quinta-feira, 23 de julho de 2026

Santa Brígida


    Birgitta Birgersdotter nasceu em 1303 na cidade de Norrtälje, na província de Uppland, de muito católica família. Seu pai, Birger Persson era nobre, conselheiro real e juiz de Tiundalândia, uma das três folclândias desta que era e continua sendo a mais importante província de Suécia. Seu avô materno era primo do rei de Suécia, ou seja, nossa Santa tinha sangue real.
    Era sobrinha-neta da Beata Ingrid Elofsdotter, fundadora de um convento dominicano na província de Ostrogothia. As famílias de seus pais foram berços de vários Santos e exemplos de benfeitores, tendo construído igrejas, mosteiros e hospitais com os próprios recursos. Seu pai, como exemplo, generosamente colaborou com igrejas e abadias, em particular o mosteiro beneditino cisterciense de Skoo. Santa Brígida também tinha esse pendor, e viveu a infância com a atenção voltada para a prática da caridade aos mais necessitados.
    Aos 7 anos relatou sua primeira visão de Nossa Senhora, que colocou uma belíssima coroa em sua cabeça, e aos 10, após uma aparição de Jesus torturado e morto, ouviu um sermão sobre a Paixão de Cristo e tomou-a como objeto de constante contemplação. Ainda aos 10 anos perdeu sua piedosa mãe, Ingeborg Bengtsdotter, e foi entregue pelo pai a sua tia materna, de tão esmerada formação quanto sua mãe, Catarina Bengtsdotter, na localidade de Aspanäs, próximo ao lago Sommen, na província de Östergötland. Mais tarde, demonstrando gratidão, ela vai homenagear essa tia dando seu nome a uma filha, que também seria levada aos altares, Santa Catarina de Suécia.


    Aos 13 anos, a contragosto, foi dada em casamento ao nobre e também juiz Ulf Gudmarsson, mas teve com ele uma vida feliz e foi mãe de quatro filhos, um deles também viria a ser juiz, e quatro filhas. Seu país havia acolhido a fé cristã havia mais de 300 anos, e Santa Brígida estava determinada a difundir ainda mais entre seu povo a Sã Doutrina da Salvação, fielmente preservando a educação que recebera de seus pais.
    Entrou com o marido para a Ordem Terceira Franciscana, que é formada de leigos, e logo fundaram um hospital para os indigentes. Ulf, que já era cristão e religioso, crescia em espiritualidade por influência de Santa Brígida, que, por sua vez, sempre com mais frequência se recorria aos estudiosos religiosos de seu país para melhor formação católica e aconselhamentos espirituais. E teve como mestre São Matias de Suécia, homem de grande poder espiritual em palavras e obras, invencível inimigo do Demônio e de heresias, além de luminoso comentarista da Bíblia.
    Após a morte de um de seus filhos, em 1341, o casal viajou a pé com alguns deles em peregrinação a Santiago de Compostela, mas, no caminho de volta, Ulf foi acometido de grave enfermidade. Estavam então em norte de França, na cidade de Arras, e Santa Brígida teve uma visão de São Dionísio, 'Saint Denis' em francês, garantindo que seu marido não morreria na viagem.
    De fato, retornaram bem e fizeram votos de guardar continência conjugal. Na companhia de um dos filhos, Ulf foi morar no mosteiro beneditino cisterciense de Alvastra, onde com toda serenidade veio a falecer em 1344. Lamentavelmente, essa abadia foi usurpada pelo rei de Suécia durante a 'reforma' protestante, quando boa parte de suas pedras foram usadas na construção de castelos.


