relatada por São João Apóstolo: "Na tarde do mesmo dia, que era o primeiro da semana, os discípulos tinham fechado as portas do lugar onde se achavam, por medo dos judeus. Jesus veio e pôs-Se no meio deles. Disse-lhes Ele: 'A Paz esteja convosco!' Dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos alegraram-se ao ver o Senhor." Jo 20,19-20
    É o que se constata da prática de evangelização de São Paulo e São Lucas: "No primeiro dia da semana, estando nós reunidos para partir o Pão..." At 20,7
    O Livro do Apocalipse de São João, com efeito, vai usar exatamente esse termo para designar o dia em que foi agraciado com celestiais visões. Pudera, era o dia da maior e mais patente manifestação de Deus à humanidade, da Ressurreição de Deus feito homem: "No Dia do Senhor, fui arrebatado em êxtase e ouvi, por trás de mim, uma forte voz como de trombeta..." Ap 1,10
    Ora, o próprio Jesus aparecia aos Colégio dos Apóstolos no primeiro dia da semana, como foi a segunda aparição: "Oito dias depois, outra vez estavam Seus discípulos no mesmo lugar, e Tomé com eles. Estando trancadas as portas, veio Jesus, pôs-Se no meio deles e disse: 'A Paz esteja convosco!'" Jo 20,26
    Eram, de fato, aparições em carne e osso, que Ele demonstrou: "'Vede Minhas mãos e Meus pés, sou Eu mesmo. Apalpai e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que tenho.' E, dizendo isso, mostrou-lhes as mãos e os pés. Mas, ainda vacilando eles e estando transportados de alegria, perguntou: 'Tendes aqui alguma coisa para comer?' Então Lhe ofereceram um pedaço de peixe assado. Ele tomou e comeu à vista deles." Lc 24,39-43
    E a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, com propriedade, afirma que a Comunhão Eucarística é o principal fator da Unidade da Igreja: "Uma vez que há um único Pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só Corpo, porque todos nós comungamos do mesmo Pão." 1 Cor 10,17
    Afirma que tal celebração se dá quando revivemos e atualizamos o Sacrifício de Cristo: "Assim, todas vezes que comeis desse Pão e bebeis desse Cálice, lembrais a Morte do Senhor, até que Ele volte." 1 Cor 11,26
    Pois Ele é Nossa Páscoa, nossa passagem para a Jerusalém Celestial (cf. Ap 21,2), para a Vida Eterna: "Pois Nossa Páscoa, Cristo, foi imolada. Celebremos, pois, a festa, não com o velho fermento nem com o fermento da malícia e da corrupção, mas com os Pães sem fermento, de pureza e de Verdade." 1 Cor 5,8
    E o Apóstolo dos Gentios assim tratava de ensinar por onde passava, como explicou aos cristãos da cidade de Corinto, garantindo-lhes a fidelidade à Sagrada Tradição, e assim também afirmando a primazia da Tradição Oral frente ao Novo Testamento: "Eu recebi do Senhor o que vos transmiti: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão e, depois de ter dado graças, partiu-O e disse: 'Isto é Meu Corpo, que é entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim.' Do mesmo modo, depois de haver ceado, também tomou o cálice, dizendo: 'Este Cálice é a Nova Aliança em Meu Sangue. Todas vezes que O beberdes, fazei-o em memória de Mim.'" 1 Cor 11,23-25
    Mas ele também adverte que não confundamos a Santa Eucaristia com qualquer outro rito: "Não podeis beber ao mesmo tempo o Cálice do Senhor e o cálice dos demônios. Não podeis participar ao mesmo tempo da Mesa do Senhor e da mesa dos demônios. Ou queremos provocar a ira do Senhor? Acaso somos mais fortes que Ele?" 1 Cor 10,21-22


"FELIZES OS CONVIDADOS"

    Ele fala da necessária penitência para que se esteja em dia com os Mandamentos de Deus, e assim possamos participar da Comunhão Eucarística: "Portanto, todo aquele que indignamente comer o Pão ou beber o Cálice do Senhor, será culpável do Corpo e do Sangue do Senhor. Que cada um se examine a si mesmo, e assim coma desse Pão e beba desse Cálice. Aquele que O come e O bebe sem distinguir o Corpo do Senhor, come e bebe sua própria condenação. Esta é a razão porque entre vós há muitos adoentados e fracos, e muitos mortos." 1 Cor 11,27-30
    Pois a verdadeira se vive perante os olhos de Deus, como a Primeira Carta de São Paulo a São Timóteo pedia a todos: "... que guardem o mistério da fé numa pura consciência." 1 Tm 3,9
    Ele mesmo dava exemplo, como alegou em sua defesa perante o procurador romano de Judeia, Felix, e os principais dos judeus, quando foi julgado em Cesareia: "Por isso, sempre procuro ter sem mácula minha consciência diante de Deus e dos homens." At 24,16
    Porque nosso Batismo, antes de tudo, é um pedido a Deus em virtude da Ressurreição de Cristo, como a Primeira Carta de São Pedro argumenta: "Esta Água prefigurava o Batismo de agora, que também salva a vós, não pela purificação das impurezas do corpo, mas pela que consiste em pedir a Deus uma boa consciência, pela Ressurreição de Jesus Cristo." 1 Pd 3,21
    E nós nada podemos sem a Graça, pela qual São Paulo exulta: "A razão de nossa Glória é esta: o testemunho de nossa consciência de que, no mundo e particularmente entre vós, temos agido com santidade e sinceridade diante de Deus, não conforme o espírito de sabedoria do mundo, mas com o socorro da Graça de Deus." 2 Cor 1,12
    Logo, na Carta aos Hebreus, os seguidores de sua tradição exaltam a inestimável dádiva que é o Sacrifício Pascal, que nos redime de todos pecados: "... quanto mais o Sangue de Cristo, que pelo Eterno Espírito Se ofereceu como vítima sem mácula a Deus, purificará nossa consciência das obras mortas para o serviço do Deus Vivo?" Hb 9,14b
    Porque quem bem se examina, deve confessar e pedir absolvição aos Sacerdotes da Santa Igreja, conforme o Sacramento que Jesus também instituiu pelo Espírito Santo, e desde a primeira aparição aos Apóstolos: "Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: 'Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, sê-lhes-ão perdoados. Àqueles a quem os retiverdes, sê-lhes-ão retidos.'" Jo 20,22-23
