terça-feira, 27 de outubro de 2026

O Amor de Deus


    Por que Deus quer ser amado por nós? Quem somos nós para Lhe corresponder com nosso errante amor? No entanto, no Livro de Deuteronômio, Ele determinou aos israelitas através de Moisés, após o anúncio dos Dez Mandamentos: "Amarás o Senhor, Teu Deus, de todo teu coração, de toda tua alma e de toda tua força." Dt 6,5
    Poderíamos ser obrigados a amar? Como Jesus pode exigir maior amor a Si que às pessoas que nos são mais próximas? Mas no Evangelho Segundo São Mateus, depois que escolheu os Doze Apóstolos, Ele sentenciou: "Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a Mim, não é digno de Mim. Quem ama seu filho mais que a Mim, não é digno de Mim." Mt 10,37
    A rigidez desse ensinamento, porém, esconde uma didática. Apesar da estranheza que causa em primeira mão, ao amadurecermos no amor, vemos que assim Ele imprime Sua Palavra em nossa memória, para mais tarde ser plenamente compreendida. De fato, não podemos verdadeiramente amar nossos familiares sem conhecermos, com a devida profundidade, o amor que Deus nos tem. A Primeira Carta de São João assim explica a Comunhão com Deus e a fonte do amor: "Nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem para conosco. Deus é amor, e quem permanece no amor, permanece em Deus e Deus em si. Mas amamos porque primeiro Deus nos amou." 1 Jo 4,16.19
    Ele claramente afirma: "Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus..." 1 Jo 4,7a 
    E no Livro do Profeta Jeremias, Deus mesmo explicou a Israel a natureza e a dimensão desse amor, bem como zela por aqueles de Sua predileção: "Eu amei-te com eterno amor, e por isso conservei para ti o amor." Jr 31,3
    Sobre o amor às mais próximas pessoas, o Amado Discípulo partia do inverso: "Se alguém disser: 'Amo a Deus', mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a Quem não vê. Temos de Deus este Mandamento: aquele que amar a Deus, também ame a seu irmão." 1 Jo 4,20-21
    E a despeito dos insondáveis desígnios de Deus, alguma luz nos é dada sobre essa didática quando lemos essa passagem no Livro de Provérbios: "Meu filho, não desprezes a correção do Senhor, nem te espantes de que Ele te repreenda, porque o Senhor castiga aquele a quem ama, e pune o filho a quem muito estima." Pr 3,11-12
    Tudo isso inspira-nos a imagem de um pai cheio de precauções, às vezes agindo de enérgico modo por causa de futuros riscos, e é sensato supor que seja mesmo assim. Na Carta aos Hebreus, os seguidores da tradição de São Paulo argumentam: "Estais sendo provados para vossa correção: é Deus que vos trata como filhos. Ora, qual é o filho a quem seu pai não corrige? Aliás, na Terra temos nossos pais que nos corrigem e, entretanto, olhamo-los com respeito. Com quanto mais razão havemos de nos submeter ao Pai de nossas almas, o Qual nos dará a Vida? Os primeiros educaram-nos para pouco tempo, segundo sua própria conveniência, ao passo que Este o faz para nosso bem, para nos comunicar Sua santidade. É verdade que toda correção parece, de momento, antes motivo de pesar que de alegria. Mais tarde, porém, granjeia àqueles que por ela se exercitaram o melhor fruto de Justiça e de Paz." Hb 12,7.9-11
    A Carta de São Tiago, que era um dos chamados 'irmãos' de Nosso Senhor (cf. Mt 27,56), dizendo do Espírito Santo, justifica: "Todo aquele que quer ser amigo do mundo, constitui-se inimigo de Deus. Ou imaginais que a Escritura diz em vão: 'Sois amados até o ciúme pelo Espírito que em vós habita ?'" Tg 4,4b-5
    Ora, nas revelações feitas no Livro de Apocalipse de São João, o próprio Jesus, entre exortações às sete dioceses de Ásia, vai dizer àqueles que se iludem com alguma forma de poder: "Eu repreendo e castigo aqueles que amo. Reanima teu zelo, pois, e arrepende-te." Ap 3,19
    Também é frequente ver na Bíblia a expressão 'temor a Deus', que é um dos dons do Espírito Santo. E fica a pergunta: afinal, Ele quer ser amado ou temido? A verdade é que, assim como o amadurecer mental, a compreensão da Revelação requer tempo. No estágio de civilização que vivemos, é fácil perceber, ao menos teoricamente, que o amor sempre produz melhor e mais verdadeiro relacionamento que o temor. Mas não há dúvida: visceralmente necessário, e negá-lo é mera puerilidade, o temor foi e ainda é largamente usado. A hierarquia é vital para as organizações humanas, a começar pela própria família! E cientes nossos constantes pecados, como não temer estar contrariando a vontade de Deus? O próprio Jesus rezou ao Pai para saber se aquela agonia no horto das Oliveiras era mesmo Sua Paixão, como está no Evangelho Segundo São Lucas: "Pai, se queres, afasta de Mim este cálice! Não se faça, porém, Minha vontade, mas sim a Tua." Lc 22,42
    Entretanto, porque não são necessariamente excludentes, também já é antiga a didática do amor, e só por si se pode chegar à perfeição, à santidade, como São João afirmou: "Nisto é perfeito em nós o amor: que tenhamos confiança no Dia do Julgamento, pois, como Ele (Deus) é, assim também nós somos neste mundo. No amor não há temor. Antes, o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor envolve castigo, e quem teme não é perfeito no amor." 1 Jo 4,17-18
    Ele reafirmou o caminho para essa perfeição: "Se mutuamente nos amarmos, Deus permanece em nós e Seu amor em nós é perfeito." 1 Jo 4,12b
    De fato, esse é o Mandamento ditado por Jesus, Deus de amor, como a verdadeira identidade da Igreja que Ele fundou (cf. Jo 21,15). Foi depois da instituição da Eucaristia, no Evangelho Segundo São João, enquanto Se despedida dos Apóstolos: "Dou-vos um Novo Mandamento: Amai-vos uns aos outros. Como Eu vos tenho amado, vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto todos conhecerão que sois Meus discípulos, se vos amardes uns aos outros." Jo 13,34-35
    Ele mesmo demonstrou esse amor, e maternal amor, como o de Nossa Mãe Celeste, quando Se aproximou da Cidade Santa pela última vez, na Páscoa em que seria sacrificado: "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas aqueles que te são enviados! Quantas vezes Eu quis reunir teus filhos, como a galinha reúne seus pintinhos debaixo de suas asas... e tu não quiseste!" Mt 23,37
    Ele chorou nesse momento, uma das duas únicas vezes em que Seus prantos foram registrados (cf. Jo 11,35): "Aproximando-Se ainda mais, Jesus contemplou Jerusalém e chorou sobre ela, dizendo: 'Oh! Se tu, ao menos neste dia que te é dado, também conhecesses Aquele que pode trazer-te a Paz! Mas não, isso está oculto a teus olhos.'" Lc 19,41-42
    O Livro do Profeta Isaías, a propósito, já tinha percebido nossa verdadeira relação com Deus: de filiação: "E no entanto, Senhor, Vós sois Nosso Pai. Nós somos a argila da qual sois o Oleiro: todos nós fomos modelados por Vossas mãos." Is 64,8
    Por isso, a Si havia clamado, após meditar sobre a História de Israel: "Olhai do alto do Céu, e vede de Vossa santa e gloriosa morada: Que foi feito de Vosso ciumento amor e de Vosso poder, e da emoção de Vosso coração? Dai livre expansão a Vossa ternura, porque sois Nosso Pai." Is 63,15-16a
    E se vez e outra somos castigados, também é fácil atestar, bem observando os acontecimentos, Sua infinita afabilidade. Deus mesmo disse à Cidade Santa: "Num acesso de cólera, de ti volvi Minha face. Mas em Meu eterno amor, de ti tenho compaixão." Is 54,8
    O Livro de Sabedoria, em especial, vai mais longe ao justificar Seu amor: "Tendes compaixão de todos, porque Vós podeis tudo. E para que se arrependam, fechais os olhos aos pecados dos homens. Porque amais tudo que existe, e não odiais nada do que fizestes, porquanto, se o odiásseis, não o teríeis feito de modo algum. Como poderia subsistir qualquer coisa, se não a tivésseis querido, e conservar a existência, se por Vós não tivesse sido chamada? Mas poupais todos seres, porque todos são Vossos, ó Senhor, que amais a vida." Sb 11,23-26
