quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Visões e Aparições (I)


NO ANTIGO TESTAMENTO

    Embora o mundo moderno, e aí inclusos muitos religiosos, se pretenda o mais acurado observador da Verdade, as celestiais visões e aparições são fenômenos absolutamente comuns através dos tempos, e são muitos os registros no Antigo e Novo no Testamento. Ora, a veracidade da religião que temos se deve ao fato de que ela foi inteiramente revelada: toda Doutrina da Igreja Católica Apostólica Romana (cf. Ap 1,6) vem da Revelação de Deus, nas Pessoas da Santíssima Trindade! Nós acolhemos a plenitude da Revelação (cf. 2 Cor 3,6), que em boa parte foi feita através de visões e aparições.
    Além de muito frequentes no Pentateuco, os Profetas Jeremias, Isaías, Samuel, Daniel, Ezequiel, Habacuc, Abdias, Naum, Amós e Zacarias, entre outros servos de Deus, tiveram expressivas visões. Aliás, não ter visões era sinal de más relações com Deus, conforme o Primeiro Livro do Profeta Samuel: "O jovem Samuel servia ao Senhor sob os olhos de Heli. A Palavra do Senhor era rara naqueles dias, e as visões não eram frequentes." 1 Sm 3,1
    É nessa atmosfera que o Pentecostes é prometido, quando as visões se tornariam abundantes pela plena ação do Espírito Santo na Santa Igreja Católica (cf. Ef 5,26; At 1,8), como está no Livro do Profeta Joel. Deus disse-lhe: "Depois disso, acontecerá que derramarei Meu Espírito sobre todo ser vivo: vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos anciãos terão sonhos, e vossos jovens terão visões. Farei aparecer prodígios no céu e na Terra, sangue, fogo e turbilhões de fumaça." Jl 3,1.3
    O Livro das Lamentações, escrito depois da primeira destruição de Jerusalém e do Templo, quando o povo de Israel foi levado ao exílio em Babilônia, também se ressente de seu tempo: "Não há mais Oráculos. Mesmo os Profetas não mais recebem as visões do Senhor." Lm 2,9b
    Foi muito grave castigo, pelo que se lê no Livro do Profeta Amós, de mais de 100 anos antes deste flagelo: "Porque o Senhor Javé nada faz sem revelar Seu segredo aos Profetas, Seus servos." Am 3,7
    Com efeito, o Livro do Profeta Miqueias, poucas décadas depois de Amós, já acusava os maus líderes e falsos profetas de Israel: "Eu disse: 'Ouvi, chefes de Jacó, e vós, príncipes de Israel! Não devíeis vós saber o que é justo? Um dia clamarão ao Senhor, mas Ele não lhes responderá. Ocultá-lhes-á Sua face naquele dia por causa da malícia de seus atos.' Oráculo do Senhor contra os profetas que desencaminham meu povo, que anunciam a paz quando têm algo para mastigar e declaram guerra a quem nada lhes põe na boca. Por isso, em lugar de visões tereis a noite, e trevas em lugar de revelações. Pôr-se-á o sol para esses profetas, o dia vai tornar-se obscuro... Todos esconderão a barba, porque Deus cessará de lhes falar." Mq 3,1.4-6.7b
    E o Livro de Provérbios, que começou a ser escrito ainda no tempo do rei Salomão, atestava a importância que essas divinas interveniências têm: "Por falta de visão, o povo vive sem freios..." Pr 29,18a
    Por vezes, porém, a culpa era do próprio povo, como se vê no Livro do Profeta Isaías, que foi contemporâneo de Miqueias: "'Ai dos rebeldes filhos', diz o Senhor, 'eles seguem um plano que não vem de Mim. Concluem alianças sem Meu consentimento, acumulando, assim, falta sobre falta. Porque este é um povo rebelde, são mentirosos filhos, filhos que se recusam a ouvir as instruções do Senhor. Eles dizem aos videntes: 'Não vejais.' E aos Profetas: 'Não nos anuncieis a Verdade! Dizei-nos coisas agradáveis, profetizai-nos fantasias.'" Is 30,1-2.9-10
    Pois no Livro do Profeta Oseias, que foi sucedido pelo Profeta Miqueias, Deus já fazia um revisão da História de Israel, mencionando Sua assistência e as já muitas e gritantes quedas por infidelidade, que não ficariam sem os devidos castigos: "'Efraim cerca-Me de mentira, e a casa de Israel, de hipocrisia. Judá é um traidor testemunho de Deus, que tem comércio com as hieródulas.' O Senhor está em processo com Judá. Vai castigar Jacó por seus atos e tratá-lo segundo suas obras. Desde o nascimento, Jacó suplantou o irmão, e quando se tornou adulto, lutou contra Deus. Lutou contra o anjo e venceu-o, chorou e pediu-lhe Graça. Encontrou-o em Betel, onde Deus nos falou, o Senhor, Deus dos Exércitos, Cujo Nome é Javé. 'Falei aos Profetas e multipliquei as visões. Pela boca dos Profetas, falei em comparações.' O Senhor fez Israel sair de Egito por um Profeta, por um Profeta foi guardado o povo. Efraim causou amargos desgostos. Por isso, o sangue que derramou recairá sobre ele, e Seu Senhor pagá-lhe-á seus ultrajes." Os 12,1.3-6.11.14-15
    Etapas da Revelação, tanto as aparições quanto as visões foram determinantes desde o início da História do povo de Israel. No Livro de Gênesis, após falar a Abraão, mandando-o para a 'Terra Prometida', Deus vai manifestar-Se a si: "O Senhor disse a Abrão: 'Deixa tua terra, tua família e a casa de teu pai, e vai para a terra que Eu te mostrar.' Tomou Sarai, sua mulher, e Lot, filho de seu irmão, assim como todos bens que possuíam e os escravos que tinham adquirido em Harã, e partiram para a terra de Canaã. Ali chegando, Abrão atravessou a terra até Siquém, até o carvalho de Moré. Os cananeus estavam então naquela terra. O Senhor apareceu a Abrão e disse-lhe: 'Darei esta terra a tua posteridade.' Abrão edificou um altar ao Senhor, que lhe tinha aparecido." Gn 12,1.5-7
    Depois veio prometer-lhe a paternidade de uma grande nação: "Abrão tinha noventa e nove anos. O Senhor apareceu-lhe e disse-lhe: 'Eu sou o Deus Todo-Poderoso. Anda em Minha presença e sê perfeito. Quero fazer Aliança contigo, e ao infinito multiplicarei tua descendência.' Abrão prostrou-se com o rosto por terra." Gn 17,1-3
    Em manifestação da Santíssima Trindade, veio anunciar-lhe um filho, antes de destruir Sodoma e Gomorra: "O Senhor apareceu a Abraão nos carvalhos de Mambré, quando ele estava sentado à entrada de sua tenda, no maior calor do dia. Abraão levantou os olhos e viu três Homens de pé diante de si. No mesmo instante, levantou-se da entrada de sua tenda, veio-Lhes ao encontro e prostrou-se por terra. (...) E Ele disse-lhe: 'Voltarei a tua casa dentro de um ano, a esta época, e Sara, tua mulher, terá um filho.'" Gn 18,1-2.10
    Mas para testar a fidelidade de Abraão, Deus pediu-lhe o sacrifício deste único filho onde o Templo de Jerusalém seria construído, quando a intervenção de um anjo se confunde com o próprio Deus, o que àqueles tempos não era raro (cf. Gn 16,13): "Deus disse: 'Toma teu filho, teu único filho a quem tanto amas, Isaac e vai à terra de Moriá, onde tu o oferecerás em holocausto sobre um dos montes que Eu te indicar.' Quando chegaram ao lugar indicado por Deus, Abraão edificou um altar, nele colocou a lenha, amarrou Isaac, seu filho, e pô-lo sobre o altar em cima da lenha. Depois, estendendo a mão, tomou a faca para imolar seu filho. O anjo do Senhor, porém, gritou-lhe do Céu: 'Abraão! Abraão!' 'Eis-me aqui!' 'Não estendas tua mão contra o menino, e não lhe faças nada. Agora eu sei que temes a Deus, pois não Me recusaste teu próprio filho, teu único filho.' Abraão, levantando os olhos, viu atrás de si um cordeiro preso pelos chifres entre os espinhos, e, tomando-o, ofereceu-o em holocausto em lugar de seu filho. Abraão chamou a este lugar 'Javé proverá', de onde se diz até o dia de hoje: 'Sobre o monte, Javé proverá.' Pela segunda vez, o anjo do Senhor chamou Abraão do Céu e disse-lhe: 'Juro por Mim mesmo', diz o Senhor, 'porque fizeste isto e não Me recusaste teu filho, teu único filho, Eu abençoá-te-ei.'" Gn 22,2.9-16
    Tempos mais tarde, Deus apareceu ao próprio Isaac, quando uma grande fome veio à região: "O Senhor apareceu-lhe e disse-lhe: 'Não desças a Egito! Fica na terra que Eu te indico. Habita nela! Eu estou contigo e abençoá-te-ei, porque é a ti e a tua posteridade que darei toda esta terra, e cumprirei o juramento que fiz a teu pai Abraão. Multiplicarei tua posteridade como as estrelas do céu, dá-lhe-ei todas estas regiões, e nela serão benditas todas nações da Terra, porque Abraão obedeceu a Minha voz e observou Meus preceitos, Meus Mandamentos e Minhas leis.'" Gn 26,2-5