    Ora, os judeus também tinham restrições sobre quem poderia comer das coisas sagradas, como o próprio Deus disse a Abraão no Livro de Números: "Também te dou as primícias que os israelitas oferecerem ao Senhor: o melhor de seu óleo, de seu vinho e de seu trigo. Serão para ti as primícias dos produtos da terra que trouxerem ao Senhor. Todo membro de tua família, que estiver puro, delas poderá comer." Nm 18,12-13
    Quanto aos castigos a quem desrespeita a Comunhão, havia paralelo na história do povo de Deu, como São Paulo aponta: "Não quero que ignoreis, irmãos, que todos nossos pais estiveram debaixo da nuvem e que todos atravessaram o mar. Todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar, todos comeram do mesmo alimento espiritual, todos beberam da mesma bebida espiritual, pois todos bebiam da pedra espiritual que os seguia, e essa pedra era Cristo. Não obstante, a maioria deles desgostou a Deus, pois seus cadáveres cobriram o deserto. Estas coisas aconteceram para servir-nos de exemplo, a fim de não cobiçarmos más coisas, como eles as cobiçaram." 1 Cor 10,1-6
    E assim, por não acolherem Jesus como o Cristo, os judeus terminaram afastados da Santa Eucaristia. Invocando o Antigo Testamento como um convite, Nosso Salvador afirmou na parábola do grande banquete: "Pois digo-vos: nenhum daqueles homens que foram convidados provará Minha Ceia." Lc 14,24
    Após o episódio em que multiplicou os 5 pães e os 2 peixes para a multidão, de fato, Ele apontou a mundana ânsia da mera e física saciação: "Em Verdade, em Verdade, digo-vos: buscais-Me não porque vistes os milagres, mas porque comestes dos pães e ficastes fartos." Jo 6,26
    Instou-nos, portanto, a buscar o Sagrado Alimento: "Trabalhai não pela comida que perece, mas pela que dura até a Vida Eterna, que o Filho do Homem vos dará. Pois n'Ele Deus Pai imprimiu Seu sinal." Jo 6,27
    E como para São Pedro, Seu Sumo Pontífice, foi claramente dito, os Sacerdotes da Igreja não podem descuidar dessa vital obrigação: "Disse-Lhe Pedro: 'Senhor, propões esta parábola só a nós ou também a todos?' O Senhor replicou: 'Qual é o sábio e fiel administrador que o Senhor estabelecerá sobre Seus operários para a seu tempo dar-lhes sua medida de trigo? Feliz daquele servo que o Senhor assim achar procedendo, quando vier! Em Verdade, digo-vos: confiá-lhe-á todos Seus bens.'" Lc 12,41-44
    Não por acaso, no Pai Nosso, ainda que também Se referindo ao diário alimento, Ele ensinou-nos a pedir ainda no Sermão da Montanha, de leitura no Evangelho segundo São Mateus: "O Pão Nosso de cada dia dai-nos hoje..." Mt 6,11
    Pois sobre o alimento propriamente dito, Ele já havia citado o Livro de Deuteronômio, quando por Satanás foi tentado no deserto: "Está escrito: 'Não só de pão vive o homem, mas de toda Palavra de Deus (Dt 8,3).'" Lc 4,4
    E criticando aqueles que em demasia se preocupam com as vísceras, Ele foi contundente desde Suas primeiras prédicas: "Portanto, eis que Eu vos digo: não vos preocupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo, pelo que vestireis. A vida não é mais que o alimento e o corpo não é mais que as vestes? Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, Vosso Pai Celeste sabe que necessitais de tudo isso. Antes buscai o Reino de Deus e Sua justiça, e todas estas coisas sê-vos-ão dadas em acréscimo." Mt 6,25.31-33
    Alertando para nossas obrigações de cristãos, disse mais: "Tenho um alimento para comer que vós não conheceis. Meu alimento é fazer a vontade d'Aquele que Me enviou e cumprir Sua obra." Jo 4,32.34
    Porque a obra do Pai é espiritual: "Perguntaram-Lhe: 'Que faremos para praticar as obras de Deus?' Respondeu-lhes Jesus: 'A obra de Deus é esta: que creiais n'Aquele que Ele enviou.'" Jo 6,28-29
    É conceder-nos a Vida Eterna, como Jesus descreveu o Evangelho perante os líderes judeus em Jerusalém: "Em Verdade, não falei por Mim mesmo, mas o Pai, que Me enviou, Ele mesmo prescreveu-Me o que devo dizer e o que devo ensinar. E Eu sei que Seu Mandamento é Vida Eterna." Jo 12,49-50a
    E isso Ele realiza através do Santíssimo Sacramento, que ofereceu na Santa Ceia e se perpetua até o fim dos tempos: "Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir Minha voz e Me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, Eu com ele e ele Comigo." Ap 3,20
    Uma vez nos Céus, porém, o alimento será outro, da própria árvore da Vida de que fala o Gênesis. Jesus prometeu ao Amado Discípulo nas revelações do Apocalipse: "'Ao vencedor darei de comer do fruto da árvore da Vida, que se acha no Paraíso de Deus.' O anjo então mostrou-me um rio de Água Viva, resplandecente como cristal de rocha, saindo do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da avenida e às duas margens do rio, achava-se uma árvore da Vida, que produz doze frutos, dando cada mês um fruto, servindo as folhas da árvore para curar as nações." Ap 2,7;22,1-2
    Pois ela é a árvore da própria Vida Eterna, como o Livro de Gênesis registrou logo após Eva ser seduzida pela Serpente: "E o Senhor Deus disse: 'Eis que o homem se tornou como um de Nós, conhecedor do bem e do mal. Agora, pois, cuidemos que ele não estenda sua mão e também tome do fruto da árvore da Vida, e coma-o e viva eternamente.'" Gn 3,22
    O Arcanjo São Rafael, aliás, deu este singular detalhe sobre a alimentação dos anjos, falando a Tobit no Livro de Tobias, seu filho: "Parecia-vos que convosco eu comia e bebia, mas meu alimento é um invisível manjar, e minha bebida não pode ser vista pelos homens." Tb 12,19