    E como os sagrados autores dos Provérbios, conclui: "É por isso que com brandura castigais aqueles que caem, e os adverti mostrando-lhes em que pecam, a fim de que rejeitem sua malícia e creiam em Vós, Senhor." Sb 12,2
    Não seria, porém, o amor, e tão simplesmente o amor, ainda hoje, a mais difícil lição que Jesus tenta ensinar-nos? Será que nós compreendemos, ao menos um pouco, a dimensão de Seu amor? Concebemos, ao menos momentaneamente, que podemos amar como Ele nos ama? Enfatizando, pois já havia falado em Novo Mandamento, como vimos, Ele estabeleceu esse parâmetro, também na noite da Santa Ceia: "Este é Meu Mandamento: amai-vos uns aos outros, como Eu vos amo." Jo 15,12
    Mas a pergunta é: que amor é esse que O levou a morrer por nós? Realmente percebemos o exemplo de tantos Santos e Mártires? Também chegaríamos, por amor, a essas consequências? De toda forma, essa é a meta por Ele estabelecida e demonstrada em Sua Paixão: "Ninguém tem maior amor que Aquele que dá sua vida por seus amigos." Jo 15,13
    E como entender esse Sacrifício ao qual Deus Pai submeteu Seu Filho? Não teria sido violento demais? Mas Nosso Senhor revelou-o a Nicodemos, um notável dos fariseus, falando em terceira Pessoa, logo na primeira Páscoa em Jerusalém após iniciada Sua Missão: "Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo que entregou Seu Único Filho, para que todo aquele que em Si crer, não pereça, mas tenha a Vida Eterna." Jo 3,16
    Por certo, a razão de ser dessa didática de Deus é nossa futilidade, nossa desatenção, nossa inconstância, nossa insensibilidade. Pois se Sua própria Morte, brutal como foi, não nos faz despertar para o amor, o que teria acontecido se Ele simplesmente Se tivesse elevado aos Céus? Se toda Jerusalém não tivesse presenciado Sua Paixão e Morte? Por isso, a Primeira Carta de São Paulo a São Timóteo, em seus iniciais versículos, exorta-lhe que afaste o povo de todas fábulas e fúteis conhecimentos, em nome de um verdadeiro amadurecimento espiritual: "Essa recomendação visava promover o amor que nasce de um puro coração, de uma boa consciência e de uma sincera fé." 1 Tm 1,5
    Pois como vemos na Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, só assim ele garante as celestiais benesses, citando o Profeta Isaías: "É como está escrito: 'Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64,4)', tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que O amam." 1 Cor 2,9
    Pois o verdadeiro amor a Deus, para minimamente corresponder àquele que Ele tem por nós, se manifesta, como os Santos demonstram, pela prática de constante reconhecimento de nossos pecados e pela determinação em não tornarmos a errar, pelas quais a Santa Igreja Católica (cf. Ef 5,26; At 1,8) concede o Sacramento da Confissão, também chamado da Reconciliação (cf. Jo 20,23). É o que o Livro de Eclesiástico ensina: "Aquele que ama a Deus, roga-Lhe pelo perdão de seus pecados e acautela-se para não os cometer no porvir." Eclo 3,4
    É o que o rei Davi faz no Livro de Salmos, ao pedir perdão em nome de Seu amor: "Ó Deus, tende piedade de mim conforme Vossa Misericórdia. Em Vosso grande amor, cancelai meu pecado." Sl 51,3
    Afere-lhe o justo valor: "Porque Vosso amor me é mais precioso que a vida..." Sl 63,4
    Outros sagrados autores reconhecem: "... a Terra está cheia do amor de Deus. ... Eis os olhos do Senhor pousados sobre aqueles que o temem, sobre aqueles que esperam Seu amor. Senhor, que Vosso amor esteja sobre nós, assim como nossa esperança está em Vós." Sl 32,5b.18a.22
    Prometem: "Eu dá-Vos-ei graças, Senhor Meu Deus, de todo coração, e sempre darei Glória a Vosso Nome, porque é grande Vosso amor para comigo..." Sl 86,12-13
    Agradecidos pela Divina Misericórdia, registram: "... Deus de piedade, compassivo, lento para Se irar, mas rico de amor e de fidelidade..." Sl 86,15
    Atestam que Seu amor é eterno: "Louvai o Senhor, porque Ele é bom, porque Seu amor é para sempre." Sl 106,1
    Com iguais passagens de vários Salmos, outro sagrado autor enfatiza: "Aleluia. Celebrai o Senhor, porque Ele é bom, porque Seu amor é para sempre. A casa de Israel repita: Seu amor é para sempre. A casa de Aarão repita: Seu amor é para sempre. E vós, que temeis o Senhor, repeti: Seu amor é para sempre. Celebrai o Senhor porque Ele é bom, porque Seu amor é para sempre." Sl 117,1-4.29
    Mais à frente, em ladainha de ação de graças, outro salmista repete em cada um dos 26 versículos: "... porque Seu amor é para sempre." Sl 135
    Porém, tão imensurável e atemporal como Deus mesmo, Seu amor tem específicos destinatários, segundo Davi: "... porque tanto os céus distam da Terra, quanto Seu amor é grande para aqueles que O temem. O amor do Senhor existe desde sempre, e para sempre existirá por aqueles que O temem." Sl 102,11.17a


JESUS, PROVA MAIOR DO AMOR DE DEUS

    Se quer ser amado, é porque Deus conhece os corações das pessoas, e de perto os acompanha. Foi o que se viu desde o início da vida pública de Nosso Senhor, quando, antes de curar o paralítico descido pelo teto da casa de São Pedro, lhe ofereceu o perdão dos pecados. É do Evangelho Segundo São Marcos: "Ora, ali estavam sentados alguns escribas, que refletiam em seus corações: 'Como Este Homem pode falar assim? Ele blasfema. Quem pode perdoar pecados senão Deus?' Mas Jesus, logo penetrando com Seu espírito em seus íntimos pensamentos, disse-lhes: 'Por que pensais isto em vossos corações?'" Mc 2,6-8
    E assim mesmo em meio à multidão, como em Sua primeira Missão na Cidade Santa: "Enquanto Jesus celebrava em Jerusalém a festa da Páscoa, muitos creram em Seu Nome, à vista dos sinais que fazia. Mas Jesus mesmo não Se fiava neles, porque os conhecia todos. Ele não necessitava que alguém desse testemunho de nenhum homem, pois bem sabia o que havia no homem." Jo 2,23-24
    Por isso, conforme o Amado Médico, dizia que de nada vale o pagamento do dízimo quando se sonega o mais importante, como está entre os 'ai de vós' com que advertia religiosos judeus: "Ai de vós, fariseus, que pagais o dízimo da hortelã, da arruda e de diversas ervas, mas desprezais a Justiça e o amor de Deus." Lc 11,42
    E em debate com os líderes religiosos em Jerusalém, Ele foi ainda mais contundente, pois começou a ser perseguido por curar um aleijado num sábado: "Não espero Minha Glória dos homens. Mas Eu conheço-vos: sei que não tendes em vós o amor de Deus. Vim em Nome de Meu Pai, por isso não Me recebeis. Se outro vier em seu próprio nome, haveis de o receber." Jo 5,41-43
    Ora, o Apóstolo dos Gentios disse algo muito simples, mas cheio de Sabedoria: Deus tem com quem O ama muito especial relação: "... se alguém ama a Deus, esse é conhecido por Ele." 1 Cor 8,3
    Por isso, ressaltando o valor da perseverança para que vençamos a insensibilidade, a inconstância e a faltosa consciência, Nosso Senhor recomendou-nos em últimos ensinamentos: "Se guardardes Meus Mandamentos, permanecereis em Meu amor, como Eu também guardei os Mandamentos de Meu Pai e permaneço em Seu amor." Jo 15,10
    São João Apóstolo, de fato, testemunhou Seu amor e perseverança até os últimos momentos: "Antes da festa da Páscoa, Jesus sabia que Sua hora tinha chegado, a hora de passar deste mundo para o Pai. Ele, que tinha amado os Seus que estavam no mundo, até o extremo os amou." Jo 13,1