    Deus também apareceu a Jacó, filho de Isaac e neto de Abraão: "Jacó, partindo de Bersabeia, tomou o caminho de Harã. Chegou a um lugar, e ali passou a noite, porque o sol já se tinha posto. Como travesseiro, serviu-se de uma das pedras que ali se achavam, e dormiu naquele mesmo lugar. E teve um sonho: via uma escada, que, apoiando-se na terra, tocava com o cimo o Céu, e os anjos de Deus subiam e desciam pela escada. No alto estava o Senhor, que lhe dizia: 'Eu sou o Senhor, o Deus de Abraão, teu pai, e o Deus de Isaac. Darei a ti e a tua descendência a terra em que estás deitado.' Jacó, despertando de seu sono, exclamou: 'Na verdade, o Senhor está neste lugar e eu não o sabia!' E cheio de pavor, ajuntou: 'Quão terrível é este lugar! É nada menos que a Casa de Deus. A porta do Céu é aqui!'" Gn 28,10-13.16-18
    E enquanto voltava à terra de Edom, ele vai lutar contra um anjo, como mais tarde a tradição interpretou, embora o texto propriamente fale de Deus: "Jacó ficou só, e Alguém lutava contra ele até o romper da aurora. Vendo que não podia vencê-lo, Aquele Homem tocou-lhe na articulação da coxa e esta deslocou-se, enquanto Jacó lutava contra Ele. E disse-lhe: 'Deixa-Me partir, porque a aurora se levanta.' 'Não Te deixarei partir', respondeu Jacó, 'antes que me tenhas abençoado.' 'Ele perguntou-lhe: 'Qual é teu nome?' 'Jacó.' 'Teu nome não será mais Jacó', tornou Ele, 'mas Israel, porque lutaste contra Deus e contra os homens, e venceste.' Jacó perguntou-lhe: 'Peço-Te que me digas qual é Teu Nome.' 'Por que Me perguntas Meu Nome?', respondeu Ele. E abençoou-o no mesmo lugar. Jacó chamou àquele lugar Fanuel: 'Porque', disse ele, 'eu vi a Deus face-a-face, e conservei a vida.'" Gn 32,24-30
    Deus veio-lhe outra vez para lhe confirmar o nome de Israel: "Quando Jacó voltou de Padã-Arã, Deus novamente lhe apareceu e o abençoou. 'Teu nome,' disse-lhe Ele, 'é Jacó. Tu, porém, não te chamarás mais assim, mas Israel.' E chamou-o Israel." Gn 35,9-10
    E quando houve uma grande fome na região, enviou-o a Egito com seus filhos: "Em uma noturna visão, Deus disse-lhe: 'Jacó! Jacó!' 'Eis-me aqui', respondeu ele. E Deus disse: 'Eu sou Deus, o Deus de teu pai. Não temas descer a Egito, porque ali farei de ti uma grande nação. Descerei contigo a Egito, e Eu mesmo fá-te-ei de novo subir de lá. José fechá-te-á os olhos.'" Gn 46,20-4
    Séculos mais tarde, ainda em Egito, Deus viria ao encontro do maior Profeta de Israel (cf. Dt 34,10), mas mais uma vez inicialmente confundido com um anjo. É leitura do Livro de Êxodo: "Moisés apascentava o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Madiã. Um dia em que conduzira o rebanho para além do deserto, chegou até a montanha de Deus, Horeb. O anjo do Senhor apareceu-lhe numa chama que saía do meio de uma sarça. Moisés olhava: a sarça queimava, mas não se consumia. 'Vou aproximar-me,' disse ele consigo, 'para contemplar esse extraordinário espetáculo, e saber porque a sarça não se consome.' Vendo o Senhor que ele se aproximou para ver, chamou-o do meio da sarça: 'Moisés, Moisés!' 'Eis-me aqui!' respondeu ele. E Deus: 'Não te aproximes daqui. Tira as sandálias de teus pés, porque o lugar em que te encontras é uma Terra Santa. Eu sou', ajuntou Ele, 'o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó.' Moisés escondeu o rosto, e não ousava olhar para Deus. 'Vai, reúne os anciãos de Israel e dize-lhes: O Senhor, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó apareceu-me.'" Êx 3,1-6.16
    Já durante o Êxodo, ao invés de Se confundir com um anjo, Deus manifestava apenas Sua Glória numa das 7 formas que o Santo Paráclito assume: "Enquanto Aarão falava a toda assembleia dos israelitas, olharam para o deserto e eis que a Glória do Senhor apareceu na Nuvem!" Êx 16,10
    Assim também quando Deus convocou o também maior Legislador de Israel para a conclusão da Aliança: "Moisés subiu ao monte. A Nuvem cobriu o monte e a Glória do Senhor repousou sobre o monte Sinai, que ficou envolvido na Nuvem durante seis dias. No sétimo dia, o Senhor chamou Moisés do seio da Nuvem. Aos olhos dos israelitas, a Glória do Senhor tinha o aspecto de um fogo consumidor sobre o cume do monte." Êx 24,15-17
    Mas, nesses assuntos, Moisés realmente era um privilegiado, especialmente onde a Arca da Aliança era guardada: "Quando Moisés se dirigia para a Tenda, todo mundo levantava-se, cada um diante da entrada de sua tenda, para o seguir com os olhos até que entrasse na Tenda. E logo que ele acabava de entrar, a coluna de Nuvem descia e punha-se à entrada da Tenda, e o Senhor entretinha-Se com Moisés. O Senhor entretinha-Se com Moisés face-a-face, como um homem fala com seu amigo. Depois Moisés voltava ao acampamento, mas seu ajudante, o jovem Josué, filho de Nun, não se apartava do interior da Tenda." Êx 33,8-9.11
    E no Livro de Números, Deus mesmo manifestou-Se sobre essa questão: "Maria e Aarão criticaram Moisés por causa da mulher etíope que ele desposara. Moisés tinha, com efeito, tomado uma mulher etíope. 'Porventura é só por Moisés,' diziam eles, 'que o Senhor fala? Também não fala Ele por nós?' E o Senhor ouviu isso. Ora, Moisés era um homem muito humilde, o mais humilde da Terra. Logo falou o Senhor a Moisés, a Aarão e a Maria: 'Ide todos três à Tenda de Reunião.' E eles foram. O Senhor desceu na coluna de Nuvem e parou à entrada da Tenda. Chamou Aarão e Maria, e eles aproximaram-se. 'Ouvi bem,' disse Ele, 'o que vou dizer: Se há entre vós um Profeta, Eu aparecê-lhe-ei em visão. Eu, o Senhor, é em sonho que lhe falarei. Mas não é assim a respeito de Meu servo Moisés, que é fiel em toda Minha Casa. A si Eu falo face-a-face, a si manifesto-Me sem enigmas, e Ele contempla o rosto do Senhor. Por que vos atrevestes, pois, a falar contra Meu servo Moisés?'" Nm 12,1-8
    Mas logo vemos, como na confusão com os anjos, uma pertinente deflecção destas aparições, pois em Sua plena Glória a face de Deus não pode ser vista pelo ser humano em vida, como acima vimos Isaac afirmar. Foi quando este Profeta pediu que Deus caminhasse pelo deserto com o povo de Israel, e Ele assim concordou: "Moisés disse: 'Mostrai-me Vossa Glória.' E Deus respondeu: 'Vou fazer passar diante de ti todo Meu esplendor, e pronunciarei diante de ti o Nome de Javé. Dou Minha Graça a quem quero, e uso de Misericórdia com quem Me apraz. Mas,' ajuntou o Senhor, 'não poderás ver Minha face, pois o homem não poderia ver-Me e continuar a viver. Eis um lugar junto a Mim', disse o Senhor, 'tu estarás sobre a rocha. Quando Minha Glória passar, pô-te-ei na fenda da rocha e cobri-te-ei com a mão até que Eu tenha passado. Depois retirarei a mão, e ver-Me-ás por detrás. Quanto a Minha face, ela não pode ser vista.'" Êx 33,18-23
    Após o Êxodo, então, Deus chamou Samuel, último Juiz de Israel e primeiro Profeta, excluindo Moisés, e passou a Se manifestar a si, antes de a Arca da Aliança cair nas mãos dos filisteus por causa dos pecados do sumo sacerdote e juiz de Israel, cujos dois filhos eram imorais e corruptos sacerdotes: "Veio o Senhor, pôs-Se junto a si e chamou-o como das outras vezes: 'Samuel! Samuel!' 'Falai', respondeu o menino, 'Vosso servo escuta!' O Senhor disse a Samuel: 'Eis que vou fazer uma tal coisa em Israel, que a todo aquele que a ouvir ficá-lhe-ão retinindo os ouvidos. Naquele dia, cumprirei contra Heli todas ameaças que pronunciei contra sua casa. Começarei e irei até o fim. Anunciei-lhe que Eu condenaria para sempre sua família, por causa dos crimes que ele sabia que seus filhos cometiam, e não os corrigiu. Por isso, jurei à casa de Heli que sua culpa jamais seria expiada, nem com sacrifícios nem com oblações.' Samuel ficou deitado até pela manhã, quando abriu as portas da Casa do Senhor. Ele temia contar a visão a Heli. Heli, porém chamou-o e disse: 'Samuel, meu filho!' 'Eis-me aqui', respondeu ele. E Heli: 'Que te disse Ele? Não me ocultes nada. Que Deus te trate com toda severidade se me encobrires algo de tudo que Ele te disse.' Então Samuel lhe contou tudo, sem nada ocultar. Heli exclamou: 'O Senhor fará o que Lhe parecer melhor.' Samuel crescia, e o Senhor estava consigo. Ele não negligenciava nenhuma de Suas palavras. Todo Israel, desde Dã até Bersabeia, reconheceu que Samuel era um Profeta do Senhor. E o Senhor continuou a Se manifestar em Silo. É ali que o Senhor aparecia a Samuel, descobrindo-lhe Sua Palavra." 1 Sm 3,10-21
    E assim Deus revelou e sustentou os reis de Israel, como fez Samuel e Natã antever Davi. O sagrado autor cantou no Livro de Salmos: "Outrora, em visão, falastes a Vossos Santos e disseste-lhes: 'Impus a coroa a um herói, escolhi Meu eleito dentre o povo. Encontrei Davi, Meu servo, e sagrei-o com Minha santa unção. Minha mão sempre lhe assistirá, e Meu braço fortalecê-lo-á. O inimigo não há de o surpreender, nem o malvado ousará oprimi-lo. Sob seus olhos esmagarei seus contrários, serão feridos aqueles que o odeiam. Consigo ficarão Minha fidelidade e bondade, por Meu Nome crescerá seu poder. Estenderei sua mão por sobre o mar, e sua destra acima dos rios. Ele invocá-Me-á: 'Vós sois Meu Pai, Vós sois Meu Deus e Meu protetor rochedo." Sl 88,20-27
    Em seus Salmos, porém, como no tempo de Moisés, o rei Davi registou o sonho do povo de Israel para quando partissem deste mundo: a Beatífica Visão, ver Deus na plenitude de Sua Glória: "... com Vossa mão livrai-me dos homens, desses cuja única felicidade está nesta vida, que têm o ventre repleto de bens, cujos filhos vivem na abundância e ainda deixam a seus filhos o que lhes sobra. Mas eu, confiado em Vossa Justiça, contemplarei Vossa face. Ao despertar, saciar-me-ei com a visão de Vosso Ser." Sl 16,14-15
    E essa passou a ser a tônica das celebrações, como ele cantava: "Quem será digno de subir ao monte do Senhor? Ou de permanecer em Seu Santo lugar? Aquele que tem as mãos limpas e o coração puro, cujo espírito não busca as vaidades nem perjura para enganar seu próximo. Este terá a bênção do Senhor, e a recompensa de Deus, Seu Salvador. Tal é a geração daqueles que O procuram, daqueles que buscam a face do Deus de Jacó." Sl 23,3-6
    Era o pedido de suas orações: "Fala-Vos meu coração, minha face busca-Vos. Vossa face, ó Senhor, eu procuro-a. Não escondais de mim Vosso semblante, não afasteis com ira Vosso servo." Sl 26,8-9a
    E frequente: "... quando irei contemplar a face de Deus?" Sl 41,3
    "Ó Senhor, não me afasteis de Vossa face..." Sl 50,13a
    Mas se Davi pretendia construir um Templo para Deus, este desejo só se realizaria através de seu filho Salomão, enquanto o definitivo Reino de Deus, leia-se a Igreja Apostólica (cf. Jo 20,21), só viria através de Jesus, que também era de sua descendência (cf. Mt 1,1), o prometido Filho de Davi (cf. Mt 21,9). Foi o que o Profeta Natã previu quando este rei foi morar em Jerusalém, no Primeiro Livro de Crônicas: "Quando Davi se instalou em sua casa, disse ao Profeta Natã: 'Eis que moro numa casa de cedro e a Arca da Aliança do Senhor está debaixo de uma Tenda.' Natã respondeu: 'Faze o que teu coração te sugere, porque Deus está contigo.' Mas, na seguinte noite, a Palavra de Deus foi dirigida a Natã nestes termos: 'Vai e dize a Davi, Meu servo: Eis o que o Senhor diz: Não és tu que Me construirás a Casa em que habitarei. Nunca habitei numa casa, desde o dia em que fiz Israel sair de Egito até hoje, mas tenho estado de Tenda em Tenda, de morada em morada. Quando teus dias se acabarem e tiveres ido juntar-te a teus pais, levantarei tua posteridade após ti, num de teus filhos, e firmarei Seu Reino. É Ele que Me construirá uma Casa e firmarei Seu trono para sempre. Serei para Ele um Pai, e Ele será para Mim um Filho. E nunca retirarei de Si Meu favor, como retirei daquele que reinou antes de ti. Eu estabelecê-Lo-ei em Minha Casa e em Meu Reino para sempre, e Seu trono será firme por todos séculos.' Natã referiu a Davi todas palavras que tinha ouvido em visão." 1 Cr 17,1-5.11-15


