sexta-feira, 24 de julho de 2026

A Vida Eterna


    A humanidade sempre sonhou vencer a morte e viver eternamente, porque a expulsão do Paraíso, onde Adão e Eva viviam a Vida Eterna, se deu como castigo pelo pecado original, que foi a desobediência. No Livro de Gênesis, lemos esta conversa da Santíssima Trindade: "E o Senhor Deus disse: 'Eis que o homem se tornou como um de Nós, conhecedor do bem e do mal. Agora, pois, cuidemos que ele não estenda sua mão e também tome do fruto da árvore da Vida e o coma, e viva eternamente.'" Gn 3,22
    Viviam a Vida Eterna porque, além de poderem comer da árvore da Vida, pois Deus os permitiu comer de todas árvores, a morte só veio por causa do pecado: "O Senhor Deus tomou o homem e colocou-o no jardim do Éden para o cultivar e guardar. Deu-lhe este preceito: 'Podes comer do fruto de todas árvores do jardim, mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal. Porque, no dia em que dele comeres, terás que morrer.'” Gn 2,15-17
    Ademais, Deus retirou do ser humano o Espírito Santo, depois que a humanidade se multiplicou sobre a face da Terra, o que veio a nos limitar a idade, como desde então se tem visto: "O Senhor então disse: 'Meu Espírito não permanecerá para sempre no homem, porque todo ele é carne, e a duração de sua vida será de cento e vinte anos.'" Gn 6,3
    No Livro de Salmos, contudo, o rei Davi voltou a pedir a Deus: "Examinai-me, Senhor... Vede se ando na senda do Mal, e conduzi-me pelo caminho da eternidade." Sl 138,24
    E para atender a esse anseio, há muito tempo o Amoroso Pai já tinha prometido trazer-nos de volta a Seu convívio. Ficou claro, porém, que Ele não o faria sem usar de Sua Justiça, como está no Livro do Profeta Daniel, pois a vida se eternizará nos Céus mas também no inferno: "A multidão que dorme no pó da terra despertará: uns para uma Vida Eterna, outros para a ignomínia, a eterna infâmia." Dn 12,2
    Palavra que Jesus, referindo-Se a Si mesmo como o Filho do Homem, confirmou no Evangelho Segundo São João: "Não vos maravilheis disso, porque vem a hora em que todos que se acham nos sepulcros, deles sairão ao som de Sua voz: aqueles que praticaram o bem irão para a Ressurreição da Vida, e aqueles que praticaram o mal ressuscitarão para serem condenados." Jo 5,28-29
    Também disse da inspiração dada pelo Santo Paráclito às dioceses, nas revelações do Livro do Apocalipse de São João, refazendo nossa condição no Paraíso, ao tempo da Criação: "Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: 'Ao vencedor darei de comer do fruto da árvore da Vida, que se acha no Paraíso de Deus.'" Ap 2,7
    E repetiu, ao final, revelando-Se Deus e dizendo da Jerusalém Celestial, ou seja, da Igreja Católica Apostólica Romana na eternidade: "Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Começo e o Fim. Felizes aqueles que lavam suas vestes para ter direito à árvore da Vida e poder entrar na Cidade pelas portas." Ap 22,13-14
    Ele já havia afirmado a imortalidade da alma, quando advertiu no Evangelho Segundo São Mateus, falando de um dos sete dons do Espírito Santo, que é o temor a Deus, e da Ressurreição da Carne que se dará para todos, bons e maus: "Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes temei Aquele que pode precipitar a alma e o corpo no inferno." Mt 10,28
    Também disse no Evangelho Segundo São Lucas: "Ora, Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos; porque para Ele todos vivem." Lc 20,38
    E o Livro de Sabedoria já contestava os incrédulos, falando da sedução a Eva pela Serpente (cf. Gn 3,4) e da segunda morte, que é a verdadeira morte (cf. Ap 20,14): "... eles desconhecem os segredos de Deus, não esperam que a santidade seja recompensada e não acreditam na glorificação das puras almas. Ora, Deus criou o homem para a imortalidade, e fê-lo à imagem de Sua própria natureza. É por inveja do Demônio que a morte entrou no mundo, e aqueles que pertencem ao Demônio prová-la-ão." Sb 2,22-24
    Por isso, testemunhando o Advento do Salvador, a Primeira Carta de São João fez esta revelação: "Eis a promessa que Ele nos fez: a Vida Eterna." 1 Jo 2,25
    E afirmou Sua Divindade logo no início de seu Evangelho: "N'Ele havia a Vida, e a Vida era a Luz dos homens." Jo 1,4
    Com efeito, a Segunda Carta de São Paulo a São Timóteo apresenta-o nestes termos: "Paulo, Apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus, para anunciar a promessa da Vida que está em Jesus Cristo..." 2 Tm 1,1
    Porque, a Seus fiéis seguidores, Nosso Senhor garantiu Nova Vida, que começa já neste mundo. É do Evangelho Segundo São Marcos: "Pedro começou a Lhe dizer: 'Eis que deixamos tudo e Te seguimos.' Respondeu-lhe Jesus. 'Na Verdade, digo-vos: ninguém há que tenha deixado casa ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras, por causa de Mim e por causa do Evangelho, que já neste tempo não receba cem vezes mais casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras, apesar das perseguições, e no futuro mundo a Vida Eterna.'" Mc 10,28-30
    O Amado Discípulo, em plena experiência da Comunhão com Deus, vai afirmar essa condição de todo verdadeiro católico: "... pois, como Ele é, nós também o somos neste mundo." 1 Jo 4,17b
    Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios aponta a própria Comunhão dos Santos: "... quem se une ao Senhor, com Ele torna-se um só Espírito." 1 Cor 6,17
    O que implica segui-Lo no Caminho da Santa Cruz do Calvário, como a Carta de São Paulo aos Romanos diz: "Se com Ele fomos feitos o mesmo Ser, por uma morte semelhante à Sua, igualmente o seremos por uma comum Ressurreição." Rm 6,5
    E alarmado com tanta desatenção entre os próprios cristãos, a Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios chegou a questionar: "Examinai a vós mesmos, se estais na . Provai a vós mesmos. Acaso não reconheceis que Cristo Jesus está em vós?" 2 Cor 13,5a