    E a entrada dos eleitos na Vida Eterna terá a festividade de um indizível banquete, como o Cordeiro de Deus ordenou a São João Evangelista: "Escreve: 'Felizes os convidados para a Ceia das Núpcias do Cordeiro.'" Ap 19,9
    Mas enquanto aqui na Terra, e sobre a necessária 'digestão' da Palavra de Deus, São Paulo vai dizer aos inconstantes: "Eu dei-vos leite a beber, e não sólido alimento que ainda não podíeis suportar. Nem ainda agora o podeis, porque ainda sois carnais." 1 Cor 3,2
    Os seguidores de sua tradição também reclamavam: "Muita coisa teríamos a dizer sobre isso, e coisas bem difíceis de explicar, dada vossa lentidão em compreender... A julgar pelo tempo, já devíeis ser mestres! Contudo, ainda necessitais que vos ensinem os primeiros rudimentos da Palavra de Deus, e tornaste-vos tais que precisais de leite em vez de sólido alimento! Ora, quem se alimenta de leite não é capaz de compreender uma profunda doutrina, porque é ainda criança. Mas o sólido alimento é para os adultos, para aqueles que a experiência já exercitou na distinção do bem e do mal." Hb 5,11-14
    O Príncipe dos Apóstolos, no mesmo sentido, vai falar de outro leite: "Deponde, pois, toda malícia, toda astúcia, fingimentos, invejas e toda espécie de maledicência. Como recém-nascidas crianças, com ardor desejai o leite espiritual, que vos fará crescer para a Salvação..." 1 Pd 2,1-2
    Com efeito, os últimos 20 anos da vida de São Nicolau de Flüe, nos quais apenas se alimentou da Hóstia Consagrada, demonstram que só o Pão do Céu é realmente essencial. Assim também foram as experiências de inédia da estigmata alemã Teresa Neumann e da Beata portuguesa Alexandrina Maria da Costa, que viveram no século passado e tiveram suas místicas amplamente documentadas.
    Se realmente quisermos viver, portanto, temos o Sacrifício Pascal oferecido por Jesus, por Quem, uma vez a Ele achegados, somos saciados de tudo, já não carecemos de nada: "Eu sou o Pão da Vida. Aquele que vem a Mim não terá fome, e aquele que crê em Mim jamais terá sede." Jo 6,35
    A multidão, que havia comido dos pães e dos peixes multiplicados, bem entendeu Sua mensagem: "Senhor, dá-nos sempre deste Pão!" Jo 6,34

    "Todas vezes que comemos deste Pão e bebemos deste Cálice, anunciamos, Senhor, Vossa Morte, enquanto esperamos Vossa Vinda!"

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

A Vaidade


COMO SOBERBA

    A soberba foi o verdadeiro pecado original, o pecado de Eva e Adão, ao acharem que, comendo o fruto da árvore da ciência, poderiam saber por si mesmos o que é certo e errado, desprezando os Mandamentos de Deus. O Livro de Gênesis narra: "'Oh, não!', respondeu a Serpente, 'Vós não morrereis! Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão. E sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal.'" Gn 3,4-5
    Em oposta atitude, e por isso tão louvável, foi a inspiração de Salomão, no Primeiro Livro de Reis, que pediu Sabedoria a Deus: "Dai a Vosso servo, pois, um sábio coração, capaz de julgar Vosso povo e discernir entre o bem e o mal." 1 Rs 3,9a
    E assim é tão preciso o conselho, no Livro de Tobias, que ele recebe seu pai Tobit: "Nunca permitas que o orgulho domine teu espírito ou tuas palavras, porque ele é a origem de todo mal." Tb 4,14
    Da vida nas primeiras metrópoles, a Primeira Carta de São Paulo a São Timóteo apontava um dos reflexos da soberba: a ânsia de poder. Mas sempre o maior dos males: "Porque a raiz de todos males é o amor ao dinheiro. Acossados pela cobiça, alguns desviaram-se da e enredaram-se em muitas aflições." 1 Tm 6,10
    Ela, contudo, tem várias outras formas de expressão, como veremos no culto à beleza. Ora, Deus falou no Livro do Profeta Jeremias: "Eis o que diz o Senhor: 'Não se envaideça o sábio do saber, nem o forte de sua força, e não se orgulhe o rico da riqueza!'" Jr 9,22
    Pois a verdadeira Sabedoria, como Salomão bem demonstrou, é fazer a vontade de Deus. A Carta de São Paulo aos Efésios prega: "Vivei como filhos da Luz. E o fruto da Luz chama-se: bondade, justiça, Verdade. Discerni o que agrada ao Senhor e não tenhais cumplicidade nas infrutíferas obras das trevas. Pelo contrário, abertamente condenai-as." Ef 5,8b-11
    E a Carta de São Paulo aos Filipenses lamenta pelas pessoas "... cujo destino é a perdição, cujo deus é o ventre, para quem a própria desonra é causa de envaidecimento, e só têm prazer no que é terreno." Fl 3,19
    Na Carta de São Paulo aos Romanos, vemos que ele tinham presente que o orgulho, por suas pretensões de dominação, atenta contra a boa convivência: "Vivei em boa harmonia uns com os outros. Não vos deixeis levar pelo gosto das grandezas, afeiçoai-vos às modestas coisas. Não sejais sábios aos vossos próprios olhos." Rm 12,16
    A Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios dizia algo parecido: "Que os homens nos considerem, pois, como simples operários de Cristo e administradores dos mistérios de Deus. Se apliquei tudo isso a mim e a Apolo, foi por vossa causa, para que por meio de nós aprendais a não ultrapassar o que está escrito, e não vos ensoberbeçais tomando partido a favor de um e em prejuízo de outro. O que há de superior em ti? Que é que possuis que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se o não tivesses recebido? " 1 Cor 4,1.6-7
    Conhecedor das verdadeiras bênçãos, ele pedia: "Em virtude da Graça que me foi dada, recomendo a todos e a cada um: não façam de si próprios uma opinião maior que convém, mas um razoavelmente modesto conceito, de acordo com o grau de fé que Deus lhes distribuiu." Rm 12,3
    Ora, o Livro de Eclesiástico sugere a humildade do silêncio como modo de despertar os corações: "Ouve em silêncio, e tua modéstia provocará a benevolência." Eclo 32,9