    Contudo, ciente de nossas fraquezas, Ele rezou ao Pai para que Seu amor, que é amor de Salvação, permanecesse na Igreja Apostólica (cf. Mt 10,1s). É a Oração da Unidade, proferida pouco antes de partirem do Cenáculo para o horto das Oliveiras, onde Ele seria preso: "Manifestei-lhes Teu Nome, e ainda hei de lhO manifestar, para que o amor com que Me amaste esteja neles..." Jo 17,26
    Pela Glória derramada sobre os Apóstolos, primícias da Igreja Una (cf. Jo 17,23), também Lhe pediu que esta Unidade, tal qual a da Santíssima Trindade, fosse a prova de Seu Advento e do amor do Pai pelos fiéis: "Dei-lhes a Glória que Me deste, para que sejam Um como Nós somos Um: Eu neles e Tu em Mim. Para que sejam perfeitos na Unidade, e o mundo reconheça que Me enviaste e os amaste, como amaste a Mim." Jo 17,22-23
    Mas também havia deixado claro que não podemos ser amados por Deus se não amarmos a Ele, Seu Filho: "Pois o próprio Pai vos ama, porque vós Me amastes e crestes que saí de Deus." Jo 16,27
    Pois não se pode honrar a Deus se não se honra Cristo, como Ele disse aos religiosos de Jerusalém que O recriminaram por curar o aleijado no sábado: "Desse modo, todos honrarão o Filho, bem como honram o Pai. Aquele que não honra o Filho, não honra o Pai, que O enviou." Jo 5,23
    E a Carta de São Paulo aos Romanos, invocando o Pentecostes, dia do nascimento da Santa Madre Igreja (cf. Gl 4,26), atesta Quem é o Doador para que verdadeiramente amemos a Deus e ao próximo com o mais puro amor: "... o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado." Rm 5,5b
    A Carta de São Paulo aos Colossenses revela Quem nos motiva, dizendo de seu colaborador Epafras: "Foi ele que nos informou do amor com que o Espírito vos anima." Cl 1,8
    E a Carta de São Paulo aos Efésios reza: "... que poderosamente sejais robustecidos por Seu Espírito em vista do crescimento de vosso homem interior. Que Cristo habite em vossos corações pela fé, arraigados e consolidados no amor, a fim de que possais, com todos cristãos, compreender qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, isto é, conhecer o amor de Cristo, que desafia todo conhecimento..." Ef 3,16-19
    Devemos, portanto, retribuir o amor de Deus com grandeza de espírito, como a Segunda Carta de São Paulo a São Timóteo diz do Santo Paráclito: "Pois Deus não nos deu um espírito de covardia, mas de força, de amor e de moderação." 2 Tm 1,7
    A Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios já se dizia diante de uma poderosa força: "Pois o amor de Cristo nos constrange..." 2 Cor 5,14a
    Demonstrava, de toda forma, ter alcançado esse amor: "Não vos serei oneroso, porque não busco vossos bens, mas sim a vós mesmos. Com efeito, não são os filhos que devem entesourar para os pais, mas os pais para os filhos. De muito boa vontade darei o que é meu, e darei a mim mesmo por vossas almas, ainda que, mais vos amando, por vós seja menos amado." 2 Cor 12,14b-15
    Porém, se errarmos, sabemos que há esperança, porque firmando a promessa da Nova e Eterna Aliança, Deus disse através de Isaías: "'Mesmo que as montanhas oscilassem e as colinas se abalassem, jamais Meu amor te abandonará, e jamais Meu pacto de Paz vacilará,' diz o Senhor, que Se compadeceu de ti." Is 54,9-10
    E para nossa Salvação, Jesus deixou a Barca de São Pedro (cf. Lc 5,3; Jo 21,3), onde somos purificados de nossos pecados veniais pela Santa Missa, e dos mais graves pecados pelo Sacramento da Confissão. Das revelações que recebeu de Jesus quando a Igreja Católica Apostólica Romana já era uma realidade, o Amado Discípulo rende graças: "Àquele que nos ama, que nos lavou de nossos pecados em Seu Sangue e que de nós fez um Reino de Sacerdotes para Deus e Seu Pai, Glória e poder pelos séculos dos séculos! Amém." Ap 1,5b-6
    Pois, de fato, Deus é movido por Seu amor, como São Paulo afirma: "... Deus, que é rico em Misericórdia, impulsionado pelo grande amor com que nos amou..." Ef 2,4
    E São João Evangelista, falando pelos católicos, atesta que Seu amor realmente é veraz: "E nós, que cremos, reconhecemos o amor que Deus tem para conosco." 1 Jo 4,16
    Ele explica tal amor, bem como nossa Redenção: "Assim foi que o amor de Deus se manifestou entre nós: Deus enviou Seu Único Filho ao mundo, para que por meio de Si tenhamos a Vida. Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou Seu Filho como Vítima de expiação por nossos pecados. Caríssimos, se Deus assim nos amou, nós também devemos amar-nos uns aos outros." 1 Jo 4,9-11
    São Paulo diz algo muito parecido: "Mas eis aqui uma brilhante prova de amor de Deus por nós: quando ainda éramos pecadores, Cristo morreu por nós. Se, quando ainda éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela Morte de Seu Filho, com muito mais razão, estando já reconciliados, seremos salvos por Sua Vida." Rm 5,8-10
    E cheio de fé, citando três ordens de anjos, arremata: "Pois estou persuadido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem as alturas, nem os abismos, nem qualquer outra criatura poderá apartar-nos do amor que Deus nos testemunha em Cristo Jesus, Nosso Senhor." Rm 8,38-39
    Expunha-se, de verdade, a todos obstáculos, mesmo os mais perigosos, fazendo lembrar sagrados autores de um Salmo: "Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada? Realmente, está escrito: 'Por amor a Ti, somos entregues à morte o dia inteiro, somos tratados como gado destinado ao matadouro (Sl 43,23).' Mas, em todas essas coisas, somos mais que vencedores pela virtude d'Aquele que nos amou." Rm 8,35-37
    Por isso, a Segunda Carta de São Paulo aos Tessalonicenses deseja-nos as maiores bençãos: "Que o Senhor dirija vossos corações para Seu amor e para paciência de Cristo." 2 Ts 3,5
    E a Carta de São Judas, de olhos na eternidade, recomenda que perseveremos neste que é o maior dos divinos dons: "Conservai-vos no amor de Deus, aguardando a Misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo, para a Vida Eterna." Jd 21
    Mas ainda cabe uma pergunta: como poderíamos perseverar no amor de Deus? São João Apóstolo dá-nos uma breve, simples, mas preciosa sugestão: "Não ameis o mundo nem as coisas do mundo. Se alguém ama o mundo, em si não está o amor do Pai." 1 Jo 2,15
    Também diz: "Quem possuir bens deste mundo e vir seu irmão sofrer necessidade, mas fechar-lhe seu coração, como pode estar em si o amor de Deus?" 1 Jo 3,17
    Ora, como Jesus invocaria (cf. Mc 12,31), o Pai, em nome de Seu próprio amor, desde o Livro de Levítico já nos havia recomendado: "Amarás teu próximo como a ti mesmo." Lv 19,18
    Portanto, há muito temos da parte de Deus esse Mandamento. E é pela obediência a todos ensinamentos de Jesus (cf. Mt 28,20) que perceberemos as benesses de Seu amor em nossas vidas, como São João diz: "Aquele, porém, que guarda Sua Palavra, em si o amor de Deus é verdadeiramente perfeito." 1 Jo 2,5
    Por fim, em síntese ainda mais concisa, ele apontou: "Eis o amor a Deus: que guardemos Seus Mandamentos." 1 Jo 5,3
    E enternecido pela Adoção que recebemos pelo Espírito Santo (cf. Rm 8,15), exclama: "Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: sermos chamados filhos de Deus! E, de fato, nós somos! Por isso, o mundo não nos conhece, porque não O conheceu." 1 Jo 3,1
    É pela beleza e profundidade de frases como essas que uma exortação de São Paulo se tornou a saudação de acolhida na Santa Missa: "A Graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a Comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós!" 2 Cor 13,13
    E, por isso, o Eclesiástico recomenda com pertinência: "... ama a Deus durante toda tua vida, e invoca-O para tua Salvação." Eclo 13,18

    "Por amor, enviaste-nos Vosso Filho!"