    Ora, evocando os MandamentosNosso Salvador já assegurava que por eles poderemos viver esta dádiva. Está no Evangelho de São Mateus: "Um jovem aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe: 'Mestre, que devo fazer de bom para ter a Vida Eterna?' Jesus respondeu: 'Se queres entrar na Vida, observa os Mandamentos. Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe, amarás teu próximo como a ti mesmo.'" Mt 19,16.18-19
    Deus mesmo já havia dito ao povo de Israel, através de Moisés no Livro de Levítico: "Observareis Meus preceitos e Minhas leis: o homem que os observar, por eles viverá." Lv 18,5
    Ao tempo de Jesus, porém, os questionamentos do povo sobre esse assunto continuavam muito frequentes. São Lucas registra mais um episódio: "Levantou-se um doutor da Lei e, para O pôr à prova, perguntou: 'Mestre, que devo fazer para possuir a Vida Eterna?'" Lc 10,25
    Contudo, conhecedor de sua intenção, em primeiro momento Jesus devolve-lhe a pergunta, indagando-o sobre seu entendimento das Escrituras: "Que está escrito na Lei? Como é que lês?" Lc 10,26
    Sem ter como fugir, o doutor da Lei responde corretamente, citando o Livro de Deuteronômio e o Livro de Levítico: "Amarás o Senhor Teu Deus de todo teu coração, de toda tua alma, de todas tuas forças e de todo teu entendimento (Dt 6,5); e a teu próximo como a ti mesmo (Lv 19,18)." Lc 10,27
    Mas Jesus não Se basta com o mero e teórico conhecimento, e sucintamente lhe pede a prática de todos Mandamentos: "Respondeste bem. Faze isto e viverás." Lc 10,28
    Frustrado, o homem vê-se obrigado a levantar a dúvida que realmente lhe perturbava. Imaginava que só deveria fazer o bem àqueles que fossem de sua seita, pois se julgavam Santos como não seriam os demais: "E quem é meu próximo?" Lc 10,29
    É quando Nosso Senhor vai propor-lhe uma situação em que a gratuidade da verdadeira caridade fala muito mais alto que qualquer conhecimento. O amor, propriamente, posto em prática. E dá-lhe uma lição: exalta um homem da religião mais desprezada pelos judeus, que socorre um necessitado, enquanto um sacerdote e um levita, os religiosos de Israel, nem sequer pararam para olhar sua situação. É a parábola do bom samaritano, e ao final é Jesus Quem lhe questiona: "Qual destes três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões?" Lc 10,36
    Acuado, o doutor da Lei admite a grandeza da Misericórdia: "Aquele que usou de Misericórdia para com ele." Lc 10,37
    E Jesus outra vez dá-lhe um curto e direto recado, determinando-lhe o incondicional amor ao próximo: "Vai, e faze tu o mesmo." Idem
    Sob esse aspecto, São João Evangelista é ainda mais incisivo, e, pelo pecado da ira, sentencia: "Quem odeia seu irmão, é assassino. E sabeis que a Vida Eterna não permanece em nenhum assassino." 1 Jo 3,15
    Mas se a prática dos Mandamentos já era uma pedra de tropeço para muitos mal intencionados, Nosso Salvador vai entrar num ainda mais complicado assunto: Sua Paixão, pela qual se dá a Redenção da humanidade. É o paradoxo do 'Deus morto', um grande empecilho para os racionalistas e tantos outros 'religiosos': "... o Filho do Homem deve ser levantado, para que todo aquele que n'Ele crer tenha a Vida Eterna." Jo 3,15
    No entanto, também é certo que ainda hoje Ele continue deslindando as mundanas glórias, como estava num Salmo (cf. Sl 117,22) e também foi profetizado pelo religioso Simeão, que disse a Maria Santíssima durante a Apresentação do Menino Jesus no Templo de Jerusalém: "Eis que este Menino está destinado a ser causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições..." Lc 2,34
    Jesus mesmo fez esta terrível distinção: "Aquele que crê no Filho, tem a Vida Eterna. Quem não crê no Filho, não verá a Vida, mas sobre ele pesa a ira de Deus." Jo 3,36
    Enfim, ainda que versando sobre a Divina Sabedoria, o Livro de Eclesiástico claramente falou pela Virgem Maria: "Sou a Mãe do puro amor, do temor a Deus, da ciência e da santa esperança. Em mim se acha toda Graça do Caminho e da Verdade, em mim, toda esperança da Vida e da virtude. A memória de meu nome durará por toda série dos séculos. Aquele que me ouve não será humilhado, e aqueles que agem por mim não pecarão. Aqueles que me tornam conhecida terão a Vida Eterna. Tudo isso é o Livro da Vida, a Aliança do Altíssimo, e o conhecimento da Verdade." Eclo 24,24-25.28.30-32


INVIOLÁVEL PROJETO DE DEUS

    Ora, Deus vai executar Seu projeto do Reino dos Céus a despeito de qualquer contrariedade. Mesmo apresentando-Se como mero Ser Humano, Jesus dizia: "Na Verdade, não falei por Mim mesmo, mas o Pai, que Me enviou, Ele mesmo prescreveu-Me o que devo dizer e o que devo ensinar. E sei que Seu Mandamento é Vida Eterna." Jo 12,49-50a
    Quando Jesus contou a parábola das Bodas do Filho do Rei, referindo-Se à rejeição que os judeus Lhe tinham, o próprio Deus Pai vai dizer: "'As Núpcias estão prontas, mas os convidados não foram dignos. Ide às encruzilhadas e convidai para as Núpcias todos quantos achardes.' Espalharam-se eles pelos caminhos e reuniram todos quantos acharam, maus e bons, de modo que a sala nupcial  ficou repleta de convidados." Mt 22,8b-10
    Para todos que O acolhem, porém, Deus promete a eterna felicidade. São Paulo cita o Livro do Profeta Isaías: "É como está escrito: 'Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou' (Is 64,4), tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que O amam." 1 Cor 2,9
    Por isso, ele não se abalava com as constantes tribulações da vida cristã: "Sempre trazemos em nosso corpo os traços da Morte de Jesus, para que a Vida de Jesus também se manifeste em nosso corpo. Embora estando vivos, a toda hora somos entregues à morte por causa de Jesus, para que a Vida de Jesus também apareça em nossa carne mortal." 2 Cor 4,10-11
    Ele explica: "Ora, se Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto pelo pecado, mas vosso espírito vive pela justificação. Se o Espírito d'Aquele que ressuscitou Jesus dos mortos, habita em vós, Ele, que ressuscitou Jesus Cristo dos mortos, também dará a Vida a vossos corpos mortais, por Seu Espírito que em vós habita." Rm 8,10-11