    O Anjo da Guarda de Elias, grande Profeta dos anos de 900 antes de Cristo, então mais claramente se apresentando, alimentou-o no deserto, e, à semelhança da aparição a Moisés sobre a rocha, Deus apresentou-Se-lhe, depois que ele fugiu da rainha Jezabel que obrigava os sacerdotes de Israel a prestar culto a Baal, deus dos cananeus. Está no Primeiro Livro de Reis: "Elias teve medo, e partiu para salvar sua vida. Chegando a Bersabeia, em Judá, ali deixou seu servo e andou pelo deserto um dia de caminho. Sentou-se debaixo de um junípero e desejou a morte: 'Basta, Senhor', disse ele, 'tirai-me a vida porque não sou melhor que meus pais.' Deitou-se por terra e adormeceu debaixo do junípero. Mas eis que um anjo tocou-o, e disse: 'Levanta-te e come.' Elias olhou e viu junto a sua cabeça um pão cozido debaixo da cinza, e um vaso de água. Comeu, bebeu e tornou a dormir. O anjo do Senhor veio pela segunda vez, tocou-o e disse: 'Levanta-te e come, porque tens um longo caminho a percorrer.' Elias levantou-se, comeu e bebeu, e com o vigor daquela comida andou quarenta dias e quarenta noites, até Horeb, a montanha de Deus. Ali chegando, passou a noite numa caverna. Então a Palavra do Senhor lhe foi dirigida: 'Que fazes aqui, Elias?' Ele respondeu: 'Estou devorado de zelo pelo Senhor, o Deus dos Exércitos. Porque os israelitas abandonaram Vossa Aliança, derrubaram Vossos altares e passaram Vossos Profetas a fio de espada. Só eu fiquei, e querem tirar-me a vida.' Deus disse-lhe: 'Sai e conserva-te em cima do monte na presença de Javé: Ele vai passar.' Nesse momento, passou diante do Senhor um impetuoso e violento vento que fendia as montanhas e quebrava os rochedos, mas o Senhor não estava naquele vento. Depois do vento, a terra tremeu, mas o Senhor não estava no tremor de terra. Passado o tremor de terra, acendeu-se um fogo, mas o Senhor não estava no fogo. Depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa. Tendo ouvido isso, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da caverna. O Senhor disse-lhe: 'Retoma o caminho do deserto, em direção a Damasco. Ali chegando, ungirás Hazael como rei de Síria, Jeú, filho de Namsi, como rei de Israel, e Eliseu, filho de Safat, de Abel-Meula, como Profeta em teu lugar." 1 Rs 19,3-13a.15-16
    E assim Eliseu, seu discípulo, viu Elias ser arrebatado ao Céu, após ter cumprido a missão que Deus lhe confiara. Lê-se no Segundo Livro de Reis: "Elias tomou seu manto, dobrou-o e com ele feriu as águas, que se separaram para as duas bandas, de modo que ambos atravessaram a pé enxuto. Tendo passado, Elias disse a Eliseu: 'Pede-me algo antes que eu seja arrebatado de ti. Que posso fazer por ti?' Eliseu respondeu: 'Seja-me concedida a dobrada porção de Teu Espírito.' 'Pedes uma difícil coisa', replicou Elias. 'Entretanto, se me vires quando eu for arrebatado de ti, isso sê-te-á dado, mas se não me vires, não te será dado.' Continuando seu caminho, entretidos a conversar, eis que, de repente, um carro de fogo com cavalos de fogo os separou um do outro, e Elias subiu ao Céu num turbilhão. Vendo isso, Eliseu exclamou: 'Meu pai, meu pai! Carro e cavalaria de Israel!' E não o viu mais. Tomando, então, suas vestes, rasgou-as em duas partes. Apanhou o manto que Elias deixara cair, e voltando até o Jordão, parou à beira do rio. Tomou o manto que Elias deixara cair e com ele feriu as águas, dizendo: 'Onde está o Senhor, o Deus de Elias? Onde está Ele?' Tendo ferido as águas, estas separaram-se para um e outro lado, e Eliseu passou. Os filhos dos Profetas que estavam em Jericó, vendo o que acontecera defronte deles, disseram: 'O Espírito de Elias repousa em Eliseu.'" 2 Rs 2,8-15a
    Por revelação, pois, Eliseu anteviu o mal que Hazael faria a Israel: "Hazael partiu e foi ao encontro do homem de Deus, consigo levando presentes, o que havia de melhor em Damasco, em quarenta camelos carregados. Chegando aonde ele estava, disse-lhe: 'Teu filho Ben-Hadad, rei de Síria, mandou-me ter contigo para te perguntar se sairá vivo de sua enfermidade.' Eliseu respondeu-lhe: 'Vai e dize-lhe que ele certamente será curado. Mas o Senhor revelou-me que ele morrerá.' Depois o homem de Deus fixamente o olhou, de modo que Hazael se sentiu perturbado. E o homem de Deus pôs-se a chorar. 'Por que chora meu senhor?', perguntou Hazael. Ele respondeu: 'Porque sei os males que farás aos israelitas: incendiarás suas fortes cidades, passarás a fio de espada seus jovens, esmagarás suas crianças e rasgarás pelo meio o ventre de suas mulheres grávidas.' 'Será teu servo porventura um cão', disse-lhe Hazael, 'para fazer tais coisas?' Eliseu respondeu: 'O Senhor mostrou-me numa visão que serás rei de Síria.'" 2 RS 8,9-13