    Do contrário, é terminativo: "O orgulho é abominável a Deus... O início do orgulho num homem é renegar a Deus, pois seu coração se afasta d'Aquele que o criou. Porque o princípio de todo pecado é o orgulho e aquele que nele se compraz será coberto de maldições, e por elas acabará sendo derrubado." Eclo 10,7a.14-15
    E via as trevas como destino daqueles que assim se mantém impenitentes: "Para o mal do orgulhoso não existe remédio, pois uma planta de pecado está enraizada nele, e ele não compreende." Eclo 3,30
    Entre os religiosos, a Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios aponta o que realmente deve prevalecer: "Ademais, para que a grandeza das revelações não me levasse ao orgulho, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás para esbofetear-me e livrar-me do perigo da vaidade. Três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim, mas Ele disse-me: 'Basta-te Minha Graça, porque é na fraqueza que por inteiro se revela Minha força.' Portanto, prefiro gloriar-me de minhas fraquezas, para que em mim habite a força de Cristo." 2 Cor 12,7-10
    De fato, para começar, ser católico implica na negação de si mesmo, porque Jesus convidou ao caminho da Cruz desde que foi identificado como Cristo por São Pedro. Está no Evangelho segundo São Mateus: "Se alguém quiser vir Comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-Me." Mt 16,24b
    Ele deixou esse ensinamento à Santa Igreja, no Evangelho segundo São Lucas: "Assim vós, depois de terdes feito tudo que vos foi ordenado, também dizei: 'Somos inúteis servos. Apenas fizemos o que devíamos fazer.'" Lc 17,10
    Denunciou escribas e fariseus, em Suas últimas pregações em Jerusalém: "Gostam dos primeiros lugares nos banquetes e das primeiras cadeiras nas sinagogas. Gostam de ser saudados nas praças públicas e de ser chamados 'rabi' pelos homens." Mt 23,6-7
    E no Livro do Apocalipse de São João, Nosso Senhor mandou um claro recado à igreja da cidade de Laodiceia, uma das sete da Ásia de então: "Pois dizes: 'Sou rico, faço bons negócios, de nada necessito', e não sabes que és infeliz, miserável, pobre, cego e nu. Aconselho-te que de Mim compres ouro provado ao fogo, para ficares rico; alvas roupas para vestir-te, a fim de que não apareça a vergonha de tua nudez; e um colírio para ungir os olhos, para que possas claramente ver." Ap 3,17-18
    Não por acaso, ao ser questionado sobre os atributos de Jesus, São João Batista disse algo basilar, no Evangelho segundo São João: "Ninguém pode atribuir-se a si mesmo senão o que lhe foi dado do Céu." Jo 3,27b
    Sem dúvida, eis o que Jesus dizia sobre bens materiais, mesmo os mais essenciais como alimentos e vestes: "Ora, Vosso Pai Celeste sabe que necessitais de tudo isso. Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e Sua justiça, e todas estas coisas sê-vos-ão dadas em acréscimo." Mt 6,32b-33
    Assim, a todos São Paulo recomenda a evangélica pobreza, a plena confiança na Divina Providência: "Tendo alimento e vestuário, contentemo-nos com isto. Aqueles que ambicionam tornar-se ricos caem nas armadilhas do Demônio e em muitos insensatos e nocivos desejos, que precipitam os homens no abismo da ruína e da perdição." 1 Tm 6,8-9
    E ao descrever o verdadeiro amor, o Apóstolo dos Gentios diz: "O amor é paciente, é benfazejo; não é invejoso, não é presunçoso nem se incha de orgulho. Nada faz de vergonhoso, não é interesseiro... " 1 Cor 13,4-5
    Ora, o Livro de Sabedoria já avisava aos que estão no poder: "Amai a justiça, vós que governais a Terra. Tende para com o Senhor perfeitos sentimentos, e procurai-O em simplicidade de coração..." Sb 1,1
    No mesmo sentido, o Eclesiástico recomendava: "Na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade, e assim encontrarás Graça diante do Senhor." Eclo 3,20a
    No Livro de Salmos, um canto atribuído ao próprio rei Davi também os inqueriu: "Ó poderosos, até quando tereis o coração endurecido, no amor das vaidades e na busca da mentira?" Sl 4,3
    Ciente do perigo desse pecado, ele pede a Deus: "Também preservai Vosso servo do orgulho. Não domine ele sobre mim, então serei íntegro e limpo de grave falta." Sl 18,14
    E São Paulo, através de São Timóteo, mandou um recado aos que se vangloriam do que possuem: "Exorta os ricos deste mundo a que não sejam orgulhosos nem ponham sua esperança em volúveis riquezas, mas em Deus, que abundantemente nos dá todas coisas para delas fruirmos." 1 Tm 6,17
    O Livro do Profeta Isaías, por sua vez, predisse contra toda jactância: "A pretensão dos mortais será humilhada, o orgulho dos homens será abatido." Is 2,17
    E referindo-Se à soberba disfarçada em forma de caridade, Jesus aconselhou a todos: "Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Do contrário, não tereis recompensa junto a Vosso Pai que está no Céu." Mt 6,1
    Ele determinou: "Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita." Mt 6,3
    Quanto às posses, também deixou um recado aos presunçosos, aludindo ao inimigo que se apossa das almas: "E propôs-lhe esta parábola: 'Havia um rico homem cujos campos muito produziam. E ele refletia consigo: 'Que farei? Porque não tenho onde recolher minha colheita.' Então disse ele: 'Farei o seguinte: derrubarei meus celeiros e construirei maiores. Neles recolherei toda minha colheita e meus bens. E direi à minha alma: ó minha alma, tens muitos bens em depósito para muitíssimos anos. Descansa, come, bebe e regala-te!' Deus, porém, disse-lhe: 'Insensato! Ainda nesta noite exigirão de ti tua alma. E as coisas, que ajuntaste, de quem serão?'" Lc 12,16-20