    E adverte, ao passo que, através das penitências, das quais o Sacramento da Confissão é o principal, garante a Adoção pelo Santíssimo Paráclito (cf. Rm 8,15): "De fato, se viverdes segundo a carne, haveis de morrer. Mas se pelo espírito mortificardes as obras da carne, vivereis, pois todos que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus." Rm 8,13-14
    Pois mesmo antes de Cristo, a Divina Sabedoria já informava a condição das almas daqueles que falecem no amor a Deus: "Mas as almas dos justos estão na mão de Deus, e nenhum tormento os tocará. Aparentemente estão mortos, aos olhos dos insensatos: seu desenlace é julgado como uma desgraça, e sua morte, como uma destruição, quando na verdade estão na Paz! Se aos olhos dos homens suportaram uma correção, a esperança deles era portadora de imortalidade. E por terem sofrido um pouco, receberão grandes bens, porque Deus, que os provou, os achou dignos de Si. Ele provou-os como ouro na fornalha, e acolheu-os como perfeito holocausto." Sb 3,1-6
    Assim este Livro informava da imortalidade, que pela Sabedoria se alcança: "Ela mesma (Divina Sabedoria) vai à procura daqueles que dela são dignos. Ela aparece-lhes nos caminhos, cheia de benevolência, e vai ao encontro deles em todos seus pensamentos, porque, verdadeiramente, desde o começo, seu desejo é instruir, e desejar instruir-se é amá-la. Mas amá-la é obedecer a suas leis, e obedecer a suas leis é a garantia da imortalidade. Ora, a imortalidade faz habitar junto a Deus, assim o desejo da Sabedoria conduz ao Reino!" Sb 6,16-20
    E Jesus veio oferecer a dádiva maior que é Seu Santo Espírito, Aquele que sacia toda sede de Justiça e de Vida: "... quem beber da Água que Eu der, jamais terá sede. E essa Água que Eu darei, virá a ser nele fonte de Água Viva, que jorrará até a Vida Eterna." Jo 4,14
    São João Evangelista tratou de explicar do que Ele falava, considerando o marco que Sua Paixão é para a humanidade: "Dizia isso referindo-Se ao Espírito que haviam de receber aqueles que n'Ele cressem, pois ainda não fora dado o Espírito, visto que Jesus ainda não tinha sido glorificado." Jo 7,39
    De fato, Jesus refere-Se ao Divino Paráclito como a maior Graça que Deus Pai quer oferecer-nos: "Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais Vosso Pai Celestial dará o Espírito Santo àqueles que LhO pedirem." Lc 11,13
    Ora, como São Paulo dizia, a Vida Eterna é-nos concedida pelo Santo Paráclito. O próprio Jesus havia dito após oferecer Seu Corpo e Seu Sangue como Alimento da Vida Eterna: "O Espírito é que vivifica, a carne de nada serve. As palavras que vos tenho dito são Espírito e Vida." Jo 6,63
    O Apóstolo dos Gentios, ademais, resume nestas palavras o Advento do Salvador e o Pentecostes: "A Lei do Espírito de Vida libertou-me, em Jesus Cristo, da lei do pecado e da morte. O que era impossível à Lei, visto que a carne a tornava impotente, Deus fez. Enviando, por causa do pecado, Seu próprio Filho numa Carne semelhante à do pecado, condenou o pecado na Carne, a fim de que a Justiça prescrita pela Lei fosse realizada em nós, que vivemos não segundo a carne mas segundo o Espírito." Rm 8,2-4
    Carta de São Paulo aos Gálatas também diz: "Quem semeia na carne, da carne colherá a corrupção. Quem semeia no espírito, do Espírito colherá a Vida Eterna." Gl 6,8
    Ou, pela Comunhão da Santíssima Trindade, essa dádiva vem do próprio Jesus, como Ele garantiu a Suas ovelhas, ou seja, àqueles que realmente Lhe obedecem: "Minhas ovelhas ouvem Minha voz, Eu conheço-as e elas seguem-Me. Eu dou-lhes a Vida Eterna. Elas jamais hão de perecer, e ninguém as roubará de Minha mão. Meu Pai, que mas deu, é maior que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão de Meu Pai." Jo 10,27-29
    E havia sentenciado: "Na Verdade, na Verdade, digo-vos: vem a hora, e já está aí, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus. E aqueles que a ouvirem, viverão. Pois como o Pai tem a Vida em Si mesmo, assim também deu ao Filho ter a Vida em Si mesmo..." Jo 5,25-26
    Falando de Si em terceira Pessoa após a Santa Ceia, Ele rezou ao Pai a Oração da Unidade e revelou que essa inestimável Graça é dada a todos aqueles que o Pai Lhe enviou: "... para que, pelo poder que Lhe conferiste sobre toda criatura, Ele dê a Vida Eterna a todos aqueles que Lhe entregaste." Jo 17,2
    Aliás, não há como ir a Jesus de outra maneira, assim como Sua Missão não tem outra finalidade: "Ninguém pode vir a Mim se o Pai, que Me enviou, não o atrair. E Eu hei de o ressuscitar no Último Dia." Jo 6,44
    Também foi nestes termos que Ele assegurou Sua própria Ressurreição: "O Pai ama-Me porque dou Minha Vida para a retomar. Ninguém a tira de Mim, mas Eu dou-a de Mim mesmo, porque tenho poder para a dar como tenho poder para a reassumir. Tal é a ordem que recebi de Meu Pai." Jo 10,17-18
    E na noite da Santa Ceia, anunciando o Domingo da Ressurreição, disse aos Apóstolos de Sua Divindade e da Comunhão com Deus: "Naquele dia, conhecereis que estou em Meu Pai, vós em Mim e Eu em vós." Jo 14,20
    Como foi revelado aos judeus, portanto, a Vida Eterna é-nos comunicada pelas próprias Escrituras, pois nelas encontramos Cristo, que disse aos religiosos de Jerusalém: "Vós perscrutais as Escrituras, nelas julgando encontrar a Vida Eterna. Pois bem! São Elas mesmas que dão testemunho de Mim." Jo 5,39
    No entanto, ela está ainda mais evidente no Evangelho, ou seja, nas Palavras do próprio Jesus, Verbo que Se fez Carne (cf. Jo 1,14), que seguiu contestando estes religiosos: "E vós não quereis vir a Mim para que tenhais a Vida..." Jo 5,40
    São Pedro, entretanto, não vacilava! Mesmo quando muitos discípulos de Jesus O abandonavam, por estranhar quando ofereceu Seu Corpo e Seu Sangue como Alimento que leva ao Céu, nosso Primeiro Papa bem sabia onde encontrar a Salvação: "Senhor, a quem iríamos? Tu tens as palavras da Vida Eterna." Jo 6,68b
    E assim, também está na atitude de quem sinceramente busca conhecer a Deus e a Jesus, como Ele mesmo rezou ao Pai na noite em que ia ser entregue: "Ora, a Vida Eterna é esta: que conheçam a Ti, Único e Verdadeiro Deus, e a Jesus Cristo, que enviaste." Jo 17,3