GRANDIOSAS VISÕES

    Em sequência, através do Profeta Isaías, as visões assumem ainda maior grandeza, certamente para maior impacto perante a já vasta e instruída população de Israel, e Deus, visto em Santíssima Trindade, determina que a atividade profética deveria seguir até a completa devastação da Terra, após a grande apostasia, também profetizada por São Paulo (cf. 2 Ts 2,3). Note-se: aí foi revelado que até os serafins cobrem o rosto diante do Senhor: "No ano da morte do rei Ozias, eu vi o Senhor sentado num muito elevado trono. As franjas de Seu manto enchiam o Templo. Os serafins mantinham-se junto a Si. Cada um deles tinha seis asas: com um par de asas velavam a face, com outro cobriam os pés e, com o terceiro, voavam. Suas vozes revezavam-se e diziam: 'Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus do Universo! A Terra inteira proclama Sua Glória!' A este brado, as portas estremeceram em seus gonzos e a Casa encheu-se de fumaça. 'Ai de mim', gritava eu. 'Estou perdido porque sou um homem de impuros lábios, e habito com um povo também de impuros lábios e, no entanto, meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos!' Porém, um dos serafins voou em minha direção. Trazia na mão uma viva brasa, que tinha tomado do Altar com uma tenaz. Aplicou-a em minha boca e disse: 'Tendo esta brasa tocado teus lábios, teu pecado foi tirado, e tua falta, apagada.' Então ouvi a voz do Senhor que dizia: 'Quem Eu enviarei? E quem irá por Nós?' 'Eis-me aqui', disse eu, 'enviai-me.' 'Vai, pois, dizer a esse povo', disse Ele: 'Escutai, sem chegar a compreender, olhai, sem chegar a ver. Obceca o coração desse povo, ensurdece-lhe os ouvidos, fecha-lhe os olhos, de modo que nada veja com seus olhos, não ouça com seus ouvidos, não compreenda nada com seu espírito. E não se cure de novo.' Eu perguntei: 'Até quando, Senhor?' E Ele respondeu: 'Até que as cidades fiquem devastadas e sem habitantes, as casas, sem gente, e a Terra, deserta! Até que o Senhor tenha banido os homens, e grande seja a solidão na Terra! Se restar um décimo da população, ele será lançado ao fogo, como o terebinto e o carvalho, cuja linhagem permanece quando são abatidos. Sua linhagem é um santo germe.'" Is 6,1-13
    E a este grande Profeta, Deus revela o Cristo, dando minuciosos detalhes desde Seu Nascimento entre os pobres, bem como de Sua Crucificação e Morte: "Cresceu diante de Deus como um pobre rebento enraizado numa árida terra. Não tinha graça nem beleza para atrair nossos olhares, e Seu aspecto não podia seduzir-nos. Era desprezado, era a escória da humanidade, Homem das dores, experimentado nos sofrimentos. Como aqueles diante dos quais se cobre o rosto, era amaldiçoado e de Si não fazíamos caso. Na verdade, Ele tomou sobre Si nossas enfermidades e carregou nossos sofrimentos, e nós reputávamo-Lo como um castigado, ferido e humilhado por Deus. No entanto, Ele foi castigado por nossos crimes e esmagado por nossas iniquidades. O castigo que nos salva pesou sobre Si, fomos curados graças a Suas chagas. Todos nós andávamos como desgarradas ovelhas, seguíamos cada qual nosso caminho. O Senhor fazia recair sobre Si o castigo das faltas de todos nós. Foi maltratado e resignou-Se, não abriu a boca, como um Cordeiro que se conduz ao matadouro e uma muda ovelha nas mãos do tosquiador. Ele não abriu a boca! Por um iníquo julgamento, foi arrebatado. Quem pensou em defender Sua causa quando foi suprimido da terra dos vivos, morto pelo pecado de meu povo? Foi-Lhe dada sepultura ao lado de facínoras, e ao morrer achava-Se entre malfeitores, apesar de não haver cometido injustiça alguma, e em Sua boca nunca tenha havido mentira. Mas aprouve ao Senhor esmagá-Lo pelo sofrimento. Se Ele oferecer Sua vida em expiatório sacrifício, terá uma duradoura posteridade, prolongará Seus dias, e a vontade do Senhor será por Ele realizada. Após suportar em Sua Pessoa os tormentos, alegrar-Se-á de conhecê-Lo até o enlevo. O Justo, Meu Servo, justificará muitos homens, e sobre Si tomará suas iniquidades." Is 53,1-11
    Elifaz de Temã, um amigo no Livro de Jó, que é um personagem fictício, teve a visão a seguir em tempos que a Justiça de Deus já era questionada. Teria sido de seu Anjo da Guarda? "Uma palavra furtivamente chegou a mim, meu ouvido percebeu o murmúrio, na confusão das visões da noite, na hora em que o sono se apodera dos humanos. Assaltaram-me o medo e o terror, e sacudiram todos meus ossos. Um sopro perpassou meu rosto, e fez arrepiar o pelo de minha pele. Lá estava um ser, não lhe vi o rosto, como um espectro sob meus olhos. Ouvi uma débil voz: 'Pode um homem ser justo na presença de Deus, pode um mortal ser puro diante de seu Criador? Ele não confia nem em Seus próprios servos. Até mesmo em Seus anjos encontra defeitos, quanto mais em Seus hóspedes, das casas de argila que têm o pó por fundamento! São esmagados como uma traça, entre a noite e a manhã são aniquilados. Sem que neles se preste atenção, morrem para sempre. Não foi arrancada a estaca da tenda deles? Morrem por não terem conhecido a Sabedoria.'" Jó 4,12-21
    E seu segundo amigo, Eliú, também advertiu a Jó por sua insensatez em tempos de castigos: "Pois Deus fala de uma maneira e de outra e não prestas atenção. Por meio de sonhos, de noturnas visões, quando um profundo sono pesa sobre os humanos, enquanto o homem está adormecido em seu leito, então lhe abre o ouvido e o assusta com Suas aparições, a fim de o desviar do pecado e o preservar do orgulho, para lhe salvar a alma do fosso, e sua vida, da mortífera seta." Jó 33,14-18
    Vieram, pois, os tempos que antecediam a escravidão de Babilônia, e no Livro do Profeta Jeremias vemos este conselho que ele dava ao último rei de Judá, falando sobre Jerusalém: "E Jeremias então disse a Sedecias: 'Eis o que o Senhor dos Exércitos, Deus de Israel, diz: Se te entregares aos oficiais do rei de Babilônia, terás a vida salva e a cidade não será queimada. E sobreviverás, assim como tua família. Mas se não te entregares aos oficiais do rei de Babilônia, a cidade cairá nas mãos dos caldeus, os quais a incendiarão. E tu não lhes escaparás.' 'Temo os judeus', replicou o rei Sedecias, 'que já se aliaram aos caldeus e me maltratarão se a eles for entregue.' 'Tal não acontecerá', retorquiu Jeremias. 'Escuta, portanto, a voz do Senhor naquilo que te digo: Nada te acontecerá e terás a vida salva. Mas se te recusares a te entregar, eis a visão que o Senhor me mostrou: todas mulheres que ficarem no palácio do rei de Judá serão entregues aos oficiais do rei de Babilônia. E elas dirão: 'Foste enganado, e subjugaram-te teus bons amigos. Desapareceram, enquanto teus pés se atolavam na lama.' Todas tuas mulheres e teus filhos serão entregues aos caldeus. E tu não lhes escaparás. Serás feito prisioneiro pelo rei de Babilônia, e a cidade será entregue às chamas!'" Jr 38,17-23
    Uma vez no exílio de Babilônia, Deus revelava Seus desígnios através de outro jovem, como consta do Livro do Profeta Daniel: "O rei dirigiu a palavra a Daniel, que tinha o cognome de Baltazar: 'És realmente capaz', disse-lhe, 'de me desvendar o sonho que tive e me fornecer a interpretação?' 'O mistério cuja revelação o rei pede', respondeu Daniel ao rei, 'nem os sábios, nem os mágicos, nem os feiticeiros, nem os astrólogos são capazes de lhos revelar. Mas no Céu existe um Deus que desvenda os mistérios, o Qual quis revelar ao rei Nabucodonosor o que deve suceder no decorrer dos tempos. Eis, portanto, teu sonho e as visões que se apresentaram a teu espírito quando estavas em teu leito. Senhor, os pensamentos que vieram a teu espírito, enquanto estavas em teu leito, são previsões do futuro: Aquele que revela os mistérios mostrou-te o futuro." Dn 2,26-29
    Era um realmente expressivo dom: "Além disso, Daniel era capaz de interpretar qualquer sonho e visão." Dn 1,17b
    E estas manifestações, como vistas por Isaías, voltavam a revelar Sua face, ainda que de alguma transfigurada forma, para que pudesse ser contemplada pelo ser humano. Mas, sem dúvida, entre várias visões que teve, Daniel viu a Deus Pai e a Jesus, assim como ouviu o anúncio da invencível Igreja Católica (cf. Mt 16,18): "No primeiro ano do reinado de Baltazar, rei de Babilônia, Daniel, estando em seu leito, teve um sonho, e visões surgiram em seu espírito. Consignou por escrito esse sonho e a substância dos fatos. Assim se manifestou: 'Via, no transcurso de minha noturna visão, os quatro ventos do céu precipitarem-se sobre o Grande Mar. Continuei a olhar, até o momento em que foram colocados os tronos, e um Ancião chegou e Se sentou. Brancas como a neve eram Suas vestes, e tal como a pura lã era Sua cabeleira. Seu trono era feito de chamas, com rodas de fogo ardente. Saído de diante de Si, corria um rio de fogo. Milhares e milhares serviam-nO, dezenas de milhares assistiam-nO! O tribunal deu audiência e os livros foram abertos. Sempre olhando a noturna visão, vi um Ser, semelhante ao Filho do Homem, vir sobre as nuvens do Céu: dirigiu-Se para o lado do Ancião, diante de Quem foi conduzido. A Si foram dados império, Glória e realeza, e todos povos, todas nações e povos de todas línguas serviram-nO. Seu domínio será eterno, nunca cessará, e Seu Reino jamais será destruído.'" Dn 7,1-2.9-10.13-14
    E não foi apenas uma vez, pois Jesus e um anjo tornaram a lhe aparecer para anunciar o tempo da ira de Deus: "No vigésimo quarto dia do primeiro mês, encontrava-me à beira do grande rio, o Tigre. Levantando os olhos, vi um Homem vestido de linho. Cingia-Lhe os rins um cinto de ouro de Ufaz. Seu Corpo era como o crisólito. Seu rosto brilhava como o relâmpago, Seus olhos, como tochas ardentes, Seus braços e pés tinham o aspecto do bronze polido, e Sua voz ressoava como o rumor de uma multidão. Eu, Daniel, era o único a ver essa aparição. Meus companheiros não a viram, mas deles apoderou-se tão grande pavor que fugiram para se esconder. Fiquei, portanto, sozinho a contemplar essa grandiosa aparição. As forças abandonaram-me, a tez de meu rosto tornou-se lívida e eu desfaleci. Ouvi, então, esse Homem falar, e ao som de Suas palavras caí desmaiado, com o rosto por terra. Eis, porém, que uma mão me tocou, e fez com que me erguesse sobre os joelhos e as palmas das mãos. 'Daniel, homem de predileção', disse-me Ele, 'presta atenção às palavras que vou dirigir-te. Levanta-te, pois tenho uma mensagem a te confiar.' Como me falasse assim, levantei-me tremendo. Enquanto assim me falava, eu mantinha meus olhos fixos no chão e permanecia mudo. De repente, alguém semelhante a um filho de homem tocou-me nos lábios. Abri a boca e falei, disse ao que estava perto de mim: 'Meu Senhor, essa visão transtornou-me, e estou sem forças. Como poderia o servo de Meu Senhor conversar com Seu Senhor, quando está sem forças e sem fôlego?' Então o Ser em humana forma novamente me tocou e me reanimou. 'Não temas nada, homem de predileção! Que a Paz esteja contigo! Coragem, coragem!' Enquanto Ele me falava, senti-me reanimado. 'Fala, Meu Senhor', disse, 'pois Tu restituíste minhas forças.'" Dn 10,4-11.15-19
    Contemporâneo de Daniel, o Livro do Profeta Ezequiel, noutra impressionante aparição, anota em detalhes a Glória de Deus, ainda que mitigada, sobre quatro querubins, os anjos do Verbo, que simbolizam os quatro Evangelhos. Eram consolações e revelações aos israelitas em tempos do exílio de Babilônia: "No trigésimo ano, no quinto dia do quarto mês, quando me encontrava entre os deportados às margens do rio Cobar, abriram-se os Céus e contemplei divinas visões. No quinto dia do mês, era o quinto ano de cativeiro do rei Joaquim, a Palavra do Senhor foi dirigida ao sacerdote Ezequiel, filho de Buzi, na Caldeia, às margens do rio Cobar. Nesse lugar, veio a mão do Senhor sobre mim. Então tive uma visão: do lado norte soprava um impetuoso vento, uma espessa Nuvem com um feixe de resplandecente fogo, e, no centro, saído do meio do fogo, algo que possuía um vermelho brilho. Distinguia-se, no centro, a imagem de quatro seres que aparentavam possuir humana forma. Cada um tinha quatro faces e quatro asas. Suas pernas eram direitas e as plantas de seus pés assemelhavam-se às do touro, e cintilavam como bronze polido. De seus quatro lados saíam mãos humanas por debaixo de suas asas. Suas asas tocavam uma na outra. Quando se locomoviam, não se voltavam: cada um andava para frente. Quanto ao aspecto de seus rostos, todos eles tinham humana figura, todos quatro uma face de leão pela direita, todos quatro uma face de touro pela esquerda, e todos quatro uma face de águia. Suas asas estendiam-se para o alto. Cada qual tinha duas asas que tocavam às dos outros, e duas que lhe cobriam o corpo. Pairando acima desses seres, havia algo que se assemelhava a uma abóbada, límpida como cristal, estendida sobre suas cabeças. Sob essa abóbada, alongavam-se suas asas até se tocarem, tendo cada um sempre duas que lhe cobriam o corpo. Eu escutava, quando eles caminhavam, o ruído de suas asas, semelhante ao barulho das grandes águas, à voz do Onipotente, um vozerio igual ao de um campo de batalha. Acima dessa abóbada havia uma espécie de trono, semelhante a uma pedra de safira, e, bem no alto dessa espécie de trono, uma Humana Silhueta. Vi que Ela possuía um vermelho fulgor, como se houvesse sido banhada no fogo, desde o que parecia ser Sua cintura, para cima, enquanto que, para baixo, vi algo como fogo que esparzia clarões por todos lados. Como o arco-íris que aparece nas nuvens em dias de chuva, assim era o resplendor que a envolvia. Era esta visão a imagem da Glória do Senhor." Ez 1,1-8a.9-10.11b.22-24.26-28
    E também não lhe foi a única vez, pois as profanações que se viam em Jerusalém eram abomináveis: "No sexto ano, no quinto dia do sexto mês, estava eu sentado em minha casa, com os anciãos de Judá, quando a mão do Senhor baixou sobre mim. Olhei: enxerguei algo como uma Humana Silhueta. Abaixo do que parecia serem seus rins, era fogo e, desde os rins até o alto, havia um vermelho clarão. Estendeu uma espécie de mão, e agarrou-me pelos cachos dos cabelos. O espírito levantou-me entre o céu e a Terra, e levou-me a Jerusalém, em divinas visões, à entrada da porta interior que olha para o norte, lá onde se erige o ídolo que provoca o ciúme do Senhor. Lá se manifestou a mim a Glória do Deus de Israel, tal como a visão que tive no vale." Ez 8,1-4
    Então este Profeta viu a Glória de Deus deixar o Templo de Jerusalém, que seria preenchido por uma nuvem de obscuridade, pois os babilônios viriam para o destruir: "... os querubins estavam à direita do Templo, e a nuvem enchia o átrio interior. A Glória do Senhor elevou-se acima dos querubins até a soleira do Templo, e enquanto o esplendor da Glória do Senhor enchia o átrio, a nuvem invadia o Templo. De repente, a Glória do Senhor deixou a soleira do Templo e pousou sobre os querubins. Estes desdobraram as asas, e eu vi-os alçarem-se da terra com as rodas ao lado, para partirem." Ez 10,3b-4.18-19a
    Por fim, Deus anuncia a este Profeta que Sua paciência, bem como o que restava de ensinamento em Suas manifestações, chegavam ao fim: "A Palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: 'Filho do homem, que ditado é esse que corre em Israel: Passam os dias, mas as visões ficam sem efeito? Pois bem, dize-lhes: Eis o que o Senhor diz: Farei cessar esse provérbio, não se repetirá mais isso em Israel. Dize-lhes, pois: Aproximam-se os dias em que todas essas visões hão de se cumprir. Daqui por diante, nenhuma visão será vã, e nenhum oráculo, ineficaz em Israel, porque sou Eu, o Senhor, que falo: O que Eu digo sucederá sem mais delongas. É em vosso tempo, raça de rebeldes, que proferirei o Oráculo e o executarei, Oráculo do Senhor Javé." Ez 12,21-25
    E Ezequiel foi encarregado por Deus para desmentir os falsos profetas, ainda no exílio, anunciando-lhes severas punições: "A Palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: 'Filho do homem, profetiza contra os profetas israelitas que pretendem profetizar, dize àqueles que profetizam de sua própria cabeça: Escutai a Palavra do Senhor!' Eis o que o Senhor Javé diz: 'Ai dos insensatos profetas que seguem sua própria inspiração sem terem tido visão alguma. Assim como chacais nos esconderijos, tais são teus profetas, ó Israel. Não é Verdade que não tendes senão ineptas visões, e não fazeis senão enganadoras predições quando dizeis: Oráculo do Senhor, quando Eu não falei coisa alguma?' E, por isso, eis o que diz o Senhor Javé: 'Porque proferis enganadores oráculos e tendes mentirosas visões, Eu vou castigar-vos,' Oráculo do Senhor Javé. 'Estenderei Minha mão contra esses profetas... Não farão mais parte do conselho de Meu povo, não serão inscritos no número da Casa de Israel e não regressarão à terra de Israel. E saberão assim que sou Eu o Senhor Javé. Porquanto abusam de Meu povo, dizendo: 'Tudo vai bem, quando tudo vai mal.'" Ez 13,1-4.7-9a.10