    E lamentou por aqueles que se bastam pela opulência, pelo ventre, pela futilidade e pela lisonja, ao invés de contentar-se com a consolação de Deus: "Mas ai de vós, ricos, porque tendes vossa consolação! Ai de vós, que estais fartos, porque vireis a ter fome! Ai de vós, que agora rides, porque gemereis e chorareis! Ai de vós, quando vos louvarem os homens, porque assim faziam os pais deles aos falsos profetas!" Lc 6,24-26
    O Livro de Provérbios contundentemente também advertia sobre a ganância que passa por cima da moralidade: "Tesouros adquiridos pela mentira: passageira vaidade para aqueles que procuram a morte." Pr 21,16
    Arguto observador, a Carta de São Paulo aos Colossenses vê no apego a bens materiais a causa dessas ilusões: "Desencaminham-se estas pessoas em suas próprias visões, cheias do vão orgulho de seu materialista espírito..." Cl 2,18
    Assim como a idolatria ao ego, conforme a Carta de São Paulo aos Gálatas: "Quem pensa ser alguma coisa, não sendo nada, engana-se a si mesmo." Gl 6,3
    Ou a torpes prazeres, mas sempre o desprezo aos Mandamentos em nome de uma falsa sabedoria, fonte de todos males: "Trocaram a Verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador, que é bendito pelos séculos. Amém! Por isso, Deus entregou-os a vergonhosas paixões: suas mulheres mudaram as naturais relações por relações contra a natureza. Do mesmo modo, os homens, deixando o natural uso da mulher, também arderam em desejos uns para com os outros, cometendo homens com homens a torpeza, e recebendo em seus corpos a devida paga por seu desvario. Como não se preocupassem em adquirir o conhecimento de Deus, Deus entregou-os a depravados sentimentos, e daí seu indigno procedimento. São repletos de toda espécie de malícia, perversidade, cobiça, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade. São difamadores, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, soberbos, altivos, inventores de maldades, rebeldes aos pais. São insensatos, desleais, sem coração, sem misericórdia. Apesar de conhecerem o justo decreto de Deus que considera dignos de morte aqueles que fazem tais coisas, não somente as praticam, como também aplaudem aqueles que as cometem." Rm 1,25-32
    Em censura, ele fala do poder que o anúncio da Palavra de Deus lhe confere contra a arrogância: "Nós aniquilamos todo raciocínio e todo orgulho que se levanta contra o conhecimento de Deus, e cativamos todo pensamento e reduzimo-lo à obediência a Cristo." 2 Cor 10,5
    E pregando a autêntica religiosidade, tal qual a submissão de Cristo, ele repreende os comerciantes da fé: "Quem ensina de outra forma e discorda das salutares palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, bem como da Doutrina conforme à piedade, é um obcecado pelo orgulho, um ignorante, doentio por ociosas questões e contendas de palavras. Daí se originam a inveja, a discórdia, os insultos, as injustas suspeitas, os vãos conflitos entre homens de corrompido coração e privados da Verdade, que na piedade só vêem uma fonte de lucro." 1 Tm 6,3-5
    Mesmo com o anúncio do Evangelho, porém, a Segunda Carta de São Paulo a São Timóteo tem más notícias sobre os futuros tempos: "Os homens tornar-se-ão egoístas, avarentos, fanfarrões, soberbos, rebeldes aos pais, ingratos, malvados, desalmados, desleais, caluniadores, devassos, cruéis, inimigos dos bons, traidores, insolentes, cegos de orgulho, amigos dos prazeres e não de Deus, ostentarão a aparência de piedade, mas desdenharão de sua autoridade." 2 Tm 3,2-5
    Por isso, admoestava a mais completa humildade entre os cristãos: "Sujeitai-vos uns aos outros no temor de Cristo." Ef 5,21
    E quanto ao sincero culto a Deus, o salmista pergunta-se e, logo em seguida, responde-se: "Quem será digno de subir ao monte do Senhor? Ou de permanecer em Seu santo lugar? Aquele que tem limpas mãos e puro coração, cujo espírito não busca as vaidades nem perjura para enganar seu próximo." Sl 23,3-4

COMO EXIBICIONISMO 

    Mesmo àquela época, na qual a atual sociedade vê tanto machismo, a vaidade feminina já havia ultrapassado em muito a medida do bom senso. No Livro de Isaías, lê-se a longa lista: "E o Senhor disse: 'Já que são pretensiosas as filhas de Sião, e andam com o pescoço emproado, fazendo acenos com os olhos e caminham com passo afetado, fazendo retinir as argolas de seus tornozelos, o Senhor tornará sua cabeça calva e desnudará sua fronte. Naquele tempo, o Senhor tirá-lhe-á as jóias, as argolas, os colares, as lúnulas, os brincos, os braceletes e os véus, os diademas, as cadeias, os cintos, os frascos de perfumes e os amuletos, os anéis e os pingentes da fronte, os vestidos de festa, os mantos, as gazas e as bolsas, os espelhos, as musselinas, os turbantes e as mantilhas.'" Is 3,16-22
    São Paulo também se pronunciou sobre o assunto, ao falar à comunidade cristã: "Do mesmo modo, quero que as mulheres usem honesto traje, ataviando-se com modéstia e sobriedade. Seus enfeites consistam não em primorosos penteados, ouro, pérolas, vestidos de luxo, e sim em boas obras, como convém a mulheres que professam a piedade." 1 Tm 2,9-10
    Ainda a Primeira Carta de São Pedro: "Não seja vosso adorno o que externamente aparece: cabelos trançados, ornamentos de ouro, vestidos elegantes. Mas tende aquele interior e oculto ornato do coração, a incorruptível pureza de um suave e pacífico espírito, que é tão precioso aos olhos de Deus. Era assim que outrora se adornavam as santas mulheres que esperavam em Deus e eram submissas a seus maridos, como Sara que obedecia a Abraão, chamando-o de senhor. Dela tornai-vos filhas pela prática do bem sem temor de perturbação alguma." 1 Pd 3,3-6
    E os Provérbios assim discorrem: "Um anel de ouro no focinho de um porco: tal é a formosa mulher, mas indiscreta." Pr 11,22