    Tão bela e de refinada educação, Santa Brígida recebeu várias propostas de casamento após enviuvar, porém preferiu repartir a herança entre seus filhos e doar sua parte aos pobres. Queria viver plenamente seu amor a Deus, e foi habitar na vizinhança do mosteiro de Alvastra. Aí recebeu a maior parte de suas revelações pessoais, que cuidadosamente tratou de registrar numa obra que se convencionou chamar 'As Profecias e Revelações de Santa Brígida de Suécia'. Aceitas pela Santa Igreja Católica como fruto de autênticas e divinas experiências, ainda hoje elas são objeto de estudo por teólogos de todo mundo.
    Sobre a virgindade de Maria Santíssima, por exemplo, Jesus revelou-lhe: "... de acordo com Minha promessa, assumi a carne sem pecado e sem concupiscência, entrando no ventre da Virgem, como o sol que brilha através de claríssima joia. Assim como o sol não danifica o vidro ao nele entrar, assim também a virgindade da Virgem não foi perdida quando Eu assumi a natureza humana." (Livro I, Capítulo I)
    Sobre o Mistério do Mal, Ele disse: "Entretanto, como o homem, a quem foi dado livre arbítrio, voluntariamente rejeita Meus Mandamentos e obedece ao Demônio, é justo que ele também experimente sua tirania e malícia. Esse Demônio foi por Mim criado bom, mas por sua má vontade decaiu e tornou-se, por assim dizer, Meu servo para aplicar retribuição aos trabalhadores do mal." (Livro I, Capítulo I)
    Disse-lhe sobre a obediência e a Comunhão: "Imita Minha humildade, porque Eu, que sou o Rei da Glória e dos anjos, fui vestido com horríveis e miseráveis trapos, fiquei nu em um pilar e ouvi todo tipo de insultos e zombarias com Meus próprios ouvidos. Sempre prefere Minha vontade à tua, porque Minha Mãe, tua Senhora, do começo ao fim, nunca quis nada a não ser o que Eu quis. Se tu fizeres isso, então teu coração estará com Meu Coração, e será incendiado por Meu amor da mesma forma que qualquer coisa seca é facilmente incendiada pelo fogo. Tua alma será tão inflamada e preenchida por Mim, e Eu estarei em ti, que todas mundanas coisas se tornarão amargas para ti e todo desejo carnal como veneno." (Livro I, Capítulo I)
    Também lhe falou de Seu Místico Casamento com ela: "... agora falo contigo em Meu Espírito. Eu escolhi-te e tomei por esposa para te mostrar os caminhos do mundo e Meus divinos segredos, porque isso Me agrada. Tu és Minha por direito, porque quando teu marido morreu, colocaste toda tua vontade em Minhas mãos, e depois de sua morte, pensaste e rezaste sobre como poderias tornar-te pobre e abandonar tudo por Mim. Então, és Minha por direito, por causa deste teu imenso amor, e por isso cuidarei de ti." (Livro I, Capítulo II)
    Ela recebeu, igualmente, instruções da Santíssima Virgem: "Eu sou Maria, que deu à luz o Filho de Deus, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Sou a Rainha dos anjos. Meu Filho ama-te com todo coração. Ama-O! Deves adornar-te com muito honestas roupas, e eu mostrá-te-ei como e que tipo de roupas devem ser." (Livro I, Capítulo VII)
    E por suas profundas contemplações, essas instruções foram bem específicas: "Eu sou a Rainha dos Céus. Estás preocupada sobre como tens que me louvar. Tenha a certeza de que todo louvor a Meu Filho é louvor a mim. E aqueles que O desonram, a mim desonram, pois meu amor para com Ele e o d'Ele para comigo é tão ardente como se Nós dois fossemos um só coração. E Ele tanto me honrou, que era um vaso de argila, que me elevou acima de todos anjos." (Livro I, Capítulo IX)
    Nosso Senhor ensinou-lhe sobre as orações: "Quando Me ofereces uma oração, sempre a termina com o desejo de que se faça Minha vontade e não a tua. Quando rezas por alguém que já está condenado, não te escuto. Algumas vezes não te ouço se desejas algo que possa ir contra tua Salvação. É, por isso, necessário que submetas tua vontade à Minha, porque como Eu sei todas coisas, não te permito nada mais daquilo que te seja benéfico. Há muitos que não rezam com a correta intenção, e é por isso que não merecem ser atendidos." (Livro I, Capítulo XIV)
    Assegurou-lhe: "Tu serás como alguém que se desprende do mundo e, no tempo certo, colherás. Tens que te desapegar das riquezas e colher virtudes, deixar aquilo que passará e acumular eternos bens, abandonar as coisas visíveis e apossar-se do invisível. Ao contrário do prazer do corpo, dá-te-ei a exultação de tua alma. Ao contrário das alegrias do mundo, dá-te-ei as do Céu. Em vez da mundana honra, a honra dos anjos. Em vez da presença da família, a presença de Deus. Em vez de possuir bens, dá-te-ei a Mim mesmo, Doador e Criador de todas coisas." (Livro I, Capítulo XXXII)
    E prometeu: "Eu trabalharei junto a esses que levam Meu fardo, ou seja, aqueles que progridem a cada dia por amor a Mim. Serei sua força e inflamá-los-ei tanto que estarão desejosos de fazer mais. Aqueles que perseveram no ponto que parece mortificá-los, mas que na Verdade lhes é benéfico, são aqueles que dia e noite labutam sem descanso, inclusive se fazendo mais ardentes, pensando que o que fazem é pouco. Estes são Meus mais queridos amigos e são muito poucos..." (Livro I, Capítulo XV)
    Disse da , esperança e amor de certos cristãos: "Mas sua fé é débil e vacilante, apontando para uma fulminante queda, porque estão dispostos a crer quando estão ausentes dos impulsos da tentação, mas perdem confiança quando se veem de frente com a adversidade. Sua esperança é vã, porque esperam que seu pecado seja perdoado sem um Juízo e sem uma correta sentença. Confiam que gratuitamente podem conseguir o Reino dos Céus. Desejam receber Minha Misericórdia sem a atuação da Justiça. Seu amor para Comigo é frio, pois nunca se põem a ardentemente Me buscar, a menos que se sintam forçados pela tribulação. Como vou compadecer-Me das pessoas que nem sustentam uma reta fé, nem uma firme esperança, nem um fervente amor por Mim? Por isso, quando Me implorarem e disserem: 'Senhor, tem piedade de mim!', não merecerão ser ouvidas nem entrar em Minha Glória. Se não querem acompanhar Seu Senhor no sofrimento, não O acompanharão na Glória." (Livro I, Capítulo XXXIX)
    Jesus ainda lhe revelou como se dá a Transubstanciação do pão em Seu Corpo: "Do mesmo modo que qualquer madeira facilmente inflamável é rapidamente consumida quando se coloca no fogo, e não resta nada da forma da madeira, pois toda se converte em fogo, assim também acontece quando estas palavras são ditas: 'Isto é Meu Corpo…', o que antes era pão imediatamente se torna Meu Corpo. Faz-se uma chama, não como o fogo com a madeira, mas por Minha Divindade." (Livro I, Capítulo XLVII)