    Mas a este Profeta também foi revelado o poder de Deus para a Ressurreição da Carne, na gloriosa visão do Vale dos Ossos, quando o poder do Espírito Paráclito é invocado: "A mão do Senhor desceu sobre mim. Ele arrebatou-me em espírito e colocou-me no meio de uma planície que estava coberta de ossos. Ele fez-me circular em todos sentidos em meio a esses numerosos ossos que jaziam na superfície. Vi que estavam inteiramente secos. Disse-me o Senhor: 'Filho do homem, poderiam esses ossos retornar à vida?' 'Senhor Javé,' respondi, 'só Vós o sabeis.' Ele disse-me então: 'Profere um Oráculo sobre esses ossos. Ossos dessecados, di-lhes-ás tu, escutai a Palavra do Senhor: Eis o que o Senhor Javé vos declara: Vou fazer reentrar em vós o sopro da Vida, para vos fazer reviver. Em vós porei músculos, sobre vós farei vir carne, de pele cobri-vos-ei. Depois farei entrar em vós o sopro da Vida, a fim de que revivais, e assim sabereis que Eu sou o Senhor.' Profetizei, pois, assim como tinha recebido ordem. No momento em que comecei, um barulho fez-se ouvir, em seguida um ensurdecedor ruído enquanto os ossos vinham unir-se aos outros. Prestando atenção, vi que sobre eles se formavam músculos, que neles nascia carne e que uma pele os recobria. Todavia, não tinham espírito. 'Profetiza ao Espírito,' disse-me o Senhor, 'profetiza, filho do homem, e dirige-te ao Espírito: Eis o que o Senhor Javé diz: Vem, Espírito, dos quatro cantos do Céu, sopra sobre esses mortos para que revivam.' Proferi o Oráculo que Ele me havia ditado, e daí a pouco o Espírito penetrou neles. Retornando à vida, eles levantaram-se sobre seus pés: um grande, um imenso exército. Então o Senhor me disse: 'Filho do homem, esses ossos são toda raça dos israelitas. Eles dizem: Nossos ossos estão secos, nossa esperança está morta, estamos perdidos! Por isso, dirige-lhes o seguinte Oráculo: Eis o que o Senhor Javé diz: Ó Meu povo, vou abrir vossos túmulos. Fá-vos-ei deles sair para vos transportar à terra de Israel. Sabereis que Eu é que sou o Senhor, ó Meu povo, quando Eu abrir vossos túmulos e deles vos fizer sair, quando em vós pôr Meu Espírito para vos fazer voltar à vida, e quando vos restabelecer em vossa terra. Sabereis, então, que sou Eu o Senhor, que o disse e o executei, Oráculo do Senhor.'" Ez 37,1-14
    E igualmente numa visão a este sacerdote, Deus determina, através de um anjo, os detalhes da reconstrução do Templo de Jerusalém, após o exílio em Babilônia: "No ano vinte e cinco de nossa deportação, no começo do ano, no décimo mês, catorze anos após a queda da cidade, naquele mesmo dia, a mão do Senhor veio sobre mim. Deus transportou-me, no curso das divinas visões, à terra de Israel. Ele colocou-me nos cimos de uma muito elevada montanha, sobre a qual pareciam elevar-se, do lado do meio-dia, as construções de uma cidade. Conduzido ao lugar, divisei um homem que parecia ser de bronze, levando nas mãos uma corda de linho e uma cana de agrimensor. Ele permanecia de pé à porta. Esse homem dirigiu-me as seguintes palavras: 'Filho do homem, volta teus olhos, escuta com teus ouvidos, e presta bem atenção a tudo quanto vou mostrar-te, porque é para esse espetáculo que até aqui foste transportado. Darás conhecimento aos israelitas de tudo que vou mostrar-te.' Um muro exterior formava o recinto do Templo. O homem tinha na mão uma cana de agrimensor, de seis côvados (cada côvado tendo um palmo a mais que o côvado corrente). Ele mediu a largura da construção, uma cana, e a altura, também uma cana." Ez 40,1-5
    O Livro do Profeta Zacarias, já vivendo o período da reconstrução do Templo, dá de Deus a certeza da Paz que então se volta a experimentar, pois Ele claramente demonstra reger toda Terra: "No vigésimo quarto dia do décimo primeiro mês (o mês de Sabat) do segundo ano do reinado de Dario, a Palavra do Senhor foi dirigida ao Profeta Zacarias, filho de Baraquias, filho de Ado, nestes termos: 'Tive uma visão durante a noite. Percebi, entre as murtas do fundo do vale, um homem montado num vermelho cavalo, e atrás de si estavam ruços, alazões e brancos cavalos. Eu perguntei: 'Meu senhor, que cavalos são estes?' E o anjo porta-voz respondeu-me: 'Vou explicar-te.' E o homem que se encontrava entre as murtas respondeu: 'Estes são os mensageiros que o Senhor mandou para percorrer a Terra.' Então os cavaleiros disseram ao anjo do Senhor que permanecia entre as murtas: 'Acabamos de percorrer toda Terra, e vimos que toda Terra está em tranqüilidade e descanso.' O anjo do Senhor disse: 'Senhor dos Exércitos! Até quando ficareis insensível à sorte de Jerusalém e das cidades de Judá? Já faz setenta anos que estais irritado contra elas!' O Senhor respondeu ao anjo que me falava, e disse-lhe boas palavras, cheias de consolação. E o anjo disse-me: 'Proclama o seguinte: Eis o que o Senhor dos Exércitos diz: Estou animado de ardente amor por Jerusalém e por Sião. Porém, sumamente irritado contra as nações que vivem despreocupadas. Eu só estava ligeiramente agastado contra Israel, mas estas nações ultrapassaram a medida.' Por isso, eis o que o Senhor diz: 'Novamente volto para Jerusalém cheio de compaixão. Em si, Minha Casa será reedificada,' Oráculo do Senhor dos Exércitos, 'e o cordel será estendido sobre Jerusalém. Farás a seguinte proclamação: Eis o que o Senhor dos Exércitos diz: Minhas cidades terão de novo muitas riquezas. O Senhor será a consolação de Sião, e sua escolha novamente cairá sobre Jerusalém.'" Zc 1,7-17
    E assim Deus volta a habitar no Templo de Jerusalém até o Advento do Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, enquanto Ezequiel se vê sempre assessorado por um anjo: "Então fui conduzido ao pórtico oriental, e eis que a Glória do Deus de Israel chegava do oriente, com ruído semelhante ao ruído das muitas águas, enquanto a Terra resplandecia com seu clarão. A visão que eu contemplava recordava-me a que me havia aparecido quando eu tinha vindo para a destruição da cidade, e a que me havia aparecido nas margens do Cobar. Caí com a face em terra. A Glória do Senhor penetrou no Templo pela porta oriental. O espírito levou-me e transportou-me ao átrio interior. Eis que o Templo estava cheio do resplendor do Senhor. Ouvi, então, que alguém me falava do interior do Templo, enquanto o homem se conservava sempre a meu lado. 'Filho do homem', disse-me a voz, 'aqui é o lugar de Meu Trono, o lugar onde pus a planta de Meus pés, Minha definitiva morada entre os israelitas. De hoje em diante, nem o povo de Israel, nem seus reis profanarão Meu Santo Nome por suas fornicações, nem pelos cadáveres de seus reis, seus altos lugares, pondo seu limiar junto a Meu limiar, e sua porta junto a Minha porta, não havendo entre Mim e eles senão um muro. É assim que manchavam Meu Santo Nome pelas abominações que cometiam. Por isso, exterminei-os em Minha cólera. Mas, doravante, eles afastarão de Mim suas prostituições e os cadáveres de seus reis, e Eu definitivamente estabelecerei Minha morada entre eles." Ez 43,1-9
    E quando Heliodoro é enviado por Seleuco IV, rei de Ásia no século II a.C., para confiscar os tesouros do Templo de Jerusalém, vai ser confrontado por um Cavaleiro que bem invoca a imagem do próprio Jesus no Último Dia (cf. Ap 19,11). O Segundo Livro de Macabeus apontou: "Diante da profanação que ameaçava o Templo, o povo precipitava-se em multidão para fora das casas a fim de se juntarem à prece comum. Causava dó observar toda confusão desse abatido povo, e a angústia em que o sumo sacerdote jazia. Enquanto assim suplicavam a proteção do Todo-Poderoso, para que conservasse invioláveis os depósitos que lhes haviam sido confiados, Heliodoro executava seu intento. Já se achava ali, com seus homens armados, quando o Senhor dos espíritos e Soberano detentor de todo poder suscitou uma tal aparição, que todos que ali haviam ousado vir desfaleceram de espanto, atingidos de pavor ante a majestade de Deus. Viram eles, montado num cavalo ricamente ajaezado e furiosamente guiado, um Cavaleiro de terrível aspecto, que lançava em Heliodoro as patas dianteiras do cavalo. O que nele vinha montado parecia ter uma armadura de ouro. Ao mesmo tempo, apareceram-lhe outros dois jovens, cheios de extraordinária força, fulgurantes de Luz, ricamente vestidos. Colocando-se dos dois lados, puseram-se eles a o açoitar sem interrupção e descarregaram sobre ele uma saraivada de golpes. Logo atirado por terra, Heliodoro foi envolvido por espessas trevas. Seus companheiros ergueram-no e depositaram-no numa liteira. E ele, que vinha para penetrar no mencionado tesouro com numerosa escolta e guardas pessoais, incapaz de ajudar a si mesmo, foi levado por pessoas que reconheciam o manifesto poder de Deus." 2 Mc 3,18.21-28
    Mas o Templo acabou pilhado por traição de Menelau, que usurpou o sumo sacerdócio e colaborava com um inimigo de Israel, o rei no Império Selêucida ( cf. 2 Mc 5,15), o que causaria rebelião em Jerusalém: "Por essa ocasião, Antíoco organizou sua segunda expedição a Egito. Aconteceu que em toda cidade e por mais de quarenta dias apareceram, correndo pelos ares, cavaleiros vestidos de ouro e armados com lanças e dispostos em coorte, espadas desembainhadas, esquadrões alinhados para a batalha, perseguições e choques de um lado e de outro, movimentos de escudos, florestas de lanças, tiros de dardos, armaduras de ouro resplandecentes e couraças de todo gênero. Por isso, todos rezavam para que tais aparições produzissem felizes resultados." 2 Mc 5,1-4
    E o Livro de Eclesiástico, escrito no início do século II a.C., trata de fulminar falsos profetas e falsos videntes: "O insensato vive de quiméricas esperanças, os imprudentes edificam sobre sonhos. Como aquele que procura agarrar uma sombra ou perseguir o vento, assim é quem se prende a enganadoras visões. Isto segundo aquilo, eis o que se vê nos sonhos. É como a imagem de um homem diante de si próprio. Que coisa pura poderá vir do impuro? Que verdade pode vir da mentira? A adivinhação do erro, os mentirosos augúrios e os sonhos dos maus, tudo isso não passa de vaidade. Teu coração, como o de uma mulher que está de parto, sofrerá imaginações. A menos que o Altíssimo te envie uma visão, não detenhas nelas teu pensamento, pois os sonhos fizeram errar muita gente, que pecou porque neles punham sua esperança. A Palavra da Lei integralmente se cumpre, e a Sabedoria tornar-se-á evidente na boca do homem fiel. Que sabe aquele que não foi experimentado? O homem de grande experiência tem inúmeras ideias, aquele que muito aprendeu fala com Sabedoria. Aquele que não tem experiência pouca coisa sabe, mas aquele que passou por muitas dificuldades desenvolve a prudência." Eclo 34,1-10


    Por fim, o Livro de Sabedoria, de registros por volta do ano de 50 a.C., invoca a nona praga de Egito, que foram as trevas por três dias, como uma mostra do quanto a falsidade em que se vive, longe da realidade revelada por Deus, pode ser tenebrosa. Sem dúvida, nestes casos não só assombrações se fazem presente, mas o próprio inferno: "Na verdade, grandes e impenetráveis são Vossos juízos, Senhor, por isso grosseiras almas caíram no erro. Por terem acreditado que podiam oprimir a Santa Nação, os ímpios, prisioneiros das trevas e encarcerados por uma longa noite, jaziam encerrados em suas casas, tentando escapar a Vossa incessante vigilância. Depois de terem imaginado que, com seus secretos pecados, ficariam escondidos sob o sombrio véu do esquecimento, eles viram-se dispersos como presa de um terrível espanto, e amedrontados por alucinações. Mesmo o mais afastado lugar em que se abrigavam não os punha ao abrigo do terror: aterradores ruídos ressoavam em torno deles, e taciturnos espectros de lúgubre aspecto apareciam-lhes. Nenhuma chama, por intensa que fosse, chegava a iluminar. E a brilhante luz dos astros era impotente para alumiar esta sombria noite. Mas, de súbito, aparecia-lhes nada mais que uma aterradora chama, e, tomados de terror por esta fugitiva visão, julgavam ainda mais terríveis essas aparições. A arte dos mágicos mostrou-se ilusória, e esta sabedoria, a que eles pretendiam, vergonhosamente se evidenciou como falsidade. Aqueles que se jactavam de banir das doentes almas o terror e a perturbação, eram eles mesmos atormentados por um ridículo temor. Mesmo quando nada de mais grave os aterrorizava, a passagem dos animais e o silvo das serpentes punham-nos fora de si, e eles morriam de medo. Recusavam até mesmo contemplar essa atmosfera à qual nada podia escapar, porque a maldade, condenada por seu próprio testemunho, é medrosa, e sob o peso da consciência sempre supõe o pior. Pois o temor não é outra coisa que a privação dos socorros trazidos pela reflexão, porque, quanto menor for em sua alma a esperança de auxílio, tanto mais penosa é a ignorância daquilo de que se tem medo. Eles, durante essa noite de impotência, saída dos recantos do impotente Hades, dormiam num mesmo sono, agitados de um lado pelo terror dos espectros, e paralisados de outro pelo desfalecimento da alma, porque era um repentino e inesperado pavor que se abatia sobre eles. E todo aquele que sem força caía, ficava como que preso e encerrado num cárcere sem ferros. Fosse ele camponês ou pastor, ou o operário que sozinho se afadiga em seu trabalho, uma vez surpreendido, tinha de suportar a inevitável privação, porque todos estavam ligados por uma mesma cadeia de trevas. O silvo do vento, o harmonioso canto dos passarinhos nos espessos ramos, o murmúrio da água precipitadamente correndo, o estrondo das rochas que se despenhavam, a invisível carreira dos animais que saltavam, os urros dos selvagens animais, o eco que repercutia nas cavidades dos montes: tudo paralisava-os de terror. Enquanto o mundo inteiro era alumiado por uma brilhante luz, e sem obstáculo se entregava a suas ocupações, somente sobre eles se estendia uma pesada noite, imagem das trevas que mais tarde deviam acolhê-los. E eram, para si mesmos, mais insuportável peso que esta escuridão." Sb 17,1-20

   "Alegrai-nos, ó Pai, com Vossa Luz!"