    O que só acontece ouvindo a Santa Igreja Católica, que Ele mesmo fundou: "Quem vos ouve, a Mim ouve, e quem vos rejeita, a Mim rejeita. E quem Me rejeita, rejeita Aquele que Me enviou." Lc 10,16
    A Vida Eterna está mais propriamente, segundo Sua própria Palavra, no Santíssimo Sacramento: "Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que dura até a Vida Eterna, que o Filho do Homem vos dará." Jo 6,27
    Sacramento esse que é Seu Corpo e Seu Sangue: "Quem come Minha Carne e bebe Meu Sangue, tem a Vida Eterna, e Eu ressuscitá-lo-ei no Último Dia." Jo 6,54
    Alimento, sim, e Celeste Alimento, que desde já nos concede a Comunhão, a presença de Deus em nós: "Pois Minha Carne é verdadeiramente uma comida e Meu Sangue, verdadeiramente uma bebida. Quem come Minha Carne e bebe Meu Sangue, permanece em Mim e Eu nele." Jo 6,55-56
    Chama-se o Pão da Vida Eterna: "Eu sou o Pão Vivo que desceu do Céu. Quem comer deste Pão, viverá eternamente." Jo 6,51a
    Pois Ele mesmo prometeu, como visto, ressuscitar Seus fiéis: "Com efeito, como o Pai ressuscita os mortos e lhes dá Vida, o Filho também dá Vida a quem Ele quer." Jo 5,21
    Ora, a Vida Eterna é o próprio Jesus: "Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em Mim, ainda que tenha morrido, viverá." Jo 11,25
    Ela está, portanto, na fé em Sua Palavra, o que significa fazer tudo, tudo que Ele mandou (cf. Mt 28,20): "Na Verdade, na Verdade, digo-vos: quem crê em Mim tem a Vida Eterna." Jo 6,47
    Pois mesmo falando de Sua iminente Paixão, Ele garantia: "Ainda um pouco de tempo, e o mundo já não Me verá. Vós, porém, tornareis a Me ver, porque Eu vivo e vós vivereis." Jo 14,19
    Isso dá-se pelo mesmo poder com que Deus vive, e será efetivado em nós por Graça do Santíssimo Sacramento: "Assim como o Pai, que Me enviou, vive, e Eu vivo pelo Pai, aquele que comer Minha carne viverá por Mim." Jo 6,57
    E, definitivamente, não deixou opção: "Disse-lhes então Jesus: 'Na Verdade, na Verdade, digo-vos: se não comerdes a Carne do Filho do Homem, e não beberdes Seu Sangue, não tereis a Vida em vós mesmos.'" Jo 6,53
    Pois ela é um presente do Pai para quem percebe a grandeza de Seu Filho: "Esta é a vontade de Meu Pai: que todo aquele que vê o Filho e n'Ele crê, tenha a Vida Eterna..." Jo 6,40
    De fato, a Vida Eterna foi testemunhada por Deus Pai na Pessoa de Jesus, como São João Evangelista afirma: "E o testemunho é este: Deus deu-nos a Vida Eterna, e esta Vida está em Seu Filho. Quem possui o Filho, possui a Vida. Quem não tem o Filho de Deus, não tem a Vida." 1 Jo 5,11-12
    Ela é o testemunho dos Apóstolos, e assim da Santa Madre Igreja: "... porque a Vida se manifestou, e nós temo-la visto. Damos testemunho e anunciamo-vos a Vida Eterna, que estava no Pai e que a nós se manifestou..." 1 Jo 1,2
    É a própria razão de ser do Evangelho de São João: "Jesus fez muitos outros sinais diante dos discípulos, que não estão escritos neste Livro. Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a Vida em Seu Nome." Jo 20,30-31
    Assim como de suas Cartas: "Isto escrevi-vos para que saibais que tendes a Vida Eterna, vós que credes no Nome do Filho de Deus." 1 Jo 5,13
    É a vida espiritual que se perpetua a partir desta vida, através da rejeição desse mundo como o Nosso Senhor ensinou: "Quem ama sua vida, perdê-la-á. Mas quem odeia sua vida neste mundo, conservá-la-á para a Vida Eterna." Jo 12,25
    É muito maior felicidade, ainda segundo Ele, que ter algum dom espiritual: "Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos estão sujeitos, mas alegrai-vos que vossos nomes estejam escritos nos Céus." Lc 10,20
    É a muito boa paga por se engajar em Seu projeto da Salvação: "Eis que vos digo: levantai vossos olhos e vede os campos, porque já estão brancos para a ceifa. O que ceifa já recebe seu salário, e junta frutos para a Vida Eterna." Jo 4,35b-36a
    É, pois, o resultado de nossos trabalhos na construção do Reino de Deus, como São Paulo disse aos católicos romanos: "... produzis frutos para vossa santificação, tendo como meta a Vida Eterna." Rm 6,22
    É, por excelência, a própria dádiva de Deus: "... o dom de Deus é a Vida Eterna..." Rm 6,23
    É uma conquista pessoal, como a Primeira Carta de São Paulo a São Timóteo o exortou, invocando seu Sacramento de Ordenação: "Combate o bom combate da fé. Conquista a Vida Eterna, para a qual foste chamado e fizeste aquela nobre profissão de fé perante muitas testemunhas." 1 Tm 6,12
    É nossa mais antiga esperança, como se lê na Carta de São Paulo a São Tito: "... na esperança da Vida Eterna, em longínquos tempos prometida por Deus veraz e fiel..." Tt 1,2
    Qual é, portanto, o caminho a seguir? Onde está a Verdade? Que vida devemos viver? Jesus aponta para Seu Coração e diz: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida." Jo 14,6b
    Assim resumia Sua Missão: "Eu vim para que as ovelhas tenham Vida, e Vida Plena." Jo 10,10b
    E, em síntese, disse a Santa Faustina: "Quero dizer-te que essa Vida Eterna deve iniciar-se já aqui na Terra pela Santa Comunhão. Cada Santa Comunhão torna-te mais capaz de conviver com Deus por toda eternidade." (Diário, 1810)

    "Esperamos entrar na Vida Eterna!"

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Santa Brígida


    Birgitta Birgersdotter nasceu em 1303 na cidade de Norrtälje, na província de Uppland, de muito católica família. Seu pai, Birger Persson era nobre, conselheiro real e juiz de Tiundalândia, uma das três folclândias desta que era e continua sendo a mais importante província de Suécia. Seu avô materno era primo do rei de Suécia, ou seja, nossa Santa tinha sangue real.
    Era sobrinha-neta da Beata Ingrid Elofsdotter, fundadora de um convento dominicano na província de Ostrogothia. As famílias de seus pais foram berços de vários Santos e exemplos de benfeitores, tendo construído igrejas, mosteiros e hospitais com os próprios recursos. Seu pai, como exemplo, generosamente colaborou com igrejas e abadias, em particular o mosteiro beneditino cisterciense de Skoo. Santa Brígida também tinha esse pendor, e viveu a infância com a atenção voltada para a prática da caridade aos mais necessitados.