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

A Ira de Deus


    Embora muito mais se fale do amor de Deus, os sinais da divina ira também já se faziam notar desde os primeiros dias da Criação, como na condenação da Serpente (cf. Gn 3,14), na condenação de Adão e Eva para o 'retorno ao pó' (cf. Gn 3,19) e na própria expulsão de Adão e Eva do paraíso (cf. Gn 3,23). Também aconteceu na punição de Caim (cf. Gn 4,11) pelo assassinato de seu irmão Abel, e no dilúvio que abateu quase toda humanidade que vivia a violência e a perversão (cf. Gn 6,11) nos tempos de Noé.
    Ora, na Lei que Deus ditou a Moisés havia horrendas maldições para casos de desobediência. Está na conclusão do Livro de Levítico: "Farei cair sobre vós a espada para vingar Minha Aliança. Se vos ajuntardes em vossas cidades, lançarei a peste em meio a vós e sereis entregues nas mãos de vossos inimigos. Tirá-vos-ei o pão, vosso sustentáculo, de tal sorte que dez mulheres o cozerão em um só forno e o entregarão por peso: comereis e não ficareis saciados. Se, apesar disso, não Me ouvirdes, e ainda Me resistirdes, em Meu furor marcharei contra vós e sete vezes mais castigá-vos-ei por causa de vossos pecados. Comereis a carne de vossos filhos e de vossas filhas." Lv 26,23-29
    Pôs, de fato, uma simples escolha ao povo através de Moisés, ante perspectivas de guerra e exílio, exortando a uma verdadeira conversão, como se lê no Livro de Deuteronômio: "Hoje tomo por testemunhas o Céu e a Terra contra vós: ponho diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a Vida, para que vivas com tua posteridade." Dt 30,19
    A verdade é que, seja o momento da explosão de Sua ira ou uma violência por Ele permitida, como a própria Paixão de Cristo, muitos de Seus desígnios continuam sendo mistérios para nós, e tudo que nos cabe é resignadamente os aceitar. Entretanto, cientes da engenhosidade de Seu salvífico projeto, devemos confiar no bem maior que Ele sempre realiza, mesmo a partir dos piores acontecimentos. A Carta de São Paulo aos Romanos ensina: "Tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a futura Glória, que deve ser-nos manifestada." Rm 8,18
    Esse aparente paradoxo, entre a ira e a Misericórdia de Deus, pertence aos domínios de Sua Onisciência, como este Apóstolo explicou, invocando o Profeta Isaías que trata da consolação de israel, já prevendo o que viria a ser o fim do exílio em Babilônia: "Ó abismo de riqueza, de Sabedoria e de ciência em Deus! Quão impenetráveis são Seus juízos, e inexploráveis, Seus caminhos! Quem pode compreender o pensamento do Senhor? Quem jamais foi Seu conselheiro? (Is 40,13-14)" Rm 11,33-34
    Com efeito, falando Ele próprio no Livro do Profeta Isaías, Deus disse a Jerusalém: "Num acesso de cólera, de ti volvi Minha face. Mas em Meu eterno amor tenho compaixão de ti." Is 54,8
    No Livro de Salmos, o rei Davi já falava de brevidade: "Porque Sua ira dura apenas um momento, enquanto Sua benevolência é para toda vida. Pois se pela tarde vem visitar-nos o pranto, de manhã vem saudar-nos a alegria." Sl 29,6
    Ainda que ele também demonstrasse verdadeiro temor: "Senhor, não me castigueis com Vossa ira, não me corrijas com Vosso furor. Tende piedade de mim, Senhor, porque eu desfaleço." Sl 6,2-3b
    E seguindo os flagrantes de Sua ira, semelhantemente vemos que Ele não Se servia só de catástrofes naturais para aplicar Suas punições, como aconteceu no episódio das pragas de Egito. Numa delas, o Pai Celeste pessoalmente fulminou todos primogênitos egípcios, de homens a animais. É a leitura do Livro de Êxodo: "Naquela noite, passarei através e ferirei os primogênitos em Egito, tanto os dos homens como os dos animais, e exercerei Minha Justiça contra todos deuses de Egito. Eu sou o Senhor." Êx 12,12
    Advertiu de duras penas, como num dos pecados que clamam aos Céus: "Não maltratarás o estrangeiro e não o oprimirás, porque foste estrangeiro em Egito. Não prejudicareis a viúva e o órfão. Se os prejudicardes, eles clamarão a Mim e Eu ouvi-los-ei. Minha cólera inflamar-se-á e fá-vos-ei perecer pela espada. Vossas mulheres ficarão viúvas e vossos filhos, órfãos." Êx 22,22-24
    E também Se mostrou iracundo nos tempos do próprio Êxodo, quando o povo de Israel, no deserto, fez um bezerro de ouro para o adorar, com a anuência de Aarão, irmão mais velho de Moisés, pois este se demorou no monte Sinai onde foi ter com Deus: "O Senhor disse a Moisés: 'Vai, desce, porque se corrompeu o povo que tiraste de Egito. Depressa SE desviaram do caminho que lhes prescrevi. Para si fizeram um bezerro de metal fundido, prostraram-se diante dele e ofereceram-lhe sacrifícios, dizendo: 'Eis, ó Israel, Teu Deus que te tirou de Egito.' 'Vejo', continuou o Senhor, 'que esse povo tem dura cabeça. Deixa, pois, que se acenda Minha cólera contra eles, e reduzi-los-ei a nada. Mas de ti farei uma grande nação.'" Êx 32,7-10
    Ora, apesar das frequentes intervenções de Moisés, nem todos israelitas entraram na Terra Santa. Mais tarde, através de um sagrado autor, Ele justificou: "Por isso, em Minha ira, jurei que não haveriam de entrar no lugar de descanso que lhes prometera!" Sl 94,11
    Pelo pecado da idolatria, aliás, a fúria de Deus continua até mesmo sobre os já falecidos, como Ele diz no cântico de Moisés, que estava em seus últimos anos: "Eles provocaram Meu ciúme com um falso deus, e irritaram-Me com seus vazios ídolos. O fogo de Minha ira está a arder e vai queimar até à mansão dos mortos, vai devorar a Terra e seus produtos, e abrasar o alicerce das montanhas." Dt 32,21-22
    E o Livro de Sabedoria afirma, para o espanto de muitos, que Suas punições não recaiam somente sobre os ímpios durante o Êxodo: "Verdade é que a prova da morte também feriu os justos, e numerosos foram aqueles que ela abateu no deserto, mas a ira de Deus não durou muito tempo..." Sb 18,20
    De fato, o Livro de Lamentações registra o flagelo de Jerusalém que atingiu até as crianças, quando se daria a destruição do Templo e o exílio em Babilônia. E em sinal, até os alimentos que viriam ser a Santa Eucaristia faltariam: "O Senhor destruiu sem piedade todos campos de Jacó, em Sua ira deitou abaixo as fortificações da cidade de Judá, lançou por terra, aviltou a realeza e seus príncipes. Sentados no chão, em silêncio, os anciãos da cidade de Sião espalharam cinza na cabeça, vestiram-se de saco. As jovens de Jerusalém inclinaram a cabeça para o chão. Meus olhos estão inchados de lágrimas, fervem minhas entranhas, derrama-se por terra meu fel diante da arruinada cidade de meu povo, vendo desfalecerem tantas crianças pelas ruas da cidade. Elas pedem às mães: 'O trigo e o vinho, onde estão?' E vão caindo como derrubadas pela morte nas ruas da cidade, até expirarem no colo das mães." Lm 2,2.10-12
    Deus mesmo declarou-o no Livro do Profeta Ezequiel: "Chegou o fim para ti, vou desencadear contra ti Minha cólera, vou julgar-te de acordo com teu procedimento e fazer cair sobre ti o peso de todas tuas abomináveis práticas. Não te tomarei em consideração, serei sem complacência, pedirei conta de teu proceder, e todos teus horrores serão manifestos em teu meio. Então sabereis que sou Eu o Senhor.' Eis o que o Senhor Javé diz: 'Uma desgraça única! ! Eis o que irá suceder: uma desgraça!' Deitarão o dinheiro às ruas, seu ouro será como imundície, sua prata e seu ouro não poderão salvá-los no Dia da cólera do Senhor. Abandoná-los-ei à pilhagem, às mãos de estranhos e, devido à profanação, farei deles o espólio dos ímpios da Terra." Ez 7,3-5.19a.20