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Bem perto de Deus


    Mesmo sem saber que era Jesus que lhes falava, dois discípulos, que deixaram Jerusalém no Domingo da Ressurreição e partiram para a vila de Emaús, insistiram para que 'Aquele Estranho' pernoitasse na mesma estalagem que eles. É uma das últimas cenas do Evangelho Segundo São Lucas, quando Cristo Ressuscitado Se faz reconhecer ao celebrar a Santa Eucaristia (cf. Lc 22,19): "'Fica conosco, já é tarde e o dia declina.' Entrou, pois, com eles. Aconteceu que, estando sentados à mesa, Ele tomou o pão, abençoou-o, partiu-O e serviu-O. Então se lhes abriram os olhos e O reconheceram, mas Ele desapareceu. E diziam um para o outro: 'Não se nos abrasava o coração quando pelo caminho Ele falava e explicava as Escrituras?'" Lc 24,29-32
    Noutro episódio, narrado no Evangelho Segundo São Marcos, quando foi questionado por um escriba sobre o mais importante Mandamento, Nosso Senhor constatou que ele tinha a inspiração do Espírito Santo pelo comentário que fez a Sua resposta, e de expressivo modo o elogiou: "Não estás longe do Reino de Deus." Mc 12,34
    E São Paulo, quando foi a Atenas, falando no Areópago assim explicou a Criação e o sentido da vida, afirmando a Onipresença de Deus. Está no Livro de Atos dos Apóstolos: "De um só homem, Ele (Deus) fez nascer todo gênero humano, para que habitasse sobre toda face da Terra. Aos povos fixou os tempos e os limites de sua habitação. Tudo isso para que procurem a Deus e se esforcem para O encontrar, como que tateando, pois na verdade Ele não está longe de cada um de nós." At 17,26-27
    Moisés, de fato, de suas grandiosas experiências com o Deus Único, questionou os israelitas ainda no deserto, ainda antes de o Senhor lhes entregar os Dez Mandamentos. Lemos no Livro de Deuteronômio: "Pois qual é a grande nação cujos deuses lhe são tão próximos como o Senhor Nosso Deus, sempre que O invocamos?" Dt 4,7
    Ora, Deus mesmo disse de Sua proximidade e distância, a despeito de Sua Onipresença, falando no Livro do Profeta Jeremias: "'Porventura Eu sou Deus apenas quando estou perto?', Oráculo do Senhor. 'Também não O sou quando de longe? Poderá ocultar-se um homem de tal modo que Eu o não veja?', Oráculo do Senhor. 'Porventura Minha presença não enche o céu e a Terra?', Oráculo do Senhor." Jr 23,23-24
    Não por acaso, Jesus iniciou Seu Ministério pregando o Arrependimento, que viria a ser o Sacramento da Confissão (cf. Jo 20,23), e exatamente por causa da proximidade do Reino. Foi logo após Se mudar de Nazaré para Cafarnaum (cf. Mt 4,12), como o Evangelho Segundo São Mateus apontou: "Desde então, Jesus começou a pregar: 'Fazei penitência, pois o Reino dos Céus está próximo.'" Mt 4,17
    Assim ensinou aos Apóstolos, logo que escolheu os Doze: "Por onde andardes, anunciai que o Reino dos Céus está próximo." Mt 10,7
    Último Profeta do Antigo Testamento (cf. Mt 11,13) e Arauto do Messias (cf. Lc 1,76), era exatamente esse o ofício de seu Grande Precursor (cf. Mt 11,19): "Naqueles dias, apareceu João Batista, pregando no deserto de Judéia. Dizia ele: 'Fazei penitência, pois o Reino dos Céus está próximo." Mt 3,1-2
    E Nosso Senhor assim explicou aos fariseus a sutil instauração do Reino dos Céus: "O Reino de Deus não virá de um ostensivo modo. Nem se dirá: 'Ei-lo aqui', ou: 'Ei-lo ali'. Pois o Reino de Deus já está no meio de vós." Lc 17,20-21
    Pois havia declarado sua chegada ao publicamente confirmar os exorcismos que já vinha realizando, quando rebateu uma blasfêmia dos fariseus contra Sua Pessoa: "Mas se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então para vós chegou o Reino de Deus." Mt 12,28
    Também havia dito à samaritana, junto ao poço de Jacó, após retornar de Sua primeira visita a Jerusalém em vida pública, como se lê no Evangelho Segundo São João: "... não adorareis o Pai nem neste monte nem em Jerusalém. Mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai no espírito e na Verdade, e esses são adoradores que o Pai deseja. Deus é Espírito, e Seus adoradores devem adorá-Lo no espírito e na Verdade." Jo 4,21b.23-24
    E após anunciar Sua Paixão pela segunda vez, prometeu aos Apóstolos, mas vale para todos aqueles a quem a Santa Igreja Católica (cf. Ef 5,26; At 1,8) concede o Sacramento da Ordenação como Bispos, que são os sucessores dos Apóstolos: "Porque onde dois ou três estão reunidos em Meu Nome, aí estou Eu em meio a eles." Mt 18,20
    Pois servir a Jesus é estar Consigo aonde Ele vai com a Igreja que Ele fundou (cf. Jo 21,15), representada pelos Sacerdotes que Ele mesmo constitui para dar frutos para a eternidade (cf. Jo 15,16), que são os Sacramentos, o que lhes garante a honra do Pai, como disse aos Apóstolos em Jerusalém na Páscoa em que seria crucificado: "Se alguém quer servir-Me, siga-Me. E onde Eu estou, aí também estará Meu servo. Se alguém Me serve, Meu Pai honrá-lo-á." Jo 12,26
    No Sacramento da Comunhão, portanto, temos Sua física presença (cf. Mc 14,22), porque Ele garantiu Sua constante permanência na Igreja Viva (cf. 1 Tm 3,15) pouco antes de Sua Ascensão aos Céus: "Ensinai-as (nações) a observar tudo que vos ordenei. Eis que estou convosco todos dias, até a consumação dos séculos." Mt 28,20
    E pela Comunhão da Santíssima Trindade, assim também se tem a presença do Espírito Santo, que não estará no mundo, mas entre os membros da Igreja Apostólica (cf. Jo 20,21) até a eternidade. Jesus afirmou em últimos ensinamentos depois da Santa Ceia: "E Eu rogarei ao Pai, e Ele dá-vos-á outro Paráclito, para que eternamente fique convosco. É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber porque não O vê nem O conhece. Mas vós conhecê-Lo-eis, porque convosco permanecerá e em vós estará." Jo 14,16-17
    Porque só com a libertação, que é exclusivamente realizada por Jesus (cf. Jo 8,36) e preservada pelo Espírito Santo (cf. 2 Cor 3,17), com dignidade podemos celebrar a Santa Missa (cf. Lc 22,19), como o sacerdote São Zacarias, pai de São João Batista, profetizou logo no início do Novo Testamento: "... libertados de inimigas mãos, possamos servi-Lo com santidade e Justiça em Sua presença, todos dias de nossa vida." Lc 1,74-75
    Quanto a estes inimigos, a Carta de São Paulo aos Colossenses, ao referir-se à Criação, fala do visível e do invisível, mencionando quatro ordens de anjos: "Em Si (Cristo) foram criadas todas coisas nos Céus e na Terra, as criaturas visíveis e as invisíveis. Tronos, dominações, principados, potestades: tudo foi criado por Ele e para Ele." Cl 1,16
    E citando duas ordens de anjos caídos, a Carta de São Paulo aos Efésios explicaria: "Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste tenebroso mundo, contra as forças espirituais do Mal espalhadas nos ares." Ef 6,12
    Ora, revelar esta invisível realidade é a Missão de Nosso Salvador, que abertamente pregou em Jerusalém diante dos fariseus: "Vim a este mundo para fazer uma discriminação: aqueles que não vêem, vejam, e aqueles que vêem, tornem-se cegos.'" Jo 9,39b
    Pois como deve ser do conhecimento de todos, Deus detém o controle de tudo. Os seguidores tradição de São Paulo afirmam na Carta aos Hebreus: "Nenhuma criatura Lhe é invisível. Tudo é nu e descoberto aos olhos d'Aquele a Quem havemos de prestar contas." Hb 4,13
    Sua Paixão, Morte e Ressurreição, aliás, Jesus simplesmente descreveu como estar ou não visível: "Ainda um pouco de tempo, e já não Me vereis. E um pouco mais de tempo depois, tornareis a Me ver, porque vou para junto do Pai." Jo 16,16
    E depois de Sua Ressurreição, Suas aparições têm mais exata tradução na expressão 'tornou-Se visível': "Por fim, tornou-Se visível aos Onze, quando estavam sentados à mesa, e censurou-lhes a incredulidade e dureza de coração, por não acreditarem naqueles que O tinham visto Ressuscitado." Mc 16,14
    Ora, é nesses termos que o Apóstolo dos Gentios O descreve: "Ele é a imagem de Deus invisível, o Primogênito de toda Criação." Cl 1,15
    E a Segunda Carta de São Paulo a São Timóteo, instando-o a pregar, invocava a real presença de Deus, por saber sempre estar diante de Seus olhos: "Eu conjuro-te em presença de Deus e de Jesus Cristo..." 2 Tm 4,1a
    Pois a Primeira Carta de São Paulo a São Timóteo já assim rezava pela Ordenação deste que foi seu maior colaborador: "Em presença de Deus, que dá a vida a todas coisas, e de Cristo Jesus, que ante Pôncio Pilatos abertamente testemunhou a Verdade, recomendo-te que guardes sem mácula e irrepreensível o Mandamento..." 1 Tm 6,13-14a
    E nos mesmo termos, rezava pelo fortalecimento dos fieis: "Por esta causa dobro os joelhos em presença do Pai... " Ef 3,14a
    Afirmativamente, Cornélio, um centurião romano, buscava a Deus e numa visão foi instruído por seu Anjo da Guarda a ouvir São Pedro, e sua humilde reverência resultou no 'Pentecostes dos Gentios': "Por isso, logo mandei chamar-te e felicito-te por teres vindo. Agora, pois, ei-nos todos reunidos na presença de Deus para ouvir tudo que Ele te ordenou a nos dizer." At 10,33
    A Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios usou de idêntico argumento: "Já há muito pensais que nos justificamos diante de vós. Perante Deus, em Cristo, é que nós falamos! Mas tudo isto, meus caríssimos, para vossa edificação." 2 Cor 12,19
    E sabia que a meramente física vida é apenas um desterro: "Sabemos que todo tempo que passamos no corpo é um exílio longe do Senhor." 2 Cor 5,6b
    Por isso, como Jesus revelou Sua Missão, dizia: "Andamos pela fé e não pela visão." 2 Cor 5,7
    Falando a ex-pagãos, diz que Nosso Senhor é a manifestação de Deus para muito além das físicas fronteiras de Israel e para o próprio Israel: "Agora, porém, Graças a Jesus Cristo, vós que antes estáveis longe fostes trazidos para perto pelo Sangue de Cristo. Ele veio anunciar a Paz a vós, que estáveis longe, e a Paz àqueles que estavam próximos." Ef 2,13.17
    Eis porque seus discípulos abertamente convocam: "E dado que temos um Sumo Sacerdote estabelecido sobre a Casa de Deus, a Ele nos acheguemos com sincero coração, com plena firmeza da fé, o mais íntimo da alma isento de toda mácula de pecado e o corpo lavado com a Purificadora Água do Batismo." Hb 10,21-22
    Logo, a proximidade de Deus e de Seu Reino é uma espiritual condição, sinalizada pela inspiração que nos move. E assim, para que São Pedro pudesse conduzir a Igreja de Deus Vivo (cf. 1 Tm 3,15), Jesus prometeu-lhe a mais elevada inspiração que o ser humano jamais recebeu. Foi logo após este Apóstolo, por revelação do Pai, O identificar como o Cristo: "Eu dá-te-ei as chaves do Reino dos Céus..." Mt 16,19
    Para que entendamos a importância de nosso Primeiro Papa (cf. Jo 21,15s), e assim de seus sucessores, noutra ocasião Nosso Senhor reclamou dos religiosos que estudavam as Escrituras, a quem lhes era revelado o Caminho da Salvação, mas nem o seguiam nem ajudavam o povo a o seguir: "Ai de vós, doutores da Lei, que tomastes a chave da ciência, e vós mesmos não entrastes e impedistes de entrar aqueles que vinham." Lc 11,52
    De fato, Ele exigia verdadeira fidelidade, como acusou num dos oito ruidosos 'ai de vós': "Ai de vós, hipócritas escribas e fariseus! Pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais os mais importantes preceitos da Lei: a Justiça, a Misericórdia, a fidelidade." Mt 23,23a
    Exigia honestidade, como quando estes mesmos religiosos reclamaram porque os Apóstolos não praticavam tradições que não estavam nas Escrituras: "Hipócritas! É bem de vós que o Profeta Isaías fala: 'Este povo honra-me somente com os lábios. Seu coração, porém, está longe de Mim.'" Mt 15,7-8
    Com efeito, o rei Davi cantava no Livro de Salmos: "O Senhor aproxima-Se daqueles que O invocam, daqueles que O invocam com sinceridade." Sl 144,18
    Sagrados autores já observavam: "Longe dos ímpios está a Salvação, porque não procuram Vossas leis." Sl 118,155
    E nestes termos, Davi diz do necessário Arrependimento: "O Senhor está perto dos contritos de coração, e salva aqueles que têm o espírito abatido. O Senhor livra a alma de Seus servos. Não será punido quem a Ele se acolhe." Sl 33,19.23
    A Carta de São Tiago, no mesmo sentido, recomenda: "Aproximai-vos de Deus, e Ele aproximar-Se-á de vós." Tg 4,8a
    Mas também é contundente tanto com aqueles que vivem em pecado e como com os hipócritas: "Lavai as mãos, pecadores, e purificai vossos corações, ó homens de dupla atitude. Humilhai-vos na presença do Senhor, e Ele exaltar-vos-á." Tg 4,8b.10
    A divina inspiração e o conhecimento da Revelação, portanto, são Graças a serem vividas e partilhadas com os irmãos, assim como Jesus fez. Para nos comunicar a grande dádiva que foi conviver com a Segunda Pessoa de Deus, pois só Deus é plenamente, São João Apóstolo registrou logo no início de seu Evangelho: "De Sua plenitude, todos nós recebemos Graça sobre Graça." Jo 1,16
    Ele mesmo afirmou ser o exclusivo acesso ao Pai, momentos antes de seguirem para o Horto das Oliveiras, onde seria preso: "Ninguém vem ao Pai senão por Mim." Jo 14,6b
    Aliás, na Festa da Dedicação, também em Jerusalém, quando quase foi apedrejado, perante os judeus havia sido ainda mais explícito: "Eu e o Pai somos Um." Jo 10,30
    Por isso, desde Sua segunda festa na Cidade Santa, determinou que em torno de Si se iniciavam decisivos tempos, dizendo em terceira Pessoa: "Desse modo, todos honrarão o Filho, bem como honram o Pai. Aquele que não honra o Filho, não honra o Pai, que O enviou." Jo 5,23
    E referindo-Se à Graça mencionada por São João Evangelista acima, Ele expressamente disse aos Doze junto ao Mar de Galileia: "Mas quanto a vós, bem-aventurados vossos olhos, porque vêem! Ditosos vossos ouvidos, porque ouvem! Na Verdade, Eu declaro-vos: muitos Profetas e justos desejaram ver o que vedes e não o viram, ouvir o que ouvis e não ouviram." Mt 13,16-17
    Assim, deles exigia total gratuidade no exercício do Sacerdócio: "De Graça recebestes, de Graça deveis dar!" Mt 10,8
    O Príncipe dos Apóstolos (cf. Mt 10,2), pois, ciente do bem que o amor de Jesus lhe fazia, de Si não aceitava afastar-se. Nem mesmo quando muitos se escandalizaram e O abandonaram porque Ele prometia Sua Carne e Seu Sangue como o Pão do Céu: "Respondeu-Lhe Simão Pedro: 'Senhor, a quem iríamos nós? Tu tens as palavras da Vida Eterna.'" Jo 6,68
    Ora, quando Jesus Se transfigurou no monte Tabor, e diante das aparições de Moisés e Elias, ele, desnorteado por ver a Glória de Deus, ali quis ficar eternamente: "Senhor, é bom estarmos aqui." Mt 17,4
    Com efeito, a Graça que os Apóstolos obtiveram foi inigualável. Podemos imaginá-la pelas palavras do próprio Jesus quando rezou ao Pai a Oração da Unidade, pois deles Se despedia, pedindo pela Igreja Una (cf. Jo 17,23), que é a prova de Seu Advento e do amor de Deus: "Dei-lhes a Glória que Me deste, para que sejam Um, como Nós somos Um: Eu neles e Tu em Mim, para que sejam perfeitos na Unidade e o mundo reconheça que Me enviaste e os amaste, como amaste a Mim." Jo 17,22-23
    E quantas almas sonharam e ainda sonham com o definitivo encontro? Na Carta de São Paulo aos Filipenses temos esse suspiro: "Sinto-me pressionado dos dois lados: por uma parte, desejaria desprender-me para estar com Cristo, o que seria imensamente melhor. Mas, de outra parte, continuar a viver é mais necessário, por causa de vós..." Fl 1,23-24
    A Igreja Itinerante, de fato, anseia por essa hora. É o que a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios atesta, dizendo de Deus, de quando O "... veremos face a face." 1 Cor 13,12
    Por isso, Davi recitava: "Fala-Vos meu coração, busca-Vos minha face. Vossa face, ó Senhor, eu procuro-a. Não escondais de mim Vosso semblante, não afasteis com ira Vosso servo." Sl 26,8-9a
    O levita e Profeta Asaf repetia: "Ó Senhor, não me afasteis de Vossa face..." Sl 50,13a
    E logo no Sermão da Montanha, Jesus garantiu: "Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus!" Mt 5,8
    Para tanto, porém, os seguidores de São Paulo registraram a necessária santificação: "Procurai a Paz com todos, e ao mesmo tempo a santidade, sem a qual ninguém pode ver o Senhor." Hb 12,14
    Mas igualmente haviam reportado as delícias de viver em Comunhão com Deus: "Porque aqueles que uma vez foram iluminados, saborearam o dom celestial, participaram dos dons do Espírito Santo, experimentaram a doçura da Palavra de Deus e as maravilhas do vindouro mundo..." Hb 6,4