    Aos 7 anos relatou sua primeira visão de Nossa Senhora, que colocou uma belíssima coroa em sua cabeça, e aos 10, após uma aparição de Jesus torturado e morto, ouviu um sermão sobre a Paixão de Cristo e tomou-a como objeto de constante contemplação. Ainda aos 10 anos perdeu sua piedosa mãe, Ingeborg Bengtsdotter, e foi entregue pelo pai a sua tia materna, de tão esmerada formação quanto sua mãe, Catarina Bengtsdotter, na localidade de Aspanäs, próximo ao lago Sommen, na província de Östergötland. Mais tarde, demonstrando gratidão, ela vai homenagear essa tia dando seu nome a uma filha, que também seria levada aos altares, Santa Catarina de Suécia.


    Aos 13 anos, a contragosto, foi dada em casamento ao nobre e também juiz Ulf Gudmarsson, mas teve com ele uma vida feliz e foi mãe de quatro filhos, um deles também viria a ser juiz, e quatro filhas. Seu país havia acolhido a fé cristã havia mais de 300 anos, e Santa Brígida estava determinada a difundir ainda mais entre seu povo a Sã Doutrina da Salvação, fielmente preservando a educação que recebera de seus pais.
    Entrou com o marido para a Ordem Terceira Franciscana, que é formada de leigos, e logo fundaram um hospital para os indigentes. Ulf, que já era cristão e religioso, crescia em espiritualidade por influência de Santa Brígida, que, por sua vez, sempre com mais frequência se recorria aos estudiosos religiosos de seu país para melhor formação católica e aconselhamentos espirituais. E teve como mestre São Matias de Suécia, homem de grande poder espiritual em palavras e obras, invencível inimigo do Demônio e de heresias, além de luminoso comentarista da Bíblia.
    Após a morte de um de seus filhos, em 1341, o casal viajou a pé com alguns deles em peregrinação a Santiago de Compostela, mas, no caminho de volta, Ulf foi acometido de grave enfermidade. Estavam então em norte de França, na cidade de Arras, e Santa Brígida teve uma visão de São Dionísio, 'Saint Denis' em francês, garantindo que seu marido não morreria na viagem.
    De fato, retornaram bem e fizeram votos de guardar continência conjugal. Na companhia de um dos filhos, Ulf foi morar no mosteiro beneditino cisterciense de Alvastra, onde com toda serenidade veio a falecer em 1344. Lamentavelmente, essa abadia foi usurpada pelo rei de Suécia durante a 'reforma' protestante, quando boa parte de suas pedras foram usadas na construção de castelos.


    Tão bela e de refinada educação, Santa Brígida recebeu várias propostas de casamento após enviuvar, porém preferiu repartir a herança entre seus filhos e doar sua parte aos pobres. Queria viver plenamente seu amor a Deus, e foi habitar na vizinhança do mosteiro de Alvastra. Aí recebeu a maior parte de suas revelações pessoais, que cuidadosamente tratou de registrar numa obra que se convencionou chamar 'As Profecias e Revelações de Santa Brígida de Suécia'. Aceitas pela Santa Igreja Católica como fruto de autênticas e divinas experiências, ainda hoje elas são objeto de estudo por teólogos de todo mundo.
    Sobre a virgindade de Maria Santíssima, por exemplo, Jesus revelou-lhe: "... de acordo com Minha promessa, assumi a carne sem pecado e sem concupiscência, entrando no ventre da Virgem, como o sol que brilha através de claríssima joia. Assim como o sol não danifica o vidro ao nele entrar, assim também a virgindade da Virgem não foi perdida quando Eu assumi a natureza humana." (Livro I, Capítulo I)
    Sobre o Mistério do Mal, Ele disse: "Entretanto, como o homem, a quem foi dado livre arbítrio, voluntariamente rejeita Meus Mandamentos e obedece ao Demônio, é justo que ele também experimente sua tirania e malícia. Esse Demônio foi por Mim criado bom, mas por sua má vontade decaiu e tornou-se, por assim dizer, Meu servo para aplicar retribuição aos trabalhadores do mal." (Livro I, Capítulo I)
    Disse-lhe sobre a obediência e a Comunhão: "Imita Minha humildade, porque Eu, que sou o Rei da Glória e dos anjos, fui vestido com horríveis e miseráveis trapos, fiquei nu em um pilar e ouvi todo tipo de insultos e zombarias com Meus próprios ouvidos. Sempre prefere Minha vontade à tua, porque Minha Mãe, tua Senhora, do começo ao fim, nunca quis nada a não ser o que Eu quis. Se tu fizeres isso, então teu coração estará com Meu Coração, e será incendiado por Meu amor da mesma forma que qualquer coisa seca é facilmente incendiada pelo fogo. Tua alma será tão inflamada e preenchida por Mim, e Eu estarei em ti, que todas mundanas coisas se tornarão amargas para ti e todo desejo carnal como veneno." (Livro I, Capítulo I)
    Também lhe falou de Seu Místico Casamento com ela: "... agora falo contigo em Meu Espírito. Eu escolhi-te e tomei por esposa para te mostrar os caminhos do mundo e Meus divinos segredos, porque isso Me agrada. Tu és Minha por direito, porque quando teu marido morreu, colocaste toda tua vontade em Minhas mãos, e depois de sua morte, pensaste e rezaste sobre como poderias tornar-te pobre e abandonar tudo por Mim. Então, és Minha por direito, por causa deste teu imenso amor, e por isso cuidarei de ti." (Livro I, Capítulo II)
    Ela recebeu, igualmente, instruções da Santíssima Virgem: "Eu sou Maria, que deu à luz o Filho de Deus, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Sou a Rainha dos anjos. Meu Filho ama-te com todo coração. Ama-O! Deves adornar-te com muito honestas roupas, e eu mostrá-te-ei como e que tipo de roupas devem ser." (Livro I, Capítulo VII)
    E por suas profundas contemplações, essas instruções foram bem específicas: "Eu sou a Rainha dos Céus. Estás preocupada sobre como tens que me louvar. Tenha a certeza de que todo louvor a Meu Filho é louvor a mim. E aqueles que O desonram, a mim desonram, pois meu amor para com Ele e o d'Ele para comigo é tão ardente como se Nós dois fossemos um só coração. E Ele tanto me honrou, que era um vaso de argila, que me elevou acima de todos anjos." (Livro I, Capítulo IX)
    Nosso Senhor ensinou-lhe sobre as orações: "Quando Me ofereces uma oração, sempre a termina com o desejo de que se faça Minha vontade e não a tua. Quando rezas por alguém que já está condenado, não te escuto. Algumas vezes não te ouço se desejas algo que possa ir contra tua Salvação. É, por isso, necessário que submetas tua vontade à Minha, porque como Eu sei todas coisas, não te permito nada mais daquilo que te seja benéfico. Há muitos que não rezam com a correta intenção, e é por isso que não merecem ser atendidos." (Livro I, Capítulo XIV)