    Disse sobre maus Sacerdotes: "Quando Moisés se demorou na montanha, o povo dizia: 'Não sabemos o que lhe aconteceu.' Lamentaram-se de que lhes houvesse guiado para sair de seu cativeiro e disseram: 'Vamos fazer outro deus que nos dirija!' É assim que estes malditos Sacerdotes estão tratando-Me agora. Eles dizem: 'Porque vivemos uma vida mais austera que os demais? Qual é nossa recompensa? Estaríamos melhor se vivêssemos sem preocupações, na abundância. Vamos pois amar o mundo do qual temos certeza! Apesar de tudo, não estamos seguros de Sua promessa.' Assim juntam lenha, ou seja, aplicam todos seus sentidos para amar o mundo. Eles acendem uma fogueira quando todo seu desejo é para o mundo, e ardem à medida que cresce sua cobiça em sua mente e acaba resultando em obras. Depois, jogam-lhe ouro, que significa que todo amor e respeito que deveriam demonstrar por Mim, dedicam-no a obter o respeito do mundo. Então, emerge o bezerro, ou seja, o amor total ao mundo, com suas quatro patas de preguiça, impaciência, supérflua alegria e avareza. Esses Sacerdotes, que deveriam ser Meus, sentem preguiça na hora de Me honrar, impaciência diante do sofrimento, excedem-se em vãs alegrias e nunca se contentam com o que conseguem." (Livro I, Capítulo XLVIII)
    Ela também ouviu estas palavras de Nosso Salvador a Sua Mãe, quando diz de Sua Misericórdia: "Na Verdade, Eu digo que tua pureza, mais agradável para Mim que a de todos anjos, atraiu tanto Minha Divindade para ti que foste inflamada pelo calor do Espírito. N'Ele, tu geraste o Verdadeiro Deus e Homem, resguardado em teu ventre, pelo Qual a humanidade foi iluminada e os anjos foram cheios de alegria. Assim, bendita sejas por Teu Bendito Filho! E por isso nenhum pedido teu chegará a Mim sem ser ouvido. Qualquer um que peça Misericórdia através de ti, e tenha a intenção de emendar seus caminhos, conseguirá Graça. Como o calor vem do sol, igualmente toda Misericórdia será dada através de ti. És como um abundante manancial do qual mana toda Misericórdia para os infelizes." (Livro I, Capítulo L)
    E Ele disse-lhe sobre o mundo: "Pois, se quisesse, Eu poderia muito bem pronunciar Minhas palavras de modo que todo mundo as ouvisse. Sou capaz de abrir o inferno para que todos vejam seus castigos. Entretanto, isso não seria justo, pois as pessoas então Me serviriam por medo, quando devem servir-Me por amor. Pois só a pessoa que ama pode entrar no Reino dos Céus. Além disso, Eu estaria prejudicando o Diabo, se Comigo levasse os escravos que ele adquiriu vazios de boas obras. Também prejudicaria os anjos do Céu, se o espírito de uma imunda pessoa se pusesse no mesmo nível de outra que está pura e fervorosa no amor. Consequentemente, ninguém entrará no Céu, exceto aqueles que tenham sido provados como ouro no fogo do Purgatório ou aqueles que tenham provado a si mesmo ao longo do tempo, fazendo boas obras na Terra, de tal modo que neles não fique mancha alguma pendente de ser purificada." (Livro I, Capítulo LIII)
    Um anjo, ademais, disse à Santa Brígida: "Não há ninguém no mundo tão arraigado ao Demônio, que o Bom Espírito não o visite alguma vez e mova seu coração. Da mesma forma, não há ninguém tão bom que o Demônio não tente tocá-lo com a tentação. Muitas boas e justas pessoas são tentadas pelo Demônio com a permissão de Deus. Isto não é por maldade alguma de Sua parte, mas para Sua maior Glória." (Livro I, Capítulo LIV)
    E Jesus disse-lhe das palavras com que fala a Seus amigos, ou seja, aos Santos, em atenção a suas orações: "Estas não são tão obscuras como as encontradas em Apocalipse, que revelei a João sob um véu de obscuridade para que pudessem, a seu tempo, ser explicadas por Meu Espírito quando Eu quisesse." (Livro I, Capítulo LVI)
    De uma revelação que lhe fez, Ele deu este triste prognóstico e convidou os verdadeiros cristãos: "As ovelhas que foram completamente devoradas, representam aqueles cujas almas estão no inferno e cujos corpos estão enterrados em túmulos, à espera da Ressurreição para a condenação eterna. As ovelhas cujos corpos estão intactos, mas cujos espíritos de vida já não estão nelas, representam as pessoas que nem Me amam, nem Me temem, não sentem devoção alguma nem se importam Comigo. (...) Sua pele, isto é, seu corpo, está desprovido de toda bondade e caridade e não tem condições de servir em Meu Reino. Ao contrário, seja enviado ao fogo eterno do inferno depois do Juízo. (...) Vejo que ainda há ovelhas vivas em três lugares. Algumas delas assemelham-se à ovelha morta, e não ousam respirar por medo. Estes são os pagãos que, de boa vontade, adotariam a verdadeira fé se ao menos a conhecessem. Entretanto, não ousam respirar, isto é, não ousam perder a fé que já têm e não se atrevem a aceitar a verdadeira fé. O segundo grupo de ovelhas é daquelas que permanecem escondidas e não ousam sair. Estas representam os judeus que, por assim dizer, estão como detrás de um véu. Sairiam com prazer se tivessem certeza de Meu Nascimento. Escondem-se por trás do véu na medida em que sua esperança de Salvação está nas imagens e sinais que costumavam simbolizar-Me na antiga Lei, mas que foram verdadeiramente realizados em Mim, quando Me encarnei. Por sua vã esperança, têm medo de passar à verdadeira fé. Em terceiro lugar, as ovelhas que ficaram afundadas na lama, são os cristãos em estado de pecado mortal. Por temerem o castigo, estão desejosos de se levantar de novo, mas não o conseguem devido à gravidade de seus pecados e porque lhes falta caridade. Por isso, esposa Minha, ou seja, Meus bons cristãos, ajudai-Me ! (...) dirijo-vos Comigo às ovelhas que ainda respiram um pouco, e vamos levantá-las e reavivá-las! Sustentai seus dorsos enquanto Eu lhes sustento a cabeça! Alegro-Me em as carregar em Meus braços. Uma vez as carreguei todas sobre Minhas costas, quando estas estavam feridas e pregadas na Cruz." (Livro I, Capítulo LIX)
    Revelou, pois, sobre a obra da Igreja Apostólica e a Salvação: "Posso fazer todas coisas em um único instante e com uma única palavra, mas quero que vossa recompensa venha de vosso próprio esforço, e que Minha Glória venha de vossa coragem. Não vos surpreendais com o que digo. Se o homem mais sábio do mundo pudesse contar quantas almas vão para o inferno todos dias, ele poderia numerar os grãos de areia no mar ou os seixos na praia." (Livro II, Capítulo VI)