PARTÍCIPES DA GLÓRIA DE DEUS

    Sem dúvida, a Segunda Carta de São Paulo aos Tessalonicenses expressamente afirma: "... desde o princípio, Deus escolheu-vos para vos dar a Salvação pela santificação do Espírito e pela fé na Verdade. E pelo anúncio de nosso Evangelho, chamou-vos para tomardes parte na Glória de Nosso Senhor Jesus Cristo." 2 Ts 2,13-14
    E a Carta de São Paulo aos Romanos diz sobre a Missão de Jesus: "Por Si é que tivemos acesso a essa Graça, na qual estamos firmes e nos gloriamos na esperança de um dia possuir a Glória de Deus." Rm 5,2
    Porque assim unidos a Cristo, mesmo em dificuldades, somos motivados por uma misteriosa e reconfortante força, ainda segundo ele: "A linguagem da Cruz é loucura para aqueles que se perdem, mas para aqueles que foram salvos, para nós, é uma divina força." 1 Cor 1,18
    E a partir de numa resposta que obteve de Jesus, explicou como essa força age. Estava pedindo alívio de um grande incômodo, que não revelou: "Mas o Senhor disse-me: 'Basta-te Minha Graça, porque é na fraqueza que Minha força se revela totalmente.' Portanto, prefiro gloriar-me de minhas fraquezas, para que a força de Cristo habite em mim." 2 Cor 12,9
    Foi nessa condição que ele anunciou o Evangelho aos cristãos da cidade de Corinto, e por isso foi bem sucedido: "Eu apresentei-me em vosso meio num estado de fraqueza, de desassossego e de temor. Minha palavra e minha pregação longe estavam da persuasiva eloquência da sabedoria. Antes eram uma demonstração do Espírito e do divino poder para que vossa fé não se baseasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus." 1 Cor 2,3-5
    E lembrando as trombetas de Josué, que destruíram as muralhas de Jericó (Js 6,20), ele dá um testemunho: "Não são carnais as armas com que lutamos. São poderosas, em Deus, capazes de arrasar fortificações." 2 Cor 10,4
    A Primeira Carta de São Pedro também dá testemunho do Sagrado Ministério do Sacerdócio: "Como bons dispensadores das diversas Graças de Deus, cada um de vós ponha à disposição dos outros o dom que recebeu: a Palavra, para anunciar as mensagens de Deus, um Ministério, para o exercer com uma divina força..." 1 Pd 4,10-11
    Mas os Apóstolos não se vangloriavam dessa dádiva. São Paulo, como vimos, bem sabia de Quem ela lhe vinha: "Eu tornei-me servo deste Evangelho em virtude da Graça, que me foi dada pela onipotente ação divina." Ef 3,7
    Pois, sem a ajuda de Deus, sequer podemos discernir o bem que Suas obras nos fazem, o bem que a santidade faz. Ele dizia de si e dos Sacerdotes da Santa Madre Igreja (cf. Gl 4,26): "A razão de nossa Glória é esta: o testemunho de nossa consciência de que, no mundo, e particularmente entre vós, temos agido com santidade e sinceridade diante de Deus, não conforme o espírito de sabedoria do mundo, mas com o socorro da Graça de Deus." 2 Cor 1,12
    Ora, o Pai quer dar-nos grandes Graças. Embora errantes, Ele quer partilhar Sua santidade conosco. Os seguidores de São Paulo comparam-nO aos pais terrenos: "Pois eles nos educaram por pouco tempo, segundo sua própria conveniência. Deus, porém, educa-nos para nosso bem, a fim de nos comunicar Sua santidade." Hb 12,10
    De fato, como Jesus procedeu para com os Apóstolos, Deus quer partilhar conosco Sua própria divindade. A Segunda Carta de São Pedro testificou: "... foram-nos concedidos os prometidos bens, os maiores e mais valiosos, a fim de que vos tornásseis participantes da natureza divina..." 2 Pd 1,4
    Tal divindade vivencia-se pelo Divino Paráclito, como Jesus mesmo prometeu: "Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais Vosso Pai Celeste dará o Espírito Santo àqueles que LhO pedirem." Lc 11,13
    E São Pedro afirmou perante o sinédrio, o conselho dos judeus de Jerusalém, quando os Apóstolos foram presos pela primeira vez, como podemos reebê-Lo: "... o Espírito Santo, que Deus concedeu àqueles que Lhe obedecem." At 5,32
    Ora, segundo São Paulo, "... quem se une ao Senhor, com Ele torna-se um só Espírito." 1 Cor 6,17
    Disse mais, referindo-se a Sua Paixão, à qual nós também nos oferecemos na Santa Missa (cf. Rm 12,1): "Se com Ele fomos feitos o mesmo Ser..." Rm 6,5a
    E dizendo do Corpo Místico de Cristo, garante: "Em um só Espírito fomos batizados todos nós, para formar um só Corpo, judeus ou gregos, escravos ou livres. E todos fomos impregnados do mesmo Espírito." 1 Cor 12,13
    Por isso, São Pedro afirma que em Jesus temos tudo de que realmente precisamos: "O divino poder deu-nos tudo que contribui para a Vida e a piedade, fazendo-nos conhecer Aquele que nos chamou por Sua Glória e Sua Virtude." 2 Pd 1,3
    De fato, Nosso Senhor mesmo prometeu pelo Santíssimo Sacramento: "Eu sou o Pão da Vida. Aquele que vem a Mim não terá fome, e aquele que crê em Mim jamais terá sede." Jo 6,35b
    Pois em Comunhão Consigo já vivemos o Reino dos Céus, que por Si foi efetivamente instaurado. Os discípulos de São Paulo revelaram, citando o Livro de Deuteronômio (cf. Dt 5,25): "Na Verdade, não vos aproximastes de uma palpável montanha, invadida por violento fogo, nuvem, trevas, tempestade, som da trombeta e aquela tão terrível voz que aqueles que a ouviram suplicaram que ela não mais lhes falasse. Vós, ao contrário, aproximaste-vos da montanha de Sião, da cidade do Deus Vivo, da Jerusalém Celestial, das miríades de anjos, da festiva assembleia dos primeiros inscritos no Livro dos Céus, e de Deus, Universal Juiz, e das almas dos justos que chegaram à perfeição, enfim, de Jesus, o Mediador da Nova Aliança, e do Sangue da aspersão, que fala com mais eloquência que o sangue de Abel." Hb 12,18-19.22-24
    O próprio São Paulo já havia dito, referindo-se à Comunhão dos Santos (cf. 1 Jo 1,3), à verdadeira Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo: "Conseqüentemente, já não sois hóspedes nem peregrinos, mas sois concidadãos dos Santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos Apóstolos e profetas, tendo por Pedra Angular o próprio Cristo Jesus. É em Si que todo edifício, harmonicamente disposto, se levanta até formar um Santo Templo no Senhor. É em Si que vós também entrais, pelo Espírito, na estrutura do edifício que se torna a habitação de Deus." Ef 2,19-22
    Devemos, pois, apenas confiar e nos entregar nas mãos do Pai, pois é Ele mesmo que em nós cumpre Sua vontade: "E o Deus da Paz... queira dispor-vos ao bem e conceder-vos que cumprais Sua vontade, em vós realizando Ele próprio o que é agradável a Seus olhos..." Hb 13,20-21
    Ora, num Salmo, os sagrados autores profetizaram a Redenção em Jesus: "Escutarei o que o Senhor Deus diz, porque Ele diz palavras de Paz a Seu povo, a Seus fiéis, e àqueles cujos corações se voltam para Si. Sim, Sua Salvação está bem perto daqueles que O temem, de sorte que Sua Glória retornará a nossa terra." Sl 84,9-10
    E assim reconheciam o Templo de Jerusalém, hoje representado pela Igreja Católica Apostólica Romana (cf. Ap 1,6), como adequado lugar para este contato: "Vinde, exultantes entrai em Sua presença! Cantando entrai sob Seus pórticos, com cânticos vinde a Seus átrios! Glorificai-O e bendizei Seu Nome..." Sl 99,2.4
    Pois lá não se tinha apenas Sua presença, como Davi viu: "Na presença dos anjos, eu cantá-Vos-ei, prostrar-me-ei ante Vosso Santo Templo." Sl 137,1b-2a