    E por fim, como os chefes dos sacerdotes e o povo de Israel não acolhiam Seus Profetas, Ele usou da brutalidade do inimigo exército, os babilônios, para corrigir Seu povo. São registros do Segundo Livro de Crônicas, quando se deu a destruição do Templo, de Jerusalém e o exílio em Babilônia: "Em vão o Senhor, Deus de seus pais, havia-lhes enviado avisos sobre avisos por meio de Seus mensageiros, pois tinha compaixão de Seu povo e de Sua própria Habitação. Eles zombavam de Seus enviados, desprezavam Seus conselhos e riam de Seus Profetas, até que a ira de Deus se desencadeou sobre Seu povo e não houve mais remédio. Então Deus suscitou contra eles o rei dos caldeus, que, no próprio edifício do Santuário, mandou matar Seus jovens, e não poupou nem o adolescente, nem a donzela, nem o ancião, nem a mulher de cabelos brancos. O Senhor entregou-lhe tudo." 2 Cr 36,15-17
    Tanto que no Livro do Profeta Jeremias, este renomado homem de Deus vai clamar: "Derramai esse furor sobre as nações que Vos desconhecem, sobre os povos que não invocam Vosso Nome, pois eles devoraram Jacó e o consumiram, transformando-lhe as casas em deserto." Jr 10,25
    Mas Deus realmente Se mostrou indiferente às graves agressões contra Israel, como o Livro do Profeta Habacuc reclamava, e apesar das perversões seguia chamando Judá de 'o justo': "Até quando, Senhor, implorarei sem que escuteis? Até quando Vos clamarei: 'Violência!', sem que venhais em socorro? Por que me mostrais o espetáculo da iniquidade, e contemplais Vós mesmo essa desgraça? Só vejo opressão e violência diante de mim, nada mais que discórdias e contendas, porque a Lei se acha desacreditada e não se vê mais a Justiça. Porque o ímpio cerca o justo, e a equidade encontra-se falseada." Hab 1,2-4
    Ademais, como visto, os Profetas de Deus também eram encarregados de anunciar Seus castigos. Foi o que Isaías fez, cem anos antes, ao falar do símbolo máximo da ira de Deus: Seu Dia, o Dia do Juízo Final: "Lamentai-vos porque o Dia do Senhor está próximo, ele chega como uma devastação provocada pelo Todo-Poderoso. Eis o Dia do Senhor, que vem implacável, e com ele o ardente furor da cólera, para reduzir a Terra a um deserto e dela exterminar os pecadores." Is 13,6.9
    Foi sucinto, noutra passagem: "O Senhor manifestará Seu poder a Seus servos, e Sua cólera a Seus inimigos." Is 66,14b
    No mesmo sentido, Ezequiel, que também era sacerdote, via para breve o Julgamento das nações de então: "Porque o Dia está próximo, o Dia do Senhor está próximo, dia carregado de nuvens, dia marcado para as nações." Ez 30,3
    Ora, o Livro do Profeta Joel já atestava que ele havia sido testemunha de pesarosas visões da assembleia do Juízo Final, quando ocorrerá assombrosos e celestiais fenômenos: "O sol converter-se-á em trevas e a lua em sangue, ao aproximar-se o grandioso e temível Dia do Senhor. Que multidão, que multidão no vale do Julgamento, porque chegou o Dia do Senhor no vale do Julgamento!" Jl 3,4; 4,14
    O Livro do Profeta Amós lamentou por aqueles que tratam o Dia do Juízo com insolência: "Ai daqueles que desejam ver o Dia do Senhor! Que será para vós o Dia do Senhor? Trevas, e não luz!" Am 5,18
    E o Livro do Profeta Sofonias exercitava o povo no temor ao Senhor pedindo penitência: "Curvai-vos, curvai-vos, gente sem pudor, antes que nasça a sentença e o dia passe como a palha. Antes que caia sobre vós o ardor da ira do Senhor, antes que caia sobre vós o Dia da indignação do Senhor! Buscai o Senhor, vós todos, humildes da Terra, que observais Sua Lei. Buscai a Justiça e a humildade: talvez assim estareis ao abrigo no Dia da cólera do Senhor." Sf 2,1-3
    Este Profeta realmente não viu nenhuma trégua para com os condenados: "'Destruirei tudo sobre a face da Terra', Oráculo do Senhor, 'farei perecer homens e animais, aves do céu e peixes do mar. Exterminarei os ímpios com seus escândalos, farei desaparecer os homens da superfície do mundo', Oráculo do Senhor. Terrível é o ruído que o Dia do Senhor faz, o mais forte soltará gritos de amargura nesse Dia. Esse será um dia de ira, dia de angústia e de aflição, dia de ruína e de devastação, dia de trevas e escuridão, dia de nuvens e de espessas névoas, dia de trombeta e de alarme, contra as cidades fortificadas e as elevadas torres. 'Mergulharei os homens na aflição, e eles andarão como cegos porque pecaram contra o Senhor. Seu sangue será derramado como o pó, e suas entranhas, como o lixo. Nem sua prata, nem seu ouro poderão salvá-los no Dia da cólera do Senhor.' Toda Terra será devorada pelo fogo de Seu zelo, porque Ele de repente aniquilará toda população da Terra." Sf 1,1-2.14b-18
    Na verdade, hoje sabemos, são dois Juízos: primeiro o Particular, pessoal, da alma, que é imediato e se dá logo após a morte, como apontado pelo seguidores da tradição de São Paulo na Cartas aos Hebreus: "Como está determinado que os homens morram uma só vez, e logo em seguida vem o Juízo..."Hb 9,27
    E ao fim dos tempos haverá o Juízo Final, quando todos ressuscitarão como Jesus afirmou no Evangelho Segundo São João, referindo-Se a Sua própria voz. Foi numa festa em Jerusalém, quando os líderes judeus começaram a tramar para O matar: "Não vos maravilheis disso, porque vem a hora em que todos que se acham nos sepulcros sairão deles ao som de Sua voz: aqueles que praticaram o bem, irão para a Ressurreição da Vida, e aqueles que praticaram o mal, ressuscitarão para serem condenados." Jo 5,29
    O atual inferno, para onde as más almas vão, ainda não é a definitiva condenação. E a ira de Deus, de tão real e efetiva, tem-se manifestado de tal forma que os maus anjos, Satanás entre eles, já foram punidos. A Segunda Carta de São Pedro diz: "Pois se Deus não poupou os anjos que pecaram, mas precipitou-os nos tenebrosos abismos do inferno onde os reserva para o Julgamento..." 2 Pd 2,24
    O definitivo inferno é a chamada segunda morte, conforme as últimas revelações de Nosso Senhor quase ao fim do Livro de Apocalipse de São João: "A morte e a morada subterrânea foram lançadas no lago de fogo. A segunda morte é esta: o lago de fogo." Ap 20,14
    Pois só no Juízo Final é que, em definitivo, o Senhor revelará Seu veredicto diante de todos. Será a própria Palavra de Jesus, segundo Ele mesmo, que disse em Jerusalém após o Domingo de Ramos: "Se alguém ouve Minhas palavras e não as guarda, Eu não o condenarei, porque não vim para condenar o mundo, mas para o salvar. Quem Me despreza e não recebe Minhas palavras, tem quem o julgue: a Palavra que anunciei, julgá-lo-á no Último Dia." Jo 12,47-48
    Aliás, na parábola das ovelhas e dos cabritos, que consta do Evangelho Segundo São Mateus, Ele pronunciou-o durante Sua Páscoa: "Retirai-vos de Mim, malditos! Ide para o eterno fogo destinado ao Demônio e a seus anjos." Mt 25,41
    Também sobre aquele que aceita o convite, mas não se prepara devidamente para as Núpcias do Cordeiro de Deus (cf. Ap 19,7), na parábola das Bodas do Filho do Rei: "Amarrai-lhe os pés e as mãos, e lançai-o nas trevas exteriores. Ali haverá choro e ranger de dentes." Mt 22,13b
    E ainda com mais violência na parábola das minas, esta no Evangelho Segundo São Lucas, enquanto fazia Sua última subida a Jerusalém: "Quanto àqueles que Me odeiam, e que não Me quiseram por Rei, trazei-os e massacrai-os em Minha presença." Lc 19,27