    Ele manda este recado aos cristãos em fraqueza: "Por vós fui à Cruz com Meus pés sangrando, Minhas mãos e pés foram pregados por vós, não poupei nenhum um só membro por vós. E ainda ignorais tudo isto, afastando-vos de Mim. Voltai e dá-vos-ei três formas de ajuda. Primeiro, fortaleza, para que sejais capazes de resistir a vossos físicos e espirituais inimigos. Segundo, uma brava generosidade, tal que não possais temer nada a não ser Eu, e possais considerar uma alegria vosso empenho por Mim. Terceiro, Eu dá-vos-ei Sabedoria para vos fazer entender a verdadeira fé e a vontade de Deus." (Livro II, Capítulo XII)
    E, nos Céus, promete cinco boas coisas como recompensa: "Primeiro, o eterno louvor sempre soará em vossos ouvidos. Segundo, a face e a Glória de Deus sempre estarão diante de vossos olhos. Terceiro, o louvor de Deus nunca deixará vossos lábios. Quarto, vós tereis tudo que vossas almas desejarem, e não desejareis nada além do que já tendes. Quinto, nunca vos separareis de Vosso Deus, vossa alegria será infinita e vivereis vossas vidas com alegria sem fim." (Idem)
    Ele falou a nossa Santa sobre a importância do consentimento dos pecadores na obra da Salvação: "Entretanto, embora Minha Misericórdia seja tal que Eu previno os pecadores, Minha Justiça é tal que, mesmo que todos anjos fossem puxá-los de volta, eles não poderiam converter-se enquanto eles mesmos não dirigissem sua vontade para o bem. Se eles voltassem sua vontade para Mim e Me dessem o consentimento de seus corações, nem todos demônios juntos poderiam impedi-los." (Livro II, Capítulo XIX)
    Nossa Senhora, pois, recomendou-lhe: "Então, sempre tem em mente a Paixão de Meu Filho e de Seus Santos. Eles não suportam tais sofrimentos sem nenhuma razão, mas para dar aos outros um exemplo de como viver e para mostrar que um rigoroso pagamento será exigido pelos pecados, por Meu Filho, que não quer que nem o menor pecado fique sem correção." (Livro II, Capítulo XXVI)
    E Jesus explicou-lhe: "Se os maus pensamentos não aparecessem, de vez em quando, os seres humanos seriam anjos e não humanos, e eles poderiam pensar que tudo conseguiriam por si próprios. Portanto, para que um homem possa compreender suas fraquezas, que vêm dele mesmo, e a força que vem de Mim, é algumas vezes necessário que Minha imensa Misericórdia permita que seja tentado por maus pensamentos. Contanto que a alma com eles não consinta, serão uma purificação para a alma e uma proteção para suas virtudes." (Livro II - Capítulo XXVII)
    Disse-lhe do inalienável Caminho para Deus que é o Sacramento da Confissão, por um exame de consciência sempre mais profundo: "Esta alma aproxima-se mais e mais de Deus a cada dia através da verdadeira Confissão." (Idem)
    E Nossa Mãe Celeste ainda lhe revelou: "Eu sou a mulher que esteve sempre no amor de Deus. Inteiramente fiquei desde minha infância na companhia do Espírito Santo. (...) Como meu corpo crescia e me tornei mais velha, o Espírito Santo preencheu-me com tal abundância que não deixou nenhum espaço em mim para qualquer pecado entrar. Assim, sou aquela que nunca cometeu o pecado venial ou mortal." (Livro III, Capítulo VIII)
    Disse de quem realmente recebe o Divino Paráclito: "Tal como luz e calor acompanham a aproximação do sol, mas não segue a uma escura sombra, da mesma forma duas coisas acompanham a chegada do Espírito Santo no coração: ardente amor por Deus e a completa iluminação da Santa Fé." (Livro III, Capítulo X)
    Disse de sua caridosíssima obra: "Vejo-me como um arco-íris a se arquear para baixo em direção aos bons e maus habitantes da Terra, através de minhas orações. Curvo-me em direção às boas pessoas para que possam ser firmes nos Mandamentos da Santa Igreja, e curvo-me em direção às más pessoas para que elas não possam aumentar suas maldades e ficarem ainda piores." (Idem)
    Jesus revelou-lhe, por fim, as chamadas '15 orações de Santa Brígida', para que ela pudesse honrar, ao final de um ano, as 5480 chagas a Ele infligidas durante a flagelação e a Crucificação.
    Nossa Santa muito trabalhou em favor dos mais necessitados, e em 1349 foi a Roma obter o reconhecimento papal para a Ordem do Santo Salvador, após sua morte chamada de Ordem do Santíssimo Salvador de Santa Brígida, que havia fundado em 1344 para acolher Padres, Freiras e leigos dedicados à devoção à Paixão de Cristo e seguir a Regra de Santo Agostinho. Contudo, desde 1309 o Papa Clemente V havia iniciado a administração da Igreja de Deus Vivo a partir de Avignon, em França, por questões de segurança, dadas as guerras entre cidades italianas, mas também por imposição do então poderoso rei de França e de Navarra, Felipe IV e I, respectivamente, aos sumos pontífices, que foram chamados de papas franceses.
    Foi este rei, chamado o Belo, que tentou prender e depor o Papa Bonifácio VIII, figurou como suspeito do envenenamento e morte do Papa Beato Bento XI, exigiu a extinção da Ordem dos Cavaleiros Templários, tomou bens dos judeus e expulsou-os de França, proibiu Bispos franceses de enviar tributos a Roma, criou extorsivos impostos para o Clero, confiscou bens da Santa Madre Igreja e gerou os atritos que levariam estes reinos a Guerra de Cem Anos contra Inglaterra.
    Na Cidade Eterna, pois, em companhia de sua filha Santa Catarina de Suécia, Santa Brígida presenciou o decaimento moral da sociedade, escreveu várias vezes ao Papa Clemente VI pedindo seu regresso, e anos depois ao Papa Gregório XI, mas nada conseguiu. Aí visitava as tumbas dos Santos e pedia esmola para os pobres. Além de muitas cidades com relíquias de Santos, como Milão, Pavia, Bari, Ortona, Benevento, Arielli, Pozzuoli, Nápoles, Montefalco, Salerno, Amalfi, o santuário da Madonna Incoronata di Foggia e o santuário de São Miguel Arcanjo no Gárgano, especialmente foi em peregrinação a Assis para homenagear São Francisco, a quem sempre dedicou grande devoção.
    Em 1355 sua fama de santidade já se estendia por todas terras de Suécia, e o rei Magno IV confiou sua jovem esposa, Branca de Namur, a Santa Brígida, para que fosse sua mentora espiritual. Em 1367, sob seus inspirados incentivos, o Papa Santo Urbano V voltou a Roma, e ela pessoalmente lhe solicitou a aprovação de sua Ordem, o que conseguiu no ano de 1370 após sofrer várias alterações em sua proposta inicial. Mas a pressão dos Cardeais franceses e reais motivos de segurança levaram o Papa a retornar a Avignon ainda em setembro deste ano. Santa Brígida havia profetizado sua morte caso ele voltasse, o que, de fato, aconteceu em menos de quatro meses.
    Em 1371, aos 68 anos, ela partiu em viagem a Terra Santa, seu grande sonho, todavia ainda em Nápoles faleceu seu filho, que ia em sua companhia. Aí mesmo, porém, ela foi agraciada com mais uma visão, assegurando que ele já havia alcançado a Salvação.
    São de suas reflexões:

    "O mundo teria paz se os homens da política simplesmente seguissem os Evangelhos."
    "Que todos que têm a Graça da inteligência tenham medo de que, por causa disso, sejam julgados com mais severidade se forem negligentes."
    "Escrever bem e falar bem é mera vaidade, se não se vive bem."
    "A fonte da Justiça não é a vingança, mas a caridade."
    "Maria é o lírio no jardim de Deus."
    "Não há pecador no mundo, quão grande seja sua inimizade a Deus, que não possa recuperar a Divina Graça recorrendo a Maria e pedindo-lhe ajuda."
    "Ó Maria, tu dás assistência a todos que se esforçam para se elevarem a Deus!"

    De volta a Roma em 1373, contraiu uma enfermidade generalizada e veio a falecer, após confiar a Ordem do Santo Salvador a sua filha Santa Catarina de Suécia. No local onde morou por 19 anos com as irmãs de consagração, foi construída uma bela igreja para a devoção a sua santidade.


    A Ordem Militar de Cavalheiros e Damas de Santa Brígida, presentes em várias regiões de Itália, é uma especial tradição da igreja que a homenageia em Nápoles.
 

    A ordem religiosa por ela estabelecida teve uma rápida expansão por Europa, fundando 78 mosteiros em poucos anos. Já em 1391, ou seja, em curto prazo, nossa Santa foi canonizada. O Papa São João Paulo II concedeu-lhe o título de co-Padroeira de Europa, junto à Santa Catarina de Sena e Santa Benedita da Cruz, também conhecida como Santa Edith Stein. E escreveu: "... reconhecendo a santidade de Brígida, a Igreja, sem exprimir seu parecer sobre as revelações individuais, aceitou a autenticidade global de sua experiência interior."
    E dado o costume em todo país, particularmente no sul, a exclamação de espanto e pedido de proteção 'Santa Brígida!', equivalente à 'Ave Maria' dita em Brasil, tornou-se patrimônio folclórico italiano. Também é venerada como Santa pela igreja luterana.
    Foi sepultada na Igreja, hoje Basílica, de São Lourenço em Dâmaso, no bairro de Parione, em Roma, mas sua filha Santa Catarina, em companhia de um irmão, levaram seus restos mortais para Suécia, como era seu desejo, e sepultaram-nos na igreja do mosteiro de Vadstena, fundado em 1384 para ser a sede da Ordem do Santo Salvador. Hoje, elas encontram-se numa urna permanentemente exposta, e seu esquife, apesar do reduzidíssimo número de católicos no país ao longo dos últimos séculos, foi preservado.


    Santa Brígida, rogai por nós!