    Seguem: "A graciosidade é enganosa, e a beleza é fugaz. Mas a mulher que teme o Senhor será louvada." Pr 31,30
    Certas roupas, então, são-lhes características: "Vi entre os imprudentes, entre os jovens, um incauto adolescente: passava ele na rua perto da morada de uma destas mulheres... Eis que uma mulher lhe sai ao encontro, ornada como uma prostituta e com falsidade no coração." Pr 7,7-8b.10
    Pois Jesus mesmo recriminou tais 'preocupações': "... o corpo não é mais que as vestes? E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam. Entretanto, Eu digo-vos que o próprio Salomão, no auge de sua glória, não se vestiu como um deles. Se Deus assim veste a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Não vos aflijais, nem digais: 'Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos?' São os pagãos que se preocupam com tudo isso." Mt 6,25.28-32a
    Disse mais: "... a carne de nada serve." Jo 6,63
    Também recriminou 'ornamentos' de certos 'religiosos': "Fazem todas suas ações para serem vistos pelos homens, por isso trazem largos filactérios e longas franjas em seus mantos." Mt 23,5
    Um grupo deles, em específico, no Evangelho segundo São Marcos: "Guardai-vos dos escribas que gostam de passear com compridas togas, de ser cumprimentados nas praças públicas..." Mc 12,38
    Porque, como Ele denuncia, vestimentas e aparências não escondem dos olhos de Deus os pecados e as abominações: "Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Sois semelhantes a sepulcros caiados: por fora parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos, de cadáveres e de toda espécie de podridão. Assim vós: por fora também pareceis justos aos olhos dos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade." Mt 23,27-28
    De toda forma, pediu que a tudo examinássemos em profundidade: "Não julgueis pela aparência, mas julgai conforme a justiça." Jo 7,24
    O Eclesiástico, com propriedade, diz uma estrondosa verdade: "Nunca te glories de tuas vestes, nem te engrandeças no dia em que fores homenageado, pois só as obras do Altíssimo são admiráveis, dignas de Glória, misteriosas e invisíveis." Eclo 11,4
    Por fim, São João Crisóstomo, Doutor da Igreja e Padre Grego, que viveu entre 347 e 407, já observava sobre os femininos trajes e posturas: "Tu carregas tua armadilha por toda parte e espalha tuas redes por todos lugares. Tu alegas nunca ter convidado outros a pecar. De fato, não o fizeste com tuas palavras, mas fizeste-o com tuas roupas e teu comportamento."
    E temos uma grande revelação numa frase de São João-Maria Vianney, Padroeiro do Padres, cujo corpo está incorrupto há quase dois séculos, dizendo do comportamento das mulheres de França no início de 1800: "... com suas provocantes e indecentes vestes, logo darão a entender que são um instrumento de que se serve o inferno para perder as almas. Só no Tribunal de Deus saber-se-á o número de pecados de que foram causa."

COMO COISAS VÃS

    O Livro de Eclesiastes longamente tratou da vaidade usando seu original significado, que vem daquilo que é vão, fútil, mas tudo vê com pessimismo, quase se entregando à indiferença do niilismo. É que a seu tempo ainda não estava consolidada a Doutrina da Ressurreição e da Vida Eterna, quando a divina justiça reparará todas coisas, e assim ele beira a apostasia, ou seja, o abandono da fé. Jamais contesta, porém, as benesses da Divina Graça, e em vários momentos termina refazendo-se de seus queixumes. Por fim, e apesar de sua incipiente visão da condição humana, pois por si mesma a Criação é repleta de beleza e alegria, desfere um duro golpe, ainda que parcial, na vanglória atribuída a coisas que, se não legitimadas ou abençoadas por Deus, se tornam realmente vãs.
    Ele começa o Livro num rompante de exagero, generalizando: "Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade. Vi tudo que se faz debaixo do sol, e eis: tudo vaidade, e vento que passa." Ecl 1,2.14
    Desolado, ele descrê até dos felizes momentos: "Eu disse comigo mesmo: 'Vamos, tentemos a alegria e usufruamos das boas coisas.' Mas isso também é vaidade." Ecl 2,1
    Recorreu a seu trabalho, que até então lhe tinha dado muito gosto: "Mas quando me pus a considerar todas obras de minhas mãos, e o trabalho ao qual me tinha dado para fazê-las, eis: tudo é vaidade e vento que passa. Nada há de proveitoso debaixo do sol." Ecl 2,11
    Valeu-se de sua sabedoria, mas, sem atinar para a inspiração do Espírito Santo e para a Vida Eterna, só vê a morte como destino de todos: "Minha sorte será a mesma do insensato. Então para que me serve toda minha sabedoria? Por isso, disse comigo mesmo que tudo isso ainda é vaidade." Ecl 2,15
    Como era de esperar-se, amargurou-se: "E eu detestei a vida, porque, a meus olhos, tudo é mau no que se passa debaixo do sol, tudo é vaidade e vento que passa." Ecl 2,17
    Contraditório, pois esquece ter desprezado qualquer deleite, fala que alguém vai 'dispor', quando imagina quem vai usufruir de seus bens após sua morte: "E quem sabe se ele será sábio ou insensato? Contudo, é ele que disporá de todo fruto de meus trabalhos, que debaixo do sol me custaram esforço e sabedoria. Isso também é vaidade." Ecl 2,19
    Segundo seu amargo entendimento, nem a noite traz sossego ao ser humano: "Todos seus dias são apenas dores, seu trabalhos, apenas tristezas. Mesmo durante a noite, ele não goza de descanso. Isto ainda é vaidade." Ecl 2,23
    Deus não lhe parece olhar pelos pecadores, que, em outra contradição, seriam meros instrumentos para a 'alegria' dos 'justos': "Àquele que Lhe é agradável, Deus dá Sabedoria, ciência e alegria. Mas ao pecador dá a tarefa de recolher e acumular bens, que depois passará a quem Lhe agradar. Isto ainda é vaidade e vento que passa." Ecl 2,25