    Também usou de contundência ao avisar sobre o eterno fogo, dizendo a Seus discípulos após a Santa Ceia: "Se alguém não permanecer em Mim, será lançado fora como o ramo. Ele secará, e hão de o juntar e o lançar ao fogo, e queimar-se-á." Jo 15,6
    Já havia exortado a um verdadeiro distanciamento de pecaminosos hábitos, após anunciar Sua Paixão pela segunda vez, como se lê no Evangelho Segundo São Marcos. Ou haveremos de amargar eterna culpa: "Se tua mão for para ti ocasião de queda, corta-a. Melhor é entrares na Vida aleijado que, tendo duas mãos, ires para a geena, para o inextinguível fogo. Se teu pé for para ti ocasião de queda, corta-o fora. Melhor é entrares coxo na Vida Eterna que, tendo dois pés, seres lançado à geena do inextinguível fogo. Se teu olho for para ti ocasião de queda, arranca-o. Melhor é entrares com um olho de menos no Reino de Deus que, tendo dois olhos, seres lançado à geena do fogo, onde seu verme não morre e o fogo não se apaga." Mc 9,43.45.47-48
    Sem dúvida, falava de punições que não são nem um pouco brandas, as mais temidas pelos judeus: "Mas todo aquele que fizer cair em pecado a um destes pequeninos que creem em Mim, melhor seria que uma pedra de moinho lhe fosse posta ao pescoço e o lançassem ao mar!" Mc 9,42
    Trair a Deus, então, como foi o caso de Judas Iscariotes, é submeter-se a um indizível castigo. Jesus mesmo sentenciou, à mesa da Santa Ceia, diante deste Seu infame Apóstolo: "O Filho do Homem vai, como de Si está escrito. Mas ai daquele homem por quem o Filho do Homem é traído! Para esse homem melhor seria que jamais tivesse nascido!" Mt 26,24
    Enfim, Ele igualmente distinguiu entre a primeira e a segunda morte enquanto preparava os Apóstolos, após escolher os Doze. E aqui vemos de Si próprio uma advertência quanto à ira de Deus: "Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes temei Àquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena." Mt 10,28
    Assim como indicava duas ocasiões para o misericordioso perdão de Deus, o qual não requer a Sacramento da Confissão (cf. Jo 20,23), como numa das vezes em que aludiu ao Purgatório. De fato, Ele admite que Sua Encarnação não seja compreeendida, mas a ação do Santo Paráclito, não: "Todo aquele que tiver falado contra o Filho do Homem, será perdoado. Se, porém, falar contra o Espírito Santo, não alcançará perdão nem neste século nem no vindouro." Mt 12,32


CRISTO, NOSSO ADVOGADO

    Se a ira de Deus parece por demais pesada, e todos esses castigos causam pavor, convém que tenhamos sempre presente, a Flagelação, Crucificação e Morte de Cristo, Seu ato máximo de amor para nos redimir e livrar da perdição. Os discípulos de São Paulo escreveram: "Por isso, Ele é o Mediador do Novo Testamento. Por Sua Morte expiou os pecados cometidos no decorrer do Primeiro Testamento, para que os eleitos recebam a eterna herança que lhes foi prometida." Hb 9,15
    Devemos-Lhe, portanto, obediência: "E uma vez chegado ao fim de Sua vida terrena, tornou-Se Autor da Eterna Salvação para todos que Lhe obedecem..." Hb 5,9
    Porque depois de viver a condição humana, Ele sentou-Se à direita do Pai como Nosso Defensor: "Eis porque Cristo entrou, não em santuário feito por mãos de homens, que fosse apenas figura do verdadeiro Santuário, mas no próprio Céu, para agora Se apresentar em nosso favor ante a face de Deus." Hb 9,24
    Céu esse que foi aberto a nós por Seu Preciosíssimo Sangue: "Por esse motivo, irmãos, temos ampla confiança de poder entrar no Eterno Santuário, em virtude do Sangue de Jesus..." Hb 10,19
    De fato, Sua chegada ao Céu foi precedida da expulsão de Satanás, porque tendo vencido o mundo, e pelo Mandamento do amor, Ele nos abriu o Caminho da Redenção. O Amado Discípulo, entre tantas revelações, ouviu uma forte voz no Céu: "Agora chegou a Salvação, o poder e a realeza de Nosso Deus, assim como a autoridade de Seu Cristo, porque foi precipitado o acusador de nossos irmãos, que dia e noite os acusava diante de Nosso Deus." Ap 12,10
    Essa é a razão pela qual a Primeira Carta de São João nos diz com carinho e esperança: "Filhinhos meus, isto escrevo-vos para que não pequeis. Mas se alguém pecar, temos um Advogado junto ao Pai: Jesus Cristo, o Justo." 1 Jo 2,1
    Diz mais, explicitando como Ele nos purifica: "Se, porém, andamos na Luz como Ele mesmo (Deus) está na Luz, temos recíproca Comunhão uns com os outros, e o Sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, purifica-nos de todo pecado." 1 Jo 1,7
    E a Primeira Carta de São Paulo a São Timóteo deixa claro a Quem devemos gratidão: a Jesus enquanto Ser Humano. De fato, tal mediação já aconteceu, foi perfeita (cf. Hb 10,14), e enquanto Deus Ele não precisaria interceder a Si mesmo: "Porque há um só Deus e há um só Mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, um Homem que como resgate Se entregou por todos." 1 Tm 2,5-6a
    Pois mesmo por nem sempre compreensíveis desígnios, essa é a essência do projeto do Pai, como a Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses atesta em últimas exortações: "Porquanto Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a Salvação por Nosso Senhor Jesus Cristo." 1 Ts 5,9
    Ora, ao falar de Nosso Salvador no início desta Carta, ele já havia dito: "É Ele que nos liberta da futura ira." 1 Ts 1,10
    São João Batista também se pronunciou sobre a ira de Deus, e, como única solução, apontava para a Redenção oferecida na Pessoa de Cristo. É seu discurso antes de ser preso, quando soube que Jesus já havia iniciado Seu Ministério: "Aquele que crê no Filho, tem a Vida Eterna. Quem não crê no Filho, não verá a Vida, mas sobre si pesa a ira de Deus." Jo 3,36


LIVRAR-SE DA IRA DE DEUS
    
    Com razão, o Batista não via sinceridade entre fariseus e dos saduceus que vinham batizar-se consigo, mas apenas temor aos castigos de Deus. Por isso, fustigava-os com duras palavras: "Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da vindoura cólera? Dai, pois, frutos de verdadeira penitência." Mt 3,7b
    O Amado Médico também registrou essa exigência feita pelo Último Profeta (cf. Mt 11,13), advertindo do Juízo Particular: "Fazei, pois, uma realmente frutuosa conversão... O machado já está posto à raiz das árvores. E toda árvore que não der bom fruto, será cortada e lançada ao fogo." Lc 3,8a.9
    Denunciando os crimes dos religiosos em Sua última semana em Jerusalém, Jesus promete ajuste de contas que remontará o sangue de Abel, e em específico contra aqueles que Ele enviaria pela Santa Igreja Católica (cf. Ef 5,26; At 1,8): "Serpentes! Raça de víboras! Como escapareis ao castigo do inferno? Vede! Eu envio-vos Profetas, sábios, doutores! Matareis e crucificareis uns, e açoitareis outros em vossas sinagogas. Persegui-los-eis de cidade em cidade, e assim cairá sobre vós todo inocente sangue derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o Templo e o Altar." Mt 23,33-35
    Era o desfecho dos oito retumbantes 'Ai de vós', dois quais aqui citamos os três primeiros: "Ai de vós, hipócritas escribas e fariseus! Vós fechais o Reino dos Céus aos homens. Vós mesmos não entrais e nem deixais que aqueles, que querem entrar, entrem. Ai de vós, hipócritas escribas e fariseus! Devorais as casas das viúvas, fingindo fazer longas orações. Por isso, sereis castigados com muito maior rigor. Ai de vós, hipócritas escribas e fariseus! Percorreis mares e terras para fazer um prosélito e, quando o conseguis, dele fazeis um filho do inferno duas vezes pior que vós mesmos." Mt 23,13-15