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Santa Maria Madalena


    Ela foi a grande privilegiada, a primeira pessoa a ver Jesus Ressuscitado, e também a primeira a ser enviada por Ele para anunciar Sua Ressurreição. O Evangelho Segundo São João, que se apresenta como o 'outro discípulo' (cf. Jo 21,24), assim narra:

    "No primeiro dia que se seguia ao sábado, Maria Madalena foi ao Sepulcro, de manhã cedo, quando ainda estava escuro. Viu a pedra removida do Sepulcro, correu e foi dizer a Simão Pedro e ao outro discípulo, a quem Jesus amava:
    - Tiraram o Senhor do Sepulcro, e não sabemos onde O puseram!
    Então saiu Pedro com aquele outro discípulo e foram ao Sepulcro. Corriam juntos, mas aquele outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao Sepulcro. Inclinou-se e ali viu os panos no chão, mas não entrou. Chegou Simão Pedro, que o seguia, entrou no Sepulcro e viu os panos postos no chão. Também viu o Sudário que estivera sobre a cabeça de Jesus. Não estava, porém, com os panos, mas enrolado num lugar à parte. Então também entrou o discípulo que havia chegado primeiro ao Sepulcro. Viu e creu.
    Na Verdade, ainda não haviam entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dentre os mortos. Os discípulos, então, voltaram para casa.
    Maria, entretanto, conservava-se do lado de fora, perto do Sepulcro, e chorava. Chorando, inclinou-se para olhar dentro do Sepulcro. Viu dois anjos vestidos de branco, sentados onde o Corpo de Jesus estivera, um à cabeceira e outro aos pés. Eles perguntaram-lhe:
    - Mulher, por que choras?
    Ela respondeu:
    - Porque levaram Meu Senhor, e eu não sei onde O puseram.
    Ditas estas palavras, voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não O reconheceu. Perguntou-lhe, então, Jesus:
    - Mulher, por que choras? Quem procuras?
    Supondo ela que fosse o jardineiro, respondeu:
    - Senhor, se tu O tiraste, dize-me onde O puseste e eu irei buscá-Lo.
    Disse-lhe Jesus:
    - Maria!
    Voltando-se ela, exclamou em hebraico:
    - Rabôni! (Mestre!)
    Disse-lhe Jesus:
    - Não Me retenhas, porque ainda não subi a Meu Pai. Mas vai a Meus irmãos e dize-lhes: 'Subo para Meu Pai e Vosso Pai, Meu Deus e Vosso Deus.'
    Maria Madalena correu para anunciar aos discípulos que tinha visto o Senhor, e contou o que Ele lhe tinha falado."
                                                  Jo 20,1-18

    Além da aparição do Senhor Ressuscitado a Santa Maria Madalena, aliás, significativamente atestada em todos Evangelhos, o Evangelho Segundo São Marcos, como São João e São Mateus, só vai mencionar nossa Santa já na cena da Crucificação. Aliás, sua narrativa é muito parecida com as de São Mateus e São Lucas, porque deve ter servido de base para elas. Também atesta que São Tiago Menor e seu irmão José (cf. Mc 6,3) não eram filhos de Maria Santíssima, como falsos ministros e iletrados pretendem, mas de outra Maria, uma parenta sua, que iremos identificar: "Também se achavam ali umas mulheres, observando de longe, entre as quais Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José, e Salomé, que O tinham seguido e servido quando estava em Galileia. E muitas outras que com Ele haviam subido a Jerusalém." Mc 15,40-41
    Mas São João Evangelista, testemunha ocular que estava aos pés da Santa Cruz, portanto de mais preciso relato, diz que ela estava consigo e com Nossa Senhora, o que comprova a coragem de nossa Santa, e que presenciou quando Jesus fez de Maria a Nova Eva, nossa Mãe Celeste. Esse é o santo episódio que dá nome a uma conhecida 'constelação': as Três Marias: "Junto à Cruz de Jesus estavam de pé Sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu Sua mãe, e perto dela o discípulo que amava, disse a Sua mãe: 'Mulher, eis aí teu filho.' Depois disse ao discípulo: 'Eis aí tua mãe.' E dessa hora em diante, o discípulo levou-a para sua casa." Jo 19,25-27
    E ainda segundo São Marcos, nossa Santa ficou com Maria de Cléofas, que na verdade era prima de Nossa Senhora e mãe dos chamados 'irmãos de Jesus', para ver onde seria o Santo Sepulcro: "Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde O depositavam." Mc 15,47


    A cena do Sepulcro vazio, este evangelista relatou com ligeira diferença de São João. Descreve Santa Maria Madalena acompanhada de Maria de Cléofas, e a aparição de apenas um anjo, que as envia para anunciar a Ressurreição do Senhor aos Apóstolos, especificamente a São Pedro, que dos Apóstolos foi o único nomeado. Mas logo emenda seu relato, dá o nome da cidade onde nossa Santa nasceu, que como de regra se tornou seu sobrenome, e também diz da primazia de nossa Santa enquanto testemunha do Ressuscitado:

    "Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para ungir Jesus. E no primeiro dia da semana foram muito cedo ao Sepulcro, mal o sol havia despontado. E diziam entre si:
    - Quem há de nos remover a pedra da entrada do Sepulcro?
    Levantando os olhos, elas viram removida a pedra, que era muito grande. Entrando no Sepulcro, viram um jovem sentado do lado direito, vestido de brancas roupas, e assustaram-se. Ele falou-lhes:
    - Não tenhais medo. Buscais Jesus de Nazaré, que foi crucificado. Ele ressuscitou, já não está aqui. Eis o Lugar onde O depositaram. Mas ide, dizei a Seus discípulos e a Pedro que Ele vos precede em Galileia. Lá O vereis, como vos disse.
    Elas saíram do Sepulcro e fugiram trêmulas, amedrontadas. E a ninguém disseram coisa alguma por causa do medo.
    Tendo Jesus ressuscitado na madrugada do primeiro dia da semana, Ele primeiro apareceu a Maria de Magdala, de quem tinha expulsado sete demônios. Foi ela noticiá-lo àqueles que estiveram com Ele, que estavam aflitos e chorosos. Quando ouviram que Jesus vivia, e que ela O tinha visto, não quiseram acreditar."
                                                  Mc 16,1-11

    Sempre mais atento às mulheres que seguia Jesus, provavelmente por não ser judeu, São Lucas é, portanto, o único a mencionar Santa Maria Madalena antes da crucificação, e, note-se, ainda no início de tudo, logo depois da escolha dos Doze Apóstolos, enquanto Nosso Senhor ainda fazia pregações pelas cidades e aldeias, o que cedo se tornaria impossível (cf. Mc 1,45). Mas relata apenas o mesmo que São Marcos, que Ele a exorcizara: "Depois disso, Jesus andava pelas cidades e aldeias anunciando a Boa Nova do Reino de Deus. Os Doze estavam com Ele, como também algumas mulheres que tinham sido livradas de malignos espíritos e curadas de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios..." Lc 8,1-2
    Esse exorcismo vem sendo doentiamente usado como 'prova' de que Santa Maria Madalena tinha sido prostituta. Coisa cultuada pela mentalidade desse mundo de pervertidos! Sem nenhuma sensata evidência, forçam essa interpretação afirmando que estes sete demônios representariam os sete pecados capitais, e assim, por conta da luxúria, ela também teria chegado à prostituição. Ora, os termos bíblicos simplesmente indicam uma grave possessão. Aliás, como aconteceu com o endemoniado da região dos gerasenos, que por Jesus foi exorcizado e não apenas de sete, mas de uma legião de demônios. Tamanha possessão, no entanto, só o compelia a viver no cemitério (cf. Mc 5,2 e Lc 8,27). Nenhuma palavra sobre pecados capitais.
    Outras disparatadas especulações apontam nossa Santa como a pecadora de Naim, que lavou os pés de Jesus com lágrimas, enxugou-os com os cabelos, cobriu-os de beijos e ungiu-os com perfume, fato que foi narrado exclusivamente por São Lucas. Outros confundem-na como Santa Maria, irmã de Santa Marta e São Lázaro, chamada Santa Maria de Betânia. Mas essas deduções também não têm a menor consistência. A indicação para que não as confundamos está no próprio Evangelho Segundo São Lucas, que cita as três mulheres em três diferentes ocasiões sem as correlacionar ou apontar como a mesma pessoa em momento algum.
    Sobre a pecadora de Naim, este evangelista tão somente fala de um encontro na casa de Simão, um fariseu: "Em seguida, Jesus foi a uma cidade chamada Naim. Uma mulher, pecadora da cidade, soube que Jesus estava à mesa na casa do fariseu e trouxe um frasco de alabastro, cheio de perfume." Lc 7,11.36
    Sobre Santa Maria de Betânia, o Amado Médico diz: "Jesus entrou num povoado, e uma mulher, de nome Marta, recebeu-O em sua casa. Ela tinha uma irmã, Maria, a qual se sentou aos pés do Senhor e escutava Sua Palavra." Lc 10,38-39
    Sabemos que esta é Santa Maria de Betânia, e que também enxugou os pés de Jesus com os cabelos e O ungiu, através da narrativa de São João. Ele diz: "Seis dias antes da Páscoa, foi Jesus a Betânia, onde Lázaro, que Ele ressuscitara, vivia. Ali deram uma ceia em Sua honra. Marta servia, e Lázaro era um dos convivas. Tomando Maria uma libra de bálsamo de puro nardo, de grande preço, ungiu os pés de Jesus e enxugou-os com seus cabelos. A casa encheu-se do perfume do bálsamo." Jo 12,1.3
    De fato, supõem alguns que São Lázaro seja o mesmo homem que São Marcos e São Mateus chamaram de Simão, que era leproso e também de Betânia (cf. Mc 14,3 e Mt 26,6), em cuja casa uma mulher não nomeada lavou os pés de Jesus e banhou-O com perfume. Mas esse Simão era fariseu, e dada a divergência de nomes, assim como a quantidade de leprosos à época, essa associação é muito pouco provável.
    O costume do lava-pés, ademais, era muito comum entre os judeus, tratamento dado às visitas, principalmente às mais importantes, ainda que feito pelos servos. Essa cena, portanto, deve ter acontecido várias vezes com diferentes mulheres e em diferentes lugares, ou até mais de uma vez com a mesma mulher, ou ainda mais de uma vez num mesmo lugar com diferentes mulheres.
    O próprio Jesus, que também lavou os pés dos Apóstolos (cf. Jo 13,5), embora em outras circunstâncias, com falou naturalidade sobre esse gesto ao referir-Se a mulher pecadora de Naim, na casa de Simão, que acima foi citado por São Lucas apenas como um fariseu: "Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não Me deste água para lavar os pés. Mas esta com suas lágrimas regou-Me os pés e enxugou-os com seus cabelos. Não Me deste o beijo, mas esta, desde que entrou, não cessou de Me beijar os pés. Não Me ungiste a cabeça com óleo, mas esta com perfume ungiu-Me os pés." Lc 7,44-46
    Desfeitas estas confusões, resta um grande feito, e pouco lembrado, a ser exclusivamente reconhecido a Santa Maria Madalena: como a pregação do Evangelho se iniciou com o anúncio da Ressurreição do Senhor (cf. At 1,22), ela foi, por encargo que Ele próprio lhe deu, a primeiríssima a a proclamar.