    E mesmo os 'escolhidos' sofrem grandes revezes, e de novo contradiz-se, que outro terá o 'gozo': "Isto é, um homem a quem Deus deu sorte, riquezas e honras. Nada que possa desejar lhe falta, mas Deus não lhe concede o gozo, reservando-o a um estrangeiro. Isso é vaidade e dor." Ecl 6,12
    Por vezes, até os desígnios de Deus seriam-lhe absolutamente injustos: "Há outra vaidade que acontece na Terra: há justos, aos quais acontecem males como se tivessem praticado as obras dos ímpios, e há ímpios aos quais tudo corre bem, como se tivessem praticado as obras dos justos. Pois isso também julgo uma grande vaidade." Ecl 8,14
    Nem o local da sepultura daqueles que fazem o bem dignificaria suas vidas, mas só alguns ímpios: "... vi ímpios receberem sepultura e gozarem de repouso, enquanto que aqueles que tinham feito o bem iam para longe do santo lugar e eram esquecidos na cidade. Isto ainda é vaidade." Ecl 8,10
    E até os animais teriam o mesmo destino que os seres humanos: "Porque o destino dos filhos dos homens e o destino dos brutos é o mesmo: um mesmo fim espera-os. A morte de um é a morte do outro. A ambos foi dado o mesmo sopro, e a vantagem do homem sobre o bruto é nula, porque tudo é vaidade." Ecl 3,19
    Ele chega, enfim, ao total pessimismo em relação à vida, embora falando em felicidade dos mortos e dos abortados: "E julguei os mortos, que estão mortos, mais felizes que os vivos que ainda estão em vida, e mais feliz que uns e outros o aborto que não chegou à existência, aquele que não viu o mal que se comete debaixo do sol." Ecl 4,2-3
    Contrariando-se ainda mais uma vez ao considerar que existe bem-estar, volta a reafirmar a mesma e pessimista visão em relação ao trabalho do homem sem filhos: "Ainda vi outra vaidade debaixo do sol: eis um homem sozinho, sem alguém junto a si, nem filho, nem irmão. Trabalha sem parar, e, não obstante, seus olhos não se fartam de riquezas. Para quem trabalho eu, privando-me de todo bem-estar? Eis uma vaidade e um ingrato trabalho." Ecl 4,7-8
    E assim em relação às riquezas: "Aquele que ama o dinheiro nunca se fartará, e aquele que ama a riqueza dela não tira proveito. Isso também é vaidade." Ecl 5,9
    Em relação à duração da vida, por causa dos difíceis dias: "Por mais numerosos que sejam os anos de vida, regozija-se o homem em todos eles, mas deve pensar nos obscuros dias que serão numerosos. Tudo que acontece é vaidade." Ecl 11,8
    Em relação à juventude: "Exclui a tristeza de teu coração, poupa o sofrimento a teu corpo, porque a juventude e a adolescência são vaidade." Ecl 11,10
    Tudo estaria fadado ao esquecimento da morada dos mortos: "Tudo que tua mão encontra para fazer, faze-o com todas tuas faculdades, pois na região dos mortos, para onde vais, não há mais trabalho, nem ciência, nem inteligência, nem Sabedoria." Ecl 9,12
    Ao final, porém, conhecedor do Juízo Final, embora sem saber qual seria sua finalidade, ele recomenda obediência a Deus: "Em conclusão: tudo bem entendido, teme a Deus e observa Seus preceitos, é este o dever de todo homem. Deus fará prestar contas de tudo que está oculto, todo ato, seja ele bom ou mau." Ecl 12,14
    Um salmista, que também não conhecia a revelação da Vida Eterna, igualmente olhou a vida com pessimismo: "Setenta anos é o total de nossa vida, os mais fortes chegam aos oitenta. A maior parte deles é sofrimento e vaidade, porque passa depressa o tempo, e desaparecemos." Sl 89,10


SEMPRE UM PECADO

    O Eclesiástico, porém, mostrava-se bem menos pessimista. Via a vaidade, ou seja, as coisas vãs, apenas como uma ilusão dos insensatos: "O homem de mesquinho coração só pensa em vaidades; o imprudente e extraviado só se ocupa de loucuras." Eclo 16,23
    E também dos arrogantes: "Muitos foram enganados pelas próprias opiniões. Seu sentido reteve-os na vaidade." Eclo 3,26
    Dos que se negam a ajudar: "... não retenhas uma palavra que pode ser salutar, não escondas tua Sabedoria por tua vaidade." Eclo 4,28
    Ou via vaidade nas falsas profecias: "A adivinhação do erro, os mentirosos augúrios e os sonhos dos maus: tudo isso não passa de vaidade." Eclo 34,5
    Enfim, nos mortais: "Pois não se pode encontrar tudo nos homens, porque os homens não são imortais e se comprazem na vaidade e na malícia." Eclo 17,29
    Os Provérbios também ensinam que o culto às coisas vãs é um trágico erro: "O que cultiva seu solo, terá pão à vontade; o que corre atrás das vaidades, fartar-se-á de miséria." Pr 28,19
    Assim também o salmista, quando canta a Deus: "Não permitais que meus olhos vejam a vaidade, fazei-me viver em vossos caminhos." Sl 148,37
    Ele aponta a completa insensatez: "Em sua arrogância, o ímpio diz: 'Não há castigo, Deus não existe.' É tudo e só o que ele pensa." Sl 9,25
    E traça um fiel retrato dos soberbos: "Dos sofrimentos dos mortais não participam, não são atormentados como outros homens. Eles adornam-se com um colar de orgulho, e cobrem-se com um manto de arrogância. Da gordura que os incha, sai a iniquidade e transborda a temeridade. Zombam e falam com malícia, discursam, altivamente, em tom ameaçador. Com seus propósitos, afrontam o Céu e suas línguas ferem toda Terra." Sl 72,5-9
    Ora, São Paulo revelou que a vaidade foi o pecado de Satanás, por isso pede a São Timóteo que não se apresse em ordenar como bispos homens recém-convertidos: "... para não acontecer que, ofuscado pela vaidade, venha a cair na mesma condenação que o Demônio." 1 Tm 3,6
    Também afirma que foi pela fraqueza da vaidade que o inimigo sujeitou a humanidade: "Pois a criação foi sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por vontade daquele que a sujeitou, todavia com a esperança de ser ela libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus." Rm 8,20-21