    Assegurou-lhe: "Tu serás como alguém que se desprende do mundo e, no tempo certo, colherás. Tens que te desapegar das riquezas e colher virtudes, deixar aquilo que passará e acumular eternos bens, abandonar as coisas visíveis e apossar-se do invisível. Ao contrário do prazer do corpo, dá-te-ei a exultação de tua alma. Ao contrário das alegrias do mundo, dá-te-ei as do Céu. Em vez da mundana honra, a honra dos anjos. Em vez da presença da família, a presença de Deus. Em vez de possuir bens, dá-te-ei a Mim mesmo, Doador e Criador de todas coisas." (Livro I, Capítulo XXXII)
    E prometeu: "Eu trabalharei junto a esses que levam Meu fardo, ou seja, aqueles que progridem a cada dia por amor a Mim. Serei sua força e inflamá-los-ei tanto que estarão desejosos de fazer mais. Aqueles que perseveram no ponto que parece mortificá-los, mas que na Verdade lhes é benéfico, são aqueles que dia e noite labutam sem descanso, inclusive se fazendo mais ardentes, pensando que o que fazem é pouco. Estes são Meus mais queridos amigos e são muito poucos..." (Livro I, Capítulo XV)
    Disse da , esperança e amor de certos cristãos: "Mas sua fé é débil e vacilante, apontando para uma fulminante queda, porque estão dispostos a crer quando estão ausentes dos impulsos da tentação, mas perdem confiança quando se veem de frente com a adversidade. Sua esperança é vã, porque esperam que seu pecado seja perdoado sem um Juízo e sem uma correta sentença. Confiam que gratuitamente podem conseguir o Reino dos Céus. Desejam receber Minha Misericórdia sem a atuação da Justiça. Seu amor para Comigo é frio, pois nunca se põem a ardentemente Me buscar, a menos que se sintam forçados pela tribulação. Como vou compadecer-Me das pessoas que nem sustentam uma reta fé, nem uma firme esperança, nem um fervente amor por Mim? Por isso, quando Me implorarem e disserem: 'Senhor, tem piedade de mim!', não merecerão ser ouvidas nem entrar em Minha Glória. Se não querem acompanhar Seu Senhor no sofrimento, não O acompanharão na Glória." (Livro I, Capítulo XXXIX)
    Jesus ainda lhe revelou como se dá a Transubstanciação do pão em Seu Corpo: "Do mesmo modo que qualquer madeira facilmente inflamável é rapidamente consumida quando se coloca no fogo, e não resta nada da forma da madeira, pois toda se converte em fogo, assim também acontece quando estas palavras são ditas: 'Isto é Meu Corpo…', o que antes era pão imediatamente se torna Meu Corpo. Faz-se uma chama, não como o fogo com a madeira, mas por Minha Divindade." (Livro I, Capítulo XLVII)
    Disse sobre maus Sacerdotes: "Quando Moisés se demorou na montanha, o povo dizia: 'Não sabemos o que lhe aconteceu.' Lamentaram-se de que lhes houvesse guiado para sair de seu cativeiro e disseram: 'Vamos fazer outro deus que nos dirija!' É assim que estes malditos Sacerdotes estão tratando-Me agora. Eles dizem: 'Porque vivemos uma vida mais austera que os demais? Qual é nossa recompensa? Estaríamos melhor se vivêssemos sem preocupações, na abundância. Vamos pois amar o mundo do qual temos certeza! Apesar de tudo, não estamos seguros de Sua promessa.' Assim juntam lenha, ou seja, aplicam todos seus sentidos para amar o mundo. Eles acendem uma fogueira quando todo seu desejo é para o mundo, e ardem à medida que cresce sua cobiça em sua mente e acaba resultando em obras. Depois, jogam-lhe ouro, que significa que todo amor e respeito que deveriam demonstrar por Mim, dedicam-no a obter o respeito do mundo. Então, emerge o bezerro, ou seja, o amor total ao mundo, com suas quatro patas de preguiça, impaciência, supérflua alegria e avareza. Esses Sacerdotes, que deveriam ser Meus, sentem preguiça na hora de Me honrar, impaciência diante do sofrimento, excedem-se em vãs alegrias e nunca se contentam com o que conseguem." (Livro I, Capítulo XLVIII)
    Ela também ouviu estas palavras de Nosso Salvador a Sua Mãe, quando diz de Sua Misericórdia: "Na Verdade, Eu digo que tua pureza, mais agradável para Mim que a de todos anjos, atraiu tanto Minha Divindade para ti que foste inflamada pelo calor do Espírito. N'Ele, tu geraste o Verdadeiro Deus e Homem, resguardado em teu ventre, pelo Qual a humanidade foi iluminada e os anjos foram cheios de alegria. Assim, bendita sejas por Teu Bendito Filho! E por isso nenhum pedido teu chegará a Mim sem ser ouvido. Qualquer um que peça Misericórdia através de ti, e tenha a intenção de emendar seus caminhos, conseguirá Graça. Como o calor vem do sol, igualmente toda Misericórdia será dada através de ti. És como um abundante manancial do qual mana toda Misericórdia para os infelizes." (Livro I, Capítulo L)
    E Ele disse-lhe sobre o mundo: "Pois, se quisesse, Eu poderia muito bem pronunciar Minhas palavras de modo que todo mundo as ouvisse. Sou capaz de abrir o inferno para que todos vejam seus castigos. Entretanto, isso não seria justo, pois as pessoas então Me serviriam por medo, quando devem servir-Me por amor. Pois só a pessoa que ama pode entrar no Reino dos Céus. Além disso, Eu estaria prejudicando o Diabo, se Comigo levasse os escravos que ele adquiriu vazios de boas obras. Também prejudicaria os anjos do Céu, se o espírito de uma imunda pessoa se pusesse no mesmo nível de outra que está pura e fervorosa no amor. Consequentemente, ninguém entrará no Céu, exceto aqueles que tenham sido provados como ouro no fogo do Purgatório ou aqueles que tenham provado a si mesmo ao longo do tempo, fazendo boas obras na Terra, de tal modo que neles não fique mancha alguma pendente de ser purificada." (Livro I, Capítulo LIII)
    Um anjo, ademais, disse à Santa Brígida: "Não há ninguém no mundo tão arraigado ao Demônio, que o Bom Espírito não o visite alguma vez e mova seu coração. Da mesma forma, não há ninguém tão bom que o Demônio não tente tocá-lo com a tentação. Muitas boas e justas pessoas são tentadas pelo Demônio com a permissão de Deus. Isto não é por maldade alguma de Sua parte, mas para Sua maior Glória." (Livro I, Capítulo LIV)
    E Jesus disse-lhe das palavras com que fala a Seus amigos, ou seja, aos Santos, em atenção a suas orações: "Estas não são tão obscuras como as encontradas em Apocalipse, que revelei a João sob um véu de obscuridade para que pudessem, a seu tempo, ser explicadas por Meu Espírito quando Eu quisesse." (Livro I, Capítulo LVI)