    Também advertiu de mais severidade, e até de castigo no inferno, contra cidades inteiras: "Depois Jesus começou a censurar as cidades, onde tinha feito grande número de Seus milagres, por se terem recusado a se arrepender: 'Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque se em Tiro e em Sidônia tivessem sido feitos os milagres que foram feitos em vosso meio, há muito tempo elas ter-se-iam arrependido sob o cilício e a cinza. Por isso vos digo: no dia do Juízo haverá menor rigor para Tiro e para Sidônia que para vós! E tu, Cafarnaum, serás elevada até o Céu? Não! Serás atirada até o inferno! Porque se Sodoma tivesse visto os milagres que foram feitos dentro de teus muros, subsistiria até este dia. Por isso, digo-te: no Dia do Juízo haverá menor rigor para Sodoma que para ti!'" Mt 11,20-24
    Assim como profetizou a destruição de Jerusalém, que ocorreria no ano 70. Realmente foi Seu veredicto contra aquela geração, pouco antes do Domingo de Ramos: "Aproximando-Se ainda mais, Jesus contemplou Jerusalém e por ela chorou, dizendo: 'Oh! Se tu, ao menos neste dia que te é dado, também conhecesses Aquele que pode trazer-te a Paz! Mas não. Isso está oculto a teus olhos. Sobre ti virão dias em que teus inimigos te cercarão de trincheiras, te sitiarão e te atacarão por todos lados. Destruí-te-ão a ti e a teus filhos que estiverem dentro de ti, e em ti não deixarão pedra sobre pedra, porque não conheceste o tempo em que foste visitada.'" Lc 19,41-44
    Sobre a gravidade dos recorrentes pecados em Israel, e revelando o quanto a mão de Deus pode ser pesada, Ele havia tomado como exemplo dois fatos que haviam impressionado o povo, estimulando à Confissão dos pecados: "Neste mesmo tempo, contavam alguns o que tinha acontecido a certos galileus, cujo sangue Pilatos misturara a seus sacrifícios. Jesus toma a palavra e pergunta-lhes: 'Pensais vós que estes galileus foram maiores pecadores que todos outros galileus, por terem sido tratados desse modo? Não, digo-vos. Mas se não vos arrependerdes, perecereis todos de mesmo modo. Ou cuidais que aqueles dezoito homens, sobre os quais a torre de Siloé caiu, matando-os, foram mais culpados que todos demais habitantes de Jerusalém? Não, digo-vos. Mas se não vos arrependerdes, perecereis todos de mesmo modo.'" Lc 13,1-5
    Em mesmo sentido, acusando os desvios dentro do próprio Cristianismo, a Carta de São Paulo aos Colossenses prega a purificação do corpo e da alma para que não mais ofendamos ao Pai Celeste: "Mortificai vossos membros, pois, no que têm de terreno: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a cobiça, que é uma idolatria. Dessas coisas provém a ira de Deus sobre os descrentes." Cl 3,5-6
    A Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios já condenava a abominação daqueles que profanam o próprio Santíssimo Sacramento (cf. Lc 22,19): "O Cálice de bênção, que benzemos, não é a Comunhão do Sangue de Cristo? E o pão, que partimos, não é a Comunhão do Corpo de Cristo? Não podeis beber ao mesmo tempo o Cálice do Senhor e o cálice dos demônios. Ou queremos provocar a ira do Senhor? Acaso somos mais fortes que Ele?" 1 Cor 10,16.21-22
    Aliás, o simples fato de nos negarmos a testemunhar a Verdade sobre as frequentes Graças que nos são concedidas por Deus, já nos faz merecedores de Seus castigos. Este Apóstolo adverte: "A ira de Deus manifesta-se do alto do Céu contra toda impiedade e perversidade dos homens, que pela injustiça aprisionam a Verdade." Rm 1,18
    E se a ira de Deus é santa, na grande maioria dos casos não estamos autorizados a usar de violência: "Não vos vingueis uns aos outros, caríssimos, mas deixai agir a ira de Deus, porque está escrito: 'A Mim a vingança! A Mim exercer a Justiça', diz o Senhor (Dt 32,35)." Rm 12,19
    E ainda que o ódio tome conta de nosso coração, não devemos esboçar reação de raiva alguma nem guardar rancor através da noite, como a Carta de São Paulo aos Efésios leciona: "Mesmo em cólera, não pequeis. Não se ponha o sol sobre vosso ressentimento." Ef 4,26
    A Carta de São Tiago, por sinal, faz questão de desfazer o errôneo argumento de que nós poderíamos ser, por nossa livre escolha, instrumentos da divina ira: "... a ira do homem não cumpre a Justiça de Deus." Tg 1,20
    Até mesmo um dos sete anjos que assistem diante de Deus (cf. Tb 12,15), chamados sete espíritos de Deus (cf. Ap 3,1), o chefe dos Celestes Exércitos, em exemplo de estrita obediência, não se manifestou contra o Maligno sem a expressa ordem de Deus. A Carta de São Judas relata: "No entanto, o Arcanjo Miguel, quando com o Diabo disputava o corpo de Moisés, não se atreveu a lhe lançar em rosto uma injuriosa invectiva. Mas apenas lhe disse: 'O Senhor te repreenda!'" Jd 9
    O próprio Jesus, como Deus, dela não lançava mão de indiscriminado modo. De passagem pela Samaria, no episódio que deu nome aos irmãos 'Boanerges', aproveitou para esclarecer Sua Missão: "Diante de Si enviou mensageiros que, tendo partido, entraram em uma povoação dos samaritanos para Lhe arranjar pousada. Mas não O receberam, por Ele dar mostras que ia para Jerusalém. Vendo isto, Tiago e João disseram: 'Senhor, queres que mandemos que desça fogo do Céu e os consuma?' Jesus voltou-Se e severamente os repreendeu: 'Não sabeis de que Espírito sois animados. O Filho do Homem não veio para perder as vidas dos homens, mas para as salvar.' Foram, então, para outra povoação." Lc 9,52-56
    Pois Ele poderia dispor de sobrenaturais forças como o Celestial Exército, como revelou a São Pedro quando estava para ser preso pelos guardas dos sacerdotes no Horto das Oliveiras: "Jesus, no entanto, disse-lhe: 'Embainha tua espada, porque todos aqueles que usarem da espada, pela espada morrerão. Crês tu que não posso invocar Meu Pai, e Ele imediatamente não Me enviaria mais de doze legiões de anjos?'" Mt 26,52-53
    Contudo, tomando como principal exemplo a paciência do próprio Pai, Ele abertamente praticava e pregava tolerância, como se vê no Sermão da Montanha, nas proximidades de Cafarnaum, ainda no começo de Seu Ministério: "Tendes ouvido o que foi dito: 'Olho por olho, dente por dente.' Eu, porém, digo-vos: não resistais ao mau homem! Se alguém te ferir a face direita, também lhe oferece a outra. Se alguém te citar em justiça para te tirar a túnica, também lhe dê a capa. Se alguém vem obrigar-te a andar mil passos com ele, anda dois mil. Dá a quem te pede, e não te desvies daquele que quer pedir-te emprestado. Tendes ouvido o que foi dito: 'Amarás teu próximo e poderás odiar teu inimigo.' Eu, porém, digo-vos: amai vossos inimigos, fazei bem àqueles que vos odeiam, rezai por aqueles que vos maltratam e perseguem. Deste modo, sereis filhos de Vosso Pai do Céu, pois Ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos. Se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem assim os próprios publicanos? Se saudais apenas vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Também não fazem isto os pagãos? Portanto, sede perfeitos, assim como Vosso Pai Celeste é perfeito." Mt 5,38-48