    Mesmo após tantos esforços de evangelização, ele ainda receava encontrar entre os cristãos de Corinto os efeitos da vaidade: "Temo que, quando for, não vos ache quais eu quisera, e que vós me acheis qual não quereríeis. Entre vós receio encontrar contendas, invejas, rixas, dissensões, calúnias, murmurações, arrogâncias e desordens." 2 Cor 12,20
    E nestes termos resume o que significa ser cristão: "Pois os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as paixões e concupiscências. Se vivemos pelo Espírito, também andemos de acordo com o Espírito. Não sejamos ávidos de vanglória." Gl 5,24-26a
    A Primeira Carta de São João, categoricamente falando, aponta as três más propensões, que são os exageros fisiológicos, materiais e espirituais : "Porque tudo que há no mundo, a saber, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, isso não procede do Pai, mas do mundo." 1 Jo 2,16
    Já a Sabedoria se pergunta pelas virtudes, e admitindo nossos pecados faz uma bela e poética comparação: "O que ganhamos com nosso orgulho, e o que nos trouxe a riqueza unida à arrogância? Como a ave que, atravessando o ar em seu voo, após si não deixa rastro de sua passagem, mas, ferindo o ar com suas penas, fende-o com a impetuosa força do bater de suas asas, atravessa-o e logo nem se nota indício de sua passagem, assim nós, apenas nascidos, também começamos a desaparecer sem nenhum sinal de virtude. É no mal que nossa vida se consumiu!" Sb 5,8.11.13
    Nosso Salvador, enfim, aponta na compulsão ao pecado uma pura e simples escravidão: "... todo homem que se entrega ao pecado é seu escravo." Jo 8,34
    E a Segunda Carta de São Pedro detalha: "... é porque o Senhor sabe livrar os piedosos das provações e reservar os ímpios para serem castigados no Dia do Juízo, principalmente aqueles que com impuros desejos correm atrás dos prazeres da carne e desprezam a autoridade. Audaciosos, arrogantes, não temem injuriosamente falar das Glórias, quando nem mesmo os anjos, superiores em força e poder, contra elas não pronunciem um injurioso julgamento aos olhos do Senhor. Mas estes, quais brutos destinados pela lei natural para a presa e para a perdição, injuriam o que ignoram, e assim da mesma forma perecerão: esse será o salário de sua iniquidade. Encontram suas delícias em entregar-se, em plena luz do dia, às suas libertinagens. Pervertidos e imundos, sentem prazer em enganar enquanto se banqueteiam convosco. Têm os olhos cheios de adultério e são insaciáveis no pecar. Por seus atrativos, seduzem as inconstantes almas, têm o coração acostumado à cobiça, são filhos da maldição. Estes são fontes sem água e nuvens agitadas por turbilhões, destinados à profundeza das trevas. Com palavras tão vãs quanto enganadoras, pelas carnais paixões e pela devassidão atraem aqueles que mal acabam de escapar dos homens que vivem no erro. Prometem-lhes a liberdade, quando eles mesmos são escravos da corrupção, pois o homem é feito escravo daquele que o venceu." 2 Pd 2,9-14.17-19
    A Carta de São Judas, da mesma forma, enquanto exalta o exemplo do nosso Anjo Guerreiro, denuncia, citando um livro apócrifo: "Assim estes homens, em seu louco desvario, igualmente contaminam a carne, desprezam a autoridade e maldizem as Glórias. Ora, quando o Arcanjo Miguel discutia com o Demônio e disputava-lhe o corpo de Moisés, contra ele não ousou fulminar uma sentença de execração, mas somente disse: 'Que o próprio Senhor te repreenda!' Henoc, que foi o oitavo patriarca depois de Adão, também profetizou a respeito deles, dizendo: 'Eis que veio o Senhor entre milhares de Seus santos para julgar a todos e confundir a todos ímpios, por causa das obras de impiedade que praticaram e por causa de todas injuriosas palavras que eles, ímpios, têm proferido contra Deus.' Estes são descontentes murmuradores, homens que vivem segundo suas paixões, cuja boca profere soberbas palavras e que por interesse admiram os demais. Mas vós, caríssimos, lembrai-vos das palavras que vos foram preditas pelos Apóstolos de Nosso Senhor Jesus Cristo, os quais vos diziam: 'No fim dos tempos virão impostores, que viverão segundo suas ímpias paixões. Homens que semeiam a discórdia, homens sensuais que não têm o Espírito.'" Jd 8-9.14-19
    E como caminho oposto ao da vaidade, Jesus recomenda, aos que realmente querem servir a Deus por vocação, a perfeita santidade, o total abandono nas mãos da Divina Providência, como disse ao rico jovem: "Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois vem e segue-Me!" Mt 19,21
    Pois o Verbo de Deus é a resposta aos humanos anseios quanto à ciência do bem e o mal, que Eva e Adão cobiçavam. Os seguidores da tradição de São Paulo, na Carta aos Hebreus, queixaram-se: "A julgar pelo tempo, já devíeis ser mestres! Contudo, ainda necessitais que vos ensinem os primeiros rudimentos da Palavra de Deus, e tornaste-vos tais que precisais de leite em vez de sólido alimento! Ora, quem se alimenta de leite não é capaz de compreender uma profunda doutrina, porque é ainda criança. Mas o sólido alimento é para os adultos, para aqueles que a experiência já exercitou na distinção do bem e do mal." Hb 5,12-14
    De sua profunda espiritualidade, por fim, Santa Faustina escreveu: "O orgulho mantém a alma nas trevas." (Diário, 113)
    E Jesus foi bem claro numa revelação a Santa Brígida: "O corpo de qualquer cristão guiado pela humildade é Meu santuário. Aqueles guiados pelo orgulho não são Meu santuário, são o santuário do Demônio, que os conduz na direção do mundano desejo com seus próprios propósitos." (Livro II, Capítulo IX)

    "Mandai Vosso Espírito Santo!"