    De uma revelação que lhe fez, Ele deu este triste prognóstico e convidou os verdadeiros cristãos: "As ovelhas que foram completamente devoradas, representam aqueles cujas almas estão no inferno e cujos corpos estão enterrados em túmulos, à espera da Ressurreição para a condenação eterna. As ovelhas cujos corpos estão intactos, mas cujos espíritos de vida já não estão nelas, representam as pessoas que nem Me amam, nem Me temem, não sentem devoção alguma nem se importam Comigo. (...) Sua pele, isto é, seu corpo, está desprovido de toda bondade e caridade e não tem condições de servir em Meu Reino. Ao contrário, seja enviado ao fogo eterno do inferno depois do Juízo. (...) Vejo que ainda há ovelhas vivas em três lugares. Algumas delas assemelham-se à ovelha morta, e não ousam respirar por medo. Estes são os pagãos que, de boa vontade, adotariam a verdadeira fé se ao menos a conhecessem. Entretanto, não ousam respirar, isto é, não ousam perder a fé que já têm e não se atrevem a aceitar a verdadeira fé. O segundo grupo de ovelhas é daquelas que permanecem escondidas e não ousam sair. Estas representam os judeus que, por assim dizer, estão como detrás de um véu. Sairiam com prazer se tivessem certeza de Meu Nascimento. Escondem-se por trás do véu na medida em que sua esperança de Salvação está nas imagens e sinais que costumavam simbolizar-Me na antiga Lei, mas que foram verdadeiramente realizados em Mim, quando Me encarnei. Por sua vã esperança, têm medo de passar à verdadeira fé. Em terceiro lugar, as ovelhas que ficaram afundadas na lama, são os cristãos em estado de pecado mortal. Por temerem o castigo, estão desejosos de se levantar de novo, mas não o conseguem devido à gravidade de seus pecados e porque lhes falta caridade. Por isso, esposa Minha, ou seja, Meus bons cristãos, ajudai-Me ! (...) dirijo-vos Comigo às ovelhas que ainda respiram um pouco, e vamos levantá-las e reavivá-las! Sustentai seus dorsos enquanto Eu lhes sustento a cabeça! Alegro-Me em as carregar em Meus braços. Uma vez as carreguei todas sobre Minhas costas, quando estas estavam feridas e pregadas na Cruz." (Livro I, Capítulo LIX)
    Revelou, pois, sobre a obra da Igreja Apostólica e a Salvação: "Posso fazer todas coisas em um único instante e com uma única palavra, mas quero que vossa recompensa venha de vosso próprio esforço, e que Minha Glória venha de vossa coragem. Não vos surpreendais com o que digo. Se o homem mais sábio do mundo pudesse contar quantas almas vão para o inferno todos dias, ele poderia numerar os grãos de areia no mar ou os seixos na praia." (Livro II, Capítulo VI)
    Ele manda este recado aos cristãos em fraqueza: "Por vós fui à Cruz com Meus pés sangrando, Minhas mãos e pés foram pregados por vós, não poupei nenhum um só membro por vós. E ainda ignorais tudo isto, afastando-vos de Mim. Voltai e dá-vos-ei três formas de ajuda. Primeiro, fortaleza, para que sejais capazes de resistir a vossos físicos e espirituais inimigos. Segundo, uma brava generosidade, tal que não possais temer nada a não ser Eu, e possais considerar uma alegria vosso empenho por Mim. Terceiro, Eu dá-vos-ei Sabedoria para vos fazer entender a verdadeira fé e a vontade de Deus." (Livro II, Capítulo XII)
    E, nos Céus, promete cinco boas coisas como recompensa: "Primeiro, o eterno louvor sempre soará em vossos ouvidos. Segundo, a face e a Glória de Deus sempre estarão diante de vossos olhos. Terceiro, o louvor de Deus nunca deixará vossos lábios. Quarto, vós tereis tudo que vossas almas desejarem, e não desejareis nada além do que já tendes. Quinto, nunca vos separareis de Vosso Deus, vossa alegria será infinita e vivereis vossas vidas com alegria sem fim." (Idem)
    Ele falou a nossa Santa sobre a importância do consentimento dos pecadores na obra da Salvação: "Entretanto, embora Minha Misericórdia seja tal que Eu previno os pecadores, Minha Justiça é tal que, mesmo que todos anjos fossem puxá-los de volta, eles não poderiam converter-se enquanto eles mesmos não dirigissem sua vontade para o bem. Se eles voltassem sua vontade para Mim e Me dessem o consentimento de seus corações, nem todos demônios juntos poderiam impedi-los." (Livro II, Capítulo XIX)
    Nossa Senhora, pois, recomendou-lhe: "Então, sempre tem em mente a Paixão de Meu Filho e de Seus Santos. Eles não suportam tais sofrimentos sem nenhuma razão, mas para dar aos outros um exemplo de como viver e para mostrar que um rigoroso pagamento será exigido pelos pecados, por Meu Filho, que não quer que nem o menor pecado fique sem correção." (Livro II, Capítulo XXVI)
    E Jesus explicou-lhe: "Se os maus pensamentos não aparecessem, de vez em quando, os seres humanos seriam anjos e não humanos, e eles poderiam pensar que tudo conseguiriam por si próprios. Portanto, para que um homem possa compreender suas fraquezas, que vêm dele mesmo, e a força que vem de Mim, é algumas vezes necessário que Minha imensa Misericórdia permita que seja tentado por maus pensamentos. Contanto que a alma com eles não consinta, serão uma purificação para a alma e uma proteção para suas virtudes." (Livro II - Capítulo XXVII)
    Disse-lhe do inalienável Caminho para Deus que é o Sacramento da Confissão, por um exame de consciência sempre mais profundo: "Esta alma aproxima-se mais e mais de Deus a cada dia através da verdadeira Confissão." (Idem)
    E Nossa Mãe Celeste ainda lhe revelou: "Eu sou a mulher que esteve sempre no amor de Deus. Inteiramente fiquei desde minha infância na companhia do Espírito Santo. (...) Como meu corpo crescia e me tornei mais velha, o Espírito Santo preencheu-me com tal abundância que não deixou nenhum espaço em mim para qualquer pecado entrar. Assim, sou aquela que nunca cometeu o pecado venial ou mortal." (Livro III, Capítulo VIII)
    Disse de quem realmente recebe o Divino Paráclito: "Tal como luz e calor acompanham a aproximação do sol, mas não segue a uma escura sombra, da mesma forma duas coisas acompanham a chegada do Espírito Santo no coração: ardente amor por Deus e a completa iluminação da Santa Fé." (Livro III, Capítulo X)
    Disse de sua caridosíssima obra: "Vejo-me como um arco-íris a se arquear para baixo em direção aos bons e maus habitantes da Terra, através de minhas orações. Curvo-me em direção às boas pessoas para que possam ser firmes nos Mandamentos da Santa Igreja, e curvo-me em direção às más pessoas para que elas não possam aumentar suas maldades e ficarem ainda piores." (Idem)
    Jesus revelou-lhe, por fim, as chamadas '15 orações de Santa Brígida', para que ela pudesse honrar, ao final de um ano, as 5480 chagas a Ele infligidas durante a flagelação e a Crucificação.