PERFEITA SANTIDADE

    A Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses diz ainda mais: "O Deus da Paz conceda-vos perfeita santidade. Que todo vosso ser, a saber, espírito, alma e corpo, seja conservado irrepreensível para a Volta de Nosso Senhor Jesus Cristo!" 1 Ts 5,23
    Ele exorta-nos a viver a Nova Vida: "... revesti-vos do novo homem, criado à imagem de Deus, na verdadeira Justiça e santidade." Ef 4,24
    Mas vivê-la todos dias, como o pai de São João Batista disse: "... possamos servi-Lo, em santidade e Justiça, em Sua presença, todos dias de nossa vida." Lc 1,74-75
    E em todas coisas, como São Pedro prega: "A exemplo da santidade d'Aquele (Deus) que vos chamou, também sede vós Santos, em todas vossas ações..." 1 Pd 1,15a
    Pois pelo Divino Paráclito somos ungidos para a mais perfeita obediência: "... santificados pelo Espírito para obedecer a Jesus Cristo, e receber a aspersão de Seu Sangue." 1 Pd 1,2
    Para uma santa submissão, tal qual o Cordeiro Imolado, como São Paulo relata: "Saúda-vos Epafras, vosso concidadão, servo de Jesus Cristo. Ele não cessa de lutar por vós em suas orações, para que, numa perfeita e plena convicção, plenamente permaneçais submissos à divina vontade." Cl 4,12
    E como Jesus e São João Batista fizeram, indistintamente a todos o Príncipe dos Apóstolos pregou o Sacramento da Confissão, que inclui as devidas penitências. Foi logo após o Pentecostes, quando uma multidão acorreu ao local onde os Apóstolos estavam, admirada com o dom de línguas: "Pedro respondeu-lhes: 'Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em Nome de Jesus Cristo para remissão de vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Pois a promessa é para vós, para vossos filhos e para todos que de longe ouvirem o apelo do Senhor, Nosso Deus.'" At 2,38-39
    Porque o Ministério da Purificação dos pecados é um precioso poder dado por Jesus à Igreja Católica (cf. Lc 24,47), para a continuação de Sua Redentora Missão, como Ele tratou de instituir logo em Sua primeira aparição ao Colégio dos Apóstolos: "Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: 'Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, sê-lhes-ão perdoados. Àqueles a quem os retiverdes, sê-lhes-ão retidos.'" Jo 20,22-23
    Pois só realmente purificados, porque é isso que deve buscar quem em Si de fato crê, podemos colocar-nos na presença do Pai, como São Paulo afirma: "Em Cristo, pela fé que em Si temos, conseguimos plena liberdade para confiantemente nos aproximarmos de Deus." Ef 3,12
    Com efeito, estar perto de Deus é estar em Comunhão com Ele e com os irmãos, e assim produzir frutos. A Carta de São Paulo a Filêmon diz: "Que tua Comunhão na fé seja eficaz, fazendo-te conhecer todo bem que somos capazes de realizar por Cristo." Fm 6
    O próprio Jesus clama por essa união, como pediu aos Apóstolos numa de Suas últimas exortações: "Permanecei em Mim, e Eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim vós tampouco podeis dar fruto se não permanecerdes em Mim." Jo 15,4
    Ele mesmo vivia em perfeita união com o Pai, e disse a Seus discípulos que Sua Ressurreição o provaria, assim como provaria nossa Comunhão com Deus: "Naquele dia, conhecereis que estou em Meu Pai, e vós em Mim e Eu em vós." Jo 14,20
    Seu exemplo, portanto, é para ser seguido, e não apenas admirado. Temos que buscar Sua maturidade, pois para tanto serve a Barca de São Pedro (cf. Lc 5,3) nas palavras de São Paulo: "Aquele (Cristo) que desceu também é Aquele que subiu acima de todos Céus, para levar todas coisas à plenitude. A uns Ele constituiu Apóstolos, a outros, profetas, a outros, evangelistas, pastores, doutores, para o aperfeiçoamento dos santos em vista do Ministério, para a edificação do Corpo de Cristo, até que todos alcancemos a Unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, o estado de Perfeito Homem, a estatura da plenitude de Cristo.Para que não continuemos crianças ao sabor das ondas, agitados por qualquer sopro de doutrina, ao capricho da malignidade dos homens e de seus enganadores artifícios. Mas pela sincera prática do amor, cresçamos em todos sentidos em direção Àquele que é a Cabeça, Cristo, cujo Corpo, em sua inteireza, bem ajustado e unido por meio de toda junta e ligadura, com a harmoniosa operação de cada uma de suas partes, realiza seu crescimento para sua própria edificação no amor." Ef 4,10-16
    Admitidamente, essa não é fácil tarefa, ainda segundo ele: "Pois todos aqueles que piedosamente quiserem viver, em Jesus Cristo, terão de sofrer a perseguição." 2 Tm 3,12
    Mas foi assim, pelo sacrifício na Santa Cruz, que Nosso Salvador uniu os povos de toda Terra, então separados como judeus e pagãos: "Porque é Ele nossa Paz, Ele que de dois povos fez um só, destruindo o muro de inimizade que os separava, na própria Carne abolindo a Lei, os preceitos e as prescrições. Desse modo, Ele quis fazer em Si mesmo dos dois povos uma única humanidade nova pelo restabelecimento da Paz, e reconciliar a ambos com Deus, reunidos num só Corpo pela virtude da Cruz, nela aniquilando a inimizade." Ef 2,14-16
    Por essa razão, São Pedro recomenda: "Achegai-vos a Ele, Pedra Viva que os homens rejeitaram, mas escolhida e preciosa aos olhos de Deus..." 1 Pd 2,4
    Saibamos, porém, que não dispomos de todo tempo. Como o Livro do Profeta Isaías ensina, nossa vida, ou a própria Volta de Jesus, pode ser muito breve: "Buscai o Senhor enquanto pode ser achado. Invocai-O enquanto Ele está perto." Is 55,6
    Mas se nos dispusermos perante o Espírito Santo, tudo torna-se mais claro. São Paulo diz: "... recebemos o Espírito que vem de Deus, para conhecermos os dons que Deus nos concedeu." 1 Cor 2,12
    E assim conseguiremos permanecer junto a Cristo em qualquer situação, como aconteceu com o Amado Discípulo que, já idoso, foi exilado em Patmos, ilha grega do Dodecaneso, no sul do Mar Egeu. São as primeiras palavras do Livro de Apocalipse de São João: "Eu, João, vosso irmão e companheiro nas tribulações, na realeza e na paciência em união com Jesus..." Ap 1,1
    Devemos, pois, bem meditar sobre o caminho que seguimos. São Pedro alerta: "... considerai qual deve ser a santidade de vossa vida e de vossa piedade... " 2 Pd 3,11
    Não podemos iludir-nos com a vanglória e os mundanos valores. Sobre isso, Jesus foi bem claro, dizendo aos judeus de Jerusalém depois que causou escândalo por curar um paralítico em dia de sábado, no tanque de Betesda: "Como podeis crer, vós que recebeis a glória uns dos outros, e não buscais a Glória que é só de Deus?" Jo 5,44
    Neste sentido, São Paulo, pelas visões com que foi agraciado, atesta a realidade espiritual que o cristão vive: "Porque não miramos as coisas que se vêem, mas sim as que não se vêem. Pois as coisas que se vêem são temporais, e aquelas que não se vêem são eternas." 2 Cor 4,17b
    São Pedro elogia-os: "Este Jesus, vós amai-Lo sem O terdes visto. Em Si credes ainda sem O verdes, e isto é para vós a fonte de uma inefável e gloriosa alegria, porque vós estais certos de obter, como preço de vossa fé, a Salvação de vossas almas." 1 Pd 1,8-9
    E o Nosso Salvador mesmo havia dito a São Tomé, censurando-o por não acreditar nos testemunhos dos Apóstolos e discípulos: "Creste, porque Me viste. Felizes aqueles que creem sem ter visto!" Jo 20,29b
    Se nos mantivermos na humildade, portanto, como na parábola das Bodas, por Ele seremos convidados para estarmos mais perto: "Amigo, vem para um melhor lugar!" Lc 14,10
    Enfim, sabemos que depois dos Sacramentos da Santa Igreja e da Adoração ao Santíssimo Sacramento, o infalível meio para permanecer perto de Deus é através do Santo Rosário, isto é, juntando-se em oração a Nossa Senhora. De fato, ninguém esteve por mais tempo que ela na intimidade de Jesus. Foram mais de 33 anos já aqui na Terra.

    "Vosso Filho permaneça entre nós!"