    Uma antiga tradição relata que Santa Maria Madalena foi viver em França, assim como São Lázaro, Santa Marta e Santa Maria de Betânia, fato que se deu por causa da perseguição dos líderes judeus aos cristãos (cf. At 5,40). Com efeito, mesmo antes da Paixão de Cristo, que já estava planejada pelos chefes dos religiosos (cf. Jo 5,18), São Lázaro já era visado por ter sido ressuscitado por Nosso Senhor: "Mas os príncipes dos sacerdotes também resolveram tirar a vida de Lázaro, pois por causa dele muitos judeus se afastavam e acreditavam em Jesus." Jo 12,10-11
    E a situação dos cristãos em Jerusalém agravou-se ainda mais após a morte do grande Diácono Santo Estevão, principalmente por brutalidades e assassinatos praticados pelos judeus (cf. At 26,10), como o jovem que viria a ser São Paulo fazia (cf. At 22,19). É do Livro de Atos dos Apóstolos: "E Saulo havia aprovado a morte de Estêvão. Naquele dia, rompeu uma grande perseguição contra a comunidade de Jerusalém. Todos dispersaram-se pelas regiões de Judeia e de Samaria, com exceção dos Apóstolos. Enquanto isso, Saulo só respirava ameaças e morte contra os discípulos do Senhor." At 8,1;9,1a
    Em Roma estes Santos semelhantemente não ficariam, por conta da expulsão determinada pelo Imperador Cláudio, após a conversão de São Paulo. São Lucas registrou: "Depois disso, saindo de Atenas, Paulo dirigiu-se a Corinto. Ali encontrou um judeu chamado Áquila, natural de Ponto, e sua mulher Priscila. Eles pouco antes haviam chegado de Itália, por Cláudio ter decretado que todos judeus saíssem de Roma. Paulo uniu-se a eles." At 18,1-2
    A esses fatos somam-se as convulsões de rebelião que assolaram Israel, chegando à destruição de Jerusalém pelos romanos por volta do ano 70 de nossa era. Assim, uma caverna na região de Provença Alpes-Costa Azul, nas proximidades de Marselha, no sudeste de França, é apontada como o lugar onde Santa Maria Madalena viveu e praticou penitências durante seus últimos 30 anos. Aí ficam expostos um fragmento de sua tíbia, que é levada em peregrinação por França e pelo mundo, e uma mecha de seus cabelos.
    Tal vida de penitência não seria novidade entre os judeus, bastando lembrar a história do próprio São João Batista ou da Santa que viu a Apresentação do Senhor no Templo de Jerusalém, igualmente narrada por São Lucas: "Também havia uma Profetisa chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de avançada idade. Depois de ter vivido sete anos com seu marido desde sua virgindade, ficara viúva, e agora com oitenta e quatro anos não se apartava do Templo, noite e dia servindo a Deus em jejuns e orações. Chegando ela à mesma hora, louvava a Deus e falava de Jesus a todos aqueles que em Jerusalém esperavam a libertação." Lc 2,36-38
 

    Segundo registros de monges beneditinos da cidade de Vézelay, no centro-leste de França, desde 1050 estaria aí uma relíquia de nossa Santa, inicialmente guardada numa abadia do século IX, e depois em sua reconstrução, a romanesca Basílica do século XII que lhe é devotada.


    Mas, mais provavelmente, esta relíquia, uma costela, seria de Santa Maria de Betânia, irmã de São Lázaro e Santa Marta, e teria vindo de Provença, onde também eles viveram seus últimos anos. De fato, com a divulgação da descoberta do corpo de Santa Maria Madalena na cidade de Saint-Maximin-la-Sainte-Baume, igualmente em Provença, que se deu em 1279 e foi atestada por Charles II, Rei de Nápoles e conde local, que era sobrinho de São Luis, Rei de França, começou o declínio da devoção na Basílica de Vézelay.
    Essa descoberta, uma escavação feita na cripta da Basílica de Santa Maria Madalena em Saint-Maximin-la-Sainte-Baume, trouxe à luz vários túmulos do século I, e entre eles um belo sarcófago de mármore. Charles II, que no local estava construindo um convento dominicano, disse que fez a escavação porque Santa Maria Madalena lhe apareceu num sonho.
    Aberto o sarcófago, dele saiu um 'doce e maravilhoso perfume', sentido por todos presentes. Faltavam uns poucos ossos das pernas, abaixo dos joelhos, provavelmente recolhidos como relíquias por alguns devotos católicos, mas o esqueleto ainda se via muito bem conservado. Também se encontrou uma tábua recoberta com cera, que datava entre o século I e IV, na qual estava escrito: "Aqui descansa o corpo da Beata Maria Madalena." Por fim, havia um papiro explicando que no ano 710, com a invasão dos muçulmanos que traiçoeiramente profanavam sagrados lugares, ali, entre outros túmulos, seu restos mortais estariam bem escondidos.
    Desde então, os frades dominicanos têm listado muitos milagres alcançados pela veneração destas relíquias. Porém, com a torpe Revolução Francesa, e seu bestial rastro de destruição, além do crânio poucos ossos foram salvos, como um pedaço da tíbia.
    Ela também é considerada Santa pela igrejas 'ortodoxas', anglicana e luterana.


    Santa Maria Madalena, rogai por nós!