    Nossa Santa muito trabalhou em favor dos mais necessitados, e em 1349 foi a Roma obter o reconhecimento papal para a Ordem do Santo Salvador, após sua morte chamada de Ordem do Santíssimo Salvador de Santa Brígida, que havia fundado em 1344 para acolher Padres, Freiras e leigos dedicados à devoção à Paixão de Cristo e seguir a Regra de Santo Agostinho. Contudo, desde 1309 o Papa Clemente V havia iniciado a administração da Igreja de Deus Vivo a partir de Avignon, em França, por questões de segurança, dadas as guerras entre cidades italianas, mas também por imposição do então poderoso rei de França e de Navarra, Felipe IV e I, respectivamente, aos sumos pontífices, que foram chamados de papas franceses.
    Foi este rei, chamado o Belo, que tentou prender e depor o Papa Bonifácio VIII, figurou como suspeito do envenenamento e morte do Papa Beato Bento XI, exigiu a extinção da Ordem dos Cavaleiros Templários, tomou bens dos judeus e expulsou-os de França, proibiu Bispos franceses de enviar tributos a Roma, criou extorsivos impostos para o Clero, confiscou bens da Santa Madre Igreja e gerou os atritos que levariam estes reinos a Guerra de Cem Anos contra Inglaterra.
    Na Cidade Eterna, pois, em companhia de sua filha Santa Catarina de Suécia, Santa Brígida presenciou o decaimento moral da sociedade, escreveu várias vezes ao Papa Clemente VI pedindo seu regresso, e anos depois ao Papa Gregório XI, mas nada conseguiu. Aí visitava as tumbas dos Santos e pedia esmola para os pobres. Além de muitas cidades com relíquias de Santos, como Milão, Pavia, Bari, Ortona, Benevento, Arielli, Pozzuoli, Nápoles, Montefalco, Salerno, Amalfi, o santuário da Madonna Incoronata di Foggia e o santuário de São Miguel Arcanjo no Gárgano, especialmente foi em peregrinação a Assis para homenagear São Francisco, a quem sempre dedicou grande devoção.
    Em 1355 sua fama de santidade já se estendia por todas terras de Suécia, e o rei Magno IV confiou sua jovem esposa, Branca de Namur, a Santa Brígida, para que fosse sua mentora espiritual. Em 1367, sob seus inspirados incentivos, o Papa Santo Urbano V voltou a Roma, e ela pessoalmente lhe solicitou a aprovação de sua Ordem, o que conseguiu no ano de 1370 após sofrer várias alterações em sua proposta inicial. Mas a pressão dos Cardeais franceses e reais motivos de segurança levaram o Papa a retornar a Avignon ainda em setembro deste ano. Santa Brígida havia profetizado sua morte caso ele voltasse, o que, de fato, aconteceu em menos de quatro meses.
    Em 1371, aos 68 anos, ela partiu em viagem a Terra Santa, seu grande sonho, todavia ainda em Nápoles faleceu seu filho, que ia em sua companhia. Aí mesmo, porém, ela foi agraciada com mais uma visão, assegurando que ele já havia alcançado a Salvação.
    São de suas reflexões:

    "O mundo teria paz se os homens da política simplesmente seguissem os Evangelhos."
    "Que todos que têm a Graça da inteligência tenham medo de que, por causa disso, sejam julgados com mais severidade se forem negligentes."
    "Escrever bem e falar bem é mera vaidade, se não se vive bem."
    "A fonte da Justiça não é a vingança, mas a caridade."
    "Maria é o lírio no jardim de Deus."
    "Não há pecador no mundo, quão grande seja sua inimizade a Deus, que não possa recuperar a Divina Graça recorrendo a Maria e pedindo-lhe ajuda."
    "Ó Maria, tu dás assistência a todos que se esforçam para se elevarem a Deus!"

    De volta a Roma em 1373, contraiu uma enfermidade generalizada e veio a falecer, após confiar a Ordem do Santo Salvador a sua filha Santa Catarina de Suécia. No local onde morou por 19 anos com as irmãs de consagração, foi construída uma bela igreja para a devoção a sua santidade.


    A Ordem Militar de Cavalheiros e Damas de Santa Brígida, presentes em várias regiões de Itália, é uma especial tradição da igreja que a homenageia em Nápoles.
 

    A ordem religiosa por ela estabelecida teve uma rápida expansão por Europa, fundando 78 mosteiros em poucos anos. Já em 1391, ou seja, em curto prazo, nossa Santa foi canonizada. O Papa São João Paulo II concedeu-lhe o título de co-Padroeira de Europa, junto à Santa Catarina de Sena e Santa Benedita da Cruz, também conhecida como Santa Edith Stein. E escreveu: "... reconhecendo a santidade de Brígida, a Igreja, sem exprimir seu parecer sobre as revelações individuais, aceitou a autenticidade global de sua experiência interior."
    E dado o costume em todo país, particularmente no sul, a exclamação de espanto e pedido de proteção 'Santa Brígida!', equivalente à 'Ave Maria' dita em Brasil, tornou-se patrimônio folclórico italiano. Também é venerada como Santa pela igreja luterana.
    Foi sepultada na Igreja, hoje Basílica, de São Lourenço em Dâmaso, no bairro de Parione, em Roma, mas sua filha Santa Catarina, em companhia de um irmão, levaram seus restos mortais para Suécia, como era seu desejo, e sepultaram-nos na igreja do mosteiro de Vadstena, fundado em 1384 para ser a sede da Ordem do Santo Salvador. Hoje, elas encontram-se numa urna permanentemente exposta, e seu esquife, apesar do reduzidíssimo número de católicos no país ao longo dos últimos séculos, foi preservado.


    Santa Brígida, rogai por nós!