    Deixava mesmo o grande acerto de contas para o Juízo Final, como pregou antes de voltar a Nazaré em despedida: "Jesus propôs-lhes outra parábola: 'O Reino dos Céus é semelhante a um Homem que tinha semeado boa semente em Seu campo. Na hora, porém, em que os homens repousavam, veio Seu inimigo, semeou joio no meio do trigo e partiu. O trigo cresceu e deu fruto, mas também apareceu o joio. Os servidores do Pai de Família vieram e disseram-Lhe: Senhor, não semeaste bom trigo em Teu campo? De onde vem, pois, o joio? Disse-lhes Ele: Foi um inimigo que fez isto! Replicaram-Lhe: Queres que vamos e os arranquemos? Não, disse Ele, arrancando o joio, arriscais a também tirar o trigo. Deixai-os crescer juntos até a colheita. No tempo da colheita, direi aos ceifadores: arrancai primeiro o joio e atai-o em feixes para o queimar. Depois recolhei o trigo em Meu celeiro.'" Mt 13,24-30
    A não ser nas duas vezes em que expulsou os vendilhões do Templo! Mas ai era o Santo Lugar por excelência, um pedaço do Céu, a Casa de Deus, que já na primeira visita a Jerusalém em vida pública, Ele identificaria como Seu próprio Corpo. São João Evangelista narrou: "Encontrou no Templo negociantes de bois, ovelhas e pombas, e mesas dos trocadores de moedas. Fez Ele um chicote de cordas, expulsou todos do Templo, como também as ovelhas e os bois, espalhou pelo chão o dinheiro dos cambistas e derrubou as mesas. Disse àqueles que vendiam as pombas: 'Tirai isto daqui e não façais da Casa de Meu Pai uma casa de negociantes!' Lembraram-se, então, Seus discípulos do que está escrito: 'O zelo de Tua Casa consome-Me (Sl 68,10).' Perguntaram-Lhe os judeus: 'Que sinal nos apresentas Tu, para procederes deste modo?' Respondeu-lhes Jesus: 'Destruí vós este Templo, e em três dias Eu reerguê-lo-ei.'" Jo 2,14-19
    Como São Marcos e São Lucas, São Mateus narrou a segunda, que, diferente de São Marcos (cf. Mc 11,12), se teria dado no próprio Domingo de Ramos, quando Nosso Senhor citou os Profetas Isaías e Jeremias, além de um Salmo do Davi: "Jesus entrou no Templo e expulsou dali todos aqueles que se entregavam ao comércio. Derrubou as mesas dos cambistas e os bancos dos negociantes de pombas, e disse-lhes: 'Está escrito: Minha Casa é uma casa de oração (Is 56,7), mas vós fizestes dela um covil de ladrões (Jr 7,11)!' Os cegos e os coxos vieram a Si no Templo, e Ele curou-os, com grande indignação dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas que assistiam a Seus milagres e ouviam os meninos gritar no Templo: 'Hosana ao filho de Davi!' Disseram-Lhe eles: 'Ouves o que dizem eles?' 'Perfeitamente', respondeu-lhes Jesus. 'Nunca lestes estas palavras: Da boca dos meninos e das crianças de peito tirastes Vosso louvor (Sl 8,3)?'" Mt 21,12-16
    São Paulo, portanto, confirmando nossa obrigação de promotores da Paz, recomenda nossa submissão a todas autoridades e instituições, ainda que mundanas: "Cada qual seja submisso às autoridades constituídas, porque não há autoridade que não venha de Deus. Aquelas que existem foram instituídas por Deus. Assim, aquele que resiste à autoridade, opõe-se à ordem estabelecida por Deus, e aqueles que a ela se opõem, atraem sobre si a condenação. Queres não ter o que temer a autoridade? Faze o bem e terás seu louvor. Porque ela é instrumento de Deus para teu bem. Mas se fizeres o mal, teme-a, porque não é sem razão que leva a espada: é ministro de Deus, para fazer Justiça e exercer a ira contra aquele que pratica o mal." Rm 13,1-4
    Pois já lhe havia sido revelado que os religiosos responsáveis pela Morte de Jesus estavam sob o peso da mão de Deus: "Com efeito, irmãos, vós tornaste-vos imitadores das igrejas de Deus que estão em Judéia, das igrejas de Jesus Cristo. Tivestes que sofrer da parte de vossos compatriotas o mesmo que eles sofreram dos judeus, aqueles judeus que mataram o Senhor Jesus, que nos perseguiram, que não são do agrado de Deus, que são inimigos de todos homens, visto que nos proíbem pregar aos não judeus para que se salvem. E com isto sempre mais vão enchendo a medida de seus pecados. Mas a ira de Deus acabou por os atingir." 1 Ts 2,15-16
    Aliás, ele relembrava aos não-judeus, em advertência, os castigos que recaíram sobre todo Israel: "Declaro-o a vós, homens de pagã origem: como Apóstolo dos pagãos, eu procuro honrar meu Ministério com o intuito de, eventualmente, excitar à imitação os homens de minha raça e salvar alguns deles. Se alguns dos ramos foram cortados, e se tu, selvagem oliveira, foste enxertada em seu lugar e agora recebes seiva da raiz da oliveira, não te envaideças nem menosprezes os ramos. Pois se te gloriares, sabe que não és tu que sustentas a raiz, mas a raiz a ti. Não te ensoberbeças, antes teme. Se Deus não poupou os ramos naturais, bem poderá não poupar a ti." Rm 11,13-14.17-18.20a-21
    E vê no lento vagar dos tempos a paciência de Deus, à espera que busquemos o Sacramento da Reconciliação, a sincera conversão: "Ou desprezas as riquezas de Sua bondade, tolerância e longanimidade, desconhecendo que a benignidade de Deus te convida ao Arrependimento? Mas por tua obstinação e impenitente coração, vais acumulando ira contra ti, para o Dia da Cólera e da revelação do justo Juízo de Deus..." Rm 2,4-5
    Este Santo claramente percebia como é grande nossa infidelidade, mas também as devidas correções de Deus: "Se nossa injustiça realça a Justiça de Deus, o que podemos dizer? Que Deus é injusto quando sobre nós descarrega Sua ira?" Rm 3,5
    E a São João Apóstolo foi revelado grandes castigos, previstos para assolar a humanidade no fim dos tempos, onde está claro que a ira de Deus não é mau entendimento de Seu proceder, ou coisa do tempo do Antigo Testamento: "No Céu, ainda vi outro grande e maravilhoso sinal: sete Anjos que tinham os últimos sete flagelos, porque por eles é que se deve consumar a ira de Deus." Ap 15,1
    Também diz que estes anjos serão incumbidos de espalhar essas punições: "Ouvi, então, uma forte voz saindo do Templo, que dizia aos sete anjos: 'Ide, e derramai sobre a Terra as sete taças da ira de Deus.'" Ap 16,1
    Já havia sido revelado um específico lugar, onde por completo se manifestarão os castigos da divina ira, pois de lá Deus Se ausentará. É o definitivo inferno, como vimos, o chamado lago de fogo: "O anjo lançou sua foice à Terra e vindimou a vinha da Terra, e atirou os cachos no grande lagar da ira de Deus." Ap 14,19
    Pois o próprio Jesus não via solução para o mundo, como disse a poucos dias de Sua Crucificação: "E ante o crescente progresso da iniquidade, a caridade de muitos resfriará." Mt 24,12
    Chegou mesmo a Se perguntar enquanto preparava os Apóstolos: "Mas quando o Filho do Homem vier, acaso achará fé sobre a Terra?" Lc 18,8b
    Por fim, no Dia da ira de Deus dar-se-á a completa renovação do Universo, como foi profetizado pelo Príncipe dos Apóstolos: "Entretanto, o Dia do Senhor virá como o ladrão. Naquele dia, os céus passarão com ruído, os elementos abrasados dissolver-se-ão, e a Terra será consumida com todas obras que ela contém." 2 Pd 3,10
    Quanto ao dia e à hora em que essas coisas acontecerão, porém, assim como a insuspeita ira de Deus, Jesus fez questão de notificar aos Onze da permanência dos mistérios até o último instante. Está no  Livro de Atos dos Apóstolos, pouco antes de Sua Ascensão: "Não pertence a vós saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou por Seu poder..." At 1,7

    "Esperamos, ó Cristo, Vossa gloriosa Vinda!"